4. Material e método
4.1 Referencial teórico
O presente estudo é de campo, qualitativo, com desenho voltado à avaliação de atividade simulada, como prática educativa que pauta-se na teoria da Aprendizagem Experiencial. A abordagem qualitativa valoriza o universo de significados, aspirações, crenças, valores e atitudes dos sujeitos sociais, e é adequada quando se busca conhecer um determinado fenômeno por meio da experiência destes e dos sentidos que eles atribuem aos objetos e às ações sociais que desenvolvem (MINAYO, 2013).
Somando às proposições teóricas da estratégia de Simulação Realística, Kolb (1984) elucida a Teoria de Aprendizagem Experiencial, que pauta-se em pressupostos construtivistas, em que o processo e a estrutura da aprendizagem é definido a partir das experiências vivenciadas. Dessa maneira, a aprendizagem designa-se como o processo individual de crescimento, sendo codependente dos sentidos atribuídos às informações obtidas e às reflexões conscientes sobre o que ocorreu.
O processo reflexivo tem início a partir de um desencadeador desagradável ou de surpresa da prática cotidiana, que na simulação realística pode ser replicada de forma mais próxima à realidade. As ponderações advindas das vivências, ocorrem pautadas em situações ocorridas no passado, no presente ou no futuro, definindo possibilidade de modificações de ações indevidamente já efetuadas ou oportunidade de aprendizagem em experiências próximas (ERICE; PARDO; QUESTIER; LUJÁN, 2016; KRAKAUER; SANTOS; ALMEIDA, 2017).
Segundo Erice; Pardo; Questier e Luján (2016), a Aprendizagem Experiencial é pautada em alguns aspectos:
1) Conhecimento pessoal – subproduto das relações pessoais, adquirido de maneira não intencional;
2) Conhecimento da situação – resultado da interpretação das situações em que as pessoas se encontram e da capacidade de tomada de decisão;
3) Conhecimento da prática educativa – são as ações que os educadores elegem para promoverem o processo educacional, pautados nas vantagens, desvantagens e limitações de cada possibilidade;
4) Conhecimento do processo conceitual – refere-se a operacionalização da técnica optada e habilidades práticas para que seja efetuada;
5) Conhecimento de controle - inclui auto consciência, autogestão e delegação do tempo.
O pressuposto teórico da Aprendizagem Experiencial, traz o conhecimento como oriundo da transformação da experiência por meio da reflexão. Assim, permite a compreensão de que a formação deve ser contextualizada e aproximar a teoria às situações reais de cuidado. Nesse sentido, as estratégias de aprendizagem devem proporcionar interlocução entre a estrutura cognitiva, a ação, o sentimento e a percepção, enquanto que o processo de ensino constituir-se de aprendizagem por construção holística, que permita resolutividade de conflitos, levando em consideração as relações interpessoais e com o mundo (KOLB,1984).
O modelo da Aprendizagem Experiencial contempla quatro etapas, a experiência concreta, a observação reflexiva, a conceitualização abstrata e a experimentação ativa. À medida que as práticas educacionais estimuladas na Simulação Realística, movimentam-se no sentido de dar visibilidade aos conhecimentos prévios dos participantes, à participação e reflexão sobre o desenvolvimento do cenário, objetiva-se transformar reflexões em domínios cognitivos, usando teorias e raciocínio lógico para explicar os eventos; permitindo através da experimentação, aproximação à aprendizagem significativa e aprimoramento do poder de tomada de decisão.
A Teoria da Aprendizagem Experiencial atrela-se a conceitos Contrutivistas Humanistas em que se defende que o conhecimento é gradual, valorizando a estrutura cognitiva de quem aprende, os fatores sociais, sentimentos e ações que dão significado às experiências que os aprendizes vivenciam (VALADARES, 2011; DISTLER, 2015). Dessa forma, a aprendizagem acontece durante toda a trajetória de vida e deve respeitar espaços e tempos educativos que transcendem os espaços e tempos pedagógicos. Nesse sentido, a aprendizagem atrela-se à própria existência humana, uma vez que acontece ao longo de toda trajetória, tornando-se um mecanismo humano, em que um novo conhecimento relaciona-se a outro expressivo já existente no intelecto do aprendiz (ALVES; 2010; VALADARES, 2011; BALL, 2013; SIMPLÍCIO; NEVES, 2014; DISTLER, 2015).
4.2 Local de realização do estudo
O estudo foi realizado em três escolas públicas de educação infantil e fundamental I de um município do interior paulista, cuja população estimada é de 246.088 habitantes, dentro de uma área de 1137 km2 (IBGE, 2017). O município conta com 31 unidades de educação infantil e 10 unidades de ensino fundamental I (PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO CARLOS, 2010). Realizou-se mapeamento de todas as escolas públicas que atendiam educação infantil e ensino fundamental I do município, e selecionou-se aquelas com o maior número de alunos.
Duas das escolas localizavam-se em região de vulnerabilidade social do município em questão e atendiam alunos do 1ºano ao 5º ano e EJA totalizando cerca de 1260 alunos. A terceira escola localizava-se em bairro melhor desenvolvido do município e atendia cerca de 350 alunos de educação infantil, creche e pré-escola.
A intervenção educativa foi apresentada à pela secretaria municipal de educação e após análise da proposta, autorizada (APÊNDICE E). Os procedimentos para coleta de dados, seja coletivo (grupo focal) ou individual (entrevista estruturada) foram desenvolvidos no próprio ambiente escolar de atuação dos professores e durante o período de trabalho, mais especificamente em determinadas horas do trabalho pedagógico coletivo (HTPC) e de horas de trabalho pedagógico individual (HTPI), devidamente acordados com a direção da escola e com o professor.
4.3 Participantes da pesquisa
Durante os meses de agosto e novembro foi realizada atividade educativa baseada na simulação realística em três escolas distintas, juntamente a professores de educação básica. As datas que foram realizadas as intervenções foram definidas pelas próprias escolas, a depender de cronograma anual previamente pactuado. Nas três escolas elegidas foi feita primeira aproximação com a direção via fonada, a fim de agendamento de data para explicação do projeto aos professores.
Assim, foram concedidos alguns minutos do horário de trabalho pedagógico coletivo (HTPC) para primeira aproximação. Nessa ocasião, foi feito convite verbal, expondo o projeto e seus objetivos, e tivemos oportunidade de explicar aos professores a estratégia a ser realizada. Foi entregue convite impresso para cada professor (APÊNDICE A).
A participação na intervenção educativa foi voluntária, não sendo cobrado nenhum valor financeiro para os que aceitaram envolver-se com a pesquisa. Ainda no primeiro momento de aproximação, aos professores foi entregue Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), (APÊNDICE B) e de autorização de gravação de áudio (APENDICE C) em duas vias, para apreciação; e, para aqueles que aceitaram participar, foi disponibilizada uma via de cada termo.
Nesse momento, também foi entregue instrumento para preenchimento da caracterização dos professores, que continha dados de identificação dos profissionais - endereço, idade, formação, tempo de experiência profissional, estado marital, número de filhos e experiência prévia com intercorrências clinicas e traumáticas (APÊNDICE D). Dispôs-se da coleta de e-mail dos professores, para que fosse enviado material de estudo (pré briefing) prévio aos dias dos cenários simulados.
Considera-se que a totalidade dos participantes integrou a fase da simulação realística e do grupo focal, entretanto, somente 27 participantes (60%) participaram da entrevista individual. A oposição dos 19 professores deveu-se à falta de tempo e acúmulo de atividades letivas, enquanto que 2 dos professores, passaram contato não válido na ficha de caracterização e não foram encontrados em nenhum outro momento dentro do ambiente escolar.
Vale ressaltar que a pesquisadora deste projeto atuou em conjunto com a pesquisadora do projeto “Manejo das Intercorrências Clínicas e Traumáticas nas Escolas: contribuições de uma atividade educativa mediada pela simulação”
Simulação realística
•Foram realizados 4 cenários simulados replicados 16 vezes Grupos focais
•Foram realizados 4 grupos focais Entrevistas individuais
4.4 Coleta de dados
A coleta de dados foi realizada com 45 professores, adscritos à três escolas públicas de educação básica e fundamental de um município do interior paulista.
Em relação aos instrumentos selecionados para coleta de dados foram realizados 4 cenários simulados, replicados 16 vezes, quatro grupos focais e 27 entrevistas individuais (Diagrama I).
DIAGRAMA I: Operacionalização da coleta de dados, com professores da educação