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CHAPTER 2.IMPROVING DAILY ELECTRICITY LOADS FORECASTING IN TOURIST

2.3. D ATA AND FORECASTING EVALUATION STRATEGY

2.3.1. Data

Assume-se que a ida de Rocha Lima para a Alemanha em 1909 tenha sido motivada pelo convite feito pelo ex-professor Hermann Dürck para assumir o cargo de assistente-chefe do Instituto de Patologia da Universidade de Jena, na qual havia sido recém-nomeado catedrático. Mas carta enviada a ele por Oswaldo Cruz em junho de 1909 sugere que esse convite surgiu quando ele já estava lá. “Acabo de receber um cartão postal seu, datado de Jena, e em que você tem a gentileza de me comunicar estar aí exercendo as funções de primeiro assistente do Instituto Patológico da Universidade.”194 Depreende-se, daí, que o cargo em Jena não foi o motivo do afastamento, ou que Rocha Lima só tenha divulgado mais tarde o fato de tê-lo assumido. Oswaldo Cruz felicitou o colaborador pela conquista e disse estar ainda mais contente pelo fato dele ter aceito o cargo apenas por prazo determinado, “o que me faz ter a esperança de ter o prazer de vê-lo de novo entre nós, o que para todos nós seria motivo de grande satisfação”, acrescentou.195

A licença concedida a Rocha Lima previa seu afastamento até meados de 1910. Ele permaneceu em Jena até setembro de 1909, quando então, por indicação de Prowazek, foi convidado para organizar no Instituto de Doenças Marítimas e Tropicais de Hamburgo, a seção de patologia. É bem provável que o convite tenha ocorrido ainda no período em que o protozoologista estava no Instituto Oswaldo Cruz. As circunstâncias concernentes a esse convite são obscuras. É possível que ele tenha sido motivado pelo fato de nosso personagem ser especializado em anatomia patológica e familiarizado com o idioma alemão e com a ciência germânica. Sabe-se que Rocha Lima dirigiu seção própria na instituição alemã, voltada exatamente àquele ramo de investigação. Nenhum dos quadros que à época atuavam

194 BR RJCOC OC-COR-CI-11 Carta de Oswaldo Cruz a Rocha Lima de 01.06.1909. 195 BR RJCOC OC-COR-CI-11 Carta de Oswaldo Cruz a Rocha Lima de 01.06.1909.

no instituto possuía expertise em anatomia patológica. Havia um esforço em expandir o escopo de estudos através da incorporação de especialistas em diferentes áreas da medicina experimental. Não foi possível saber se o convite feito ao pesquisador brasileiro previa sua permanência no Instituto, ou apenas uma temporada de estudos. A segunda hipótese parece mais provável.

A escassa e lacunar correspondência de Oswaldo Cruz e Rocha Lima entre meados de 1909 e começo de 1910 sugerem um estremecimento na relação entre os dois. Em carta de janeiro de 1910, já em Hamburgo, o segundo agradeceu os votos de congratulação recebidos em seu aniversário, em 24 de novembro último:

Tenho o prazer de lhe comunicar que eles já se vão realizando e que a realidade tem sempre ultrapassado as minhas mais róseas esperanças, de modo que permaneço na convicção de ter acertado, embora sempre admita a possibilidade de me transformar com o tempo e com a idade. Não tem esta porém por fim importuná-lo com considerações sobre o meu modo de pensar, de sentir ou de agir, visto como sou infelizmente obrigado a admitir que nem seis anos de trabalho e convívio bastam para me permitir o direito de ter certa delicadeza de sentimentos e muito menos o de ter a franqueza de externar aquela sendo ousadia e esta desaforo. Muito antes tem esta humildade carta o fim de lhe desejar um ano cheio de alegria, saúde e felicidade... 196

O “prezado Dr. Oswaldo” cedia lugar ao “Ilustríssimo Senhor Doutor Oswaldo”, expressão do tom mais protocolar que Rocha Lima imprimia à correspondência. Seria uma reação ao fato de Oswaldo Cruz, em sua interpretação, ter “cada vez mais transformado o tom amigável em estilo primeiramente oficial e seco”, conforme afirmou nosso personagem em carta a Arthur Neiva?197 Na sequência da carta com Oswaldo Cruz, ele expressou a satisfação que tinha com “as boas notícias dos progressos e dos trabalhos de Manguinhos.” Na missiva de junho de 1909, Oswaldo Cruz havia lhe comunicado a descoberta de uma nova doença humana por Chagas, que seria publicada nos Archiv für Schiffs- und Tropen-Hygiene.198

Nosso personagem disse ainda estar satisfeito com a saída do sanitarista da diretoria de Saúde Pública. O fato de ter deixado em seu lugar Figueiredo de Vasconcelos – prosseguiu – havia amainado entre os alemães o temor de que a febre amarela voltasse. Transmitiu as

196 BR RJCOC OC-COR-CI-11 Carta de Rocha Lima a Oswaldo Cruz de 06.01.1910.

197 Carta de Rocha Lima a Arthur Neiva de 28.10.1910. Anc 1910.07.28. Arquivo Arthur Neiva, CPDOC-FGV, Rio de Janeiro.

considerações feitas por Prowazek sobre trabalhos de José Gomes de Faria e Arthur Moses, os pedidos dele por novas remessas de barbeiro e perguntas de Rodenwaldt, sobre artigos referentes à distribuição e tipos de ancilóstoma no Brasil e de Fülleborn, sobre as malhas utilizadas na profilaxia da febre amarela e os hábitos domiciliares do Stegomyia. A outra pergunta que dirigiu a Oswaldo Cruz dizia respeito aos trabalhos de Chagas e era meio capciosa: queria saber - “se não for segredo”, salientou – quantos tripanossomas o colega havia observado e em quantos indivíduos. Justificou-a pelo objetivo de “desmanchar algumas dúvidas aqui ouvidas”.199 Antecipava, dessa forma, críticas e questionamentos relativos à descoberta de Chagas, que atribuía aos alemães, mas que bem podiam também ser suas.

Em carta de Rocha Lima a Oswaldo Cruz de março de 1910, as tensões aparecem de forma mais clara, relacionadas à renovação da licença do primeiro e ao que interpretou como sinais de animosidade:

Junto remeto os dois requerimentos que julgo estarem de acordo com as praxes e com o seu modo de pensar. Só lamento e lamento imensamente, que quando pela primeira vez lhe pedi a minha exoneração não m’a tenha querido dar, e que desde então, ao lado dessa generosidade, me tenha excluído da sua intimidade, da intimidade do Instituto, até das suas resoluções concernentes a meu serviço, terminando por me retirar o único auxiliar que eu tinha, deixando vago o lugar dele, manifestações evidentes de desconsideração para quem conhece a sua costumeira gentileza. Estou certo que não faltará quem julgue tudo isto bem pago com a garantia de um emprego de 1:200$. Eu infelizmente preferiria mil vezes que me tivesse demitido imediatamente, mas que conservasse ao menos aparentemente a simpatia e consideração que até então me dispensara, sentimentos esses que eu prezava acima de tudo, como só se preza os dos raríssimos indivíduos que se pode estimar e admirar completamente.200

Em explicação feita posteriormente a Arthur Neiva, Rocha Lima esclareceu que, ao se aproximar o prazo de expiração da última licença e sem Oswaldo Cruz se manifestar acerca de sua renovação, passando a empregar o já referido estilo “oficial e seco”, decidira pedir exoneração do cargo, “não se julgando com direito de ter prorrogado a licença”, termos que teria empregado no requerimento ao diretor de Manguinhos. Acompanhemos o esclarecimento feito a posteriori pelo nosso personagem:

199 Idem

Se fosse um esquecimento do Oswaldo, esse requerimento permitia uma nova licença, e se fosse desejo de que eu deixasse o lugar, também o requerimento servia. Oito ou quinze dias depois (eu já havia escrito demasiado tarde para que se não dissesse que eu insistira) recebi uma carta do Oswaldo e em que entre outras coisas dizia-me sem mais: ‘já é tempo de renovar a sua licença’. Era tarde e como de fato eu não tinha intenção de voltar (estou aqui instalado com contrato (casa) de 3 anos) e não está de acordo com a minha natureza representar comédias hipócritas para disso tirar proveito, escrevi francamente ao Oswaldo dizendo que já havia requerido a demissão e que não podia agora requerer o contrário. Creio que assim que o meu requerimento chegou ao Rio, foi levado ao ministro, de modo que se a resposta à carta de Oswaldo fosse no sentido de revogar o pedido de demissão, ela já estaria dada.201

A correspondência depositada no arquivo pessoal de Oswaldo Cruz não inclui algumas das cartas referidas por Rocha Lima a Neiva. Na missiva de 2 de março de 1910, em sequência às linhas acima citadas, nosso personagem trata de um trabalho sobre febre amarela, no qual indaga a Oswaldo Cruz sobre a conveniência de publicá-lo numa revista alemã ou nas “Memórias.” Em seguida, tece algumas considerações sobre esta, com vistas a otimizar sua circulação e reconhecimento. Observou que ele e outros cientistas alemães tinham a impressão de uma circulação limitada. Muitos haviam recebido apenas o primeiro número, além de ver como uma grande falta não remeter exemplares para a redação de revistas internacionais, como os “Archiv” e os “Bulletin” do Instituto Pasteur. Apontou também como falha o fato de não distribuírem separatas, sendo “supérfluo insistir sobre o papel que representam nas relações científicas individuais.”202 Em carta escrita nove dias depois (11 de março) em resposta a uma de Oswaldo Cruz de 09 de março (não localizada), trata apenas de questões referentes às consultas dos colegas alemães e de uma medalha do sanitarista brasileiro que teria sido distribuída a alguns pesquisadores alemães, sem identificação, tendo originado mal-entendidos.203 Não há nenhuma menção ao pedido de prorrogação ou extensão da licença. A última carta desse período que se encontra no arquivo é uma de Oswaldo Cruz, de 29 de março de 1910, no qual ele comunica ter recebido os requerimentos do pedido de exoneração: “De acordo com seus desejos encaminhei os referidos papéis e junto lhe envio o decreto em que é feita sua vontade. Excusado dizer-lhe que o Instituto continua sempre à sua disposição e que faço votos para que aí encontre a

201 Carta de Rocha Lima a Arthur Neiva de 28.07.1910. Anc 1910.07.28. Arquivo Arthur Neiva, CPDOC-FGV, Rio de Janeiro.

202 BR RJCOC OC-COR-CI-11 Carta de Rocha Lima a Oswaldo Cruz de 02.03.1910. 203 BR RJCOC OC-COR-CI-11 Carta de Rocha Lima a Oswaldo Cruz de 11.03.1910.

felicidade que almeja.” Em relação ao trabalho sobre a febre amarela, afirmou apenas que ele seguisse seus interesses pessoais e científicos. Sobre as memórias, reconheceu que apresentavam, “não as qualidades, mas a série de inconvenientes que nos fez a gentileza de assinalar”. E saudou-o como o “colega atenciosamente obdo. Gonçalves Cruz.204

O tom empregado por Oswaldo Cruz é protocolar e de evidente distanciamento. Na carta em que esclareceu a Neiva as razões do rompimento e da decisão de permanecer na Alemanha, Rocha Lima atribui a tensão ao fato de “escrever daqui muitas verdades ao Oswaldo, procurando chamar a atenção dele para o bem estar moral de quem, o admirando e auxiliando com prazer, não abdica do direito de ter individualidade e brio.” Dessa forma, “passou o Oswaldo a ser para mim o Dr. Gonçalves Cruz”, emendou205 Nas duas cartas de março de 1910 que se encontram no arquivo, as únicas “verdades” ditas por Rocha Lima são aquelas alusivas às “Memórias” e a contrariedade com aquilo que interpretou como sinais de afastamento e ressentimento, expressas no trecho supracitado. Na versão de nosso personagem, o fato de Oswaldo Cruz não receber bem as críticas que lhe vinha fazendo seriam a principal razão do progressivo esfriamento das relações entre eles:

Não podendo citar nomes e não querendo parecer arvorar-me em intérprete de qualquer grupo, procurei em cartas sucessivas ao Oswaldo, como fatos passados comigo como o meio em Manguinhos já não oferecia o conforto moral de outras épocas, e como ele (Oswaldo) também já se ia transformando à custa do incenso, a ponto de quase encarar como um crime a franqueza que tive de sustentar os verdadeiros motivos da minha vinda para cá, e de passar a me tratar com o muito conhecido sorriso amabilíssimo de superior indiferença, de me afastar de todas as questões do Instituto, até daquelas que me interessavam de perto, de me afastar da casa dele para onde eu era anteriormente frequentes vezes convidado, de me tirar o único auxiliar, deixando vago o lugar, enfim de uma série de pequenos fatos que demonstram provas de desconsideração, a quem cometeu o grande crime de ter escrúpulos de pedir uma licença, de o prevenir com seis meses de antecedência das intenções que tinha e dos motivos reais delas.206

Como os relatos sobre essa ruptura nos são conhecidos apenas de uma parte e como a documentação desse período é lacunar, faltando as cartas que Oswaldo Cruz enviou a Rocha

204BR RJCOC OC-COR-CI-11 Carta de Oswaldo Cruz a Rocha Lima de 29.03.1910.

205 Carta de Rocha Lima a Arthur Neiva de 28.07.1910. Anc 1910.07.28. Arquivo Arthur Neiva, CPDOC-FGV, Rio de Janeiro.

206 Carta de Rocha Lima a Neiva, Faria e Moses. Anc 1910.07.28. Arquivo Arthur Neiva, CPDOC-FGV, Rio de Janeiro.

Lima por quase um ano (de 01 de junho de 1909 a 29 de março de 1910), só podemos aproximar-nos dos reais motivos que a causaram através de hipóteses. Benchimol & Teixeira (1993, p. 35-8) lançam algumas suposições interessantes a esse respeito:

Teria Oswaldo Cruz forçado a vacância do cargo para que fosse ocupada por assistente que considerava mais apto? Teriam pactuado isso antes da partida de Rocha Lima? Teria este, de algum modo, postergado sua demissão como trunfo para indicar o sucessor de sua preferência? (Idem, p. 37).

Nessa leitura, o nó górdio da desavença seria o concurso relativo à sucessão de Rocha Lima. Os mesmos autores sugerem ainda que a contrariedade de Oswaldo Cruz teria surgido já com o pedido de licença feito por Rocha Lima, com seis meses de antecedência, ou seja, “quando terminava o contrato de Prowazek e Giemsa, no momento crucial da descoberta de Chagas”. Os autores identificam o motivo do desgosto “por [Oswaldo Cruz] achar que seu lugar-tenente não devia abandonar o barco em momento tão importante” (Idem, p. 36). É bem possível que o diretor de Manguinhos tenha ficado, de fato, contrariado com o afastamento de Rocha Lima exatamente quando procurava conjugar os esforços de seus subordinados na estabilização da descoberta de Chagas. A expertise dele na anatomia patológica figurava essencial para a confirmação do desenho clínico da doença e sua aceitação como nova entidade nosológica.

Apesar desse possível ressentimento, Oswaldo Cruz manteve o tom cordial na carta de junho de 1909, pois tinha como certo o retorno de seu colaborador, que levava em alta conta. O tom da carta em que comunica aceitar a exoneração de Rocha Lima sugere a contrariedade com que o fazia. Por outro lado, não deixava dúvidas de que a intenção era pôr um termo nas estreitas relações cultivadas até então. A Rocha Lima não passou despercebida a intenção da atitude: “A minha exoneração me foi por ele comunicada em termos oficiais. Sobre a minha atividade em Manguinhos, nem uma palavra. Fui despedido como um Jaó qualquer... Um ano antes a minha demissão me era negada.”207 Nosso personagem afirmou a Neiva que teria sido mais cômodo e “agradável” que permanecesse como chefe de serviço licenciado, “do que estar aqui empregado em uma terra estranha.”208 “Mas, para isso, era preciso sacrificar o ‘panache’ e viver cultivando as boas graças de quem tudo pode e manda”, acrescentou logo

207 Carta de Rocha Lima a Neiva, Faria e Moses. Anc 1910.07.28. Arquivo Arthur Neiva, CPDOC-FGV, Rio de Janeiro.

208 Carta de Rocha Lima a Neiva de 28.07.1910. Anc 1910.07.28. Arquivo Arthur Neiva, CPDOC-FGV, Rio de Janeiro.

em seguida. Essa fala alude a aspecto já referido por Benchimol & Teixeira (1993, p. 39), sobre o fator conjuntural responsável pelo estremecimento das relações de Oswaldo Cruz e Rocha Lima: “a clivagem profunda entre dois períodos da história de Manguinhos”, delimitada pelo novo regulamento institucional. Este conferiu caráter formal à hierarquia que já existia anteriormente, mas que era contrabalançada – defendem os mesmos autores (Idem, p. 33) – por uma divisão igualitária de trabalho, pela falta de especializações, pelo fato de quase todos terem a mesma idade (Stepan (1976) também chama atenção para esse fato) e pela coesão catalisada pela luta contra os adversários e pela precariedade material. Numa das cartas a Neiva, Moses e Faria, Rocha Lima alude a esse período idílico, em que teria reinado a mais perfeita harmonia:

Como me lembro com saudade sempre crescente daquelas tardes e noites, quando extinto o rebuliço do Instituto, palestráva-mos em pequeno grupo de indivíduos capazes de sentir os sentimentos uns dos outros, principalmente no assunto principal de nossas conversas: o nosso Instituto.209

Uma das críticas de Rocha Lima a Oswaldo Cruz teria sido exatamente a introdução, pelo novo regulamento, de desníveis hierárquicos, como o posto de chefe de serviço, que ganhava mais que os assistentes e desfrutava de uma série de regalias: “Além disso, fiz ver lhe quão ridícula é a posição do chefe de serviço em Manguinhos, ganhando mais do que os outros sem ter uma só atribuição, uma só razão de existir.”210 Quando Oswaldo Cruz estava na diretoria de Saúde Pública, Rocha Lima acompanhava mais de perto os trabalhos em Manguinhos, e tinha maior espaço de manobra em relação às decisões do instituto. Na medida em que agora o sanitarista ocupar-se-ia exclusivamente do seu “jardim de infância da ciência”, aquela “dualidade de lideranças” (Benchimol & Teixeira,1993, p. 38) daria lugar a posições mais bem definidas e confronto de opiniões, que, na visão de Rocha Lima, levaria de qualquer forma à ruptura:

Se eu lá estivesse em uma ocasião destas, eu, devido à minha proximidade do Oswaldo seria obrigado a me afastar dele e a qualquer agrupamento que me unisse, não faltaria quem me atribuísse o desejo de chefiar grupo ou me dar importância organizando oposição em que eu representasse o glorioso papel de ‘chefete’ (pela idade e título fiduciário [chefe de serviço])211

209 Carta de Rocha Lima a Neiva, Faria e Moses. Anc 1910.07.28. Arquivo Arthur Neiva, CPDOC-FGV, Rio de Janeiro.

210 Idem 211 Idem

Rocha Lima alude aqui a alinhamentos de grupo que demonstram a profundidade da clivagem que cindiu a comunidade de Manguinhos, aspecto que introduzida naquele meio. Ela tornou-se mais clara no concurso feito para a vaga deixada por ele. Quando foi estabelecido o novo regulamento, a ocupação dos cargos de chefe de serviço por este e por Figueiredo de Vasconcelos foi aceita como algo “natural”, em vista do maior tempo de trabalho no Instituto. Com uma vaga aberta abriu-se a disputa do cargo, que seria preenchido através de concurso. O critério estabelecido por Oswaldo Cruz baseava-se na avaliação da quantidade e qualidade dos trabalhos publicados, parâmetro com o qual Rocha Lima não concordava:

Quão imoral e prejudicial seria a escolha de trabalhos publicados como critério para um julgamento esforçou-se até o Prowazek em demonstrar ao Oswaldo, principalmente pelas consequências de ordem moral em relação aos demais membros do Instituto. Mas, infelizmente, é um fator nulo para o Oswaldo o moral de quem lhe é subordinado (...) Onde é que já se viu a idéia de fazer uma classificação oficial de méritos individuais em um meio de indivíduos destinados a trabalhar juntos? Haverá um meio melhor de produzir desunião e descontentamento? Se ao menos fosse um meio de escolha justo, um meio mais perfeito, mais objetivo ainda haveria uma desculpa. Mas um processo, no qual mesmo com a máxima seriedade é completamente impossível haver equidade, pela diversidade dos assuntos e pela manifesta incapacidade de uns julgadores em muitos dos assuntos julgados, não tem justificativa alguma (...) Acho um despropósito e uma injustiça querer fazer-se uma classificação por méritos científicos. Quem pode provar que o Aragão, o Chagas, o Neiva ou o Godoy no domínio das especialidades, seja cientificamente superior ou inferior uns aos outros? (...) Não se pode exigir que quem ocupa de sistemática zoológica descubra a cura do câncer ou a quadratura do círculo. Por outro lado, a soma de trabalhos publicados em um Instituto que acaba de se organizar e no serviço material do qual muitos e muitos meses ou até anos de trabalho foram anônima e esterilmente sacrificados, e onde a distribuição desse serviço é completamente desigual e inconstante, é o maior absurdo que se pode imaginar.212

De acordo com as regras de Oswaldo Cruz, cada um avaliaria o trabalho do outro. Benchimol & Teixeira (1993, p. 39-43) relatam detalhadamente o processo que acabou por elevar Chagas à posição de chefe de serviço, sacramentando, dessa forma, a preferência do diretor de Manguinhos. Para Rocha Lima, que preferia que o cargo ficasse nas mãos de Aragão, o concurso revelara a debilidade moral de Oswaldo Cruz. “Se alguém me dissesse