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Segundo Salles Guerra (1940, p. 370), os visitantes em Berlim puderam admirar pela primeira vez no estande brasileiro “peças anatomopatológicas de moléstias desconhecidas de muitos, insetos hematófagos, preparações microscópicas, a representação completa de ciclos evolutivos completos de protozoários que conheciam apenas de leitura...” Certamente os cientistas que passavam por ali e se interessavam interagiam com os presentes. É bem provável que foi numa dessas ocasiões que Oswaldo Cruz convidou para passar uma temporada em Manguinhos Stanislas von Prowazek e Gustav Giemsa, respectivamente,

diretores do departamento de protozoologia e química do Instituto de Doenças Tropicais de Hamburgo,.

O convite previa a realização de pesquisas com os colaboradores do Instituto Oswaldo Cruz, a divulgação dos resultados nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz e a oferta de cursos. O governo brasileiro assumiu os encargos da viagem e o pagamento dos vencimentos dos pesquisadores durante a estadia, prevista para durar seis meses(Benchimol, 1990).

É difícil de ser reconstruída através das fontes a estadia de Giemsa e Prowazek em Manguinhos. Mais difícil ainda é acompanhar os passos de nosso personagem nesse período, no qual a correspondência é extremamente rarefeita, para não dizer, nula. Por conta disso, ele retrocede ao segundo plano em nossa narrativa, cedendo lugar aos pesquisadores alemães no Rio de Janeiro. Ele estava ali, interagindo com eles, no que foi favorecido pelo domínio do idioma alemão. Aparentemente não trabalhou estreitamente com nenhum dos “hóspedes”.

Ambos eram nomes internacionalmente prestigiados em suas respectivas especialidades. O de Giemsa já corria mundo, designando a solução que ele aperfeiçoara para coloração dos protozoários do sangue, mas que também mostrou-se útil na visualização de outros microrganismos e de componentes de tecidos. Não menos célebre era Prowazek. Confirmação disso é o já mencionado fato de que Rocha Lima deixou de tomar cursos em protozoologia em 1906 porque à época Prowazek não se encontrava na Alemanha.187 Ele

indicou para Oswaldo Cruz a importância de aprofundar os estudos nessa disciplina, que considerava imprescindível para Manguinhos,188 ao lado do estudo dos “cogumelos patogênicos”, sobre os quais eram “demasiadamente ignorantes”.189

Prowazek sucedera no Instituto de Doenças Tropicais de Hamburgo aquele que era considerado um dos fundadores da moderna protozoologia, Fritz Schaudinn, que morreu logo depois de ser nomeado diretor de departamento daquela instituição. Apesar da morte precoce (com 35 anos), Schaudinn legara, além da descrição do patógeno da sífilis (sua realização mais célebre), uma série de trabalhos concernentes, por exemplo, ao ciclo de vida dos plasmódios no mosquito e no sangue. A curiosidade pelos protozoários retrocedia de pelo

187 “Para estudar protozoarios não ha ninguem aqui, o Prowazek foi para a Batavia”, escreveu Rocha Lima a Oswaldo Cruz. BR RJCOC OC-COR-CI-11 Carta de Rocha Lima a Oswaldo Cruz de 08.08.1906.

188 “É preciso que venha um aprofundar-se em protozoários. Mas onde? Outro em zoologia...” BR RJCOC OC- COR-CI-11 Carta de Rocha Lima a Oswaldo Cruz de 29.05.1907.

menos dois séculos de observação daqueles seres no microscópio. Mas com a comprovação do envolvimento deles em patologias humanas, animais e vegetais, o conhecimento do seu ciclo de vida adquiriu importância prática e conferiu-lhes maior visibilidade. A chamada protozoologia consistiu, ao lado da zoologia médica, entomologia e helmintologia, num dos campos basilares da medicina tropical, tal como estabelecida pelo programa de Patrick Manson. Protozoários estavam envolvidos na etiologia das duas doenças que mais comprometiam os empreendimentos coloniais nos trópicos – a malária e a tripanossomíase africana, ou doença do sono. Mas, de acordo com Benchimol & Teixeira (1993, p. 27-8), a protozoologia não consistia uma disciplina com fronteiras bem definidas. Era muito mais “um campo polimórfico de investigação, que requeria o concurso de diversas disciplinas, com seus respectivos arsenais metodológicos e conceituais” (Idem, p. 28).

Diretamente filiado à “escola” de Schaudinn, de quem fora assistente entre 1903 e 1904, em Rovigno, Prowazek acumulava quantidade expressiva de trabalhos quando chegou em Manguinhos. Iniciara com Schauddinn estudos evolutivos dos tripanossomas, sobre os quais apontou a existência de diferenciação sexual e de uma evolução no hospedeiro transmissor. Confirmou esses achados acompanhando o ciclo do Trypanosoma lewisi no rato e no piolho. Estudou flagelados no intestino das moscas, distinguindo o ciclo de vida das herpetomonas do das leptomonas e das critídias (tipos de protozoários semelhantes aos tripanossomas); estudou a morfologia de parasitas intestinais, descrevendo novas espécies de amebas; identificou o encistamento e processos autogâmicos em Trichomonas intestinalis; relatou a ação patogênica de novas espécies de flagelados do gênero Cyathomatix no homem e comprovou, com Schaudinn, a ocorrência dos cistos em Giardia lamblia e parte de sua evolução. Seguindo a corrente de estudos dos espiroquetas aberta por este, descreveu novas espécies desses seres, correlacionando-os à uma espécie de úlcera tropical e outras patologias..190

Além desses estudos, Prowazek havia se notabilizado pela observação de inclusões intracitoplasmáticas no tracoma, as quais correlacionou à causa da doença. As mesmas formações observara na chamada “vacina”, o material infeccioso empregado na imunização da varíola. Discutia-se à época se a patologia branda causada pela “vacina” tratava-se de doença distinta ou de uma forma atenuada da varíola. Para Prowazek, aquelas inclusões eram produtos de reação da célula. Ele havia conseguido, durante expedição feita com Neisser,

observar tais estruturas na conjuntiva de macacos inoculados com secreção de pacientes com tracoma. Formações semelhantes haviam sido apontadas por outros autores em doenças como escalartina, raiva e peste bovina. A característica comum entre elas era a constituição de inclusões com pequenos grânulos em seu interior, que durante o seu desenvolvimento “empurravam” o núcleo da célula na qual se encontravam. Além disso, eram capazes de atravessar os filtros bacterianos (Mannweiller 1998, p. 153-5).

As pesquisas que Prowazek realizou em Manguinhos relacionaram-se a esse tema. A estadia dele coincidiu com um violento surto de varíola, que irrompeu no Rio de Janeiro em 1908. Junto com Henrique Aragão, ele prosseguiu as observações que já vinha realizando sobre essa doença. Submeteram material infeccioso à filtração coloidal com uma técnica na qual se formava uma camada de ágar no filtro. Notaram que o material retido era capaz de infectar a córnea de coelhos, com o aparecimento dos chamados corpúsculos de Guarnieri, típicos da varíola (Prowazek & Aragão, 1909). Flagraram estruturas na forma de diplococos, de tamanho mais reduzido do que o das menores bactérias conhecidas. Como provinham de material virulento, que havia passado pelo filtro de Berkefeld, ou seja, não podia conter nenhuma outra forma microbiana conhecida, e eram capazes de infectar a córnea de coelhos, consideraram-nas o agente patogênico da varíola (Prowazek & Aragão, 1909). Os primeiros resultados foram divulgados no Semanário Médico de Munique (Münchener Medizinischen

Wochenschrift), e depois, veiculados no segundo número das Memórias do Instituto Oswaldo

Cruz, de 1909, em português e alemão. O periódico de Manguinhos traria artigos nos dois idiomas até a irrupção da Primeira Guerra, em 1914. Dessa forma, procurou-se conferir maior circulação aos resultados ali obtidos.

A “descoberta” de Prowazek e Aragão causou grande sensação à época. Em 9 de julho de 1909, Oswaldo Cruz anunciou-a à Academia Nacional de Medicina (Benchimol & Teixeira 1993, p. 34). Segundo Benchimol & Teixeira (1993, p. 35), em 01 de julho de 1909 os jornais dariam grande destaque à partida de Prowazek e Aragão à Alemanha, onde continuariam os experimentos para confirmar seus achados.

Além das pesquisas sobre a varíola, Prowazek dedicou-se ao estudo do Spirochaeta

gallinarum, agente da espirilose das galinhas. Ele observou quase diariamente carrapatos infectados pelo germe, nos quais pode surpreender seu ciclo evolutivo que se processava no chamado “lacunoma intato” e nas glândulas salivares. Concluiu que o carrapato desempenhava o papel de hospedeiro intermediário, ou seja, aquele em que se processa parte

do ciclo de vida do patógeno, não sendo um mero transmissor, como afirmavam outros autores (Prowazek, 1909). Em outros trabalho, publicado nas Memórias, Prowazek tratou do dimorfismo em infusórios ciliados, protozoários que em sua maioria eram de vida livre (Prowazek, 1909). O resultado dos estudos sistemáticos sobre os protozoários encontrados nas cercanias de Manguinhos feitos com Aragão foi publicado nas “Memórias” em 1910 (Prowazek, 1910). De acordo com Aragão (1950) e Fonseca Filho (1976), essa foi uma das principais contribuições duradouras da permanência de Prowazek: o estudo dos protozoários de vida livre, feitos primeiramente com Aragão e depois continuados por Aristides Marques da Cunha, que identificou uma série de novas espécies, concentrando-se naquelas que viviam em água doce. José Gomes de Faria dedicar-se-ia aos protozoários de vida marinha. Em consequência desses estudos, Oswaldo Cruz mandou construir um aquário em Manguinhos. Depois de sua morte, ele deu lugar a uma estação de hidrobiologia, construída na Ilha do Pinheiro, próxima ao Instituto (Aragão, 1950). Em 1912, Gustav Giemsa viria novamente a Manguinhos para estudar, com Alcides Godoy e Cardoso Fontes, parasitas de peixes e protozoários que formavam o plâncton da Baía de Guanabara (Benchimol & Teixeira, 1993, p. 29).

Prowazek acompanhou ainda Arthur Neiva numa expedição cientifica à região que compreendia parte dos estados de São Paulo e do Mato Grosso (Borgmeier, 1940). Parte do relatório dessa excursão encontra-se no acervo histórico do Tropeninstitut. Nele, Prowazek descreve, maravilhado, o percurso que fizeram de São Paulo, até a embocadura do Tietê. Observou a malária em Bauru, reparando que ali a chamada forma tropical tinha evolução mais branda do que a terçã. Destacou ainda a ocorrência de ulcerações nas mãos e nos pés da população local, correlacionadas a um protozoário análogo aos tripanossomas. Tratava-se da leishmaniose também chamada “úlcera de Bauru”. De Miguel Calmon em diante, seguiram o Tietê de barco e atravessaram a fronteira de São Paulo com o Mato Grosso. Caminharam pela floresta, que Prowazek se refere de forma entusiasmada. Ele chegou a pesquisar protozoários em alguns animais silvestres. Em cinco dias chegaram à Itapura, um povoado que retrata como decadente, onde grassavam a malária e a ancilostomíase. Desse trecho do relatório, infelizmente incompleto, confirma-se a tão ressaltada cultura científica de Prowazek. Ele demonstra conhecimento bastante amplo de botânica e história natural.191

191 Arquivo Histórico do BNI – Akte 2-8, Reiseberichte. Kongresse: ohne Datum, Stanislas von Prowazek: Zur Mundung des Tieté, 8 páginas.

Menos claras são as atividades as quais se dedicou Gustav Giemsa durante sua estadia em Manguinhos. Apenas um trabalho seu, feito em colaboração com Alcides Godoy, foi publicado nas “Memórias.” Trata da ultrafiltração, método que havia sido há pouco aperfeiçoado por Bechhold, e a aplicação dele para a concentração do soro anti-diftérico produzido no Instituto (Giemsa & Godoy, 1909).

Outro colaborador do Tropeninstitut veio se juntar por um curto período a Giemsa e Prowazek em Manguinhos: Ernst Rodenwaldt, médico militar que havia recém-voltado do Togo, na África, sendo incorporado ao corpo de pesquisadores da instituição hanseática.192 Conforme registra em suas memórias (Rodenwaldt, 1957), ele licenciou-se por dois meses para vir à costa do Brasil como médico de um navio da Hamburg-Südamerikanischen

Dampfschiffahrtsgesellschaft. Conseguiu o posto graças à intermediação de um colega do

Tropeninstitut que tinha boas relações com a companhia de navegação (Idem, p. 53). Rodenwaldt conta que sua primeira visita ao chegar ao Rio de Janeiro foi a Oswaldo Cruz. Sua chegada coincidiu com a terrível epidemia de varíola que grassava na cidade. Ele caracterizou Manguinhos como um Instituto que dispunha de todos os mais modernos aparatos científicos da época. Sua equipe – prossegue – havia se formado na Europa e trabalhava com “devotamento apaixonado”. Ele embarcou na lancha rumo a Manguinhos às 6 da manhã, e tomou café junto com os pesquisadores sob as árvores do Instituto. Relata um diálogo entre Oswaldo Cruz e Prowazek que retrata bem as dissonâncias que surgem por ocasião do intercâmbio entre falantes de diferentes idiomas e culturas. Oswaldo Cruz teria perguntado ao protozoologista: “Lieben Sie Bier?” (O senhor “ama” cerveja?), ao que respondeu Prowazek gracejando: “Ich liebe Frauen” (Eu amo mulheres!) (Idem, p. 55). “Amar”, um verbo que nós latinos empregamos comumente para expressar o gosto pronunciado por alguma coisa, no idioma alemão tem a acepção mais rigorosa de “amor”,

192 Ernst Robert Karl Rodenwalt nasceu em Berlim em 5 de agosto de 1878, estudou medicina na Academia Imperador Guilherme de Formação Médico-Milita que concluiu em 1904. Integrou-se ao Instituto de Doenças Marítimas e Tropicais de Hamburgo em 1908, mesmo ano em que foi aprovado no exame médico e no qual veio a lume sua primeira publicação sobre malária. Em 1910 mudou-se com a família para o Tofo, onde apermaneceu até 1913. Lá engajou-se no combate da varíola e malaria. Atuou como higienista durante a Primeira Guerra, na Turquia. Ainda durante a Guerra realizou observações geomorfológicas com Hein Zeiss, que resultaram em “Estudos sobre malária em Wilajet Aidin”, publicado em 1918. Habilitou-se em 1919 em Heidelberg com estudo sobre a resistência dos plasmódios à malária. Entre 1921 e 1934 atuou nas Índias Holandesas. Os estudos realizados nessa época firmaram-no como um dos mais reputados epidemiologistas no campo da malária. Em 1934 ocupou a cadeira de higiene em Kiel, mas no mesmo ano mudou-se para Heidelberg, onde assumiu a cátedra da mesma disciplina. Ness período ocupou-se principalmente com os estudos sobre higiene racial. Tornou a participar da Segunda Guerra como médico militar, na qual engajou-se principalmente no combate à malária. Após o fia da Guerra foi apreendido pelos ingleses, mas libertado em 1946. Assumiu novamente seu posto em Heidelberg em 1948, depois do processo de desnazificação. Aposentou-se em 1951. Em 1952 fundou centro de pesquisas em geomedicina,na Academia de Ciências de Heidelberg. Faleceu em 1967 (Kiminus, 2001).

sendo que a predileção ou gosto extremado por algo são expressos de outra forma. No Rio, Rodenwaldt visitou ainda a Floresta da Tijuca e o Corcovado, dirigindo-se depois a Santos e São Paulo (Idem, p. 56-8)

No período em que Prowazek permaneceu em Manguinhos, Chagas havia encontrado, durante as obras de profilaxia da malária no norte de Minas, um tripanossoma numa espécie de inseto sugador conhecido popularmente como “barbeiro”. Conforme demonstra Sá (2005, p. 314), Prowazek comunicou na Alemanha que formas do tripanossoma observado por Chagas eram bastante semelhantes aos hemosporídios intracelulares, no tocante à esquizogonia e ao período de vida intracelular, além de não apresentar formas móveis de reprodução. Chagas publicou nos Archiv für Schiffs- und Tropen-Hygiene a ocorrência de dois tripanossomas o Trypanosoma minasense, que ele havia encontrado em macacos e o

Trypanosoma cruzi, nova espécie constatada no intestino dos barbeiros (Idem, p. 314). Conforme ele próprio afirmara, os estudos do ciclo de vida da nova espécie de tripanossoma haviam ocorrido sob supervisão de Prowazek. Depois que retornou à Alemanha, este publicou um estudo sistematizando os conhecimentos sobre os tripanossomas. Referiu-se ao trabalho do pesquisador de Manguinhos como uma evidência de que aqueles protozoários desenvolviam-se nos vetores, questão controversa à época, muito embora o trabalho do pesquisador do Instituto de Doenças Infecciosas de Berlim Friedrich Karl Kleine defendesse isso para o caso da doença do sono (Idem, p. 315). Em abril de 1909 Chagas fecharia o ciclo do novo tripanossoma, ao surpreendê-lo no sangue de uma criança encontrada no mesmo local onde flagrara barbeiros infectados. Apontou-o como patógeno de uma doença, cujo desenho clínico e epidemiologia conformar-se-iam, nos anos seguintes, entre avanços e recuos, dilemas e controvérsias, conforme demonstra Kropf (2006). Designada “doença de Chagas”, ela tornar-se-ia a principal conquista de Manguinhos e assumiria significados estreitamente relacionados com as propostas de intervenção de seus pesquisadores no espaço público (Idem).

Em meio às turbulências trazidas pela nova “descoberta”, chegou em Manguinhos o protozoologista alemão Max Hartmann, ligado, como Prowazek, à Fritz Schaudinn. Hartmann era pesquisador do Instituto de Doenças Infecciosas de Berlim, dirigido por Koch.193 Havia

193 Max Hartmann nasceu em 1876. Formou-se em ciências naturais na Universidade de Munique, onde doutorou-se em 1901. Entre 1902 e 1905 foi Privatdozent no Instituto de Zoologia da Universidade de Giessen. Em 1903 apresentou tese de livre-docência sobre os modos de reprodução dos organismos, uma demonstração do que seria a tônica de sua produção científica – as teorias da sexualidade. Por influência de Fritz Schaudinn,

assumido, junto com Prowazek, a direção do Archiv für Protistenkunde (Arquivo de Protozoologia), criado por Schaudinn. Em Manguinhos, Hartmann trabalhou de forma bastante próxima com Chagas. Estudaram juntos flagelados encontrados nas fezes de uma tartaruga, investigação que levou à identificação de uma nova espécie de ameba, a qual o alemão denominou Entamoeba testudinis (Hartmann, 1910). Fizeram ainda amplo inventário dos flagelados que encontraram em frascos de água doce originários dos pântanos de Manguinhos. O estudo daqueles protozoários tinha em mira comprovar o sistema classificatório que Hartmann havia estabelecido com Prowazek, bem como algumas concepções defendidas por Schaudinn, como a da duplicidade nuclear das células desses microrganismos (Hartmann & Chagas, 1910). Em meio à multidão de flagelados analisados, encontraram uma ameba que apresentou uma forma muito peculiar de divisão nuclear, sendo objeto de outra publicação nas “Memórias” (Hartmann & Chagas, 1910b).

As concepções da “escola de protozoologia” de Schaudinn, representada por Prowazek e Hartmann, impactaram no modo pelo qual Chagas descreveu o ciclo de vida do tripanossoma envolvido na nova patologia humana. Conforme demonstra Kropf (2006), uma das confirmações disso é a interpretação que ele deu às formas encontradas no pulmão de animais infectados – considerou-as como estágios da divisão esquizogônica do parasita, uma característica que confirmava a hipótese de Schaudinn da estreita relação entre os tripanossomas e os hemosporídios. O Trypanossoma cruzi reforçava a sugestão de Hartmann, de alocação dessas duas categorias de protozoários sob uma nova ordem – a Binucleatta (Kropf 2006, p. 96).

Em 1912, foi a vez do ex-professor de Rocha Lima, Hermann Dürck, vir a Manguinhos para organizar o serviço de anatomopatologia ligado ao Hospital que seria criado junto ao Instituto. Permaneceu ali durante seis meses, estadia que também não deixou muitos registros nas fontes consultadas. Segundo Fonseca Filho (1976), Dürck não exerceria influência significativa na conformação da patologia em Manguinhos. Àquelas alturas, Rocha transferiu-se em 1905 para o Instituto de Doenças Infecciosas de Berlim, no qual implantou o departamento de protozoologia. Esse mesmo departamento ele assumiu em 1914 no Instituto de Biologia Imperador Guilherme (Kaiser-Wilhelm Gesellschaft Institut für Biologie), em Dahlem, Berlim. Tornou-se diretor do instituto entre 1933 e 1955. A importância de Hartmann para a biologia consiste principalmente em suas contribuições para a compreensão dos mecanismos envolvidos na reprodução e as teorias de sexualidade dos seres. Seus estudos sobre protozoários estavam relacionados a esse aspecto. Considerava mais simples o estudo desses mecanismos em organismos unicelulares. Voltou-se contra o vitalismo e o puro mecanicismo e defendeu a aplicação do pensamento causal na biologia. Faleceu em 1962. (Dolezal, H. M. Max Hartmann. In Neue Deutsche Biographie, 8. Band. Berlin: Duncker & Humblot, 1969.

Lima já ganhava renome no estrangeiro. Em 1909, partiu para a Alemanha, inicialmente para ocupar o cargo de assistente de Dürck no Instituto de PAto. O afastamento de Manguinhos e questões envolvendo a prorrogação da licença e o sucessor da vaga deixada por ele provocaram a ruptura com Oswaldo Cruz. Ressentido com a atitude deste, continuou acompanhando atento os conflitos envolvendo os ex-colegas e a complexa correlação de forças que operou novos realinhamentos, relacionados, entre outras coisas, à hierarquia sacramentada pelo novo regulamento do instituto.