• No results found

O cuidado como dimensão ética não é o procedimento técnico, ou de proteção, ou como prática de controle e ajustamento, mas sim uma prática de cuidado pelo outro, de abertura ao encontro com o novo, com a alteridade. Ou, dito de outra forma, é uma “dimensão originária de respeito ao outro em sua singularidade e resistência à absorção e totalização pelo mesmo” (FREIRE, 2004, p. 01). Essa dimensão ética precisa caracterizar, de acordo com o autor citado e com quem concordo, as profissões da área da saúde, dentre as quais, e em especial, a prática dos psicólogos. É exatamente nessa onde buscarei as implicações da reflexão filosófica da ética levinasiana na questão do cuidado para com o outro e na constituição do psicólogo como um sujeito ético-político – o que significa considerá-lo não

apenas um mero reprodutor do modelo hegemônico, mas como aquele que reflete sobre as ações e relações concretas desenvolvidas em seu entorno.

A maior implicação do cuidado como dimensão ética na prática do psicólogo deve, ou nos termos levinasianos, tem de ser não a compreensão do outro como objeto de estudo e intervenção, mas sim o serviço ao outro, pois

Cuidar é mais que um ato, é uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de atenção, de zelo e de desvelo. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro (BOFF, 1999, p. 33).

O cuidado para com o outro como sentido original da prática dos psicólogos nas instituições de saúde implica em estar a serviço do outro, de forma des-inter-essada, colocando sua competência profissional à disposição do outro, sem considerá-lo como um objeto, e fazendo do cuidado a exigência primeira

no sentido em que desse cuidado não resulta nenhuma ingerência, nenhum domínio, nenhum poder sobre o Outro. Cuidar é deixar ser, e deixar ser diferente, diverso, a alteridade mesma. É ser chamado a ajudá-lo sem reduzi-lo ao Mesmo, ao enquadre ou à nosografia (FREIRE, 2004, p. 08).

O cuidado é o sentido original do humano, é constitutivo da sua natureza, o que fez Boff (1999) caracterizá-lo como um modo-de-ser essencial. O cuidado como dimensão ontológica foi, primeiramente, abordado e aprofundado por Heidegger (1997) que expôs numa fábula de Higino o cuidado ou “cura” como um testemunho pré-ontológico de sua presença originária:

Certa vez, atravessando um rio, “cura” viu um pedaço de terra argilosa: cogitando, tomou um pedaço e começou a lhe dar forma. Enquanto refletia sobre o que criara, interveio Júpiter. A cura pediu-lhe que desse espírito à forma de argila, o que ele fez de bom grado. Como a cura quis então dar seu nome ao que tinha dado forma, Júpiter a proibiu e exigiu que fosse dado o seu nome. Enquanto “Cura” e Júpiter disputavam sobre o nome, surgiu também a terra (tellus) querendo dar o seu nome, uma vez que havia fornecido um pedaço de seu corpo. Os disputantes tomaram Saturno como árbitro. Saturno pronunciou a seguinte decisão, aparentemente eqüitativa: “Tu, Júpiter, por teres dado o espírito, deves receber na morte o espírito e tu, terra, por teres dado o corpo, deves receber o corpo. Como, porém, foi a ‘cura’ quem primeiro o formou, ele deve pertencer à cura enquanto viver. Como, no entanto, sobre o nome há disputa, ele deve se chamar ‘homo’, pois foi feito de humus (terra) (HEIDEGGER, 1997, p. 263).

O cuidado, nessa alegoria, é visto como pertencente à existência humana, como um “artesão” da construção sempre em curso dessa existência, de acordo com Ayres (2004). Reconheço, portanto, que a relação com o outro suscita responsabilidade; que a condição

originária de nossa subjetividade, a responsabilidade pelo outro, manifesta-se através do nosso modo de agir e de interagir com o outro; a exigência de uma atitude de escuta e acolhimento para com todo e qualquer outro; e reconheço ainda, a partir de Gadamer (2002), que a arte de curar não inclui apenas o bem sucedido combate à doença, mas principalmente o cuidado da saúde; considero fundamental à prática concreta dos psicólogos – no caso específico deste estudo, a prática nos serviços públicos de saúde – resgatar o exercício do cuidado.

Nessas instituições, conhecidas como hospitais gerais, que alocam a quase totalidade dos psicólogos sujeitos deste estudo, é significativa tanto a hegemonia do modelo biomédico – organizado a partir da doença, e não no doente, nem na escuta do seu sofrimento; com foco na verticalização da assistência, onde os ditos profissionais paramédicos têm atuação subordinada ao profissional médico – quanto a redução do engajamento social e político desses profissionais. Em contraste com as instituições de saúde mental, nas quais os próprios psicólogos assumiram o papel de ator e autor, junto com outros profissionais e a sociedade civil, do processo de revisão das ações e serviços psiquiátricos – antes marcados também pela medicalização na assistência.

Nas mesas de cirurgia, nas macas dos corredores, nas emergências ou enfermarias superlotadas, onde a urgência do tempo e a presteza no uso da técnica determinam a sobrevivência do doente, é que se dá a exigência de um outro modo de estar com o paciente, que se paute por aquela escuta e acolhimento do seu sofrimento. Claro que seria ingenuidade minha negar a validade e a necessidade tecno-assistencial, pois o cuidado não implica a rejeição do uso da técnica ou do controle da doença; abordar, porém, a questão do cuidado é ir além e redimensionar a prática nessas instituições a partir de uma atitude de resposta à necessidade do outro – o doente – cuja condição de hospitalização é de extrema vulnerabilidade e passividade.

Essa resposta, ou nos termos levinasianos, essa responsabilidade para com o outro, pode ser dada pelo psicólogo da saúde desde que haja uma abertura ao encontro e caso ele assuma a postura de “estar em relação”, de “ser para” o outro, e desenvolva um serviço ao outro, respondendo a sua exigência por respeito aos seus sentimentos, escuta de seu sofrimento e acolhimento de sua singularidade, seus desejos, saberes e história. Essa abertura ao outro demanda ainda que o psicólogo não fique restrito ao saber técnico e possa, ao se deparar com o outro, construir um saber peculiar que dê conta dos meios e dos fins de sua ação na área da saúde: o saber ético (GADAMER, 2002). Senão, caracterizará o que Boff (1999) denominou de modo-de-ser-trabalho, cuja postura é a de intervenção e de uso do poder

e do conhecimento sobre o outro, tratado como objeto – o que em Freire (2004) é denominado de falso cuidar.

Portanto, a partir da escuta ética, o psicólogo não pode ficar restrito às competências e intervenções técnicas, nem basear sua atuação nos serviços de saúde por relações estáticas, individualizadas e individualizantes, uma vez que a atitude de cuidado ultrapassa o foco da subjetividade para o da intersubjetividade, no qual se é afetado pela alteridade, pelo discurso e saber vindos do outro, o paciente. Na realidade, a área da saúde necessita que o cuidado caracterize-se como a tarefa orientadora de todos os profissionais envolvidos na questão saúde, não só o psicólogo:

Cuidar da saúde de alguém é mais que construir um objeto e intervir sobre ele. Para cuidar há que se considerar e construir projetos [...] Então é forçoso saber qual é o projeto de felicidade que está ali em questão, no ato assistencial, mediato ou imediato. A atitude de cuidar não pode ser apenas uma pequena e subordinada tarefa parcelar das práticas de saúde. A atitude ‘cuidadora’ precisa se expandir mesmo para a totalidade das reflexões e intervenções no campo da saúde (AYRES, 2001, p. 71, grifos meus em negrito).

A arte da assistência à saúde não pode reduzir-se à mera manipulação de objetos. É preciso articular a intervenção técnica com outros fatores não tecnológicos, conforme afirma Ayres (2004, p. 84), pois “nunca, quando assistimos à saúde de outras pessoas, mesmo estando na condição de profissionais, nossa presença na frente do outro se resume ao papel de simples aplicador de conhecimentos”. A implicação dessa questão é, no caso específico explorado nesta pesquisa, o psicólogo da saúde colocar seu papel de perito em xeque – como já alertou Freire (2003a) – e ousar romper com os modelos tradicionais de assistência limitados a posturas de tratamento, controle e cura, buscando pautar sua prática por outro modo de atenção, que dê conta do acolhimento e do cuidado para com o paciente – melhor dizer do sujeito doente, o qual não se reduz a uma simples atitude passiva típica da realidade dos hospitais gerais. Logo, é importante, antes de qualquer coisa, como corroboram Andrade e Morato (2004, p. 347):

um deslocamento do saber, de uma outra postura ética em que não existe um saber dado a priori, ou uma verdade a ser transmitida, mas uma construção conjunta de sentidos. Nas práticas institucionais, faz-se necessário, pois, que o psicólogo se despoje do lugar de especialista, portador de um saber a ser transmitido e passe a funcionar como um mediador, um entre, que acolhe a produção emergente nos diversos encontros (grifos meus em negrito).

Comprometido dessa forma com o respeito e o acolhimento da diferença, o psicólogo da saúde resgata a dimensão ética do cuidado para sua prática e aproxima-se da escuta ética levinasiana, retomando o sentido originário de sua atuação: o cuidado; e pauta sua atuação com o que Boff (1999) denominou como o modo-de-ser-cuidado, que é a relação de sujeito e sujeito, e não mais de sujeito e objeto, pautada não pelo domínio “sobre”, mas pela “inter-ação” e “con-vivência”:

Cuidar das coisas [não só o homem] implica ter intimidade, sentí-las dentro, acolhê- las, respeitá-las, dar-lhes sossego e repouso. Cuidar é entrar em sintonia com, auscultar-lhe o ritmo e afinar-se com ele. A razão analítico-instrumental abre caminho para a razão cordial, o espirit de finesse, o espírito de delicadeza, o sentimento profundo. A centralidade não é mais ocupada pelo logos razão, mas pelo pathos sentimento (BOFF, 1999, p. 96, grifos meus em negrito).

Ter a ocupação centrada no aspecto racional foi por muito tempo o foco da enfermagem – uma profissão de saúde voltada tradicionalmente para o saber e o fazer técnicos sobre um ponto ou parte do corpo do doente – o que fez Waldow (2004) afirmar que essa profissão não cuidava, não se ocupava do humano, nem se interessava pelo envolvimento e acolhimento desse homem. Não pretendo discutir aqui a profissionalização da enfermagem, nem sua estruturação como profissão subalterna; trago-a como ilustração da única profissão de saúde que há tempos discute e problematiza a questão do cuidado no seu modo de intervenção na saúde.

Embora incorra no exagero de caracterizar a enfermagem como a única capaz de uma prática de cuidado na assistência ao paciente e na humanização de seu tratamento – preterindo a interdisciplinaridade –, essa mesma autora coloca como foco unificador da prática da enfermagem o cuidado para com o paciente. Expõe ainda a necessidade de uma reflexão crítica e de uma atitude de responsabilidade, o que se aproxima da discussão proposta por este estudo sobre os psicólogos, distanciando-se, porém, quando revela a necessidade do processo de cuidado em enfermagem, para ser ético, ter que dar conta dos aspectos de habilidade técnica e conhecimento do paciente.

Em uma pesquisa sobre o significado da experiência de cuidar entre enfermeiras, nutricionistas e auxiliares de enfermagem, Waldow (2004) constatou a existência de duas dimensões do cuidado. A primeira denominou cuidado técnico: é inerente à profissão e tem caráter instrumental, mecanicista, tecnológico e submetido a normas hierarquizadas. A outra foi dita cuidado humano, que sai da esfera do fazer para a do envolvimento, do apoio, do afeto, da confiança, do compartilhamento e da responsabilidade. Quanto à efetiva assistência

prestada pelas profissionais de enfermagem, essa última dimensão do cuidado é negligenciada, quando não abolida:

embora inclinadas a introduzir tal aspecto mais afetivo, o cuidado humano em sua plenitude fica em nível teórico. [...] A ênfase real ainda parece ser no plano físico, biológico. Assim o demonstraram as prescrições de enfermagem e as anotações, como notas de admissão e evolução, que mencionaram estas dimensões, tão somente (WALDOW, 2004, p. 119, grifos meus em negrito).

Concluo que os profissionais de enfermagem circulam entre o cuidado como algo humano e como atividade técnico-profissional – seria viável expandir tal conclusão para a prática dos psicólogos da saúde? Ainda não possuo, porém, recursos suficientes para dar conta dessa questão. Por ora, compreendo que esse trânsito entre as dimensões do cuidado e a postura dominante no setor saúde de anulação da alteridade do paciente, retirando dele a fala sobre suas necessidades, leva à exigência de uma prática de cuidado integral – uma categoria básica para possibilitar a abertura de novos diálogos na área da saúde – cuja implementação está estreitamente associada à humanização da assistência à saúde e cuja definição, devo ressaltar, não é o conjunto de técnicas terapêuticas aplicadas a um tratamento.

O cuidado surge como uma crítica e como uma nova “tecnologia”, apontam os autores Pinheiro e Guizardi (2005), capaz de romper o discurso hegemônico da racionalidade médica e de dar conta da demanda por uma integralização da assistência. Integralidade essa que se coloca como um dispositivo político com implicações no espaço da intersubjetividade, significando dizer que, como uma prática social, busca reconhecer as diferentes visões de mundo, saberes e diálogos próprios ao campo da saúde.

Em Ayres (2005), o cuidado é considerado um verdadeiro desafio à organização dos serviços públicos de saúde do país, o que vai ao encontro da afirmação de Pinheiro e Guizardi (2005, p.25), para quem:

São milhares de gestores, profissionais e usuários do SUS que, na busca pela melhoria de atenção à saúde, vêm apresentando evidências práticas do inconformismo e da necessidade de revisão das idéias e concepções sobre saúde, em particular dos modelos tecnoassistenciais. [...] Deseja-se destacar a ação criativa desses novos atores, verdadeiros sujeitos em ação, que na luta pela construção de um sistema de saúde universal, democrático, acessível e de qualidade, vêm possibilitando o surgimento de inúmeras inovações institucionais, seja na organização dos serviços de saúde, seja na incorporação e/ou desenvolvimento de novas tecnologias assistenciais de atenção aos usuários do SUS [grifo no original].

Não é a toa que o debate atual sobre a qualidade da atenção na saúde e sobre a implantação da política de humanização nos serviços tenha como principais pontos a

produção de cuidados, a valorização do protagonismo dos profissionais e pacientes e o respeito à diferença. Porém, para Ayres (2004) a efetiva concretização dessa proposta depende de mudanças radicais no modo de pensar e fazer saúde. A reconstrução das práticas de saúde, a partir da humanização da assistência, somente será possível se antes os próprios profissionais passarem por um processo de reflexão crítica e de afetação e abertura à presença do outro – os quais considero como elementos chaves para a exigência ética de uma atitude de cuidado.

Há urgência por uma “nova cultura de atendimento”, alerta Deslandes (2004), – diria de outro modo: há urgência de uma nova atitude de cuidado para com o outro –, que se abra ao encontro e ao diálogo com a alteridade, seja a das outras profissões atuantes no setor, seja a do próprio usuário, uma vez que esse “projeto/processo” de humanizar a assistência precisa também dar conta da humanização da produção, ou melhor, dos produtores dessa assistência. As políticas públicas precisam se voltar para a própria realidade dos serviços e das condições de trabalho. Assim, a política de humanização da assistência, mais do que uma política marcada por princípios legais, assume também o significado de uma ação preocupada com o modo de andar a vida dos atores do setor e aborda os discursos e poderes nas práticas de saúde.

Sair da intervenção tecnicista, do saber-poder sobre o outro, de anulação da diferença, da relação sujeito-objeto para uma outra atitude de inter-ação, de relação intersubjetiva, de “ser para” e de responder à exigência do outro por respeito e cuidado, pode sim caracterizar a humanização da assistência e o cuidado integral nas ações e serviços de saúde. Cuidado para com o outro concretizado através de atitudes de respeito, escuta e acolhimento da singularidade e sofrimento do outro; cuja tarefa não é exclusividade de uma profissão, nem implica na negação dos saberes e conhecimentos já construídos no campo da saúde, e sim na necessidade de expansão dessas ações ao diálogo intersubjetivo para que se possa ter de fato uma melhoria na prática de cuidado na área da saúde.

Portanto, considero oportuno questionar e refletir sobre a prática do psicólogo no contexto público de saúde, provocando o psicólogo da saúde a se posicionar a respeito de sua prática (possível) de cuidado, seu modo de intervenção, para que ele revele o modo de lidar com a alteridade no seu cotidiano profissional. Tenho interesse em problematizar se a atuação é pautada por uma postura tecnicista, normatizadora e intervencionista, vendo o outro como o paciente que chega em busca de um cuidador de sua saúde e é rotulado por um diagnóstico ou um número de prontuário; ou, pelo contrário, se pretende, através de uma escuta ética, um acompanhamento de seu sofrer, um acolhimento e respeito de sua singularidade, além de

demonstrar zelo e afeto e estar verdadeiramente a seu serviço. Há efetivamente profissionais com atuação mais próxima do conceito amplo de saúde ou o foco continua sendo o nível assistencial, sob o domínio biomédico? Será que o cuidado para com o outro pode constituir- se como a prática possível à exigência da Psicologia da Saúde?

Bem, diante do exposto e considerando que qualquer intervenção na área da saúde deve visar o bem-estar dos indivíduos no enfrentamento de doenças e no resgate de sua saúde, tenho como propósito geral compreender os sentidos que os psicólogos atribuem ao cuidado para com o outro em sua prática nas instituições públicas no município de Fortaleza. Sentidos os quais serão melhor discutidos no próximo capítulo, onde construirei o texto interpretativo desta pesquisa.

5 O CUIDADO PARA COM O OUTRO NA PRÁTICA DO PSICÓLOGO NA REDE