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O livro História do Brasil para crianças (1934) é de autoria do escritor maranhense Viriato Corrêa (1884-1967), como já vimos anteriormente. Viriato não foi professor de História na escola primária ou secundária, nem tampouco membro do IHGB. O que o levou, então, a escrever um livro de História do Brasil dedicado ao universo infanto-juvenil? Em entrevistas concedidas aos jornais do Rio de Janeiro, Viriato fez algumas afirmações importantes que podem responder a essa questão:

Quando criança – narra o escritor – senti grande dificuldade em aprender e não achava o mínimo interesse na História do Brasil. Adulto, comecei a meditar que todas as crianças teriam essas mesmas dificuldades, e comecei a pensar num meio de fazer a História prender a atenção dos pequenos estudantes. Por que teria que ser sempre cacete, enfadonha, dura de entrar na cabeça da gente?

Decidiu, então, “fazer uma História do Brasil para todo mundo entender” e andava bolando idéias, quando recebeu uma carta do Professor Paulo Maranhão, “líder do

ensino no Brasil, que me reclamava, justamente, uma História do Brasil para crianças, achando que eu era o homem talhado para fazê-la”.

– Eu, que vivo muito de estímulo alheio – comenta o escritor – lancei-me à obra, inebriado pelo trabalho. Anísio Teixeira tem razão quando diz que o livro foi feito ‘sob figurino’. Assim foi, com efeito: cada capítulo escrito era passado às mãos de uma jovem professora da Escola José de Alencar, que ia lendo em classe, para os seus alunos, quando escrevi. Dessa forma, o livro foi sendo criticado pelo seu pequeno público, à medida que era feito [...]

Diante do sucesso da História do Brasil para crianças, Monteiro Lobato afirmou que Viriato Corrêa havia ‘ensinado o caminho, vaticinando que teria muitos seguidores’. O livro, contudo, lançado em 1934, ‘continua o único no gênero’.108

(“O Jornal”, Rio de Janeiro, 17.12.1960, grifo nosso).

O texto acima me permite fazer algumas ilações. A primeira delas refere-se às práticas pedagógicas do ensino de História existentes na maioria das escolas à época em que o livro foi escrito (década de 1930). Segundo Viriato, as aulas de História não conseguiam prender a

108

Na mesma linha de História do Brasil para crianças e, devido ao seu sucesso junto ao público infanto- juvenil, Viriato Corrêa pretendia também escrever um livro em que contaria a história da literatura para as crianças: “Mas Viriato não pára. Continua estudando, escrevendo pesquisando a alma humana; está

preparando uma História da Literatura para as crianças, continua amando suas crianças e admirando o Rio de Janeiro, a sua cidade, sua do coração” (A cidade e seus autores, O Globo, Rio de Janeiro, 06.02.1965). No

entanto, seu último livro publicado foi História da Liberdade no Brasil, de 1962, editado pela Civilização Brasileira e que teve uma segunda edição em parceria com o Instituto Nacional do Livro (INL), em 1974.

atenção dos alunos, por serem monótonas e enfadonhas. Certamente, o ensino da disciplina estava pautado na memorização de “datas-fatos-nomes” que levavam os alunos a “quebrarem a cabeça” para serem aprovados nos exames escolares. Ele mesmo afirma que, quando criança, não gostava de História e, quando adulto, decidiu “fazer uma História do Brasil para todo mundo entender”.

Ainda segundo o depoimento do autor, o principal dado do processo de produção refere-se ao modo sui generis de sua elaboração, em se tratando de uma obra infantil. Os capítulos escritos por Corrêa foram testados por alunos da Escola José de Alencar, no Rio de Janeiro, com o auxílio de uma professora para, a partir das críticas das próprias crianças, o livro ser aprimorado até sua publicação pela Companhia Editora Nacional.

Outro aspecto importante é a menção feita a dois nomes ligados ao movimento escolanovista, Paulo Maranhão e Anísio Teixeira109, o que bem demonstra que o autor tinha interlocução com esses educadores e com o pensamento de renovação educacional que eles representavam naquele momento da história do País. Embora Viriato não tenha aprofundado a questão metodológica do ensino de História, por não ser pedagogo, viu-se sensibilizado pelas propostas de renovação do ideário escolanovista, e a aceitação da obra por Anísio Teixeira – à época o principal dirigente da Educação, na cidade do Rio de Janeiro, então Distrito Federal – revela a afinidade do autor com a percepção da importância de despertar na criança o interesse pelo estudo. Foi uma obra destinada ao público infantil, que poderia agora aprender História, mesmo sem a mediação do professor.

Há, ainda, no livro, como reconhecimento ao incentivo recebido, a dedicatória ao educador Paulo de Albuquerque Maranhão110 que, segundo Viriato, foi quem o convenceu a escrever a história pátria para crianças.

109

Anísio Teixeira teve um papel destacado na história da educação brasileira, como um dos principais nomes ligados ao movimento da Escola Nova e por ter implementado a reforma de educação do Distrito Federal, no período de 1931 a 1935.

110

Paulo de Albuquerque Maranhão foi um dos signatários do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova no Brasil, em 1932 e fazia parte do grupo dirigido por Anísio Teixeira na gestão da instrução pública do Distrito Federal.

A Paulo de Albuquerque Maranhão,

A sua carta, impondo-me a obrigação de escrever a história pátria para crianças, meteu-me em brios para realizar este livro.

É a você que ele pertence, a você que teve a coragem louca de acreditar que eu era capaz de realizá-lo.

Rio – agosto – 1934 (CORRÊA, 1944, p. 5).

O livro traz também uma pequena carta do escritor e historiador Rodolfo Garcia, que tece elogios à obra:

Meu caro Viriato Corrêa,

Devolvo os originais de tua História do Brasil. Se eu ainda fosse professor, ganharias uma nota ótima. Com o método adotado, conseguiste fazer um livro magnífico, não só para crianças, como ainda para a gente grande.

Deves ter ouvido muitas vezes, como eu, de ilustres cavalheiros a cândida declaração de que não gostam da História do Brasil, porque é matéria árida e desinteressante: por isso, deixam-na de lado, não a estudam, não a sabem.

À semelhança do que fizeste com as crianças, devias ter dedicado também teu livro a esses cavalheiros. Porque, estou certo que o leriam com muito prazer e sobretudo proveito.

Dispõe sempre do velho amigo e confrade.

RODOLFO GARCIA (CORRÊA, 1944, p. 7, grifo nosso).

Ao transcrever a carta elogiosa de Rodolfo Garcia111, o autor/editor utilizou-se de uma estratégia de legitimação do livro, visto ser Rodolfo Garcia historiador ligado à tradição historiográfica do IHGB e intelectual respeitado na capital do País, pois, como já dissemos, à época era Diretor da Biblioteca Nacional. O fato de Rodolfo Garcia ter lido os originais do livro antes de ser publicado oferece a chancela de um historiador renomado à obra do escritor Viriato Corrêa.

111 Rodolfo Garcia (1873-1949) era membro do IHGB e assumiu a cadeira 39 da ABL, anteriormente ocupada

por Rocha Pombo. Em 1930, exerceu o cargo de Diretor do Museu Histórico Nacional, em substituição a Gustavo Barroso, criando nessa instituição o “Curso de Museus”. Em 1932, assumiu a direção da Biblioteca Nacional. Juntamente com Capistrano de Abreu, Garcia foi responsável pela anotação da 3ª edição de “História Geral do Brasil”, de Varnhagen. Foi um dos mais importantes colaboradores do “Dicionário Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil”, organizado pelo IHGB. Segundo José Honório Rodrigues, “Varnhagen, Capistrano de Abreu e Rodolfo Garcia formam uma trindade bendita da historiografia brasileira. É preciso atentar na função representada pelos três para bem avaliar a significação da obra por eles realizada e transmitida.” (RODRIGUES, 1970, p. 155).