• No results found

Até a década de 1980, não se notou um grande impacto dos recursos da TI aos processos de projeto, uma vez que a tecnologia encontrava-se restrita a procedimentos administrativos de empresas de grande porte. Ao longo da década de 1980, observou-se a popularização dos computadores pessoais, concomitantemente à disseminação do uso de sistemas de desenho assistido por computador (CAD) junto às empresas de projeto (NASCIMENTO; SANTOS, 2003).

O desenvolvimento deste ambiente propiciou possibilidades de integração entre os programas computacionais, adotados para o desenvolvimento de projeto, durante a década de 1990. No caso dos arquivos elaborados utilizando tecnologias para CAD, tornou-se possível exportar desenhos no formato neutro DXF (Drawing Exchange Format), que permitiu a troca de informações entre diferentes programas de autoria. Além disso, editores de textos passaram a permitir a inserção de planilhas eletrônicas e gráficos criados em programas específicos (NASCIMENTO; SANTOS, 2003).

A partir da disseminação destas práticas, deu-se o amadurecimento da utilização de programas computacionais para auxílio das tarefas inerentes aos processos de projeto e construção do edifício. Esse aspecto pressupõe a troca de informações entre atores do processo de produção do edifício que utilizem diferentes programas computacionais

Observa-se que a popularização dos recursos de informática em escritórios de projetos ocorre, concomitantemente, à adoção em escala de métodos para a gestão da qualidade nessas mesmas empresas, o que se dá em dois níveis: gestão da qualidade dos serviços prestados no escritório e da qualidade das soluções propostas em projeto, conforme foi abordado no Capítulo 3.

Especificamente no campo da TI aplicada ao desenvolvimento de projetos, foram observadas grandes transformações, a partir dos anos 1990. Nesse período, programas CAD, empregados para a elaboração de desenhos assistidos por computador, passaram a ser amplamente utilizados para elaborar desenhos, croquis e projetos. Inicialmente, não houve uma compreensão adequada das ferramentas disponíveis, tendo sido observada a aplicação dos programas computacionais de um

modo ineficiente, praticamente como um instrumento de desenho. Observou-se, na ocasião, que o uso da ferramenta computacional ocorria de forma análoga ao desenho elaborado na prancheta, quase como se o programa de computador correspondesse a uma régua “T” (FLEMMING, 1997).

Entretanto, para que a adoção dos programas CAD representasse um ganho real de produtividade, foi necessário repensar e planejar o processo de desenho (BHAVANI, JOHN, 1997).

No esquema apresentado na Figura 9, são demonstradas as diferenças entre os raciocínios envolvidos para a elaboração de uma mesma forma geométrica, considerando o desenho manual e o desenho em CAD.

Figura 9. Diferença entre estratégias de desenho manual e CAD.

Adaptado de BHAVNANI; JOHN (1997, p. 10) e FLEMMING (1997, p. 359). Tradução nossa.

Em continuidade à tecnologia CAD, surgiram ferramentas mais complexas, com base nas quais se extrapola o uso do computador, como meio de representação da geometria. Isto ocorre pela incorporação de informações

referentes ao desempenho dos componentes e ambientes modelados e permite a elaboração de projeto em ambiente digital.

Dentre manifestações destas tecnologias, observou-se, por exemplo, o desenvolvimento de projeto baseado em desempenho. Essa prática consiste na elaboração de um modelo geométrico, cujas soluções de projeto são verificadas, por meio de simulações computacionais. Com base nestas análises, procede-se à modificação e à geração de formas arquitetônicas, com o objetivo de obter-se um determinado desempenho pretendido (OXMAN, 2008).

Os modelos apresentados na Figura 10 demonstram a evolução das relações presentes em um processo de projeto elaborado em papel e, portanto, sem o auxílio de recursos digitais (Modelo 1), bem como a evolução das inter-relações, correspondentes ao projeto desenvolvido em ambiente CAD (Modelo 2) e a evolução referente ao projeto baseado em desempenho, elaborado com o auxílio do ambiente computacional (Modelo 3).

Nota-se que, no Modelo 1, as relações referentes à geração, à avaliação e ao desempenho são implícitas e dependem diretamente do projetista. Considerando a evolução para o Modelo 2, observa-se que a mudança fundamental está relacionada à forma de representação, que passa a ser digital e, por conseguinte, pressupõe uma abordagem diferente, quando comparada ao desenho em papel. Entretanto, os aspectos relacionados à avaliação, ao desempenho e à geração da geometria continuam implícitos e dependentes, diretamente, das decisões do projetista.

As relações dos projetos modelados em computador são representadas no Modelo 3. Neste caso, observa-se que as relações inerentes à representação e à avaliação passam a ser implícitas e sujeitas a interações com o projetista. Apesar disso, a geração e a verificação do desempenho ainda se constituem em relações não digitais e dependentes das decisões dos atores responsáveis pelo desenvolvimento do projeto.

Figura 10. Modelo de relações entre as etapas do processo de projeto. Adaptado de: OXMAN (2006, p. 245, 247 e 248), pela pesquisadora.

O surgimento de tecnologias de modelagem da informação altera, novamente, as relações entre as etapas de projeto e seus atores. Um aspecto importante desta abordagem é a possibilidade de que sejam relacionados dados e propriedades de componentes de uma edificação ao modelo computacional, inclusive considerando as modificações que, eventualmente, ocorrem durante seu ciclo de vida. Assim, passou a ser possível incluir, em um modelo computacional, informações de diferentes naturezas, tais como: produtos, processos e respectivos registros, representações gráficas, especificações, características de desempenho e informações sobre manutenção (RUSHEL et al., 2010).

Quanto aos recursos da tecnologia digital aplicados ao projeto, Crespo e Ruschel (2007) observam que o uso de ferramentas de modelagem da informação permite a elaboração de um mockup digital, no qual os elementos construtivos são codificados, admitindo uma representação geométrica dos componentes do edifício real a ser construído. Esse protótipo pode ser relacionado a um Banco de Dados, o que torna possível o gerenciamento de informações, inclusive durante o período de operação da edificação.

Apesar disso, embora os recursos proporcionados pela evolução da TI tenham permitido maior capacidade de armazenamento e processamento de informações, Panizza e Ruschel (2005) observam que, em muitos escritórios, as interações multidisciplinares ainda ocorrem de modo precário e o sistema de desenho eletrônico, muitas vezes, atue apenas como um substituto do desenho convencional feito em papel.