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Appendix 5: Organ’s OCB scale (1988)

2. Theory

2.2. Choice architecture and hypotheses

2.2.2. Non-descriptive message

TEMA 3 – CONCEPÇÕES SOBRE A DIMENSÃO ÉTICA DO CUIDADO DIMENSÕES

3.A CUIDADO COMO TÉCNICA 3.B CUIDADO COMO ABERTURA ÉTICA AO OUTRO

3.C CUIDADO COMO POLÍTICA DE SAÚDE FIGURA 4 – Tema 3 da Rede Interpretativa

A primeira dimensão, Cuidado como Técnica, faz referências às práticas mais comprometidas com os modelos tradicionais da área clínica em psicologia e da assistência biomédica, em que a psicóloga desenvolve, junto ao usuário, uma relação mais técnica e ocupada mais com o tratamento, conforme revela o excerto a seguir:

Aqui é um hospital-dia, eles vêm já desintoxicados para começar a fazer um trabalho de mudança de hábitos e de prevenção de recaída, que é o que nós “trabalhamos” basicamente aqui. O tempo mínimo é três meses e varia de pessoa para pessoa. Tem gente que fica aqui seis meses, dependendo da necessidade, e a gente fica trabalhando isso aqui: preparando-os para depois continuar a recuperação, porque o tratamento de dependentes químicos é como diabetes, hipertensão – é para o resto da vida. Não acaba nunca, não existe a cura, existe a recuperação e controle. (Informante 7)

Nesse relato, encontro uma experiência de diminuta responsabilidade pelo outro, melhor dizendo, a resposta ao apelo dessa pessoa em processo de desintoxicação dada pela profissional é focada menos na alteridade e na relação intersubjetiva e mais no interesse no outro como objeto de intervenção técnica, o qual é preparado para ter sua própria recuperação monitorada continuamente pelo serviço de saúde. O usuário, despido de sua singularidade e de sua capacidade de autogerir, recebe o rótulo de dependente – no sentido mais literal da palavra – da ajuda especializada dos profissionais, os quais, por sua vez, insistem em ficar “surdos” ao sujeito que vem em busca de cuidado e pautam suas atuações pelo modelo de relação sujeito-objeto. Na verdade, a melhor caracterização desse caso é a relação objeto- objeto, na qual o próprio psicólogo – um dos pólos – não assume postura crítica e reflexiva sobre o seu modo de estar a serviço do outro na instituição de saúde e acaba desenvolvendo um cuidado mais técnico e menos interessado na demanda do usuário por respeito e acolhimento:

cuidar do outro é especializado dentro da psicologia: vou usar técnicas para cuidar

daquele paciente, que é a pré-avaliação, é tudo isso que estou utilizando de

técnicas, que ali sou um profissional, digo, não estou cuidando dele porque acho ele maravilhoso e estou com pena dele... (Informante 5)

Tal cuidado revelado pela informante compactua mais com o sentido disseminado no senso comum, e reproduzido em Ayres (2004, p. 74), do cuidar como um “conjunto de procedimentos tecnicamente orientados para o bom êxito de um tratamento”. Na vivência dessa última informante, o cuidado é considerado, então, uma correta aplicação de procedimentos diagnósticos, de acordo com os passos instituídos no serviço de saúde.

Os dois últimos relatos expõem, também, que as psicólogas, mesmo na presença dos seus usuários, não conseguem estabelecer uma relação direta com eles, pois, do contrário, não se interessariam em tematizá-los ou rotulá-los, nem tratá-los do mesmo modo como se considera um objeto conhecido (LÉVINAS, 1982); muito menos em subjugá-los à intervenção tecnicista ainda tão presente no contexto dos serviços de psicologia da rede estadual. A ajuda disponibilizada ao usuário é, dessa forma, focada na preparação e no

controle, conforme pode ser novamente observado nas falas de outras psicólogas entrevistadas. Uma, inclusive, ao especificar os critérios necessários à inclusão de um paciente na fila de espera por um transplante, revela de forma paradoxal o quanto esses mesmos itens podem ser determinantes de sua própria intervenção psicológica:

A gente dá as ferramentas. É aquela coisa: a gente ensina a pescar [...] Aqui a

gente cuida, mas de uma forma mais para preparar. (Informante 7)

E assim esses critérios não são determinantes, por exemplo: vou tirar da fila do transplante. Às vezes são coisas que a gente pode preparar o paciente para que ele

volte para a fila. Tem coisas assim que realmente já corta: o doente mental, mas o

paciente que está numa crise familiar, num conflito, numa separação – a gente pode dar um tempo para aquele paciente para ele se organizar e nesse dar um tempo a gente já ajuda com a terapia, entendeu? (Informante 8)

A última profissional demonstra ainda uma preocupação de desenvolver essa prática de ajuda e de preparação junto aos familiares. Tal vivência voltada para a família é também compartilhada por outra depoente em seu cotidiano na área da saúde:

A gente é chamada muito para notícia de óbito; assim, para preparar o familiar: o paciente tem falecido lá dentro e o médico comunica que prepare aquela família.... (Informante 8)

fui tentar pegar essa técnica de cuidar do pais para poder cuidar das crianças de uma forma muito... Porque também aprendi a ser terapeuta familiar. (Informante 6)

Outra sub-dimensão que me chamou atenção neste tema foi a compreensão do cuidado como orientação e aconselhamento, tal como revela o depoimento da psicóloga que lida diariamente com mulheres mastectomizadas ou com diagnóstico de câncer, a qual, porém, distancia-se de uma prática efetiva de prevenção e promoção da saúde e aproxima-se mais daquela postura tecnicista e individualizante:

Quando você fala aqui em cuidado para com o outro, acho que é exatamente isso que faço aqui. Sabe essa coisa de você orientar. E olhe, você tem que ter muita paciência, muito amor e tem que valorizar muito a queixa do outro.[...] Você não pode ver só uma pessoa sem mama, você tem que saber o que significou a perda dessa mama. E é isso o que bato muito aqui. Vou tratar só do câncer? Não, não é só isso. Aquilo ali refletiu nela toda, mudou a vida da pessoa e que muda, sabe. Muitas vezes para pior e você então tem que dar valor; deixa ela falar, escuta e orienta. Acho que o maior cuidado que você pode ter com o outro é saber ouvir. (Informante 2)

Valorizar o outro e buscar escutá-lo são falas descontextualizadas da atitude dessa informante revelada no decorrer de toda a entrevista, cuja prática tem preterido o respeito e o

acolhimento para com o sofrimento das usuárias, não conseguindo ser afetada pela sua presença e alteridade, e priorizando mais a prática de orientação e a de anulação da diferença – já discutida anteriormente no segundo tema deste estudo. Esse último excerto, portanto, vai ao encontro da crítica de Ayres (2004), quanto ao progressivo afastamento da Medicina da arte da assistência ao outro – crítica válida a muitos outros profissionais de saúde, como os psicólogos de atuação embasada no cuidado como técnica:

é como se a terapêutica estivesse perdendo seu interesse pela vida, estivesse perdendo o elo de ligação entre seus procedimentos técnicos e os contextos e finalidades práticas que os originam e justificam. Narcísica, a Medicina tecnocientífica encantou-se consigo mesma (AYRES, 2004, p. 83, grifos meus).

Já outra psicóloga, que revelou no decorrer da entrevista um interesse a mais pela vida do sujeito usuário do seu serviço, ao abordar a função do aconselhamento, entende-o como uma técnica de cuidados propícia à orientação das pessoas que vêm receber o resultado do exame anti-HIV:

Isso fez com que realmente valorizasse o aconselhamento, que é um procedimento que tem um resultado de minimizar a dor da pessoa ao receber um resultado positivo. (Informante 1)

Cuidado como minimização da dor do outro é mais um aspecto a ser ressaltado nesta dimensão. Nesse item, encontro, porém, ambigüidades. Na realidade, compreendo como um risco, pois mesmo sabendo ser evidente que uma unidade hospitalar é cercada de especificidades e dinâmicas próprias, não compartilho com a atitude por parte do psicólogo em usar o sofrimento ou doença do outro como um meio para alcançar determinado objetivo desejado pela instituição, qual seja: a adaptação ao tratamento. Tal como afirma esta psicóloga que revelou uma postura ora focada na técnica e no tratamento como minimização do sofrimento, ora na prática de cuidado como uma atitude ética – aspecto o qual será melhor discutido no segundo momento desta temática:

a gente vai preparar aquele paciente para o momento que ele está vivendo, de dor, de doença, de recuperação.

[relata ainda a mesma informante] Às vezes o paciente não vai ficar curado, a gente sabe que talvez não saia daquela situação, mas nós conseguimos dar um certo conforto para ele em termos de tranqüilidade, de diminuir a ansiedade... (Informante 8)

O tratamento é, desse modo, compreendido mais como ajustamento e como seguimento às normas cristalizadas e às rotinas institucionais, sem questionamento da assistência prestada. O risco que considero é, uma vez mais, tornar o outro um objeto de intervenção e de interesse do psicólogo ou da equipe, saindo da esfera da singularidade e da relação para a da rotulação e, tal como já denunciaram Andrade e Morato (2004), a da explicação sobre. Esse psicólogo, que deveria ser um profissional de cuidado da saúde do sujeito doente, passa a agir como um perito e ter como foco de ação adaptar o outro ao tratamento médico, minimizando quaisquer dores e sofrimentos provocados ou relacionados à doença ou à intervenção propriamente dita. Perícia essa correspondente à preocupação atual da profissão, a qual, por outro lado, vai de encontro ao posicionamento crítico de Freire (2002, p. 140), quando explicita qual teria de ser o compromisso dessa mesma disciplina:

As psicologias, no nosso entendimento, deveriam dar conta das passagens, das rupturas, dos excessos, da transgressão, dos limites, do indeterminismo e da imprevisibilidade que caracterizam a existência humana. Assim se aproximariam mais do trágico existir do homem que a arte consegue exprimir tão eloqüentemente. Entretanto, têm-se atado tão somente às identidades, aos estádios, às contenções, às normas, às perícias, ao determinismo e ao previsível e controlável. (grifos meus em negrito)

Essa questão, acredito, tem ressonância direta com a dúvida e a ambigüidade expostas na fala abaixo, na qual a depoente sente dificuldades – como não poderia deixar de ser – em oferecer uma atitude de cuidado para com o usuário ao dar-se conta de que:

a gente solta o paciente muitas vezes sem saber se foi suficiente sua intervenção. [...] Tenho medo de soltar esse paciente com questões que ele não vai poder levar sozinho, que até mobilizado por ocasião da doença, às vezes ele tem aquilo guardado e diante da morte, de uma doença crônica, ele se desorganiza todo. (Informante 8)

Desenvolver esse modelo de atenção revela que a psicóloga citada não consegue ainda estar a serviço do outro, nem oferecer-lhe, no frente-a-frente do encontro no setor de saúde, um “ethos” necessário a sua renovação e retomada de suas próprias dores no mundo, conforme já alertou Freire (2003b), onde não cabe negá-las ou minimizá-las, mas sim fazer dele um espaço de acolhimento e hospitalidade ao usuário. Desse modo, o psicólogo atuaria mais como um cuidador e poderia aproximar-se do sofrer do outro, respeitando-o – antes de qualquer expectativa institucional ou da equipe de saúde – como um sujeito, não como um objeto.

Uma outra sub-dimensão recorrente nos depoimentos das psicólogas deste estudo faz referência a necessidade sentida pela própria profissional, diante do usuário do serviço de saúde, em ter um cuidado maior consigo, que lhe permita encontrar meios de resistir à frustração ao lidar com os sofrimentos do outro e não conseguir ajudá-lo ou então fazê-lo aquém do esperado. A primeira fala exposta abaixo aborda tão somente essa necessidade de cuidar de si; já nos dois relatos seguintes, as psicólogas mostram uma preocupação de voltarem-se para si mesmas com o intuito de facilitar as relações dentro da própria equipe de trabalho:

Claro que não é fácil. A gente tem que ter muita resistência à frustração, porque o grau de sucesso é mínimo. Você sabe? (Informante 7).

qualquer pessoa que me conhecer aqui dentro desse hospital, eles têm respeito por mim e eu tenho por eles [...] eu sempre sorrio, dou bom dia, boa tarde, vou me trabalhando... (Informante 6)

às vezes a gente cuida do outro, se a gente não estiver cuidando também da gente a gente tem um deslize de você no momento não conseguir. E porque você não está bem, às vezes é uma equipe que não está funcionando bem... (Informante 8)

Resistir à frustração por não cuidar do sofrimento do outro conforme a expectativa traçada merece aqui uma maior observação. Acredito que o cuidado de si parece estar mais interessado no outro e, conseqüentemente, em seu sofrimento, como objeto de intervenção tecnicista do psicólogo que se frustra por não conseguir exercer uma prática de “ortopedia” e de controle e, assim, não corresponder ao aceitável dentro da instituição de saúde. Dessa forma, também o profissional compactua com a busca típica da ética contemporânea de afastamento da dor, em nome do prazer e do sucesso – sucesso esse planejado pela informante quando se dispôs a tratar o usuário de sua unidade de desintoxicação –, a qual só perpetua a atitude de alergia ao outro e ao encontro verdadeiramente intersubjetivo. As psicólogas, ao revelarem maior preocupação com o cuidar do próprio bem-estar ou em responder ao esperado pela unidade de saúde onde trabalham, só colaboram com o alheamento em relação ao sujeito:

A maior parte das psicologias, com certeza, é exemplo de uma prática de cuidado de si, de um cuidar obsessivo com o próprio bem-estar, com o Mesmo. Nisso,

colaboram com o comportamento alérgico em relação à alteridade que acaba por não propiciar a serenidade da satisfação individual (FREIRE, 2002, p. 143, grifos meus em negrito).

Imaginar-se satisfeita individualmente com o serviço prestado ao usuário parece, contudo, ocorrer com a psicóloga que pretende isentar-se de qualquer culpa e, conseqüentemente, de qualquer responsabilidade para com o outro, ao insistir numa atitude de cuidar de si, configurando, ao mesmo tempo, uma prática não cuidadora frente ao usuário:

faço meu parecer. Se ele for operado, mesmo eu dizendo que no momento não está [apto]... Está lá o meu parecer. Essa culpa não vou pagar. Já está lá no prontuário: que ele no momento deveria esperar mais um pouco... (Informante 5)

A atitude dessa profissional evidencia uma fala conservadora, tecnicista e acrítica, tal como Waldow (2004) constatou em sua pesquisa sobre o cuidar quando abordou, especificamente, a percepção das enfermeiras. Segundo a autora, essas profissionais revelaram mais um cuidado hierarquizado, voltado para os aspectos instrumentais, para as normas e regras institucionais. Restrita, também, mais à norma instituída e ao parecer, a psicóloga mostra-se, portanto, surda ao apelo do outro que vem em busca de realizar a cirurgia bariátrica, o que me faz perceber o predomínio do caráter individual-universalista dos cuidados em saúde, conforme Ayres (2004) argumenta em relação à persistência dessa configuração mais técnica do cuidado entre os profissionais de saúde.

De modo diferente, o relato abaixo já revela uma outra atitude frente ao usuário e uma preocupação da psicóloga em cuidar de si mesma, por meio de processo psicoterápico individual ou de suporte externo através de supervisões, com o intuito de estar mais atenta e aberta ao encontro com o outro, de forma tranqüila para ela mesma, e mais sensível e acolhedora para com o outro:

Para mim, é uma atividade que a dor, ela permeia essa atividade; o sofrimento psíquico da gente. Tenho que ter um cuidado comigo, por conta do tipo de

trabalho que faço para que isso não me traga um dor além – digamos assim, paralizante – mas o sofrimento faz parte da minha atividade, todos os dias.

(Informante 1)

Nesse excerto, a psicóloga revela uma necessária abertura para com o sofrimento do outro quando assume, na presença daquele que busca o seu serviço, uma postura de não isenção, além de compartilhar com a necessidade – melhor definir como exigência –, já apontada por Ayres (2004), de os membros de uma equipe de saúde, ao se fazerem presentes frente ao outro e prestar-lhe assistência na condição de profissionais, não terem os seus papéis resumidos ao de simples aplicadores de conhecimentos técnicos, uma vez que “a interação terapêutica apóia-se na tecnologia, mas não se limita a ela” (AYRES, 2004, p. 85).

Essa última informante citada me intima a passar, agora, a discutir a segunda dimensão deste tema: O Cuidado como Abertura Ética ao Outro. De início, preciso enfatizar a própria disponibilidade das psicólogas entrevistadas neste estudo – apesar de todas as dificuldades do setor da saúde, como, por exemplo, a rotina extenuante de trabalho – para uma abertura ao encontro comigo, enquanto entrevistadora, e o esforço em refletir sobre a questão do cuidado em seus cotidianos, surpreendendo-me com a busca de uma outra atitude para com o outro.

Um aspecto que emergiu de imediato nesta dimensão é a abertura ao outro, reconhecido e respeitado como uma pessoa singular, com sua história de vida e valores, seus medos e sofrimentos. O psicólogo, diante da exigência desse usuário por cuidado, busca distanciar-se da formulação de regras, do enquadre diagnóstico e do seguimento de rotinas pré-estabelecidas e revela uma abertura ao encontro com a alteridade no serviço de saúde. Abertura a qual rompe com a alergia ao outro, típica das relações atuais e já denunciada pelo filósofo Emmanuel Lévinas, e expõe o quanto a presença do outro intima e exige desse profissional um nova atitude para com ele – de escuta, respeito e acolhimento de seu sofrimento e de sua singularidade –, conforme mostram os relatos seguintes de uma mesma informante ao reconhecer a necessidade de, na sua prática cotidiana, desenvolver uma outra postura frente aquele que busca o serviço:

não gosto dessa postura de estar distante do paciente. Então a minha postura é

realmente de se aproximar e acolher e estar escutando aquela pessoa; estar envolvido mesmo na história. E acho que isso é mais tranqüilo para mim...

É você permitir que a pessoa sinta esse espaço como um espaço dela, que tem alguém escutando, que tem alguém aqui para ela chorar, que vai ficar acolhendo,

que vai ficar dando apoio. (Informante 1)

Essa sensibilidade durante o encontro com o usuário é também vivenciada por outras psicólogas que buscam desenvolver uma atitude diferenciada, priorizando o olhar para o outro e a relação intersubjetiva, sem jamais deixar, obviamente, de voltar-se para o tratamento; uma vez ser impossível ao psicólogo numa instituição de saúde ficar alheio à doença, ao diagnóstico e à assistência prestada – seria, na verdade, uma ingenuidade de sua parte. De outro modo, seria também ingênuo assumir a linguagem tecnocientífica e supô-la como a única capaz de dar conta da complexidade das ações e cuidados na área, pois

a ação em saúde não pode se restringir à aplicação de tecnologias. Nossa intervenção técnica tem que se articular com outros aspectos não tecnológicos. Não podemos limitar a arte de assistir apenas à criação e manipulação de ‘objetos’ (AYRES, 2004, p. 84, grifos meus em negrito).

Creio, portanto, não ser mais viável ao profissional da psicologia restringir seu modo de atuar na área da saúde apenas àquelas questões instrumentais e de adaptação ao tratamento e deixar de ser implicado pela abertura à diferença, sobre a qual a relação de “saber-poder” sobre o outro não tem ingerência alguma:

Assim, vejo que os usuários têm uma necessidade muito grande de ser ouvido, de ser acolhido. E acho assim que na minha atuação procuro muito fazer isso. [...] Vejo que a própria atitude sua de ser receptivo, de estar aberto, já promove um alívio

dos sintomas. Porque a sociedade que a gente vive, de competitividade, de cada um

por si, de individualismo, as pessoas estão cada vez menos tendo espaço para se colocar, para ser ouvido, para ter alguém que diga: olhe, estou aqui! (Informante 3)

Quando cuido do outro, não estou dizendo que vou dar minha roupa para ele, nem vou dar minha vida e nem meus problemas para ele. Não estou me colocando, não estou dando as minhas experiências, estou falando das necessidades e daquilo que

ele solicita... (Informante 6)

Então acho que quando acompanho o paciente procuro ter esse olhar, procuro manter esse compromisso entendeu? E atender as necessidades dele, no que eu

puder [...] Aqui a gente chama é a casa de cura, de reabilitação, em todos os aspectos. E nesse momento que é difícil para ele, de doença crônica, de dor, se a

gente puder ajudá-lo a passar por isso da melhor forma, acho que isso é o