Os métodos quantitativos na análise geográfica exerceram grande influência nos estudos de Geografia do Brasil, tanto em termos teóricos, quanto práticos. O reconhecimento dos aspectos físicos e humanos das regiões brasileiras sempre foi uma marca dos estudos aplicados à Geografia principalmente, como afirmado nessa pesquisa desde o princípio, por se tratar de uma ferramenta indispensável ao Estado no desvelamento da realidade territorial.
Com o avanço dos estudos sobre a organização do espaço, o conhecimento sobre os conceitos que envolvem a dinâmica do planejamento começaram a ser absorvidos em várias disciplinas dos currículos de Geografia. Os esforços na direção da modernização das regiões brasileiras foi uma das grandes empreitadas assumidas pelos geógrafos do IBGE e também de fora dessa Instituição, em pesquisas por dentro das universidades. Segundo Faissol (1969), o crescimento econômico brasileiro entre as décadas de 1950 e 1960, em uníssono com o aumento da população urbana, acentuou as disparidades regionais. A correção dos desequilíbrios regionais também é apontada por Bomfim (2007), como um dos desafios da composição da unidade nacional tão cara à condição de progresso.
Com base nesses contrastes regionais coube ao IBGE47, como instituição ligada ao planejamento estatal, a tarefa de desenvolver pesquisas que balizassem a aplicação de técnicas que promovessem a regulação dos desníveis regionais. Conforme apontado por Bomfim (2007), nas produções ibegeanas do período, repercutiram as análises sobre as regiões homogêneas e
polarizadas como possibilidades de efetivação do planejamento regional brasileiro.
O IBGE reconhecia a existência de regiões homogêneas e regiões polarizadas como fenômenos presentes, no território brasileiro, em intensidades diversas. Assim, defendia-se o conceito de região homogênea para a Amazônia, o Nordeste, o Centro- Oeste, o Sudeste e o Extremo Sul, sendo este o pilar sobre o qual se estruturariam a divisão regional do Brasil e o estabelecimento das micro-regiões homogêneas. Já o estabelecimento de pólos (sic) de desenvolvimento hierarquizaria as áreas de influência de diversos centros em três níveis, de acordo com a infra-estrutura (sic) do terciário (BOMFIM, 2007, p. 133).
Foi com base nesses estudos que os cursos de Geografia analisados nessa pesquisa organizaram as disciplinas presentes na subárea de Geografia Geral do Brasil, como mostra o Quadro 8. Analisando as condicionantes físicas e humanas das cinco regiões, as grades curriculares traziam propostas de planejamento, bastante influenciadas pelas proposições ibegeanas e de geógrafos alinhados com essas tendências.
Divididas em 5 (cinco) frentes – Região Norte, Nordeste48, Centro-Oeste, Sul e Sudeste49, as disciplinas eram divididas durante os anos de curso e eram destinadas, tanto aos estudantes do curso de Licenciatura quanto aos de Bacharelado.
47 Destaque para o planejamento das regiões brasileiras: “Esbôço preliminar de divisão do Brasil em espaços
homogêneos e espaços polarizados” (1967) e “Subsídios à Regionalização” (1968).
48 Após a Divisão Regional do Brasil de 1969, o país foi dividido em cinco macrorregiões econômicas. Extingue-
se o Meio-Norte como área do Nordeste.
De maneira bastante sintética, baseado nas colocações de Galvão (1969), que constam no Panorama Regional do Brasil de 1969, as regiões eram caracterizadas de acordo com o levantamento de dados estatísticos, levando-se em consideração os aspectos físicos, humanos e econômicos. O grau de maior ou menor importância no contexto territorial era estabelecido através de variáveis analisadas no âmbito do desenvolvimento regional, que estabelecia diretrizes para estimular o crescimento das áreas, no sentido de compor o grande projeto de integração nacional.
Destacam-se, por intermédio das considerações de Galvão (1969), as análises feitas pelo IBGE, à época, referentes ao diagnóstico das cinco regiões brasileiras, muito utilizado nos currículos dos cursos de Geografia em Minas Gerais.
[A Região Norte] ao lado da caracterização do quadro físico e humano, é ressaltado o aspecto dinâmico do processo de desenvolvimento. As condições naturais difíceis e de utilização econômica e onerosa, geraram nesta Região, uma ocupação à base do extrativismo vegetal e uma economia mercantilista responsável pelo baixo padrão de vida da maioria da população (...)
O Nordeste é apresentado, através de suas condições naturais e sócio-economicas (sic) como um mosaico de paisagens físicas e humanas bastante diferenciadas, dentro de um espaço econômico ainda mal estruturado e mal organizado que condiciona, em muitas áreas, níveis de vida muito baixos (...) constitui-se uma das áreas-problema onde o Govêrno (sic) Federal, através de uma política de incentivos fiscais, tem procurado criar condições que venham incrementar o seu desenvolvimento.
No Centro-Oeste é indicado como a posição geográfica e as condições naturais continuam a se refletir na organização do espaço. Todavia, a abertura das rodovias Belém-Brasília e Brasília-Acre vêm tendo profundas implicações na reestruturação do espaço daqueles territórios por elas atravessados, ocasionando a ocupação de novas áreas e promovendo, cada vez mais intensamente, a integração sócio-economica (sic) do Centro-Oeste no contexto nacional.
O Sudeste é caracterizado como aquela parte do território nacional onde mais intensos foram os processos de regionalização, em função da concentração, em suas áreas, das atividades econômicas, especialmente a indústria que lhe deu acentuado dinamismo e delineou as regiões do Rio de Janeiro, de São Paulo e mais recentemente a de Belo Horizonte, constituindo um grande conjunto que se destaca em relação ao restante do território nacional.
O Sul, identificado a partir de suas características naturais, é apresentado, não obstante a presença de alguns centros industriais importantes, como uma região de economia primária diversificada que vem se constituindo num espaço complementar do Sudeste, na medida que sofre o impacto da convergência nacional (GALVÃO, 1969, s/p).
Estende-se no conteúdo das disciplinas específicas de cada região, uma bibliografia baseada nos trabalhos de planificação regional, feitos pelo IBGE ao longo das décadas, desde sua instalação como órgão de planejamento (Quadro 8). Entretanto, nesse período analisado sob a influência da corrente neopositivista na Geografia, observam-se conteúdos com caráter mais técnico, ligado às proposições analíticas advindas das discussões de Speridião Faissol sobre a Amazônia, Alfredo José Pôrto Domingues analisando o Nordeste, Pedro Pinchas Geiger
e suas reflexões sobre o Sudeste, Nilo Bernardes apresentando um diagnóstico da região Sul e Carlos de Castro Botelho e suas considerações sobre o Centro-Oeste.
Convém destacar, que no curso de Geografia da UFMG, identificou-se a ocorrência de uma disciplina específica que contemplava discussões sobre os aspectos socioeconômicos do estado mineiro. Intitulada “Estruturação do Espaço em Minas Gerais”, a disciplina constava da grade curricular obrigatória para os cursos de Licenciatura e Bacharelado e apresentava, segundo o plano de curso, discussões sobre a análise geográfica espacial de Minas como estudo de caso (Quadro 9). Dentro dessa perspectiva, a disciplina discorria sobre o método regional e os tipos de regionalização do estado mineiro (com destaque para os estudos da Fundação João Pinheiro – FJP), a evolução nos estudos do espaço mineiro e a estruturação de sua área de influência e as redes urbanas do estado.
Quadro 9 – Composição curricular da disciplina Estrutura do Espaço em Minas Gerais – UFMG – 1974-81