Nestas considerações finais, pretende-se retomar e discutir o problema da pesquisa, seus objetivos pretendidos e suas hipóteses, apontando o quanto foram atendidas ou não.
As hipóteses levantadas neste trabalho são:
1. Os pontos levantados pelos professores sobre o que as famílias de camadas populares devem fazer para melhorar o desempenho escolar de seus filhos não estão alinhados com os pontos levantados na pesquisa bibliográfica.
2. O TPS não leva em consideração a diferença entre nível de emissão e o nível de recepção e nem repassa os códigos de decifração para os alunos.
3. As famílias não possuem condições materiais e sociais para satisfazerem os pontos levantados pelos professores.
4. Os professores não levam em consideração a história e a cultura do aluno emigrante-imigrante/migrante no seu TP.
As hipóteses um, dois e três se confirmaram parcialmente. A hipótese quatro se confirmou totalmente.
Como dissemos, a hipótese um se confirmou parcialmente. Os professores levantam alguns dos itens citados pelas pesquisas analisadas como ações importantes que as famílias devem realizar para melhorar o desempenho dos filhos. Porém, os professores e a escola chegam a conclusões que estão em desacordo com as pesquisas. Os professores concluem que devem criar novas possibilidades e re-significações do
Capital Cultural das famílias através de um TP com os pais e que consequentemente favoreceria a escolarização dos filhos destas famílias. As pesquisas não apontam para a realização de um TP com os pais para que possam ajudar na escolarização dos filhos. As pesquisas apenas apontam as características que estão associadas a um maior desempenho dos alunos.
Além disso, o TP planejado pela escola para "capacitar" os pais se expressa através de atividades irrefletidas, desfocadas e pontuais. Faltando maior planejamento, constância e clareza nos objetivos. Segundo Bourdieu e Passeron (2013), o TP é um trabalho de inculcação que deve durar bastante tempo para produzir uma formação
durável. Não é possível desenvolver um TP com encontros pontuais e esporádicos. Em vez disso, seria mais interessante se a escola buscasse desenvolver atividades que procurasse diretamente suprir a falta das famílias na criação de disposições que pudessem auxiliar os alunos na vida escolar (raciocínio lógico, leitura e interpretação de textos, entendimento da função social da leitura, sociabilidade, solução de conflitos, auto disciplina, perseverança, respeito às hierarquias, empenho, apreço ao conhecimento teórico etc.). Este procedimento ocorre na execução do Livrão da Família quando se dá acesso aos bens culturais (livros) e mostra o valor social deste aprendizado.
Vemos também, segundo o relato dos professores, uma diferença da participação dos pais das famílias bolivianas e das famílias nordestinas. Segundo os professores, as famílias bolivianas são muito mais presentes e interessadas no processo escolar dos filhos. Há também uma diferença na postura dos pais bolivianos quanto a valorização do papel do professor. Esta postura também se manifesta no comportamento dos filhos que são mais respeitosos com os professores em relação aos alunos de famílias nordestinas. Talvez esse seja o ponto que faça a grande diferença entre o aprendizado dos alunos dos dois grupos. Sendo que os alunos bolivianos são sempre descritos como bons alunos, apesar da dificuldade inicial no aprendizado da Língua Portuguesa. Por outro lado, é importante citarmos o fato dos professores, em alguns casos, considerarem um bom aluno aquele que não faz bagunça ou que não cria problema. O bom aluno, em alguns casos, não é aquele que possui um melhor aprendizado.
Nesta tentativa de se relacionar com a família e "educá-las" para que possam educar os seus filhos, a escola cria uma relação assimétrica de poder. Onde ela é possuidora das respostas que as famílias "precisam". Ao mesmo tempo, nos momentos de crise, a escola espera que a família resolva os problemas e as chamam para intervir na situação. Cria-se uma relação assimétrica e ambígua.
Uma relação igualitária entre pais e escola é importante para que juntos busquem novos caminhos que possam superar as carências que surgiram na sociedade e na escolarização atual. É necessário que ambos os lados (escola e família) estejam dispostos a uma auto-crítica e estejam dispostos a dialogar de igual para igual, buscando novos caminhos em vez de tentarem resgatar configurações sociais já ultrapassadas. Esses novos caminhos, certamente, também envolvem outras esferas da escola pública
(Diretoria de Ensino, Secretaria da Educação etc.) e de outras áreas (Assistência Social, Secretaria da Saúde etc.).
Vemos, assim, que a hipótese dois se confirmou quase totalmente. Todas as atividades, com exceção do Livrão da Família, expressam a ideia de que a família e o próprio aluno são responsáveis pelo fraco desempenho escolar. Para a escola, caberia à família munir o aluno do Capital Cultural necessário para a vida escolar. Na incapacidade desta realização, a escola também não enxerga outras alternativas para vencer a diferença entre o TPP e o TPS. Criando-se um mecanismo de exclusão dos alunos que não são "dignos" para o TP que a escola realiza. Com tudo isso, verifica-se que o trabalho desenvolvido pela escola pesquisada está destinada a apenas reproduzir as exclusões existentes e ainda legitimá-las pela autoridade institucional escolar.
A hipótese três também se confirmou parcialmente. Os professores consideram que as famílias de origem boliviana possuem condições para cumprir as tarefas necessárias para um bom desempenho escolar, porém os pais de origem nordestina teriam muitas dificuldades de realizarem os itens esperados pelos professores.
Apesar dos pais de famílias bolivianas terem uma carga horária de trabalho muito maior do que os pais de famílias nordestinas, eles possuem uma maior flexibilidade em seus horários; o que facilita a sua presença nas reuniões de pais, na entrada e saída de seus filhos da escola e no acompanhamento a algum tratamento médico para qual a escola encaminhe. Já os pais de famílias nordestinas possuem uma carga horária menor de trabalho, mas estão inseridos em uma relação de trabalho mais rígida quanto a faltas e mudanças no horário de trabalho. Além de tudo isso, há também uma maior similaridade entre o Capital Cultural das famílias bolivianas com o Capital
Cultural adotado pela escola. Esta maior aproximação se manifesta no maior respeito ao papel do professor e na maior valorização da escola.
Considerando a importância que a escola dá para a relação com os pais, seria interessante repensar a forma de comunicação com eles. A escola poderia valorizar mais as conversas pessoais periódicas no lugar dos comunicados escritos. Como muitos pais não utilizam com frequência a escrita como forma de comunicação, este meio impede- os de se expressarem com total liberdade. Para tanto, seria importante analisar os melhores horários para que os pais pudessem participar das reuniões. O interessante seria que as reuniões não fossem em horários de trabalho, o que dificulta a participação.
Estas conversas também precisam ser em bases teóricas que permitam uma relação mais igualitária.
Por fim, a hipótese quatro se confirmou totalmente. Os professores não levam em consideração a origem ou a história do aluno em seu Trabalho Pedagógico. Eles ensinam como se a sua classe fosse formada por um único perfil de aluno e consideram esta atitude como algo positivo, como um sinal de que não há discriminação em suas atitudes. Porém, a igualdade não significa tratamento igualitária. Em alguns casos, é necessário um tratamento diferenciado para que haja igualdade. É necessário tratar diferentemente os diferentes para que haja uma real igualdade.
Com esta postura de tratar todos os alunos como sendo do mesmo perfil, ocorrem duas grandes perdas. Em primeiro lugar, perde-se a capacidade de um TPS eficiente, pois torna-se impossível o reconhecimento da distância entre o TPP e o TPS. Tornando-se impossível planejar uma forma de vencer esta distância. Em segundo lugar, perde-se a oportunidade pedagógica de se trabalhar questões sobre diferenças culturais, relações de poder que influenciam os nossos valores, sociabilidade, valores estéticos etc.
Espero, com esta pesquisa, ter colaborado com os estudos ligados a escolarização de emigrantes-imigrantes e migrantes de camadas populares, ajudando a esclarecer questões ligadas ao relacionamento estabelecido entre as famílias e a escola representada na figura do professor.
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