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O retardo da cicatrização tecidual bem como a infecção de feridas são morbidades de destaque em pessoas com diabetes, relacionada com o pobre controle metabólico, sendo seu exemplo clássico, o pé diabético. O atraso da cicatrização de feridas de pele, que propicia a instalação da infecção secundária, tem sido relacionado com múltiplos aspectos tais como microangiopatia, neuropatia e diminuição da função neutrofílica (Oncul et al., 2007).

A literatura também traz fortes evidências do risco aumentado de infecções pós-cirúrgicas, em geral torácicas, em pacientes com diabetes. Zerr et al. (1997) avaliaram o pós-operatório de 33 pacientes que foram submetidos a diversos tipos de cirurgias cardíacas, e observaram que os pacientes com glicemia capilar acima de 200 mg/dl apresentaram maior incidência de infecções.

Golden et al. (1999) avaliaram 411 indivíduos com diabetes que foram submetidos a cirurgias cardíacas, e observaram ocorrência de complicações em 24.3%. Os pacientes com valores de glicemia capilar acima de 200 mg/dl apresentaram uma incidência maior de infecções que os sujeitos com valores inferiores.

Alserius et al. (2008) correlacionaram o valor de A1C com a ocorrência de infecções em 605 indivíduos com diabetes, e concluíram que os sujeitos com valor de A1C maior ou igual a 6% apresentaram maiores taxas de infecções após cirurgias cardíacas.

Diversos achados laboratoriais nos ajudam a compreender o binômio diabetes e infecção. Pessoas com diabetes exibem, em sua maioria, depressão da atividade dos polimorfonucleares neutrófilos, que diminuem sua capacidade fagocitária, estando este fato diretamente relacionado aos níveis de hiperglicemia e com a presença de acidose. Nota-se também a alteração na aderência, quimiotaxia e opsonização leucocitária, alteração dos sistemas antioxidantes e menor produção de interleucinas, importantes no processo inflamatório necessário a uma resposta imunológica eficaz. Por outro lado, a função humoral parece estar preservada nos indivíduos com diabetes (Rocha et al., 2002).

Em relação à cicatrização pós-exodôntica, existem poucos estudos experimentais ou longitudinais randomizados. Devlin et al. (1996) avaliaram a cicatrização após exodontia de dentes molares em ratos induzidos ao diabetes controlados em uso de insulina, descontrolados sem uso de medicação e ratos controle sem indução ao diabetes. Após 10 dias observaram que o grupo de ratos induzidos ao diabetes e que não usavam insulina apresentaram deficiência na cicatrização pós-exodôntica.

Aronovich et al. (2010) estudaram a influência da glicemia na reparação pós- exodôntica de 78 indivíduos com diabetes. Foram realizadas exodontias e os pacientes foram avaliados quanto à ocorrência de complicações, e quanto ao

processo de cicatrização por um período de 14 dias. Os resultados mostraram que a glicemia normal ou elevada não influenciou o processo de reparação alveolar pós- exodôntica em indivíduos com diabetes.

Huang et al. (2013) compararam o processo de cicatrização pós-exodôntica de 224 indivíduos com diabetes tipo 2 e 232 indivíduos sem diabetes num período de 4 semanas. Os resultados mostraram que não houve diferenças na cicatrização entre os dois grupos estudados.

Há ainda diversos trabalhos de revisões da literatura que mostram não haver evidências científicas que suportem a ideia de que pessoas com diabetes tenham risco aumentado para atraso na reparação alveolar pós-exodôntica, que as infecções resultantes de cirurgias orais sejam mais frequentes em pacientes com diabetes e que há necessidade de profilaxia antibiótica para pacientes com diabetes antes de procedimentos odontológicos invasivos (Lockhart et al., 2002; Ellervall et al., 2005; Lockhart et al., 2007; Barash et al., 2008).

Lockhart et al. (2002) realizaram um questionário com 477 profissionais da Sociedade Americana de doenças infecciosas sobre o uso de profilaxia antibiótica em procedimentos odontológicos invasivos para diversas doenças, inclusive o diabetes, e encontraram grande controvérsia nas respostas. Quanto ao diabetes, 95% dos entrevistados responderam que nunca ou raramente indicam a profilaxia antibiótica para pacientes com diabetes.

Ellervall et al. (2005) realizaram um questionário com 101 dentistas sobre o uso de profilaxia antibiótica para diversas doenças sistêmicas como diabetes tipo 1 controlado, diabetes tipo 1 descontrolado, diabetes tipo 2 controlado, hipertensão moderada, infarto agudo do miocárdio recente, transplante renal há 3 anos, uso de válvula cardíaca protética e uso de prótese de quadril. Os resultados mostraram grande variação de conduta, porém a maioria dos respondentes acredita que há necessidade do uso de antibioticoterapia profilática para pacientes com diabetes, principalmente para os sujeitos descompensados que serão submetidos a procedimentos odontológicos como exodontias, raspagem periodontal e tratamento endodôntico.

Lockhart et al. (2007) realizaram uma revisão de literatura sobre o uso de profilaxia antibiótica em 8 grupos de pacientes com condições médicas específicas, tais como, diabetes tipo 1, lúpus eritematoso sistêmico, uso de válvula cardíaca

protética, uso de marcapasso, uso de articulações protética, insuficiência renal crônica com uso de fístula arteriovenosa, pacientes em quimioterapia e uso de fístulas cerebroespinais. Notaram uma grande variação de conduta e falta de evidência científica quanto à recomendação da profilaxia antibiótica antes dos procedimentos odontológicos. Quanto aos pacientes com diabetes, alguns autores sugerem a prescrição de antibióticos profiláticos antes de procedimentos odontológicos invasivos para indivíduos com diabetes descontrolado, outros sugerem o uso apenas em casos de presença de algum processo infeccioso.

Barash et al. (2008) conduziram uma revisão de literatura com mais de 80 artigos do período de 1966 a 2006 sobre o risco de infecção oral e diabetes. O objetivo principal foi esclarecer se os pacientes com diabetes são mais susceptíveis a infecções pós-exodônticas que os pacientes que não apresentam a doença, porém não foram encontrados trabalhos prospectivos que provassem tal relação, apenas encontraram revisões de literatura e relatos de casos isolados.