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Os estudos acerca da organização espacial são bastante caros à Geografia. Sua aproximação com os métodos matemáticos e estatísticos foram decisivos para as proposições sobre as técnicas que visavam o planejamento territorial no início dos anos de 1960, promovendo algumas mudanças paradigmáticas no núcleo dessa ciência.

Os debates no campo científico que fomentaram as discussões sobre a organização do espaço foram acrescidos da necessidade de utilização de técnicas de planejamento com o intuito de dinamizar as estruturas regional e nacional. Assim se construiu no Brasil a perspectiva de uma Geografia capaz de diagnosticar e resolver os problemas ligados às debilidades urbanas, rurais e ambientais, em diferentes escalas.

Em texto de abertura da publicação número 22 do Panorama Regional do Brasil de 1969, publicado pelo Departamento de Geografia do Rio de Janeiro – vinculado ao IBGE –, Marília Velloso Galvão chamava a atenção do leitor para a necessidade atribuída à Geografia na reconfiguração do território brasileiro.

A preocupação da organização espacial constitue (sic) hoje, a nova atitude da ciência geográfica, em função da tomada de consciência, por parte dos geógrafos, ao lado dos técnicos de outras especialidades, da necessidade de uma intervenção deliberada na

organização do espaço, de modo a se propiciar um desenvolvimento harmônico e equilibrado de todo o território nacional (GALVÃO, 1969, s/p).

A preocupação em relação aos estudos sobre o planejamento territorial permeou a organização dos cursos de Geografia em Minas Gerais, transparecendo as reivindicações explicitadas no excerto acima. Nesse período, foram introduzidas disciplinas com o intuito de difundir os estudos quantitativos na Geografia, através de conceitos e técnicas desenvolvidos para uma melhor compreensão da dinâmica espacial.

A disciplina Métodos de Análise Geográfica aparece nas grades curriculares como obrigatória, tanto para o curso de Licenciatura, como para o de Bacharelado, no curso de Geografia da UFMG a partir das grades de 1974 – 1981, respaldando outras frentes presentes nos currículos, como é o caso das disciplinas que envolvem o planejamento. Trata-se de um estudo que procura, de maneira geral, explicar os modelos de análises espaciais comumente aplicados aos estudos geográficos. Os modelos mais comuns que constam na ementa e no plano de aula correspondem ao de Von Thünen, sobre a teoria locacional e os conceitos de Weber, Lösch e Christaller, sobre as teorias das redes e dos lugares centrais. É importante destacar que esses conceitos constam de discussões presentes nas disciplinas de Geografia Econômica, Geografia Urbana, Geografia Rural, Geografia da População, Geografia das Indústrias e do Comércio e Geografia da Energia e Circulação.

- O Modelo Von Thünen: o modelo thüniano foi desenvolvido inicialmente para os estudos sobre o espaço agrícola e foi muito utilizado em análises referentes à organização agrícola em diferentes escalas. No Brasil, esse modelo repercutiu nas pesquisas sobre as teorias locacionais aplicadas à Geografia Rural. As variáveis utilizadas por essa teoria levam em conta a melhor forma de rentabilidade para a produção agrícola, associada às condições de fertilidade do solo, à distância do mercado consumidor e às culturas.

- A Teoria da Centralidade de Alfred Weber, August Lösch e Walter Cristaller: a teoria sobre “o ponto ótimo da localização industrial” foi organizada por Weber como modelo de estudo para a compreensão das dinâmicas locacionais que envolvem o setor industrial. Em linhas gerais, busca-se uma otimização dos custos de transportes, de matéria-prima e de mão- de-obra através da instalação estratégica de pontos industriais.

A Teoria dos lugares centrais proposta por Christaller influenciou muito estudos de cunho geográfico. Todavia, foi nos anos de 1960 com o advento da quantificação, que essa teoria ganhou repercussões vertiginosas na Geografia, principalmente nos estudos em relação ao Planejamento Urbano englobando, numa perspectiva analítica mais ampla, as relações entre

o crescimento populacional e o desenvolvimento das atividades comerciais, ambas correlatas à hierarquização urbana.

Os estudos de Lösch sobre a Teoria do Equilíbrio Espacial pactuou com as propostas de Christaller, organizando o que Lösch definiu como “área de mercado”, propondo uma organização respaldada em três fatores: distância, produção em grande escala e concorrência. Procedendo dessa forma, a localização industrial ampliaria seus ganhos, uma vez que, em se tratando de um sistema de logística, delimitaria seu espaço de ação comercial em função do desenvolvimento econômico dessas áreas de atuação.

Essa relação intrínseca entre os modelos das Teorias Locacionais, propostos por economistas e absorvidos pela Geografia em consonância com a Teoria Geral dos Sistemas, reconfigurou a forma de olhar e analisar o espaço geográfico.

Faissol (1972) reforça a ideia de que a análise dos fenômenos geográficos deve ser compreendida como um conjunto de princípios gerais que coloca o homem no centro da análise espacial. Nessa perspectiva, o homem está ligado ao que o autor chama de “processo e forma

de integração espacial”, no qual a Geografia Quantitativa deve fundamentar suas análises. [...] Os conceitos da teoria dos sistemas gerais para conceber o processo espacial, que é o objeto da geografia, está circunscrita ao sistema ecológico de que o homem é a parte central e dominante. E assim a geografia se diferencia das outras ciências sociais porque nenhuma delas examina esta mesma parte do sistema ecológico com a visão de sua distribuição ou integração espacial, e se diferencia das outras ciências espaciais, como a geologia e a meteorologia, etc., porque estuda a perspectiva espacial sob o ângulo da atividade humana (FAISSOL, 1972, p. 5-6).

A questão referente às análises dos processos e das formas compõe a estrutura das grades curriculares dos cursos em Minas, sobretudo nas disciplinas que envolvem questões de planejamento. É justamente através das obras de Speridião Faissol, principalmente suas contribuições na Coleção Panorama Regional do Brasil, que o planejamento regional aparece incisivamente nas ementas e planos de curso dos professores.

Durante a sistematização das grades curriculares, verificou-se que entre os temas mais recorrentes do período, os que compunham o arcabouço da disciplina Análise Regional, eram os que apresentavam, inicialmente, as premissas dos estudos regionais com ênfase na dinâmica espacial (Quadro 8). Consta também desse campo disciplinar discussões importantes para a pauta do planejamento, como: o enfoque geográfico e econômico correspondente à ciência regional; o modelo centro-periferia no âmbito internacional e regional; o planejamento regional e a regionalização (planejamento e desigualdades regionais); os modelos de crescimento regional; e, métodos e técnicas para o estudo da regionalização.

A aposta nos estudos guiados pelas técnicas de planejamento foi absorvida pela Geografia nos cursos de geografia das universidades mineiras de maneira geral. Bomfim (2007) indaga sobre quais seriam, de fato, as motivações para os geógrafos em relação ao planejamento. As respostas do autor dizem respeito à função assumida pela Geografia como uma ciência de aplicação efetiva.

A grande contribuição da Geografia para o planejamento [adviria] do fato de ela ser uma ciência do espaço, aquele mesmo que [seria] objeto de modificações a serem introduzidas pela ação planificadora [pois ao] estudar o espaço, a Geografia [elaboraria] a síntese de sua organização, suprindo as deficiências surgidas pelo fato de as outras ciências prenderem-se especificamente aos seus setores de análise (ABREU, 1970, apud BOMFIM, 2007, p. 127).

As estratégias de planificação, homogeneização econômica dos espaços e dinamização das regiões fechavam o arcabouço dos estudos sobre a temática do planejamento, acrescidas das discussões do planejamento regional no mundo capitalista e nos países de economia planificada. Consta ainda dos currículos (Quadro 8), algumas discussões sobre o planejamento regional nos países de terceiro mundo, exemplificando a experiência do caso Brasileiro através de dados disponibilizados pelo IBGE e por outros órgãos de planejamento. Assim, o exercício do planejamento contemplado pela Geografia e expresso, de maneira geral, nos cursos em Minas, propunha ir além de atingir determinadas metas econômicas, buscando o desenvolvimento pleno, integral e harmônico, reestruturando o espaço conforme colocado por BOMFIM (2007) numa análise mais ampla.