CHAPTER 3: RESEARCH METHODOLOGY
3.4 F IRST GROUP OF INFORMANTS : T RADITIONAL JOURNALISTS
Esta pesquisa consistiu em compreender, a partir das narrativas dos egressos, como a formação adquirida no Curso de Licenciatura em Música da UFCA se relacionava com a docência no Ensino Básico, observando a formação musicológica e a formação pedagógica proposta por esta instituição, parâmetros que se mostraram fundamentais para a feitura deste trabalho.
Desde a publicação da Lei n. 11.769/08 (BRASIL, 2008a), que tornou obrigatório o ensino do conteúdo Música nas aulas de Arte de todas as escolas de Ensino Básico do Brasil e, posteriormente, o advento da Lei 13.278/2016 (BRASIL, 2016b), a qual determina que não só a Música, mas também as outras linguagens artísticas (as Artes Visuais, a Dança e o Teatro) devem ser consideradas conteúdos obrigatórios nas aulas de Arte, tratando inclusive da formação de professores para tanto, a comunidade ligada à Educação Musical tem se voltado para o ensino de Música nesses espaços. A formação de professores de Música para esse nível de ensino foi, portanto, o tema escolhido para este estudo.
Nos anos 2012 e 2013, época em que essa pesquisa ainda estava em sua etapa embrionária, outros trabalhos investigativos levados a efeito no Cariri, região onde a mesma se realizou, mostravam que o ensino de Música na maioria das escolas de Ensino Básico era incipiente por aqui. Portanto, a necessidade de professores habilitados para que o ensino de Música realmente ocorresse dentro daquelas escolas era patente.
Com a chegada do Curso de Licenciatura em Música na Universidade Federal do Cariri (UFCA) em 2010, na época ainda campus avançado da Universidade Federal do Ceará (UFC), surgia a possibilidade de sanar essa deficiência por meio da formação de professores de Música para atuação naquelas escolas. Segundo o projeto de implantação daquele curso, a formação dos futuros professores de Música deveria ser voltada principalmente para a docência na Educação Básica. Em 2017, esse curso já havia formado sua quarta turma.
Com esse cenário estabelecido, instava que se avaliasse como se dava a formação naquela instituição e até que ponto ela se adequava, ou não, ao ensino de Música nas Escolas de Educação Básica. Para tanto, a pergunta que o presente trabalho buscou responder foi a seguinte: a partir das narrativas dos egressos, de que maneira a formação do Curso de Licenciatura em Música da Universidade Federal do Cariri (UFCA) dialoga com os saberes
musicais e pedagógicos necessários à atuação docente na Educação Básica? Esse trabalho versou, portanto, sobre o tema formação de professores de Música para a Educação Básica e vários outros subtemas que a ele se interligavam.
Como docente do Curso de Licenciatura em Música da UFCA desde seu início e já tendo atuado como professora de Música na Educação Básica por seis anos, era natural que eu tivesse, como tenho, interesse especial por esses dois ambientes de ensino. No âmbito pessoal, há muito desejava realizar o estudo que aqui se desenvolveu, como uma forma de buscar estabelecer um diálogo entre a Universidade e as Escolas de Educação Básica. Na verdade, até certo ponto, era como se estivesse tentando resgatar e integrar dois momentos distintos de minha vida docente.
Com esse intuito, voltei meu olhar para a figura do professor, suas ações, seus conhecimentos, suas intervenções, sua reflexividade, com o alvo de conhecer que saberes se encontravam nos fundamentos da ação de cada docente participante desta pesquisa. Por meio da metodologia de pesquisa baseada na História de Vida desses professores, na procura por essa humanidade partilhada, realizei este trabalho, baseando-me na importância que cada narrativa expressava, na constante busca da construção de uma identidade singular-plural, essa, portanto, presente em todos nós. Para tanto, busquei ouvir os próprios professores em relação aos conhecimentos realmente por eles utilizados em suas práticas, com vistas a refletir sobre a formação docente por eles adquirida na UFCA e a realidade das salas de aula em que os mesmos atuavam. A partir dessa vivência, confirmei a necessidade de se estabelecer um diálogo mais frequente com os professores no sentido de compreender como se dava a relação entre a formação obtida no Curso de Licenciaturas em Música da UFCA, local instituído para o ensino de Música – e consequentemente para a formação de professores nesta área – e a atuação docente nas escolas.
Foi nessa procura que, nos anos de 2015 a 2016, realizei a pesquisa de campo com um grupo de nove egressos do Curso de Licenciatura em Música da UFCA. Todos eles estavam, pelo menos naquela época, atuando como professores de Música em várias escolas de Educação Básica, foco deste trabalho. A partir das narrativas orais e escritas dos participantes foi possível chegar às conclusões sobre as quais discorro abaixo.
Uma das metas desta pesquisa era investigar que saberes musicais e pedagógicos eram mobilizados pelos egressos do curso de Licenciatura em Música da UFCA em suas práticas pedagógicas na Educação Básica. Em relação a esse ponto, percebi que vários professores consideravam os conhecimentos pedagógicos como algo sempre presente e necessário em
suas práticas. Na verdade, eles apontaram esses tipos de saberes como primordiais. Repetidas vezes, em suas falas, os docentes afirmaram que, na Educação Básica, fazem mais uso das habilidades pedagógicas do que das musicais.
Em relação aos conhecimentos musicológicos usados pelos professores na docência da Educação Básica, observei que os docentes os reúnem em dois grupos principais. No primeiro grupo, encontram-se os conhecimentos que se apresentam como suporte para a ação do professor, mas que não eram conteúdos escolares, por assim dizer, ou seja, não eram ensinados aos estudantes. É o caso dos conhecimentos referentes à Análise e Harmonia, por exemplo. No outro grupo, por eles referido, estão os conhecimentos relativos às atividades que realizavam com seus educandos em sala de aula. Esses conhecimentos relacionavam-se com as seguintes atividades: Apreciação Musical; Canto Coral; Construção de Instrumentos; Flauta Doce; História da Música; Percussão; Percussão Corporal; Regência; Percepção e Solfejo; Técnica Vocal; Teoria; Violão.
Entre as atividades acima listadas, constatei que as mais citadas pelos professores eram o Canto Coral e as aulas de História da Música. Essa dupla estava presente em quase todos os planejamentos daqueles professores. Observei também que, apesar das inúmeras dificuldades apontadas pelos docentes, o ensino de instrumento surgiu como uma possibilidade de inserção do ensino de Música nas escolas de Ensino Básico. Encontrei, portanto, professores ministrando aulas de Flauta Doce, Percussão e Violão.
Outra intenção desta pesquisa era descrever onde haviam sido adquiridas as competências musicais e pedagógicas acionadas pelos egressos durante sua atuação na Educação Básica. Focando esse aspecto, apurei que o grupo de professores participantes da pesquisa havia obtido os conhecimentos que afirmavam utilizar em oportunidades e condições diversas. Em relação a esse aspecto, detectei que um grupo de professores já iniciou o curso de Licenciatura em Música com uma bagagem considerável de conhecimentos musicais. Esses foram obtidos por meio do estudo individual de instrumentos, através da participação em grupos musicais, como bandas, por exemplo, e também pela frequência a cursos de formação em Música, como festivais e oficinas. Tais professores afirmaram ter obtido também conhecimentos na graduação. No entanto, a bagagem adquirida na graduação se apresentou como forma de reorganização e, por vezes, correção dos conhecimentos alcançados anteriormente.
O outro grupo de professores, no qual estava a maioria dos participantes, era constituído por aqueles que, até o ingresso na universidade, não possuíam conhecimentos
sistematizados em Música. Esses, portanto, iniciaram seus estudos musicais na universidade. Dada a ausência do Teste de Habilidade Específica (THE) na Licenciatura em Música da UFCA, esse perfil de licenciando é bastante comum no curso. A partir disto, atestei que, para a maior parte daqueles professores, o curso de Licenciatura em Música da UFCA figurava como o principal local de formação musical por eles frequentado até então, ocupando o lugar como instituição de formação mais apontada pelos docentes participantes. Aproveito então para ressaltar a importância da chegada deste curso na região do Cariri.
Verifiquei, ainda em relação a esse ponto, que os professores indicavam suas próprias salas de aula como local de obtenção de saberes. Ou seja, a partir de suas vivências nas escolas eles adquiriam novos conhecimentos. Nesse aspecto, os professores afirmaram ser, para eles, a prática docente uma nova escola de formação, apontando assim uma valorização dos saberes provenientes da experiência.
Esse trabalho se propunha ainda a refletir sobre a adequabilidade do currículo do Curso de Licenciatura em Música da UFCA frente à atuação de seus egressos nas escolas de Ensino Básico. Para tanto, determinei como fio condutor deste trabalho uma reflexão sobre os parâmetros musicológico e pedagógico seguidos pela instituição. Para melhor compreensão, prefiro considerá-los separadamente a seguir.
Em relação ao parâmetro musicológico, observei que os professores valoravam como muito positiva a formação musical que haviam obtido durante os anos na graduação. Segundo os mesmos, as disciplinas de caráter estritamente musical como Prática Instrumental, Canto Coral, Percepção e Solfejo, Técnica Vocal, Harmonia e Análise Musical deram o embasamento musical necessário para o que hoje necessitam na vida docente.
Ainda em relação ao parâmetro musicológico, cabia verificar como esse se apresentava frente ao Paradigma Conservatorial, temática abordada em um dos capítulos deste trabalho. Segundo os professores participantes, o Curso de Música da UFCA, salvo algumas exceções, não era marcado pela presença dominante de um Paradigma Conservatorial. Detectei, por meio das contribuições de cada um, a percepção de um equilíbrio entre a chamada música erudita e as “outras músicas”. Portanto, verifiquei que, nesta instituição de ensino de Música, convivem sem conflito W. A. Mozart e José Domingos de Moraes (Dominguinhos), Richard Wagner e José Silva Gomes Filho (Jackson do Pandeiro), L. V. Beethoven e Severino Dias de Oliveira (Sivuca). Quanto a esse aspecto, os professores afirmaram que sua formação musicológica os tornou aptos a transitarem pelo mais variados
ambientes musicais e por isso a consideram apropriada às demandas da profissão de professor de Música.
Em relação ao paradigma pedagógico, constatei que esse era marcado por algumas deficiências. Ao tratar essa temática, concluí que, considerando alguns aspectos, nem sempre a formação pedagógica construída na Licenciatura em Música da UFCA era a mais adequada para a atuação nas escolas de Ensino Básico. Percebi certo pessimismo por parte dos professores no que concerne a esse aspecto. Havia, segundo os mesmos, desequilíbrio entre o paradigma pedagógico e o paradigma musicológico naquela instituição formadora de professores de Música. A seguir, exponho os motivos apontados pelos professores para que essa situação assim se apresentasse.
Primeiramente, observei que os professores apontavam como algo negativo a falta de conexão entre as disciplinas pedagógicas e o ensino de Música propriamente dito. Apesar de perceber, da parte deles, uma grande estima por aquelas disciplinas, esses docentes não consideravam os conteúdos apreendidos nas mesmas como algo relevante para sua prática. Segundo os professores, seria bem mais proveitoso se essas disciplinas fossem relacionadas, de alguma forma, com o ensino de Música. Ou seja, que essas interligassem as questões pedagógicas com as musicais. Portanto, neste aspecto, há uma lacuna a ser suprida. Segundo os professores, para que essa situação se implantasse, expressiva colaboração era dada pela composição do corpo docente daquela Licenciatura, no qual havia professores sem habilitação em Música, os quais eram responsáveis pelas disciplinas pedagógicas do curso, promovendo um substancial distanciamento entre as disciplinas pedagógicas e as necessidades da sala de aula. Desta forma, as disciplinas de cunho pedagógico não se aproximavam do ensino de Música, sendo apontadas pelos professores participantes como algo bem distante do ensino de Música nas escolas.
Em segundo lugar, os professores levantaram alguns senões em relação às atividades de Estágio. Segundo eles, o fato de realizarem a fase de observação dos Estágios em aulas de disciplinas alheias à Música (aulas de Matemática, Biologia, etc.), foi bastante prejudicial. Isso se deu devido ao fato de não haver, naquela época, professores de Música atuando nas escolas, os quais poderiam se configurar como possíveis locais de realização da fase de observação dos estágios. Ao que os professores participantes afirmaram ser necessário pensar em espaços alternativos para realização desta fase do estágio: escolas de música ou mesmo as escolas particulares foram apontadas pelos docentes como possibilidade de sanar esta lacuna. Os professores afirmaram ainda que, durante a regência, ao invés de ministrarem aulas,
realizavam oficinas, e isso privou-lhes da oportunidade de experimentar a dinâmica real de uma sala de aula. Ainda em relação à regência, os professores apontaram negativamente o fato de ministrarem as oficinas junto com outros estagiários. Segundo os mesmos, essa docência coletiva enfraqueceu a autonomia deles para enfrentarem, sozinhos, uma sala de aula real. Finalmente, os professores concluíram suas observações em relação ao estágio afirmando que o fato de não poderem contar com um orientador que fosse da área de Música prejudicou bastante o aproveitamento das atividades.
Ainda fazendo referência ao parâmetro pedagógico, os professores afirmaram que, no Curso de Licenciatura em Música da UFCA, há pouca orientação quanto à forma de trabalhar com os educandos da Educação Infantil e da Educação Especial. Segundo os mesmos, essa é uma deficiência que precisa ser sanada, dada, atualmente, a grande demanda de trabalho envolvendo esses dois públicos.
Em relação aos aspectos tratados acima, afirmo a importância da promoção do equilíbrio entre esses dois lados fundamentais da formação docente: a formação pedagógica e a formação específica. É certo que para ser professor de Música, portanto, não é suficiente somente saber ensinar música, mas também saber música, ser fluente musicalmente falando. Saberes musicológicos e pedagógicos são, destarte, imprescindíveis. No entanto, observei que nem sempre isso era o que acontecia na UFCA. Ao que parece, neste curso de formação, o conhecimento específico (parâmetro musicológico) geralmente se sobrepunha ao conhecimento pedagógico (parâmetro pedagógico). Portanto, detectei que havia uma maior valorização do ensino de Música, propriamente dito, e um trato um tanto superficial dado à abordagem dos conhecimentos pedagógicos neste curso.
A partir de todas as observações expostas acima, concluo que as relações estabelecidas entre a formação proposta pelo Curso de Licenciatura em Música da UFCA e a docência no Ensino Básico apresentam-se de forma discrepante, quando observados os parâmetros musicológico e pedagógico, os quais foram estabelecidos como referencial de análise.
Por um lado, atestei que a formação musicológica, conduzida pelo Curso de Música da UFCA, quando consideramos os conhecimentos musicais necessários à atuação de seus egressos nas escolas de Educação Básica, foi tida como adequada pelos participantes. Por outro lado, verifiquei que, a formação pedagógica desenvolvida nesta instituição era marcada por deficiências que precisam ser superadas. Isto é crucial, visto que os professores participantes apontaram os conhecimentos pedagógicos como prioridade na docência. Sem dúvida, é necessário rever os pontos negativos mostrados pelos professores participantes em
relação ao parâmetro pedagógico, a fim de que esse possa estabelecer um diálogo mais próximo entre a formação adquirida na Licenciatura em Música da UFCA e a docência na Educação Básica.
Finalizando esta jornada, afirmo o meu desejo de que o trabalho aqui realizado possa contribuir para as reflexões referentes à formação proposta pelo Curso de Licenciatura em Música da UFCA. Neste sentido, espero que todo o esforço aqui despendido venha a colaborar com esta instituição, no intuito de assegurar à mesma uma proposta de formação cada vez mais adequada ao que ela mesma se propõe realizar: formar professores de Música.
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