• No results found

Vale ressaltar que a caracterização dos variados estados de sono são imprescindíveis para a avaliação da maturação e desenvolvimento eletrocorticais, já que no período neonatal os cães permanecem mais tempo dormindo, e os processos de regulação do ciclo sono-vigília são dependentes de algumas monoaminas, como serotonina, noradrenalina e dopamina, fazendo com que os potenciais registrados pelo EEG fiquem em constantes mudanças. Isto está de acordo com Takahashi & Inada (1986) que afirmam que o estágio de maturação do cérebro inevitavelmente influencia os traçados eletroencefalográficos.

Há fortes evidências que sugerem ser a serotonina importante para a produção do sono lento, já as catecolaminas e a acetilcolina desempenham um papel importante na manutenção da vigília EEG (EYZAGUIRRE e FIDONE, 1977).

8.1 Maturação EEG no Cão

Na literatura sobre desenvolvimento do SN em cães, a definição do período de sua maturação, é variável entre os autores. A maioria destes se baseia em diferenças de amplitude e freqüência de ritmos que se tornam estáveis quando próximos dos traçados de adulto pela análise visual e/ou pelo EEG quantitativo. Por estes motivos, o presente estudo contribui para que sejam estabelecidas novas descrições, definições e denominações do desenvolvimento do período neonatal em cães.

Pampiglione (1963) e Fox (1963) relataram uma estabilização da atividade rítmica cerebral com 4 a 6Hz entre a sétima e nona semana de idade de cães neonatos, que persiste até o quarto ou quinto mês de idade, quando a freqüência

muda para um traçado de adulto com 6 a 8Hz e amplitude de 20 a 40 µV. Charles e

Fuller (1956) já tinham considerado que na oitava semana o EEG era essencialmente similar ao de adulto. Fox (1964) considera que na sexta semana os registros apresentam freqüência e amplitude similares ao do cão adulto, porém refere grande diminuição da amplitude das ondas da sexta semana até o adulto, sem o relato certo deste período que o considerou adulto. Petersen e colaboradores (1964) consideram o início da maturação na quarta semana, tornando-se estável a partir da sétima semana, já Breazile (1978) relata que a maturação considerável do SNC e SNP ocorre durante as primeiras três semanas de idade, e a freqüência do

EEG mostra um aumento de 6 a 8Hz na primeira semana, para 16 a 18Hz na 16a

semana e além dela.

Morgan e colaboradores (1973) descreveram que o desenvolvimento do EEG em cães ocorre de modo similar ao EEG humano, porém com mais rapidez, visto

que a aparência do EEG de adulto no cão da raça Beagle ocorre na 16a semana,

porém Takahashi e Inada (1986) consideram que o desenvolvimento do SN nesta raça ocorre rapidamente nas primeiras duas a quatro semanas de idade e continua lento até que todas as estruturas do SNC estejam completamente desenvolvidas na

10a semana. Já Tourai et al. (1985) consideraram que a partir da 16a semana as

ondas lentas (3 a 4Hz e 100 a 150µV) diminuem e aumentam as ondas de 7 a 13Hz

e 10 a 30µV que se estabilizam com 30 semanas, com características de EEG de

cão adulto.

Morgan e colaboradores (1973) refere que vários parâmetros relacionados a idades dos cães, verificados pelo espectro de energia cruzada, mudavam a partir do

21o dia de idade. Isto é referente ao desenvolvimento cerebral enquanto que o

desenvolvimento fisiológico de outros órgãos não acontece dentro deste ritmo. Neste trabalho, citaram que os testes estatísticos do espectro de energia cruzada demonstraram ser um teste discriminativo para o desenvolvimento dos cães somente após 21 dias de idade.

No presente trabalho o período neonatal pôde ser avaliado como sendo até 35 dias de idade, já que o padrão de ondas lentas (sono NREM) começa a diminuir

neste período e ser sobreposto por ondas rápidas e de baixa amplitude, caracterizando maior tempo em vigília ou presença de vários microdespertares. Isto corrobora com Hoskins (2001) no que refere o período neonatal como aquele em que o filhote ainda depende de sua mãe para sobreviver e os sistemas orgânicos estão em processo de amadurecimento anatômico-fisiológico, sendo em média de 30 dias até o filhote tornar-se apto a sobreviver sem os cuidados maternos.

As observações dos traçados e seus elementos podem sofrer variação de desenvolvimento dentro das cinco ninhadas, porque cada cão é gerado em tempo diferente, já que o período de estro (cio) da fêmea é de aproximadamente oito dias e o aceite do macho próximo de sete dias. Cada filhote pode ter de três a cinco dias de diferença em relação à idade concepcional, e este fato é de grande importância comparada com a discriminação da idade concepcional da criança, que quando é imatura apresenta sinais característicos no EEG. Por isso, em vários momentos, registro de maior ou menor desenvolvimento pôdem ser vistos dentro das cinco diferentes ninhadas.

É certo que as observações geradas pelo presente estudo são coerentes com o processo de desenvolvimento eletrocortical, e as novas denominações e padronizações, assim como o estadiamento dos sonos e caracterização de alguns elementos, são de grande importância para a Neurologia e Neonatologia Veterinária, para o diagnóstico e prognóstico das doenças do SNC nos cães, e para a Neuropediatria como modelo experimental.

Apesar do nosso trabalho citar algumas referências sobre a maturação eletrocortical do cão neonato, na literatura existem poucos estudos normativos que buscam a determinação da incidência dos vários elementos característicos no EEG do cão neonato.

9. CONCLUSÕES

1. A avaliação do desenvolvimento eletrocortical do cão neonato pode ser realizado sem utilização de sedação, com um tempo médio de registro EEG de 20 minutos em sono espontâneo, utilizando elétrodo de contato de

chumbo, na sensibilidade de 25µV/cm até o 21o dia de idade para registro de

baixas freqüências e 50µV/cm após este período, com velocidade

convencional de 30mm/s.

2. Até o 7o dia de idade o cão neonato apresenta um padrão de descontinuidade

nos traçados EEG, com aparecimento de surtos de atividade difusa com

duração de ≥ 2 ≤ 10s, e intervalo intersurto de 2 a 10s de períodos com pouca

ou nenhuma atividade cortical.

3. Estudos comparativos do padrão de descontinuidade de cães neonatos normais e cães neonatos com encefalopatias primárias e secundárias faz-se necessário.

4. O cão neonato possui mais sono ativo do que quieto até o 7o dia de idade

que, gradativamente, é sobreposto por um traçado de ondas lentas características do sono NREM e diminuição do sono REM que inicialmente foi chamado de ativo.

5. Até 14o dia de idade o cão neonato apresenta surtos rítmicos alfa-beta fuso- like (12 a 15Hz), principalmente durante o sono ativo em diversas regiões corticais.

6. A partir do 14o dia de idade o cão neonato apresenta três tipos de sono

NREM com características eletrográficas diferentes entre si: o sono I dividido em IA e IB, o sono II com um gradiente antero-posterior de freqüência e amplitude, complexo K e onda aguda do vértex, e o sono III com delta em 20- 50% da época.

7. A partir do 14o dia de idade o cão neonato apresenta um ritmo alfa posterior

com aparecimento inicial de um teta rítmico, que se define no 21o dia com

ritmo alfa de distribuição posterior característico.

8. A partir do 21o dia de idade o cão neonato apresenta fusos de sono, logo

após o complexo K ou não, principalmente em região frontal, com aumento

progressivo até o 45o dia de idade.

9. O cão neonato a partir do 28o dia de idade apresenta sono IV NREM, com

delta (1 a 3Hz e 70 a 210uV) em mais de 50% da época, com aparecimento de mitten pattern, e aumento progressivo de microdespertar com mudança ou não do tipo de sono.

10. A partir do 35o dia de idade o cão neonato apresenta reação hipnopômpica,

caracterizada por reação de despertar de ondas lentas precedendo o despertar.

11. Com 45 dias de idade o cão neonato tem um EEG próximo do cão adulto apresentando instabilidade do sono, com aspecto alternante do traçado, além de um maior tempo de trechos em vigília ou vigília relaxada.