Recorrendo novamente às diretrizes do NASF, temos como uma das atividades a serem desenvolvidas sob responsabilidade conjunta entre a equipe NASF e a equipe ESF, a realização de grupos.
O trabalho com grupos, que conta com a participação do NASF, se divide em duas modalidades: Grupos de Educação em Saúde, que se caracterizam por seu caráter pedagógico e informativo; e os Grupos Terapêuticos, que aparecem pouco nas diretrizes de atuação no NASF, nas quais subentende-se que os Grupos de Educação em Saúde compreendem em si um caráter “terapeutizante” por meio da elaboração de estratégias de enfrentamento, da ajuda mútua e do estímulo à cooperação, que transcendem o repasse de informações.
Os grupos são realizados no âmbito da atenção básica com objetivos de realizar "atendimento para escuta ativa de grupo de usuários que apresentam demanda comum, para problematização, sensibilização, informação e/ou esclarecimento sobre legislação e critérios de inclusão em projetos, programas e serviços sociais ou de saúde" (Ministério
84 da Saúde, 2009b). Desta forma se torna uma ferramenta potente para a ampliação do atendimento às demandas da população, o aprofundamento do contato com a comunidade, e o fortalecimento da atuação da equipe de referência junto aos usuários.
Destaca-se aqui, novamente, a importância da articulação da ENASF com a equipe SF, de forma coerente com a proposta de matriciamento. Diante da coordenação do cuidado pela equipe Saúde da Família, cabe à equipe NASF apoiar as equipes SF em um desenvolvimento integrado das atividades. É de responsabilidade conjunta das equipes NASF e SF a elaboração, estruturação e execução dos grupos (Ministério da Saúde, 2009b).
O que observamos nas entrevistas realizadas é a predominância de trabalhos unilaterais da equipe NASF no tocante a realização de grupos informativos e terapêuticos, nos quais o papel da equipe Saúde da Família se restringe à viabilização operacional e logística (agendar horários e locais para a realização dos grupos, assim como identificação da demanda e divulgação da atividade). Esta distribuição de responsabilidades desigual e desconexa entre as equipes para a realização dos grupos fica clara na fala do Psicólogo 6: “A atividade em si a gente planeja. Mas o cronograma, o local, é mais por conta das equipes [SF], que eles que veem qual é o melhor jeito, o melhor lugar”.
A desarticulação é marca na realização dos grupos, não só a falta de integração entre equipe NASF e equipe Saúde da Família, mas também pela falta de interação efetiva entre os profissionais da equipe NASF nesta atividade. Quando é dito que o grupo conta com a participação de mais de um profissional, o que observamos é uma divisão de tarefas entre as especialidades e não a discussão e planejamentos conjuntos de uma ação coesa que corrobore com os princípios da atenção integral à comunidade.
85 Novamente damos destaque ao caso do Psicólogo 5 que relata uma realização de grupos que se aproxima dos princípios técnicos-pedagógicos do apoio matricial que devem reger as atividades realizadas pelo NASF. No caso 5 nota-se que há a tentativa constante de integrar as equipes Saúde da Família na atividade de grupo, indo além, buscando (fiel ao caráter pedagógico da atuação do NASF) o estímulo à autonomia da equipe SF.
A gente cobra deles a participação. E na verdade, assim, a gente cobra que eles tenham iniciativa. A gente cobra que eles façam, que eles tenham a iniciativa, e que a gente some. Mas a responsabilidade de identificar a demanda, de trabalhar, de organizar, a gente cobra que seja deles. Quando a coisa não acontece, a gente tenta fazer, e depois passar pra eles (Psicólogo 5)
Ainda que a tentativa desta equipe NASF seja de fato um avanço em direção à atuação pretendida na missão do NASF, e potencializa a Atenção Básica pelo fortalecimento e capacitação das equipes Saúde da Família, notamos que há ainda empecilhos que se impõem a difusão deste modelo de atuação nas atividades dos grupos. O Psicólogo 5 cita a dificuldade em realizar tal atividade com a integração e corresponsabilização das equipes, diante da heterogeneidade das equipes SF. Assim como a articulação dentro da equipe NASF exerce forte influência no modelo de atuação que se constrói, a falta de articulação de algumas equipes Saúde da Família inviabiliza ou dificulta a comunicação e articulação com a comunidade e com a equipe NASF. Tal dificuldade será melhor explorada quando discutirmos os limites e desafios para a atuação do Psicólogo no NASF.
Sobre o papel do psicólogo na realização dos grupos observamos a dificuldade destes profissionais em compreenderem a si mesmos como parte de uma equipe
86 multiprofissional que deverá planejar e realizar a atividade do grupo de forma a integrar os conhecimentos, indo além da construção de palestras isoladas com conhecimentos complementares. Destaco esta peculiaridade da ação do psicólogo (sendo esta dificuldade não exclusiva deste profissional) pois notamos em suas falas a nítida baliza que a psicologia clínica tradicional coloca na definição do que seria “papel do psicólogo”, reproduzindo na atividade de grupos (aqui nomeados como Grupos Terapêuticos) estes limites que se colocam como muros que impedem ao psicólogo aproximar-se de tudo que não se enquadre em seus moldes pré-estabelecidos de atuação. É evidente na fala do Psicólogo 3 a falta de integração entre as especialidades no planejamento e execução dos grupos: “Porque assim, como psicóloga eu não vou falar sobre doenças, vou falar sobre autoestima”.
É importante ressaltar que a Psicologia, enquanto participante do processo de promoção de saúde, não pode manter-se indiferente às condições sociais, econômicas, familiares e comunitárias nas quais estão imersos os sujeitos de suas ações. É preciso incorporar à visão psicológica a compreensão de que “a experiência cotidiana de saúde necessita considerar diferentes aspectos das relações humanas: a história, a política, a economia, o preço do arroz, do feijão, da carne, ou mesmo como cozinhamos tudo isso...” (Zurba, 2011, pg.07).
Seria possível realizar uma atuação integrada na realização de grupos sem perder a preciosa contribuição das especialidades? O Psicólogo 5 exemplifica com sua atuação a possibilidade concreta de se fazer grupos (terapêuticos e informativos) com a real participação da equipe multidisciplinar. Ressaltando no decorrer de sua fala que busca “dar um pouco do olhar da psicologia” em sua atuação, ele indica que a realização dos
87 grupos ocorre de forma a articular e de fato integrar os conhecimentos das especialidades:
É, grupo terapêutico, mas não era R., psicólogo, que tocava, entendeu? Tinha o grupo de ansiedade, que o nutricionista ia, o terapeuta ocupacional ia, entendeu? Assim, acabava articulando, fazendo o planejamento, mas os outros profissionais participam o tempo todo, entendeu? (Psicólogo 5)
A participação do NASF na realização de grupos deve ocorrer sempre de forma a integrar os conhecimentos dos profissionais da equipe NASF, trazendo a interação entre as especialidades desde o planejamento à condução do grupo, e ainda manter a equipe de referência (Saúde da Família) como na responsável pela condução da atividade, sendo assim ainda uma ação de apoio matricial.