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Para além da mobilização, cabe um último adendo, que poderia explicar em parte os condicionantes econômicos desta convergência política entre a socialdemocracia alemã e o interesse da indústria de guerra, para além de simplesmente tratar-se de uma decisão política a cargo de um grupo gestor, ocupando a cúpula do Partido Socialdemocrata.

Segundo Charles Tilly, os conscritos obrigavam a um crescimento dos encargos de guerra, comprometendo progressivamente a economia e fazendo surgir os chamados

“encargos não-planejados”325 ligados à expansão da estrutura burocrática do estado implicada

pelos gastos militares, como “escritórios de impostos, serviços alfandegários, tesouros, administrações regionais e forças armadas para desenvolver o seu trabalho entre a população civil” em uma situação em que as “próprias organizações desenvolveram interesses, direitos, emolumentos, necessidades e demandas que exigiam atenção por parte deles próprios,” criando-se a partir de então novos interesses que deram origem à necessidade de mais organização por parte do estado, surgindo assim, novas instituições.

Lugares adequados para veteranos militares, ordens de nobreza para funcionários do estado, escolas de treinamento, tribunais e advogados que julgam privilégios oficiais, fornecedores de alimento, de moradia e de outras necessidades para os agentes do estado,” além do provimento dos materiais decisivos para a prática da guerra ou para a arrecadação de receita, coordenando a produção. Somando-se às medidas necessárias de arrecadação de materiais frente à população e camponeses como requisições forçadas e formas indiretas de racionamento, misturando elementos diversos no trigo para o pão, a proibição de massas doces, etc.326

Deste modo, o crescimento das estruturas do Estado ligadas à demanda militar, levavam a um aumento de disponibilidade de recursos para a população, abrindo assim o espaço para um conflito contra outros grupos em torno de interesses reivindicados em relação ao Estado, mas que, apesar disso eram obrigadas a manterem-se subordinadas aos interesses da indústria de guerra. A indústria de guerra resultou em demandas ligadas à população em geral, explicando em parte a necessidade crescente de repressão, como a proibição da Socialdemocracia, pois buscava contingenciar os recursos destinados aos pobres que demandavam a arbitragem do Estado inclusive para os conflitos privados entre cidadãos como forma de contrapartida às crescentes obrigações para com o Estado. Segundo Tilly, tais demandas eram, em certa medida, atendidas, pois havia o risco de rebeliões. Rebeliões que passavam a ocorrer, não necessariamente segundo o exemplo foucaultiano do acontecimento episódico como “acontecimento-flagelo” que seria a “escassez-carestia, com sua eventual consequência, a revolta,” 327 mas como algo sistemático, estrutural, ligado à própria estrutura

do estado.

Neste sentido é possível dizer o porquê, apesar da razoabilidade do raciocínio de Engels em relação à socialdemocracia, que o programa revolucionário e, neste sentido, o projeto revolucionário representado por Engels naquele momento progressivamente perde espaço em relação à ala direita do partido socialdemocrata em suas posições sobre a guerra.

325 TILLY, Charles. Coerção, Capital e Estados Europeus. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1996, p. 183.

326 Idem, p. 184)

327 FOUCAULT, Michel. Segurança, Território, População: curso dado no Collège de France (1975- 1976). São Paulo: Martins Fontes, 2005, p.54.

Após a morte de Engels, como legado das análises militares neste novo contexto, as posições sobre a guerra serão debatidas segundo um novo conflito de interesses, com duas teses a respeito da guerra sendo debatidas em nome de Engels conduzindo a um impasse. Uma dizia respeito à crença de que o engajamento progressivo do proletariado no exército, amparado na autonomia relativa da Landwehr,328 conduziriam o proletariado armado à possibilidade futura de tomar o poder, porém este mesmo raciocínio assumiria uma feição perigosa e distorcida ao ser estendido ao serviço militar alemão como um todo.

A outra consistia em que, apesar de não se acreditar que as formas de levante popular, ou guerrilhas fossem inúteis ou meros resquícios pré-capitalistas, as novas formas de organização militares aplicados à infantaria seriam imbatíveis. Em se tratando disso, não mais haveria possibilidade de sucesso através de um levante armado auto-organizado dos trabalhadores, caso feito de modo improvisado.

A partir de tais constatações, frente à guerra, sobravam duas possibilidades para a ação proletária na Alemanha: entrar nos exércitos e se armar, além de eventualmente combater nas guerras nacionais até que o proletariado armado enfim ganhasse um peso numérico substancial e se tornasse uma ameaça potencial à burguesia329 e, na retaguarda, tentar uma estratégia de greves gerais antiguerra tentando refrear a indústria bélica. No entanto, tais estratégias não resultaram em orientações a políticas revolucionárias adotadas pela socialdemocracia.

No seio da socialdemocracia alemã estes problemas seriam ainda agudos, afinal, o que pareceria um procedimento pacífico como a ideia de disputar progressiva e democraticamente o Estado abdicando de uma revolução (como a posição de Bernstein que identificava a ruptura revolucionária como violenta), significaria estar ao lado dos interesses nacionais, hegemonicamente burgueses? Isto é, estar ao lado do desenvolvimento das forças produtivas amparadas no controle dos industriais sobre os operários nas fábricas e defender a manutenção das colônias e estar ao lado das guerras nacionais no contexto do imperialismo prussiano?

Nada disto é claro nas teses defendidas e se os debates neste período não negam claramente o internacionalismo, muito menos afastam os apoios interessados dos

328 Vide nota 95.

329 Onde Raymond Aron em Penser La guerre. Clausewitz. Vol II, L'âge planétaire. Paris, Gallimard,1976 e Sigmund Neumann em Engels and Marx on Revolution, War, and the Army in Society em: PARET, Peter, (eds.) Makers of Modern Strategy from Machiavelli to the Nuclear Age. Princeton University Press, New Jersey, 1986 apontam proximidade à análise de Clausewitz a respeito do armamento do povo.

conservadores. No entanto, sabemos como mais tarde estas posições mudam sob pressão dos conservadores que desejavam o apoio da Socialdemocracia como Spengler em Socialismo e

Prussianismo (1920), que propôs a aliança da elite militar com o movimento operário em

direção ao nacionalismo e Möller van der Bruck que propôs por sua vez, num posicionamento claro à direita dentro da socialdemocracia auxiliar na extinção da solidariedade internacional e a transformação da luta de classes em guerra externa no esforço de fazer o partido apoiar a política colonial, o que não foi de longe algo raro dentro da Segunda Internacional. 330

Antes de apontar esta questão como uma crise derivada da guerra, do radicalismo da ameaça representada pela oposição à esquerda ou de um tipo de insanidade temporária, é possível notar que parte das ambiguidades desta questão permeavam a Socialdemocracia alemã desde o final do século XIX. E estranhamente, para ambos os lados da questão, pró e anti-guerra, foi comum a tentativa de se apoiar em Engels como discurso de autoridade, o que pode ser observado no debate entre Schnippel, figura política que buscou o apoio dos socialdemocratas a partir das teses de Bernstein contra Rosa Luxemburgo.331

Schnippel defendia a necessidade histórica do desenvolvimento do militarismo apoiado de modo interessadamente distorcido em Engels, enquanto para Rosa Luxemburgo o problema desta argumentação se resumiria ao fato de que isto demonstraria os perigos

330 Vide a respeito o capítulo “O Colonialismo socialista da segunda internacional” no livro de oão Bernardo Labirintos do Fascismo, do qual discordamos apenas do acordo entre o pretenso acordo de Engels em relação à linha política posterior seguida pela Segunda Internacional: “Personalidades de renome, como Eduard Bernstein, que fora amigo pessoal e colaborador de Engels, por ele designado como seu executor testamentário, e que, talvez assumindo a sério estas funções, pouco depois da morte do mestre começara a propor uma versão gradualista e reformista do marxismo, tornando-se o principal teórico da ala moderada da Segunda Internacional; Émile Vandervelde, a figura mais prestigiada, quase incontestada, do Partido Operário Belga, e que ocupava na Internacional as funções de presidente do secretariado permanente; e Jean Jaurès, a quem, talvez mais do que a qualquer outro, se deveu a unificação das várias correntes do socialismo francês e a criação da SFIO, onde a sua personalidade e o seu considerável saber o situavam muito acima de companheiros e rivais todos eles defendiam quanto à Àfrica e ao Oriente uma «política colonial positiva» . E mesmo um dos mais notáveis filósofos marxistas, Antonio Labriola, apesar de se situar próximo da vertente esquerdista, lamentara que a Itália não tivesse ocupado a Tunísia ou o Egipto e apelara em 1902 para a conquista da Tripolitânia . Na sequência destas figuras marcantes vinha uma corte inumerável de epígonos, que propagavam as ideias dos mestres e as faziam chegar a recônditos mais obscuros e a mentes mais simples. A maior parte dos porta-vozes do socialismo denunciava as atrocidades cometidas nas colónias pelas forças repressivas, escandalizava-se com a corrupção das administrações e a miséria dos nativos, mas não punha em causa os mecanismos da exploração. Vandervelde, que tanto se esforçou, malgrado a indiferença do grupo parlamentar do seu partido, por tornar conhecidos os horrores praticados no Congo sob a soberania do rei Leopoldo, afirmou no parlamento, em 1908, que «a colonização, em si mesma, é um facto de todas as épocas e [...] continuar-se-á a colonizar qualquer que seja o regime económico.” E nas suas Lettres du Congo ele defendeu uma colonização moderna do território, que assegurasse bons lucros aos capitalistas «activos, industriosos e enérgicos» e trabalho aos jovens com «rins sólidos e o fígado em bom estado” (BERNARDO, João. Labirintos do Fascismo: Na encruzilhada da Ordem e da Revolta. Porto: Edições Afrontamento, 2003, p.387)

331 Tal discussão é reconstituída a partir do panfleto Militia e Militarism de Rosa Luxemburg. Rosa

Luxemburgo. Militia and Militarism. Acessado em: