O Centro de Ensino Fundamental da rede pública, onde se desenvolveu esta pesquisa, situa-se no plano piloto de Brasília e atende à população desta região, assim como de algumas cidades satélites próximas. A escola funciona em três turnos, com turmas de 5a a 8a série.
A demanda para esta pesquisa surgiu do pedido de um educador dessa escola12, para que ele pudesse realizar ações de prevenção com os alunos, com ajuda do grupo de pesquisa do PRODEQUI, em continuidade à capacitação realizada no Curso do Fórum Permanente de Professores13, realizado no primeiro semestre de 2005. Para tanto, foi oferecido o curso, em um formato presencial, para os educadores dessa escola, contando com interesse da direção e da coordenação, bem como, dos demais educadores.
Concomitante ao curso, foi proposta a realização do presente estudo, para desenvolvimento de um instrumental de avaliação de redes sociais e fatores de risco e proteção para envolvimento com drogas na adolescência, em uma proposta que fosse viável para o educador. A pesquisa, portanto, foi situada no contexto do curso, sendo inicialmente oferecido um treinamento para os educadores na avaliação de redes sociais (proposta da aula 10 do curso) (Sudbrack, 2004b) para o início do processo de construção de uma proposta específica de abordagem pelo educador.
12 Este educador havia realizado o curso de capacitação para educadores de escolas públicas para prevenção ao uso indevido de drogas na adolescência oferecido pelo PRODEQUI.
13 Trata-se de um curso que seguiu a proposta do curso à distância, mas com momentos presenciais. Esse curso deu origem ao projeto piloto desenvolvido atualmente pelo PRODEQUI e estuda a adaptação do curso à distância, originalmente desenvolvido para educadores, com momentos presenciais com os diferentes atores da escola, para o conhecimento do potencial do material pedagógico aplicado aos adolescentes e aos pais. Conta com apoio da FAP – DF.
A entrada foi iniciada por meio da observação participante nesse contexto, envolvendo a observação do espaço físico, do ambiente e das interações aluno–aluno e professor–aluno em sala de aula e no pátio, bem como conversando com diferentes atores da escola. Em seguida, foi acordado com um grupo de seis educadores que eles receberiam o treinamento para a entrevista, concomitante à realização do curso. O objetivo dessa atividade inicial de pesquisa foi instrumentalizar o educador para a utilização do mapa de redes sociais e do roteiro de entrevista (Sudbrack, 2004), em uma primeira experiência com essa atividade com os alunos. Nesse momento, a proposta foi que os educadores realizassem a atividade por meio da entrevista individual para mapeamento das redes sociais (ANEXO 2).
Participaram dessa etapa, seis educadores que consentiram com a atividade, assim como seis alunos por eles entrevistados. Os educadores realizaram as entrevistas, relatando suas experiências em supervisões semanais do grupo de pesquisa com esse grupo de seis educadores. As supervisões procuraram trabalhar o conteúdo emergido das entrevistas, bem como, a viabilidade e acessibilidade dessa proposta para promover um olhar sistêmico e relacional do educador sobre o envolvimento com drogas na adolescência. Esse primeiro momento permitiu conhecer algumas peculiaridades da relação professor–aluno, assim como da relação professor–escola, as quais dificultam o formato dessa entrevista individual tão utilizada nos contextos médico e clínico.
O professor, no dia-a-dia está em sala de aula, em reuniões de coordenação, com atribuições de planejamento, avaliação e correção de provas e trabalhos, sem dispor de um momento para essa prática individual dentro da grade horária estabelecida pela instituição. Ao mesmo tempo, para realizar um trabalho de prevenção do envolvimento com drogas na adolescência em contexto escolar, precisa abordar a turma em sala de aula, que se configura como o contexto natural do educador. Essa experiência inicial gerou as perguntas de pesquisa
e a proposta de construção de um instrumento específico para abordagem pelo educador em contexto de sala de aula.
Sendo assim, o resultado observado nessa etapa inicial foi uma dificuldade para adesão dos professores à proposta de realização de entrevistas individuais com os alunos. As justificativas apresentadas por eles e observadas ao longo desse processo foram:
• sobrecarga que os educadores enfrentam diante do volume de atividades que desempenham na escola, somada à proposta de realização de mais uma atividade de natureza diversa à intervenção em contexto de sala de aula;
• indisponibilidade de tempo e local apropriados para realizarem essa atividade individualmente com os adolescentes;
• sentimentos de impotência, relatados pelos educadores, diante dos conteúdos que emergiram nas entrevistas individuais, somado a uma dificuldade de compreensão e interpretação da qualidade da informação.
Por outro lado, a pesquisadora constatou dificuldades dos educadores em transpor o conteúdo e as informações resultantes da entrevista individual e de caráter clínico para possíveis atividades de prevenção a serem realizadas em contexto grupal com os alunos.
Essa atividade inicial, de observação participante, de treinamento e supervisão dos educadores para realização das entrevistas de mapeamento de redes sociais (Sudbrack, 2006) resultou em subsídios para uma nova proposta de avaliação das redes sociais, incluindo risco e proteção, para o envolvimento com drogas, presentes na rede social de adolescentes e que fosse adequada para o contexto da escola e domínio do educador. Da experiência inicial, emergiu um melhor recorte do objeto de estudo e das questões de pesquisa que assim se colocaram:
1. Como a escola pode conhecer e intervir nos fatores de risco e proteção para o envolvimento com drogas, presentes nas redes sociais de seus adolescentes?
2. Como transpor a perspectiva sistêmica relacional da drogadição e a metodologia de redes sociais para uma linguagem acessível e próxima ao cotidiano do adolescente?
3. Como intervir, considerando as possibilidades e os limites da abordagem pelo educador, em contexto de sala de aula?
4. Como sistematizar a apresentação desse conteúdo em uma proposta possível de ser realizada pelo educador?
5. Como o educador pode utilizar essa proposta, no contexto da sala de aula? 6. Como mobilizar o adolescente para uma postura reflexiva e auto-avaliativa
sobre os fatores de risco e proteção para o envolvimento com drogas, presentes nas redes sociais?
7. Como o educador pode avaliar e abordar a turma de alunos com relação aos fatores de risco e proteção para envolvimento com drogas na adolescência? No decorrer do processo, as questões de pesquisa permitiram a elaboração dos objetivos específicos apresentados no capítulo deste estudo referente a introdução e retomados à seguir: (i) investigar sobre as possibilidades de transpor para o contexto da escola a metodologia de exploração das redes sociais de adolescentes desenvolvida originalmente como entrevista clínica de mapeamento das redes sociais (Sudbrack, 2004b); (ii) oferecer subsídios teóricos e metodológicos para uma abordagem dos fatores de risco e proteção para o envolvimento com drogas nas redes sociais de adolescentes, visando ações de prevenção; (iii) proporcionar possibilidades de intervenção para educadores com vistas à mobilização de uma postura reflexiva e auto-avaliativa individual dos alunos a respeito dos riscos e proteção para o envolvimento com drogas, presentes nas suas redes sociais; (iv) proporcionar e avaliar as possibilidades para os educadores conduzirem uma intervenção que vise a mobilização de
postura crítica e reflexiva, no contexto coletivo de turma em sala de aula, sobre fatores de risco e proteção para o envolvimento com drogas, presentes nas redes sociais; (v) desenvolver fundamentação teórico-metodológica sobre a avaliação e abordagem dos fatores de risco e proteção para o envolvimento com drogas na adolescência, como uma estratégia de prevenção que se insere no modelo sistêmico e de educação para a saúde.
Para alcançar os objetivos de avaliação e abordagem, foram desenvolvidas diversas etapas, sendo uma etapa inicial de realização de entrevistas individuais dos alunos pelos educadores, utilizando a proposta de mapeamento original (ANEXO 2); construção do instrumento e dos itens do questionário de fatores de risco e proteção ao longo da aplicação do mesmo em duas turmas, concomitante aos reajustes até chegar à versão final.
(1) O estudo inicial, incluindo as etapas de entrevistas individuais dos educadores com os alunos, construção do instrumento e dos itens do questionário de fatores de risco e proteção ao longo da aplicação em duas turmas e os reajustes, culminando em uma proposta final;
(2) A aplicação piloto do instrumento e da abordagem pelo educador, em duas turmas, resultando em construções sobre o instrumento e sobre a abordagem no nível individual e grupal da turma pelo educador.
O percurso total da pesquisadora na escola teve a duração de um ano, entrecortado por dois períodos de férias escolares, podendo ser dividido em três períodos em que foram realizadas as seguintes atividades:
Setembro a novembro de 2005: observação participante; contato inicial com o grupo de seis educadores em atividades de coordenação pedagógica; treinamento dos educadores para realização de entrevistas de redes sociais com os alunos; realização das entrevistas pelos educadores; realização de supervisões para os educadores.
Março a maio de 2006: aplicação do instrumento e desenvolvimento participativo do mesmo, para avaliação de redes sociais e fatores de risco e proteção, em contexto de sala de aula; Agosto a outubro de 2006: estudo piloto sobre avaliação e abordagem pelo educador.