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Abordei em capítulo anterior o tema estágio. Naquela parte do trabalho afirmei que, das deficiências relativas aos estágios, uma das maiores era que esses geralmente estavam alocados no final dos cursos. Ou seja, nos Cursos de Licenciatura em Música, essa realidade ainda predomina: “[...] a ideia da construção curricular em que o aluno estuda as matérias "científicas" ao longo de todo o curso, para no final, "aplicá-las" na prática de ensino, o estágio. E ainda são poucas e recentes as propostas curriculares de formação de professores que superaram este modelo” (BEINEKE, 2001, p. 66).

As Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação inicial em nível superior dos cursos de licenciaturas (BRASIL, 2015c) trazem o seguinte texto sobre os estágios: “§ 6º O estágio curricular supervisionado é componente obrigatório da organização curricular das licenciaturas, sendo uma atividade específica intrinsecamente articulada com a prática e com as demais atividades de trabalho acadêmico” (p. 12). Portanto, instituem a obrigatoriedade, no entanto, não definem em que período do curso estes ocorrerão. Fica, destarte, a cargo das

instituições de ensino a forma e o período em que os estágios se realizarão. Assim, geralmente o

que acontece nas Licenciaturas é que as atividades de estágio acontecem do meio para o final do curso, ficando os anos iniciais da formação sem qualquer contato com a docência propriamente dita.

Sobre os estágios realizados na graduação em Música na UFCA, além do problema acima exposto, os egressos apontaram ainda outras deficiências. Para distingui-las, acrescentando às narrativas dos professores participantes desta pesquisa referentes a esse assunto, enriqueço também as reflexões com o texto produzido por Brito (2015) também egresso do mesmo curso, o qual publicou um capítulo “[...] apresentando o relato de nossas primeiras experiências de estágio com os alunos do curso de música-licenciatura da UFC42 Cariri” (p. 286).

Apesar de ser da mesma turma dos professores participantes desta pesquisa, Brito não integra este grupo, pois, ao tempo em que convidei esses colaboradores, ele não estava

atuando na Educação Básica – ainda que tenha sido aprovado em concurso para provimento de vagas de professor efetivo de Artes do Estado do Ceará, no ano de 2013. Outras possibilidades abriram-se para ele nessa época. Porém, como se percebe pela citação acima, Brito estagiou com todos esses professores, de que venho tratando. Especificamente em relação ao estágio, ele afirma,

O momento da regência foi, obviamente, o que trouxe à tona todos os problemas e inseguranças guardados até então. Nesse aspecto, concretiza-se a ideia de que um

dos grandes desafios desse período é a dificuldade dos estagiários superarem as situações conflituosas e imprevisíveis que se apresentam no contexto da sala de aula (BRITO, 2015, p. 292 – grifos nossos).

Creio que as dificuldades referidas por Brito encontram eco nas falas dos participantes do grupo desta pesquisa. Vejamos então, a seguir, o que dizem eles sobre as atividades de estágio.

Em primeiro lugar, os professores afirmaram que a fase de observação do estágio não foi, em nenhum momento, realizada em aulas de Música. Vejamos os depoimentos de Leonardo e Fernando:

Aí você entrava em aula pra assistir aula de matemática, pra assistir aula de português, sei lá. Aí ficava sempre você querendo mentir pra si mesmo, é “não, vamos analisar o contexto educacional”. Mas não é só isso. A gente tem que ver o ensino de música. Vá pra uma escola de música, vá pra sei lá, nem que seja uma escola privada, outras escolas, sei lá. Mas que você veja o ensino de música tutorial ou coletivo da forma que for, mas que você veja como é que se dá o ensino e a

aprendizagem de música, sabe? Eu sei que nós não tivemos a oportunidade de ver.

(Leonardo).

[...] até o nosso primeiro semestre assim, a própria observação não era em uma

aula de Arte, era em qualquer aula [...] então é complicado. (Fernando).

Neste passo, antes de emitir qualquer opinião, precisamos ponderar bastante. Não há como negar que realizar o estágio em disciplinas que não são as que você irá lecionar é um fato bastante negativo para a formação dos professores. Porém, sabe-se que não é em qualquer escola que encontramos o seguinte cenário: um professor, licenciado em Música, que esteja atuando em uma escola de Educação Básica, lotado na disciplina Arte e que ministre aulas de música a seus estudantes. Diga-se de passagem, isso é raro em algumas regiões. Portanto, as atividades de estágio já iniciam com essa deficiência. Segundo Figueiredo, Soares e Schambeck:

A presença do professor supervisor da área de música nas escolas, que poderia ser considerada situação ideal para o campo de estágio, não ocorre em diversos contextos educacionais brasileiros. A informação dos coordenadores sobre a

possibilidade dos alunos realizarem seus estágios em contextos onde não há professor especialista em música revela, de certa forma, que muitas escolas não possuem educadores musicais em seu quadro docente sendo, então, permitida a prática de estágio sem esta supervisão (FIGUEIREDO; SOARES; SCHAMBECK, 2014, p. 55).

Felizmente, algumas cidades do Brasil já contam com professores de música na Educação Básica. É o caso de João Pessoa, Porto Alegre, entre outras, as quais já contavam com professores de Música em suas escolas, mesmo antes da Lei 11.769/08. Portanto, esses municípios já conseguiram, há bastante tempo, reverter esta situação. Porém, se pensarmos especificamente em Juazeiro do Norte, município onde a Licenciatura em Música da UFCA está localizada, vislumbramos a situação descrita acima pelos autores, ou seja a presença do professor licenciado em Música atuando nas escolas é bem incomum. Ao realizar pesquisa junto aos professores de Arte do Ensino Médio em Juazeiro do Norte, quando fazia meu curso de Mestrado, cheguei à seguinte conclusão:

Finalmente, o dado mais importante da tabela para essa pesquisa é que não há

nenhum professor com formação na área de Arte [...] Creio que um dos fatores

que gerou essa realidade foi a inexistência, por longos anos, de cursos superiores na área de Artes na região do Cariri. (AZEVÊDO, 2013, p. 53 – grifos nossos)

Não satisfeita com a descoberta, tinha ainda esperança de que, apesar de não possuírem formação superior em Artes, ao menos tivessem algum conhecimento da área de Música para trabalhar com os estudantes. O resultado é que apenas um dos quarenta e três professores consultados afirmou ter conhecimentos musicais:

O fato de apenas um professor compreender a Música em sua estrutura me assustou bastante, pois a grande maioria dos professores participantes da pesquisa se

mostrou alheia ao conhecimento musical, sendo assim, como esses professores

abordarão a Música em suas aulas de Arte? (Ibidem, p. 54 – grifos nossos)

O que parece é que o grupo de professores participantes desta pesquisa pode ter sido a primeira leva de profissionais que chegou às escolas como docentes devidamente habilitados para trabalhar música nessas instituições. São, portanto, a vanguarda de professores que inicia esse trabalho neste município. Essa afirmativa, suponho, pode ser, inclusive, estendida a toda a região caririense. Esses ex-estagiários, os quais não tiveram a oportunidade de realizar seus estágios em aulas de Música, mas que hoje atuam como docentes de Música em escolas de Educação Básica, atualmente podem ser considerados referência para os futuros estagiários da Licenciatura em Música da UFCA.

Ao reconhecer essa falha no estágio, não tento justificar ou minimizar o prejuízo que eles sofreram por terem que, como futuros professores de Música, estagiar em aulas de disciplinas alheias ao curso que faziam. É pacífica, julgo, a necessidade de haver um esforço a fim de que esse tipo de realidade seja mudada, para as futuras turmas. Mesmo se contarmos como provável local de estágio, apenas as escolas onde os egressos hoje atuam, tais espaços serão insuficientes para atender a todos os estagiários. É imperativo pensar em outras alternativas de local para estágio, a fim de que os estudantes vivenciem de fato a aula de Música nas escolas. Em sua citação acima, o próprio professor Leonardo já oferece sugestões, sugerindo que as escolas particulares podem ser um possível local para observação de aulas de Música.

Os professores ainda afirmam que, por ocasião da regência, as atividades não aconteciam no formato da aula normal da Educação Básica, mas sim, em oficinas. Segundo Fernando,

[...] quando a gente foi começar os estágios, que aí aonde eu acho que foi um ponto negativo. Essa questão de a parte prática do estágio não ser realmente dentro da sala de aula e sim mais oficinas. Isso aí prejudicou muito. Isso aí é que deixou a desejar mesmo porque, de certa forma, as aulas que a gente ia ministrar eram oficinas [...] Mas, para dar aula mesmo é... A realidade de sala de aula é diferente, não é? A aula lá de 50 minutos é outra coisa, não é? Se o estágio fosse dentro da sala de aula, na aula normal em si, teria sido bem mais proveitoso porque a gente estaria mais preparado para trabalhar em sala de aula. (Fernando).

De fato, a configuração de uma aula na Educação Básica é muitíssimo diferente de como se processa uma oficina de Música. Esta geralmente conta com menos estudantes (frequentemente comparecem apenas aqueles que tem mais interesse), há mais tempo para o desenvolvimento das atividades, e, finalmente, o local destinado para as oficinas não é o da sala de aula, propiciando maior riqueza de organização e utilização de espaços.

Por outro lado, a aula regular no Ensino Básico tem outras características. Primeiro, os espaços: repleto de carteiras dos estudantes, birô do professor, cadeira do professor, lixeiro, mochilas a valer, ventilador de teto (em geral pouco silencioso), gente passando em frente das salas, barulho de sobra, sem contar que com frequência aparece alguém para dar algum aviso bem no meio da aula. E o tempo? Cinquenta minutos que, no final, muitas vezes, se transformam em vinte. Segundo Sales (2015), “[...] em geral, nas escolas observadas no Estado do Ceará, o que também representa uma tendência nacional, o tempo curricular

destinado semanalmente a ela [aula de Arte] é muito restrito” (p. 192 – grifos nossos). A questão tempo dentro da aula regular é bem percebida na narrativa de Leonardo:

[...] a questão do tempo de aula é muito curto. Tem escola que a aula é quarenta e cinco minutos. É complicado. Às vezes você chega, os violões estão todos desafinados, aí você tem que passar a aula todinha afinando. Termina de afinar os

violões aí, sei lá, “comeu” vinte minutos da aula. (Leonardo – grifos nossos). Como, então, adquirir o jogo de cintura necessário para atuar nas condições acima descritas, se, na verdade, os licenciandos estagiaram ministrando oficinas? O ritmo da sala de aula é bem diferente, e, para se adaptar a ele, só passando por ele.

Além da regência ter sido em forma de oficinas, os professores ainda afirmaram que ela era ministrada por um grupo de estagiários. Os participantes confessaram que, na época do estágio, foi bem mais confortável trabalhar em grupo. Segundo Marcela e Cecília,

No período do Estágio, que foi onde a gente teve a oportunidade de colocar em prática o que a gente tinha aprendido durante o curso e de vivenciar a realidade da sala de aula, embora tenha sido em equipe. Assim, eu achei uma boa ideia no início, porque a gente vai com muito medo pra o estágio e tendo com quem compartilhar, com quem trocar ideia, com quem dividir aquele medo é bom. Então para aquele momento eu achei interessante. (Marcela)

O estágio como era de maneira coletiva, a gente sempre esperava dos alunos que

tinham mais experiência. (Cecília – grifos nossos).

Porém, ao saírem da faculdade e se encontrarem sozinhos na sala de aula, tendo que gerenciar tudo, sem apoio de ninguém, passaram a considerar esse formato adotado no estágio como algo a ser repensado.

Mas aí quando a gente sai, a gente não trabalha de equipe. A gente trabalha sozinho. Não foi cem por cento, porque a experiência quando a gente sai, a gente vive sozinho [...] mas, que o aluno também tivesse a oportunidade de trabalhar

sozinho porque aí cria mais independência pra isso. (Marcela – grifos nossos).

A última observação que os professores fizeram em relação ao estágio pode ser percebida na fala de Cecília: “eu acho também que é porque nossa orientadora de estágio,

ela não é professora de música [...] teve essa deficiência também.” (Cecília – grifos nossos). Acredito que esse é o ponto mais sensível abordado até aqui. Ora, se temos no corpo docente do Curso de Música, um membro que não é da área de Música, sem dúvida, este não está ali por engano. É evidente que o processo seletivo daquele membro respeitou os parâmetros legais: surgimento da vaga, abertura do edital, concurso, avaliação de uma banca, etc. A respeito disso, não restam dúvidas. A questão é que para orientar estagiários a dar aula de Música sem ser professor de Música é muito difícil. A situação aqui é a de esperar que um professor de uma área tenha desenvoltura suficiente, a ponto de ensinar algo que simplesmente pertence à área totalmente diversa de sua formação.

Aqui cabe também a certeza de que não é apenas necessário ser professor de Música para bem orientar estagiários em Música. Esse professor, além de ser da área de Música, precisa ter o perfil adequado para abarcar essa demanda. Geralmente, deve ser aquele que conhece as atividades a serem realizadas nas diferentes etapas da Educação Básica, que já tenha tido contato com os materiais necessários para o que se pretende realizar, conhece a fundo a realidade que os futuros professores vão encarar, ou mesmo que já tenha, ele mesmo, vivenciado o ensino na Educação Básica.

Concluindo esta seção, que tratou especificamente dos estágios, destaco que vários professores apontaram deficiências nesta fase do curso. As que mais chamaram a atenção foram: a fase da observação não ocorria em aulas de Música, mas em aulas de Português, Matemática, etc.; na época da regência, em vez de ministrarem aulas no formato da escola regular, os estagiários deram oficinas, e, portanto, afastaram-se da realidade que enfrentariam posteriormente; mesmo nas oficinas, os estagiários ministravam as aulas em grupo, prejudicando, com isso, sua futura autonomia em sala de aula; por último, os egressos alegaram que, devido sua orientadora não ser da área de Música, não tiveram o proveito necessário na atividade.