SUSANA
Susana é uma estudante de 20 anos que fez Erasmus na Alemanha. A estadia durou cerca de seis meses. A nível emocional, Susana não tinha qualquer envolvimento antes de partir e essa situação manteve-se no decorrer da estadia no estrangeiro. No que que diz respeito a questões afectivas e sexuais era bastante inexperiente e considerava esta dimensão da sua vida pouco “forte”. Para ela o fundamental a retirar da experiência no estrangeiro seria a aprendizagem da língua alemã que já estudava, a melhoria do percurso académico e também a construção de novas redes sociais. As dimensões afectivas eram completamente secundárias.
“Não tinha qualquer pensamento sobre isso, porque eu basicamente só queria ir para lá estudar e tentar ter boas notas e talvez fazer bons amigos, não tinha pensado sequer nisso.”
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Existe um foco no desenvolvimento individual direccionado para a academia e para a procura de um novo capital social e cultural. Para além disso, Susana pretendia tornar-se mais independente, “sair do ninho”, construindo um processo progressivo de autonomia face à sua rede familiar, processo este que é parte integrante do seu projecto de individualização (Bagnoli,2009; Beck, 1997;Beck e Beck-Gernsheim, 2002; Policarpo, 2011). Procurava ainda conhecer outros países numa busca de cosmopolitismo cultural (Hannerz,1996), para ter contacto com outras realidades e aumentar o seu conhecimento pessoal.
A nível social existiram relatos de dificuldades em criar novas redes sociais no país de acolhimento. Susana não gostava dos colegas com quem partilhava casa e não desenvolveu relações fortes com colegas de faculdade, acabando por sentir alguma falta de apoio. De facto, relata que acabou por perceber que se iria sentir sozinha:
“Bem, eu quando lá cheguei, comecei a ter uma certa noção de que talvez me iria sentir mais sozinha, porque não sabia onde é que eu estava, não tinha ninguém com quem falar.”
Para combater esse sentimento de solidão, ultrapassar dificuldades e procurar uma rede social que a pudesse apoiar durante a estadia, inscreveu-se num coro para estudantes Erasmus que tinha sido recentemente criado na faculdade. É dentro desta comunidade que desenvolve relações um pouco mais fortes. Susana indica que se relacionou maioritariamente com suecos, romenos e húngaros e ressalva a importância da construção de relações interculturais para o seu desenvolvimento individual. O contacto com pessoas de outras nacionalidades pôs em perspectiva o seu próprio contexto social, político e económico. É também no coro que conhece um rapaz português com quem acaba por construir uma relação que considera mais próxima.
“Também estava lá um rapaz que era português (…) e lá basicamente o meu único contacto com a língua portuguesa era ele. E então, posso ou não ter desenvolvido alguma coisa, mas só o facto de ele ser um ponto que me indicasse para a minha área portuguesa, para a minha vida portuguesa, talvez tenha desenvolvido uma relação mais íntima com ele.”
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A vivência que desenvolveu com este rapaz decorria nos ensaios do coro, através do facebook e em alguns encontros com e sem os restantes membros do coro. No entanto, Susana não demonstrou ter interesse em aprofundar a relação, vendo-a essencialmente como um suporte emocional devido ao facto de estar sozinha. Em relação à vivência sexual diz-nos que:
“Não houve qualquer vida sexual nesse momento, infelizmente… Infelizmente não é essa a palavra que quero usar, mas pronto. Não houve nada, acho que não senti nada o suficiente para querer ir a esse nível.”
Se, por um lado, utiliza a palavra infelizmente que depois acaba por rectificar, dando a entender que gostaria que tivesse existido alguma prática, por outro indica- nos que não sentiu desejo de o fazer. Existe uma narrativa algo contraditória. É possível verificarmos que independentemente da questão emocional, a questão identitária foi importante, e o facto de ter alguém na sua rede social do seu país de origem fez com que a experiência de migração se tornasse mais fácil.
A visão que tinha do Erasmus após realizá-lo é alterada. Susana refere que agora sabe como este período pode ser difícil, caso não haja apoio aos alunos e reconhece a importância de uma boa rede social.
“Eu, por exemplo, já tenho vários amigos de Erasmus desta faculdade, mas só mesmo depois da minha própria experiência, porque eu sei o quão pode ser difícil e é muito complicado. E ter uma pessoa com quem falar ajuda bastante, mesmo que não mude assim tanto no foro à volta, mas pelo menos no foro mental ajuda bastante”.
A importância de criar redes sociais no país de acolhimento é fundamental para colmatar as dificuldades inerentes a uma mudança de realidade. Para além da própria história do indivíduo e das suas práticas, a capacidade de construção de uma nova rede social vai influenciar todos os campos da experiência individual de migração incluindo as dimensões afectivas e sexuais. O relato de Susana acaba por ser representativo da excepção do que a literatura tem demonstrado. O período Erasmus pode para a maioria dos participantes ser um período de busca de aventura e excitação (Water e Brooks 2010), mas existem outras formas de o viver mais isoladas e reservadas, e que são afectadas por vários factores desde as condições de
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acolhimento, passando pela personalidade do indivíduo, até à sua capacidade de relacionamento. A experiência internacional, por si só, não contribui para que as condutas individuais se modifiquem (Policarpo, 2011), e, de facto, no caso de Susana os padrões afectivo-sexuais mantêm-se e a reflexividade ou a importância dada a estas questões não são expressivas.
RITA
Rita tem 23 anos e realizou o período Erasmus em Itália durante um semestre. Os motivos que a levaram a optar pela experiência ligam-se à vontade de viajar, de conhecer Itália em particular, de melhorar o seu italiano e “espairecer”. Dá também importância à experiência Erasmus como uma mais-valia académica e ao convívio que o Erasmus proporciona. Queria crescer e experimentar viver sozinha num primeiro passo para a independência da sua rede familiar (Bagnoli,2009; Beck, 1997, Policarpo, 2011).
Não tinha expectativas amorosas antes da partida e indica não ter reflectido muito nessas questões. Antes de partir tinha conhecido um rapaz e estava a criar uma ligação mais profunda com ele, o Erasmus veio interromper essa situação.
“Mas nunca tive aquela, não havia aquela coisa de me querer envolver com alguém, até porque pronto, se calhar já estava satisfeita, não é? Com o que tinha aqui, pronto… Estava apaixonada, vá, infelizmente… Se não tivesse, acho que tinha sido igual também, pelo tipo de pessoa que sou, por não conseguir dar confiança às pessoas logo assim à primeira e não me conseguir envolver… acho que tinha sido igual também…se bem que existia um grego muito giro…mas pronto!”
Apesar de se encontrar apaixonada a relação não existia ainda. Rita indica que mesmo que não estivesse apaixonada a sua estadia não teria sido diferente, devido ao seu carácter pessoal. Na verdade, refere não conseguir envolver-se com alguém sem que exista uma relação firme e estável emocionalmente. A relação sexual só surge se existir amor, se existir segurança. Esta é uma atitude que corresponde a uma visão de amor-romântico em que a sexualidade, não é um fim por si só, mas sim algo que só é
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explorado no contexto de uma relação (Giddens, 1996). As relações sexuais incluídas somente no contexto de uma relação são frequentemente associadas ao género feminino, sendo o contacto sexual predominantemente relacional (Policarpo, 2011:365).
O Erasmus veio quebrar a relação que estava a construir, e Rita sente que se já existisse efectivamente uma relação de longa duração, tal não sucederia. Mas como, de facto, a situação não era ainda clara, o Erasmus apresentou-se como obstáculo à continuação desse mesmo relacionamento. Continuaram a falar via skype, e-mails e mensagens escritas, mas a cumplicidade que se estava a criar perdeu-se. Sobre o desenvolvimento da sua vida amorosa no período Erasmus, refere que:
“Não senti nada, conheci montes de rapazes, conheci…em muitos ainda era: ah vamos ali almoçar, vamos ali… Nãaao!! Não dava, porque por um lado sentia-me, sentia-me comprometida, percebes?! Sentia-me comprometida mesmo que não estivesse numa relação mesmo, sentia-me comprometida, e sentia que pronto não é suposto, não se deve fazer! Pronto basicamente foi isso.”
Apesar de não existir uma relação, pelo facto de se encontrar apaixonada, Rita sentia que tinha um dever de exclusividade. Visto existir alguém por quem nutria sentimentos, fossem estes correspondidos ou não, a exclusividade era uma opção pessoal. Esta liga-se também ao seu carácter e ao que sente ser a sua personalidade.
“Até agora só estive com três pessoas. Às vezes falo com amigas e não sei quê… E pronto e tenho pessoas que estiveram com muito mais e sentem-se à vontade. Mas eu própria não me sinto à vontade, não me sinto à vontade comigo própria também e isso, pensando que não, vai contribuir para tudo, não é? Sim, pronto e só me consigo envolver muito com o tipo de pessoas em que eu sei que estou numa relação. E não aquele género: ah, conheci-o é giro, bora! Percebes? Não consigo, não é meu! Não consigo, até porque não me sinto bem, tenho alguns complexos.”
O facto de não se envolver em envolvimentos puramente sexuais por motivos de atracção física e de forma ocasional, associa-se à sua própria identidade individual, e também à relação que tem com o seu corpo. A ideia transmitida é que com a sua idade o comportamento “normal” seria já ter tido várias experiências, mas por motivos
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internos não se consegue libertar, torna-se a excepção. Parece existir a noção que o esperado é que exista essa experimentação sexual, ou seja, a representação dos outros difere das próprias práticas. Os outros (jovens) apresentam-se como praticantes do amor líquido (Bauman, 2003) enquanto as suas próprias práticas se inserem numa visão do amor-romântico.
A vida que teve em Erasmus, nalguns aspectos, foi uma vida mais tranquila. Em comparação com a realidade portuguesa sente que a cidade onde estava não tinha grande vida nocturna, as discotecas fechavam cedo, e então acabou por conviver mais, mas em ambientes tranquilos. Interagiu com várias pessoas, vivia com jovens do sexo feminino, uma portuguesa e outras de nacionalidades diferentes, sendo que tinha um grupo fixo de amigos portugueses. A convivência era maioritariamente com o grupo de casa. O facto de ter vivido uma vida tranquila com muitas pessoas do país de origem poderá igualmente ter também influenciado o tipo de relações desenvolvidas. Rita refere que lá estava mais para conviver e conhecer e não tanto para a “vida louca”.
Relativamente ao comportamento dos portugueses face aos estudantes de outras nacionalidades, Rita sentiu que as portuguesas eram mais reservadas em comparação com mulheres de outras nacionalidades.
“Quanto aos choques culturais, o que eu reparei era aquilo que eu não pensava cá, na parte até mesmo quando vamos sair e conhecer pessoas. Nós saíamos um grupo de portugueses, como eu te disse, e as raparigas eram muito mais calmas do que, por exemplo, as gregas que eram atiradiças à força toda, mas tipo…horrorosas! E eu pensava sempre que nós eramos assim um povo mais espevitado, estás a ver? Mais vamos conhecer e vamos isto e vamos aquilo e pronto eu lá tive uma noção contrária disso.”
A noção pré-concebida que tinha sobre o comportamento ou sobre as características identitárias dos portugueses é alterada e existe igualmente um juízo de valor em relação ao comportamento de mulheres de outras nacionalidades, face à postura que adoptavam no desenvolvimento de relações. Se, de alguma forma, a libertação sexual é vista como normal na sociedade contemporânea, em simultâneo está igualmente presente no discurso a ideia de que esse comportamento não é moralmente correcto.
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Rita enquadra-se no tipo Sexualidade Ausente visto não ter tido práticas sexuais ou qualquer envolvimento físico durante o Erasmus. A dimensão sexual não foi um factor motivador nem teve expressão na construção da sua identidade em Erasmus, tendo sido uma dimensão secundária. A afectividade, por outro lado, tem expressão, Rita dá muita importância à confiança e à intimidade, sendo que a sexualidade, no seu caso, é para ser vivida dentro de uma relação. A personalidade dos indivíduos, os seus valores morais, a sua educação e as redes sociais onde se movem são determinantes nas práticas e nas representações que desenvolvem sobre amor e sexualidade.