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Introduction and test systems found in the literature

4. Development of Experimental System for Testing of Settlement, Shrinkage, Pore

4.1 Introduction and test systems found in the literature

As dramatizações são momentos em que a toda a comunidade se reúne por famílias para rememorar algumas histórias antigas de seu povo. Todos de alguma forma buscam se caracterizar para transmitir os ensinamentos vivenciados nas histórias antigas.

Ao rememorar as histórias antigas, os Kokama fortalecem a língua e a cultura na comunidade. Vale ressaltar que os processos de territorialização possibilitam a compreensão da forma como o povo Kokama se organiza e reorganiza para manter a cultura e vitalizar a língua, “resultado de diferentes processos sociais de territorialização (ALMEIDA, 2008, p.29). Para Oliveira Filho (2004), há uma nova definição do controle social, onde ocorrem as formas culturais reelaboradas, assim como a relação com o passado.

Figura 68 – Personagens da dramatização da história antiga da Lua e do Surgimento do homem Kokama

Foto: Rosemberg Moreira, Comunidade Nova Esperança, Manaus-AM (2013).

As famílias levam semanas se preparando para este momento; quem não participou diretamente, indiretamente contribuiu, seja por meio da confecção das roupas ou de materiais utilizados na dramatização. Todos estão envolvidos, crianças, jovens, adultos, idosos e simpatizantes da causa indígena.

Figura 69 – Personagens da dramatização da história antiga da Lua

Fotos: Altaci Corrêa Rubim, Comunidade Nova Esperança, Manaus-AM (2013).

Nas dramatizações, primeiramente se dá a leitura da narrativa, em seguida se inicia a dramatização. Na história antiga da Lua121, os participantes fizeram um minka122 para produzirem os materiais da apresentação, assim como as roupas. Cada um escolhe o grafismo que gostaria que ficasse em sua roupa, o que foi feito.

121Dramatização inspirada no livro produzido pelo Programa de Formación de Maestros Bilingues de La

Amazonia Peruana-FORMABIAP/AIDESEP/ISSP, Loreto. Compilación y dibujos: Roberto Carlos Cabudivo, Iquitos-Peru, octubre, 2003. Traduzido po Kokama no Brasil- Altaci Corrêa Rubim, 2012.

122Trabalho coletivo. O povo Kokama trabalha sempre em ajuri ou minka. Estão sempre trabalhando

coletivamente, exemplo em construção de casas, no preparo, plantio e colheita da roça, assim como em atividades acima citada.

Figura 70 – Dramatização da história antiga da Lua.

Foto: Altaci Corrêa Rubim, Comunidade Nova Esperança, Manaus-AM, 2013

A história é a seguinte: Há muito tempo, em um povo vivia uma família muito unida, que tinha apenas uma filha de seis anos e não podia ter mais filhos. Então aconteceu que a mulher engravidou novamente, o homem e a mulher ficaram muito felizes. A mãe queria que a criança fosse homem e o pai também queria que fosse menino para brincar com sua irmã.

O casal estava muito ansioso com a chegada da criança e decidiu saber o sexo do bebê com o doutor do mato (pajé). Depois de fumar um cachimbo e conversar com mãe da mata, tocou na mulher na cabeça e depois na barriga demorando bastante tocando a barriga. Novamente preparou outro cachimbo. Fumou por alguns minutos e logo com uma cara séria olhou para o casal e disse: é homem. Não digo mais nada.

O marido agradeceu mostrando uma enorme alegria e voltaram para sua casa. Desde esse dia iniciaram a preparação para o dia do nascimento. Passaram a procurar um nome para o futuro kokama e os dois concordaram que o nome do menino seria Lua.

No dia do nascimento, fizeram uma grande festa e convidaram todos os familiares. Foram três dias de festas.

Passou o tempo. O menino cresceu, o pai passava mais tempo com ele e lhe ensinava de tudo: pescar, caçar, fazer gaiolas e todo ensinamento que um menino poderia receber para ser um Kokama.

Passaram-se muitos anos e o jovem completou 19 anos. E sua irmã completou 25 anos. Os dois eram solteiros. Uma noite, um jovem apareceu na cama de sua irmã em silêncio, sem conversar. Entretanto, a irmã não reconheceu quem era porque estava muito escuro.

Amanheceu o dia e ninguém sabia nada do que tinha acontecido. Depois de uma semana, o jovem voltou outra vez a visitar a irmã. Mas a irmã não o reconheceu.

A filha contou para a mãe e ela disse para a filha não se preocupar, porque ela estaria escondida perto da menina. Na noite seguinte, o jovem voltou a atacar. Os pais não sabiam

mais o que fazer e tiveram uma brilhante ideia e falaram para a filha: - filha, prepara um balde de jenipapo ralado e esconde debaixo de sua cama, quando ele vier você joga na cara dele. E de manhã o jovem seria descoberto porque estaria com a cara preta.

Na noite seguinte a filha dormiu esperando a chegada do jovem. O homem não demorou muito e chegou. Procurou entrar na cama, mas foi pego de surpresa, pois a mulher jogou o jenipapo em sua cara. O jovem saiu correndo.

Quando amanheceu, eles esperavam ver alguém com a cara preta. Lua não levantava de sua cama. Sua mãe achou estranho, pensou que ele estava doente. Sua mãe chamou sua filha e pediu para ela ver seu irmão que estava na cama. A moça obedeceu e foi. Lua estava com uma parte do rosto manchado. Quando sua irmã o chamou logo levantou. E saiu correndo para a mata e sua irmã não sabia o que fazer, porque o viu de cara manchada de preto. Foi quando sua mãe falou que era Lua que estava com a cara pintada e era quem atacava sua filha. Lua correu para a mata e subiu na maior árvore da mata e por ela pegou um cipó e subiu para o céu. E nunca mais voltou e passou a iluminar as noites, mas com vergonha. Assim, nas noites que se vê a lua bem redonda, se nota uma mancha no fundo. Fala-se que é a mancha do jenipapo que sua irmã jogou nele, quando ele foi visitá-la.

A História antiga do Jovem Garça123 é uma das histórias antigas do povo Kokama

mais rememoradas por meio de dramatizações. É a seguinte. Antigamente existia um homem que vivia na beira do rio, com sua esposa e suas duas filhas solteiras. Era uma família solitária. Certo dia apareceu um jovem para viver com eles. Seu nome era Garça. Este rapaz chegou e passou a viver muito tempo com a família. Era um excelente pescador, de modo que o senhor o casou com uma de suas filhas.

Figura 71 – Personagens da história antiga do jovem Garça

Foto: Altaci Corrêa Rubim, Manaus-AM, 2013.

123

Dramatização inspirada no livro produzido pelo Programa de Formación de Maestros Bilingues de La Amazonia Peruana-FORMABIAP/AIDESEP/ISSP, Loreto. Sabidurías Del pueblo kukama-kukamiria. Série: Visiones y Conocimientos Indígenas, Primera edición, Júlio, 2009. Traduzida por Altaci Corrêa Rubim, Washington Gerome, Chandra W. Viegas durante a formação de professores indígenas no Alto Solimões, 2010. 2ª Tradução Altaci Corrêa Rubim, Lexterm/PPGL/UnB, 2015.

Quando seus sogros queriam levá-lo para a roça lhe diziam: “Garça, vamos para a roça”. Mas ele não queria responder e por isso sua sogra lhe dizia, “Garça, vá pescar agora!”. O jovem Garça saltava de alegria dizendo: muito bom, muito bom. Já estou indo.

Este jovem quando vinha da pescaria trazia peixes tão bonitos que enchiam os olhos, mas não tinha anzóis nem flechas. Em uma ocasião seu sogro o seguiu lentamente por trás das árvores. O jovem foi para frente de uma moita (monte de cipós misturados com árvores pequenas e capim) e começou a se transformar. Seu sogro estava olhando, e arregalando os olhos via o jovem Garça se transformar em uma imensa garça. Seu sogro se aproximou e disse a ele: Não é pessoa, agora vá e não volte nunca mais. Não é pessoa, agora vá e não volte nunca mais!

A garça fugiu de vergonha.

– É por isso que não se pode cercar uma garça, pois ela voa porque tem muita vergonha quando pensa que seu sogro veio buscá-la.

A História antiga da origem de Homens Kokama negro, branco e pardo124 também foi dramatizada. A história é a seguinte.

No início do povo kokama não existia o homem, todos eram animais e seres. Todos foram cuidados pelo Deus Kokama. Um dia, o deus Kokama, de tanto andar pela terra cuidando de seus animais, pensou: minhas crias são muitas e não posso cuidar, farei um homem para que cuide de todos. Ele queria fazer um homem perfeito, então começou a amassar o barro e formou um homem, nisso sua fogueira estava acesa e colocou para assar. Figura 72 – Personagens da história antiga de homens Kokama negro, branco e pardo e a comunidade.

Foto: Altaci Corrêa Rubim, comunidade Nova Esperança, Manaus-AM (2013).

124Dramatização inspirada no livro produzido pelo Programa de Formación de Maestros Bilingues de La

Amazonia Peruana-FORMABIAP/AIDESEP/ISSP, Loreto. Compilación: Gemertong Murayari. Dibujos: Anmer Mozombite, Iquitos-Peru, octubre, 2003. Essa história foi traduzida por-Altaci Corrêa Rubim (2012).

O deus esqueceu de controlar o fogo que estava assando o homem porque tinha muito trabalho. Quando poderia foi vê-lo, encontrou o homem negro, queimado. O deus pegou o homem, respirou e disse: Eu te dou vida, anda.

O homem negro caminhou e começou a cuidar da mata. O deus estava contente com sua criação. Fez outro homem, mas desta vez cuidou para não queimar. Quando começou a ficar dourado o homem no fogo, deus disse: te dou vida, caminha, cuida da mata junto com o homem negro. E assim o homem moreno fez.

Apesar disso, o deus kokama não encontrou o homem perfeito. Nesse mesmo dia criou outro homem. A este cuidou muito para que não se queimasse com o fogo. E o tirou do fogo com a cor branca, soprou e lhe deu vida. O homem branco começou a caminhar e foi até seus parentes feitos por deus. Deus os enviou à mata para cuidar de suas crias.

Um dia os três homens desentenderam-se porque queriam governar o mesmo território criado e governado por deus. Vendo toda essa situação, o deus Kokama entregou um território para cada um, assim também distribuiu osanimais para cada território para que cada homem pudesse criar seus animais.

Estes homens tiveram filhos e formaram o povo Kokama. Um dia, o deus Kokama lhes disse: “Filhos, cuidem dos animais, cuidem da sua terra, da sua gente. Eu falo isso porque não havia nada aqui. Ensinem aos seus filhos fazer um povo, fazer um povo grande e chamá- lo de Kokama tuyuka (Kokama da terra)”.

Dizendo isso, o deus Kokama foi embora, até os dias de hoje. Assim acreditam os homens do povo Kokama. Por isso há homens negros, brancos e morenos. ´É assim que os Kokama rememoram suas histórias antigas na comunidade.

Uma outra forma de fortalecer a cultura foi a criação da bandeira da escola inspirada no projeto de vitalização da língua Kokama da comunidade.

A Bandeira da escola Kokama Atawanã Kuarachi Kokama, localizada na comunidade Kokama Nova Esperança em Manaus-AM foi pensada para continuar fortalecendo a cultura e a identidade Kokama.

Figura 73 – Desenhos da bandeira da escola Atawanã Kuarachi Kokama

Desenho feito à lápis de cor e depois desenhado no computador. Fonte: Altaci Corrêa Rubim, Comunidade Nova Esperança (2014).

No esforço de vitalização da língua Kokama há produtos como canecas, squeezes e camisas que são vendidos pela comunidade e o dinheiro é gerenciado pela associação da comunidade.

Figura 74 – Venda de produtos Kokama por membros da comunidade no evento da Semana dos Povos Indígenas

Foto: Altaci Corrêa Rubim, Manaus-AM (2013).

Como curiosidade, os Kokama de Nova Esperança saem da comunidade para participar de eventos e vender os produtos Kokama. Entre esses produtos está a novidade dos equipamentos de futebol Kokama, como vemos abaixo.

Essas camisas foram produzidas para contribuir com o fortalecimendo da língua e identidade Kokama. Foram também distribuidas aos Kokama do Peru como forma de agradecimento pela parceria que eles fizeram com os Kokama do Brasil no processo de fortalecimento da língua e da identidade Kokama, além das fronteiras entre Brasil e Peru.

Figura 75 – Desenho do equipamento feminino de futebol Kokama

Ilustração: Altaci Corrêa Rubim e produzido por Douglas Roque, 2015. Figura 76 – Desenho do equipamento masculino de futebol Kokama

Ilustração: Altaci Corrêa Rubim e produzido por Douglas Roque (2015).

Algumas camisas foram sorteadas durante a I Oficina Pedagógica de Ensino e Aprendizagem da Língua Kokama em Tabatinga, outras foram doadas aos caciques de São José e de São Gabriel em Santo Antonio do Içá. O intuito da criação dos equipamentos de futebol Kokama é contribuir com o fortalecimento da identidade do povo Kokama.

Figura 77 – Entrega da camisa de futebol Kokama ao cacique Hilário Pinto da Terra Indígena Kokama de São José

Foto: Orígenes Corrêa Rubim, São José em Santo Antonio do Içá-AM (2015).

A estratégia linguística e cultural do povo Kokama tem muitas frentes tanto na elaboração de materiais didáticos, quanto de produtos em que a língua aparece registrada.