CHAPTER 2.IMPROVING DAILY ELECTRICITY LOADS FORECASTING IN TOURIST
2.3. D ATA AND FORECASTING EVALUATION STRATEGY
2.3.2. Forecasting evaluation strategy
O amigo e correspondente dos primeiros tempos de Berlim, Hugo Werneck, mudou-se para Belo Horizonte em 1906, devido à tuberculose Acreditava-se que o clima da capital mineira ajudasse no restabelecimento dos pacientes (Miraglia 2009, p. 25). Ali, ele breve obteria fama como um dos pioneiros na clínica ginecológica, ou como especialista em “moléstia das senhoras” (Marques, 2005). Atuava na Santa Casa de Misericórdia, quando dirigiu-se a Rocha Lima, em 1910, pedindo-lhe que arranjasse um anátomo-patologista para trabalhar naquele hospital. De acordo com perfil biográfico de Miraglia (2009, p. 62), Werneck “tinha grande admiração pela medicina alemã, pioneira no campo da obstetrícia”. A autora afirma que ele mantinha contato com vários amigos que moravam na Alemanha,
informava-se dos avanços da pesquisa médica germânica e importava de lá equipamentos hospitalares. Em 1917, no auge da agitação anti-germânica, ele atuou em defesa das freiras alemãs que havia contratado para trabalhar na Santa Casa e de padres também alemães que dirigiam o Colégio Arnaldo, em Belo Horizonte. Ainda segundo a autora, isso valeu a Werneck a pecha de germanófilo, aspecto registrado por Pedro Nava em suas memórias (Idem, p. 61-2).
No natal de 1910, o pesquisador do Tropeninstitut escreveu ao amigo: “Já deves estar impaciente com a demora na questão do anátomo-patologista. Em breve escrever-te-ei detalhadamente. A coisa é mais difícil do que parece. Estou em trato com o terceiro e último dos aceitáveis. Creio que este é bom...”232 O “terceiro e último dos aceitáveis” tratava-se do vienense Walter Haberfeld. Este exigia que sua esposa, também médica, também fosse contratada como sua auxiliar e usufruísse dos mesmos benefícios que ele, como moradia e alimentação gratuitas. Em abril de 1911, o pesquisador brasileiro firmou contrato com o casal austríaco, que desembarcou no Brasil em maio. Ele informou a Werneck que havia transmitido ao recém-contratado todas as recomendações, considerando, pois, sua tarefa concluída. “Creia que a fiz com muito prazer e sem o mínimo sacrifício, até mesmo com um certo entusiasmo natural, pois sempre tenho e tive grande prazer na medida das minhas forças, para aperfeiçoar as coisas no Brasil” escreveu. Porém, pediu para o amigo não culpá-lo, se Haberfeld não correspondesse às suas expectativas, pois o conhecia apenas através de cartas e recomendações. Sublinhou que não era fácil encontrar uma pessoa completamente apropriada “para um lugar como esse”.233
Werneck movimentou-se para cuidar da recepção do novo patologista no Rio de Janeiro, “para que ele comece a ter boa impressão na nossa terra”, acrescentou.234 Devido ao extravio da carta na qual Rocha Lima comunicava a partida do vienense, as coisas não saíram como planejado.235 O juízo que Werneck fez sobre Haberfeld não foi muito favorável. Em sua opinião, conhecia bem a anatomia patológica, mas não dominava da mesma forma os demais assuntos, não figurando como “o homem ideal de que precisava.” “Como todo estrangeiro, quer ser superior a tudo e a todos e faz de nosso país o pior dos conceitos”.236 Ao que tudo
232 Carta de Rocha Lima a Hugo Werneck de 25.12.1910. 233 Carta de Rocha Lima a Hugo Werneck de 12.04.1911. 234 Carta de Hugo Werneck a Rocha Lima s.d.
235 Carta de Hugo Werneck a Rocha Lima de 03.05.1911. 236 Carta de Hugo Werneck a Rocha Lima s.d.
indica, Haberfeld ficou satisfeito com o novo posto. Em novembro de 1911, Werneck comunicou a Rocha Lima que o austríaco pretendia reformar o contrato. Já havia pedido para vir um piano da Europa e mandado fazer novas roupas,237 um sinal de que pretendia prolongar sua estadia no Brasil, senão ficar aqui de forma permanente.
Em março de 1912 Haberfeld foi contratado como professor de anatomia e histologia patológicas da recém-criada Faculdade de Medicina de Belo Horizonte Werneck o substituiu no serviço de patologia da Santa Casa por Octavio de Magalhães, que havia frequentado Manguinhos e lhe fora indicado por Oswaldo Cruz. Ele confessou a Rocha Lima que estava satisfeito com a troca: “Entre o bluffista e indisciplinado vienense e o nosso patrício não há termo de comparação.”238 Apesar da maneira pouco lisonjeira com que via o austríaco, manifestou-se satisfeito com o serviço dele e da esposa. De qualquer forma – escreveu ao amigo em Hamburgo – estava adquirindo maior experiência no traquejo com os alemães, “que aqui no Brasil, de forma alguma devem ser tratados de igual para igual, sabem obedecer, mas precisam sentir sempre uma autoridade superior”,239 afirmou, em referência à uma proverbial característica atribuída aos indivíduos de origem germânica. Deduz-se de carta de Werneck de fevereiro de 1913, que o parecer levou Rocha Lima a defender de forma entusiasmada os alemães e seu modo de proceder. Disse discordar dos argumentos dele sobre as características daquele povo, mas acreditava que o Brasil lucraria muito de suas virtudes. “Mas na generalidade os alemães de importação, estes que vêm aqui como para uma colônia lidar com povos bárbaros, a conduta não poderá ser outra”, escreveu Werneck em defesa de seu ponto de vista.240 Quanto a Haberfeld, relatou, que além de professor contratado da nova escola médica, exercia a clínica e vendia as amostras que recebia das indústrias farmacêuticas alemãs. Ao referir-se ao vienense como “o judeu Haberfeld” Werneck reforçava a associação que, presente no imaginário sobre o povo judeu, com a ganância e avareza. Os estereótipos figuram como um recurso bastante utilizado pelo médico na formação de seus juízos sobre o “outro” com o qual agora convivia.
Em 1916, Walter Haberfeld transferiu-se para a Faculdade de Medicina de São Paulo, criada em 1912, onde também ocupou a cadeira de anatomia patológica. Quase paralelamente
237 Carta de Hugo Werneck a Rocha Lima de 14.11.1911.
238 Carta de Hugo Werneck a Rocha Lima de 24.11.1912. “Bluff” era a expressão proveniente da língua inglesa que, aportuguesada, daria origem a “blefe”. “Bluffista” corresponderia, dessa forma, a “blefador”, aquele que blefa, ou, mais especificamente, a ardiloso.
239 Idem.
à contratação dele, Rocha Lima foi mobilizado para intermediar a de outro anátomo- patologista, para a Faculdade de Medicina da Bahia. O pedido foi feito pelo médico baiano Manuel Pirajá da Silva em fevereiro de 1912, quando encontrava-se em Berlim. Eles já haviam estabelecido contato quando Pirajá visitou o Tropeninstitut entre março e junho de 1911. Salientava que um especialista em anatomia patológica, “ainda que não fosse dos mais reputados”, prestaria um grande serviço à escola médica de Salvador.241 Em agosto de 1912, o próprio diretor desta, Augusto Vianna, escreveu a Rocha Lima. Esclareceu as exigências e condições do convite. Não poderiam pagar mais de 1000 marcos. Arcariam com os custos da viagem e o contrato deveria durar de 6 meses a 2 anos, podendo ser prorrogado. O contratado poderia ministrar cursos particulares para complementar a renda. Suas atribuições incluiriam organizar um museu da patologia, fazer as autópsias, dar aulas a professores da Faculdade e fornecer os preparados obtidos para coleção. Deveria falar o francês. “Não é ainda o alemão muito bem conhecido entre nós”, sublinhou Vianna. “De referência à competência, confio em absoluto na escolha de V. Excia (...) bastando sua indicação como o melhor atestado que pode trazer o escolhido”, escreveu, outorgando plenos poderes ao pesquisador do Tropeninstitut, para contratar o professor, desde que observadas as condições indicadas.242
De carta de Augusto Vianna de 03 de dezembro de 1912, depreende-se que Rocha Lima estava encontrando enormes dificuldades para encontrar o profissional desejado. Um dos fatores complicadores era o salário, porque Vianna aumentou a oferta para 1.500 marcos. Os 2 mil sugeridos pelo pesquisador do Tropeninstitut não poderiam ser pagos.243 Mais uma vez, o diretor da escola médica de Salvador esclareceu as condições ligadas ao exercício do cargo e deixou ao critério de Rocha Lima a resolução dos detalhes. Em 21 de maio, desembarcou em Salvador o professor apontado por nosso personagem: John Miller. No dia seguinte, Vianna escreveu ao colega de Hamburgo, comunicando que já havia lavrado contrato com o novo professor de anatomia patológica.244 Ele foi cercado de todas as atenções por Pirajá da Silva, a quem Rocha Lima havia encarregado de acessorar o patologista alemão. Acomodou-lhe numa pensão alemã de Salvador. Conforme comunicou, logo iniciou o serviço de autópsias e as demonstrações práticas. Foi colocado a seu dispor um laboratório para cursos privados que ofereceria nos dias que não trabalhasse na escola. Ainda de acordo com Pirajá da Silva, a impressão despertada por Miller entre os membros da congregação da
241 Carta de Manuel Pirajá da Silva a Rocha Lima de 19.02.1912. Fundo Rocha Lima, CMIBSP 242 Carta de Augusto Vianna a Rocha Lima de 30.08.1912. Fundo Rocha Lima, CMIBSP 243 Carta de Augusto Vianna a Rocha Lima de 03.12.1912. Fundo Rocha Lima, CMIBSP 244 Carta de Augusto Vianna a Rocha Lima de 22.05.1913. Fundo Rocha Lima, CMIBSP
Faculdade fora positiva. Prometeu que atenderia ao desejo do colega de servir como um “guia” para o recém-chegado.245
Miller permaneceu em Salvador até outubro de 1913. No relato sobre a estadia dele, Pirajá da Silva informou a Rocha Lima que o patologista fora cercado de todas as facilidades na Faculdade de Medicina. Em contrapartida, aproveitou tanto quanto pode a curta missão. Do ponto de vista científico, ele havia correspondido às expectativas, tendo feito muitas autópsias e deixado mais de duzentas peças anátomo-patológicas para a coleção. Além disso, ministrara três cursos privados. O hóspede chegou a contrair malária em Itaparica, felizmente uma terçã benigna. Na avaliação de Pirajá da Silva, ele ficou satisfeito com a estadia, tendo falado em prorrogá-la. Já o médico baiano, nem tanto. Depois de ter prestado todos o serviços a Miller, “não teve ele para comigo a elevação moral e o reconhecimento que eram de esperar num cientista”, censurou. “Revelou-se eivado de sentimentos mesquinhos e de uma ingratidão a toda prova, causando estranheza aos nossos colegas”, emendou.246
Apesar de não termos reconstruído o percurso de Haberfeld e Miller no Brasil, os diálogos por eles estabelecidos e o impacto local de sua atuação profissional, a vinda deles consiste numa das primeiras ações tomadas por Rocha Lima, já como pesquisador do
Tropeninstitut, na promoção da aproximação do Brasil com a Alemanha. Ele encarou como um dever cívico a tarefa de auxiliar os colegas brasileiros na contratação de profissionais alemães. Esse tipo de ação envolvia uma série de contratempos e desconfortos, pois tinha de acomodar interesses de ambas as partes e traduzí-los de modo a dar um bom termo à negociação. Nos dois casos em questão, a contratação de pesquisadores alemães envolveu conflitos com as instâncias locais.
No sentido oposto, o reputado pediatra brasileiro Antônio Fernandes Figueira247 dirigiu-se a Rocha Lima, também no ano de 1912, pedindo que ele o auxiliasse na resolução
245 Carta de Manuel Pirajá da Silva a Rocha Lima de 27.05.1913. Fundo Rocha Lima, CMIBSP 246 Carta de Manuel Pirajá da Silva a Rocha Lima de 17.10.1913. Fundo Rocha Lima, CMIBSP
247 Nascido no Rio de Janeiro em 13 de junho de 1863, ingressou na Faculdade de Medicina da então capital federal em 1880. Trabalhou como clínico em Lage de Muriaé, no interior do estado do Rio, depois em Simão Pereira, próximo a Juiz de Fora. Nesse período publicou seu primeiro livro sobre pediatria, especialidade na qual ganharia projeção. Em 1895 publicou “Diagnóstico das cardiopatias infantis” e em 1900, “Elementos de semiologia infantil”, publicado em francês, que lhe conferiu prestígio internacional. Quando Oswaldo Cruz assumiu a direção da saúde pública, assumiu a enfermaria de crianças do Hospital São Sebastião. Em 1909 tornou-se diretor da Policlínica de Crianças da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, a qual breve transformou numa escola de pediatria. Dirigiu por dezessete anos a Sociedade Brasileira de Pediatria, criada em 1910. A convite de Carlos Chagas assumiu, em 1921, a chefia da Inspetoria de Higiene Infantil do Departamento Nacional de Saúde Pública. Na sua gestão foi erigido o Abrigo-Hospital Arthur Bernardes, atual Instituto
de questão científica à qual se dedicava à época. Ele não conhecia pessoalmente o pesquisador do Tropeninstitut. Encontrava-se em Berlim em junho de 1912. Havia levado preparados de pacientes com escorbuto e com a chamada doença de Möller-Barlow, caracterizada por perda de peso e dores ósseas. Figueira queria defender sua prioridade na comprovação de que esta síndrome na realidade era apenas uma manifestação do escorbuto, não se justificando sua existência autônoma.248 Como não tinha habilidades em histologia patológica, pediu que Rocha Lima observasse os preparados e indicasse um especialista que pudesse fazer o mesmo em Berlim. Pediu ainda que ele, “graças às suas relações e posição”249, obtivesse junto aos dois principais conhecedores do assunto, Fraenkel e Schmorl, preparados para comparar com os seus. Queria comprovar que o escorbuto era o mesmo em qualquer idade, Figueira procurou comprovar que o fator alimentar não era o único responsável pela doença. Ele apresentou de forma minuciosa seus argumentos a Rocha Lima. Afirmou que os resultados sobre esse aspecto não eram conclusivos.250 Procurou mobilizar o colega, apelando para seu sentimento nacionalista. “Nos próprios ‘Archiv’ verá como tenho necessidade de reclamar para nossa terra a prioridade nesta questão”.251
Ao ser mobilizado para atender às demandas de seus compatriotas, nosso personagem mantinha os vínculos com seu país de origem. Vamos agora analisar seu papel como intermediário entre esses dois mundos, num contexto em que a ligação entre eles foi comprometida por um conflito inaudito: a Primeira Guerra Mundial.