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Normalmente, as características ou os elementos considerados como constitutivos da identidade profissional docente estão alinhados com a definição mais geral apresentada anteriormente, de que a identidade docente concerne à forma pela qual o profissional se vê. Tais indicadores são reconhecidos a partir da percepção dos professores sobre seu autoentendimento (Kelchtermans, 2005), os aspectos constituintes da sua identidade profissional (Beijaard et al., 2004) e aquilo que acreditam ser importante para o seu trabalho (Lamote & Engels, 2010; Vähäsantanen et al., 2008; Vogt, 2002). Por exemplo, Lamote e Engels (2010) consideraram a autoeficácia como uma avaliação orientada para o futuro que se relaciona com a percepção de competência. Vähäsantanen et al. (2008), por sua vez, focaram seu estudo na orientação dos professores em relação à sua profissão, considerando a orientação como sua percepção acerca daquilo que acreditam ser importante para o seu trabalho e as tarefas que consideram significativas.

Isso posto, passa-se ao levantamento dos indicadores constitutivos da identidade profissional docente. Beijaard et al. (2004) relataram que não seria possível indicar quais características específicas moldam esse construto teórico. Nesta revisão, mais uma vez, observou-se quão ampla é a gama de fatores que os investigadores julgam compor a identidade do professor.

Assim sendo, em caráter ilustrativo, aqui são enumerados os principais elementos citados nos textos pesquisados e que revelam o entendimento dos autores sobre o que dá sentido à identidade profissional docente: autoimagem, autoeficácia, autoestima, orientação profissional, orientação para a tarefa, compromisso com o ensino, valores pessoais, crenças, ação, saberes, conhecimento acerca das teorias pedagógicas, conhecimento pedagógico sobre o conteúdo, habilidades técnicas, profissionalismo, senso de ética, senso de responsabilidade para com os alunos, senso de propósito para ensinar e ser um professor, visão acerca da escolarização, sentido de pertença, dimensões morais, dimensões emocionais, dimensões políticas e micropolíticas, motivação para o trabalho, perspectiva de futuro, representações e concepções sobre a profissão, experiências pessoais e profissionais, vulnerabilidade profissional, resiliência, histórico familiar, biografia de carreira, exigências profissionais (valores amplamente aceitos e normas de ensino), e contextos profissionais.

Todos esses são termos relacionados ao conceito de identidade profissional dos professores contemplados nos artigos analisados. Partindo de uma análise preliminar rápida dessa lista, poder-se-ia considerar que dentro do construto teórico identidade profissional docente caberia tudo aquilo que diz respeito à vida de um professor. Entretanto, considerando que atualmente existem distintas perspectivas que investigam a identidade profissional docente, pode-se entender um pouco melhor a dispersão a respeito da compreensão dos fatores relacionados a este construto teórico. Ainda assim, os

estudiosos desse campo têm a imensa tarefa de seguir buscando a delimitação desses indicadores, assim como a sua relação com a identidade profissional docente.

Preocupados com o desenvolvimento do campo de investigação e o aprimoramento dos conceitos, alguns pesquisadores têm trabalhado no sentido de dar maior sustentação teórica aos aspectos abordados. Entre os textos revisados, destaca-se o trabalho dos investigadores holandeses Canrinus et al. (2012). Eles observaram que as pesquisas nesse campo têm se centrado em identificar mais o que afeta a identidade profissional docente em detrimento dos resultados decorrentes desta. Compreendendo que a identidade profissional dos professores se refere a como eles se veem a partir de suas interpretações acerca da constante interação com o contexto, esses autores apresentaram a satisfação no trabalho, a autoeficácia, o comprometimento e a mudança nos níveis de motivação dos professores como indicadores do sentido que estes dão à sua identidade profissional. Eles consideraram que esses são os construtos mais implícitos sobre o que a identidade profissional parece ser e se empenharam em compreender como estão relacionados entre si. Analisando a literatura existente, partiram do pressuposto de que o sentimento de autoeficácia impacta o nível de motivação do professor, a sua satisfação no trabalho e o seu comprometimento ocupacional. A partir da interpretação a respeito desse pressuposto no presente trabalho, esses impactos teriam um efeito cascata (Figura 4).

A autoeficácia é apresentada como um comportamento determinante e considerado o ponto de partida do modelo conceitual desenvolvido por Canrinus et al. (2012). Esses estudiosos consideraram a autoeficácia como a percepção do professor sobre a sua habilidade para realizar duas frentes de trabalho. A primeira delas se refere à execução de tarefas profissionais pertinentes ao processo de ensinar e educar, bem como à capacidade de regular as relações ali envolvidas. A segunda concerne ao trabalho na instituição

educativa. Além de desempenhar tarefas organizacionais, o professor percebe-se como membro da organização e participa de seu processo político e social.

Figura 4. Indicadores de sentido da identidade profissional docente. Fonte: Original elaborado pela autora com base em Canrinus et al. (2012).

A autoeficácia dos professores contribui para a sua satisfação no trabalho. Por sua vez, a satisfação dos professores no trabalho favorece a mudança de seu nível de motivação. Logo, a autoeficácia está relacionada com mudanças de comportamento, muitas vezes por meio de seu efeito sobre a motivação. Por fim, a mudança no nível de motivação dos professores contribui para seu comprometimento ocupacional. Em suma, a autoeficácia dos professores também contribui para o seu comprometimento ocupacional, que é parcialmente mediado por uma mudança no nível de motivação docente.

O comprometimento ocupacional pode ser compreendido como uma ligação psicológica entre um indivíduo e sua ocupação, com base em uma reação afetiva para aquela atividade profissional. Já a motivação é considerada como um conjunto de crenças inter-relacionadas e emoções, isto é, um conjunto de forças energéticas que se originam tanto dentro como além do ser, determinando forma, direção, intensidade e duração do seu comportamento relacionado ao trabalho.

Canrinus et al. (2012) testaram esse modelo e, como resultado de seu estudo exploratório, assumiram que ele é dinâmico. Também consideraram que a força dos indicadores utilizados (satisfação no trabalho, autoeficácia, comprometimento ocupacional e mudança no nível de motivação) pode variar. A alteração na intensidade de um ou outro indicador pode favorecer a mudança da identidade profissional de um professor ao longo de sua carreira. Entretanto, a pesquisa sobre a estabilidade e/ou a dinâmica da identidade profissional docente até o momento tem sido difícil (Beauchamp & Thomas, 2009), constituindo um desafio que se procura enfrentar no presente estudo.