Adiante, passaremos a analisar o comportamento dos participantes surdos no uso das ferramentas de TIC no laboratório de informática da escola. Nas primeiras vezes em que os surdos foram ao laboratório participar do projeto CCI, demonstraram grande preocupação ao responder as mensagens, escrevendo primeiramente à mão, em português, para depois transcreverem para o inglês com ajuda de um dicionário de papel
e, em seguida, digitarem no fórum online. Trabalhavam em conjunto, sentados em uma mesa redonda, partilhando dúvidas e solicitando a ajuda da intérprete.
Imagem 10: Encontros iniciais sem uso das ferramentas digitais disponíveis no
Laboratório de Informática.
No decorrer do processo, os estudantes passaram a ler as mensagens e respondê-las digitando diretamente no computador, utilizando o tradutor online, Google Translator. Embora os estudantes tivessem acesso a computadores individuais, preferiam trabalhar em duplas auxiliando-se mutuamente. Notamos que este foi um comportamento recorrente neste grupo de surdos, sempre checando uns com os outros se entenderam as informações e os comandos.
Imagem 11: Evolução para tarefas realizadas diretamente online permanecendo o apoio
entre si.
Aproveitando essa estratégia de aprendizagem, solicitamos que compartilhassem com todo o grupo o que tinham aprendido até aquele momento sobre os países, pessoas e culturas com as quais tinham tido contato no fórum. Foi disponibilizado um projetor com acesso a internet e puderam acessar um mapa mundi online, no qual os estudantes clicavam no país escolhido para tecer seus comentários. Essa “aula” dada pelos próprios participantes revelou para eles mesmos o potencial para serem os protagonistas, com facilidade em estar à frente da sala para apresentações. A partir dessa experiência, o grupo se animou a exibir os vídeos do projeto em outros locais, o que entendemos como um ganho para as relações do surdo o outro.
Imagem 12: Surdos utilizando o projetor com acesso à internet para compartilhar sobre
o país de origem dos seus interlocutores
Dois estudantes que no início mostraram maior dificuldade em seguir o protocolo de acesso à plataforma, e esqueciam as senhas de seus emails, alcançaram um novo patamar no uso das ferramentas digitais com esses encontros monitorados. Uma das participantes criou um grupo fechado no Facebook para confirmarem os encontros e tarefas.
A respeito do uso de celulares e tablets, os alunos podiam utilizá-los livremente nos encontros porque acreditamos que saber fazer uso educacional das tecnologias de informação e comunicação atuais está no escopo das atribuições da escola, que tem o papel de guiá-los para a apropriação do conhecimento de forma autônoma e consciente.
Os surdos me apresentaram o aplicativo Hand Talk, o que facilitou bastante a nossa comunicação, pois ao se digitar uma frase em português um avatar faz a sinalização em Libras. Com isso, quero dizer que há diversas formas de utilização de TICs inovadoras que podem e devem ser compartilhadas de professores para alunos e
vice-versa, beneficiando a todos os envolvidos, em especial, por promoverem a comunicação entre diferentes grupos.
3.6.1 A socialização com apresentações externas
Um dos fatores formadores da CCI é o “conhecimento” de si e dos outros, que pode também ser descrito em termos da percepção da própria vida cotidiana, bem como da do interlocutor. Com a participação nesse projeto os surdos desenvolveram a capacidade de interagir com o “outro” também de forma presencial, visitando escolas na sua própria cidade, para exibir seus vídeos e debater com estudantes surdos e ouvintes aprendizes de inglês. Entendemos que a valorização da produção cultural dos surdos por parte dos estudantes estrangeiros fortaleceu-os de uma forma que não havia ocorrido anteriormente no âmbito local.
Neste sentido, os encontros entre estes grupos locais foram marcados pela socialização secundária, aquela que ocorre na escola (a primeira é na família) promovendo em si e no “outro”, entendido aqui como os alunos anfitriões, as atitudes de curiosidade, abertura, prontidão para suspender os preconceitos à respeito do outro e da sua cultura. Além disso, no que tange ao ensino e aprendizagem de línguas, nesses encontros ocorreu também o que Doyé (1999, apud BYRAM 2008) denominam socialização terciária, aquela que envolve o aprendizado de uma língua-cultura, diferente da sua, que nesse caso, foi representado pelo inglês e Libras, e desafia os paradigmas da própria pessoa, como, um surdo dar palestra, editar vídeos e aprender inglês.
Como exemplo, traremos algumas situações que foram descritas na nota de campo dessa pesquisadora (Anexo V). Uma das três apresentações externas durante a Semana de Educação para a Vida foi realizada em uma escola bilíngue (português e Libras), onde os alunos anfitriões ficaram surpresos ao saber que um dos surdos tinha viajado para o exterior e podia se comunicar com estrangeiros. A diretora da escola comentou que era importante para os estudantes daquela escola se espelharem em surdos bem sucedidos. Um dos surdos relatou que sentiu-se um “superstar” naquela escola.
solicitaram aos surdos que voltassem para dar aulas de Libras. A reação do surdo foi de surpresa, pois ainda não tinha pensado nessa possibilidade, e comentou que a pergunta tinha despertado seu interesse em ser professor.
Os surdos fizeram apresentações para professores e futuros professores em duas ocasiões. Conforme relatado por universitários da Faculdade de Educação, a ocasião foi uma oportunidade para tirar dúvidas diretamente com os surdos sobre a atuação de professores e intérpretes nas salas de aula, o que foi muito representativo para formar a visão sobre quem é o “aluno surdo”, e como é um “bom professor do ponto de vista deles (surdos).
Visto sob a perspectiva da Competência Comunicativa Intercultural, esses são exemplos de “encontro intercultural” que tiveram lugar em um ambiente educacional, e foram conduzidos por professores a partir da reflexão dos participantes procurando “descentrar” para enxergar o outro sob a perspectiva dele, sem julgamentos ou preconceitos.