“A bola da vez” também é uma produção audiovisual do Coletivo Tela Firme produzido e postado em 2015. O trabalho foi publicado somente na página do Tela Firme no Facebook e assim como os demais teve bastante repercussão nas redes digitais. Até o dia 5 de janeiro de 2018, teve seis mil e duzentas visualizações. O vídeo denuncia a extinção do único campinho de futebol do bairro, construído em um espaço público, localizado às margens da
Avenida Perimetral e utilizado pela comunidade como área de lazer. O campinho foi extinto por causa das obras de duplicação da avenida, que margeia o bairro Terra Firme. As obras foram executadas pelo Governo do Estado.
A extinção do respectivo espaço sensibilizou moradores do bairro Terra Firme, tanto, que no dia 30 de agosto foi realizada uma programação no local como uma forma de simbolizar a uma última partida de futebol no espaço que por muitas vezes serviu de lazer para muita gente da comunidade. (Ver figura 16).
Figura 16 - Moradores da comunidade na última partida antes da retirada do campinho
Fonte: Imagem reproduzida do vídeo “A bola da vez” (2015).
Como moradores do bairro e que também têm uma história com o espaço os jovens do Coletivo demonstraram indignação diante do acontecimento, principalmente, porque não foi dada à população outra alternativa, como por exemplo, a disponibilidade de um espaço de recreação público. “Esse era o único espaço para as crianças, adolescentes e a família jogarem
futebol. Onde agora eles vão praticar esporte? E o lazer? Que o ECA56 tanto menciona e que o
governo que aí está menospreza” (informação verbal)57.
56 Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), instituído pela Lei 8.069 de 13 de julho de 1990. 57 SOUZA, Mailson. Entrevista concedida à pesquisadora. Belém: 20 de jul. de 2017.
Figura 17 - Crianças do bairro brincando no campinho no dia da entrevista
Fonte: Imagem reproduzida do vídeo “A bola da vez” (2015).
Na voz de um dos meninos o desabafo. “A gente vem marcar bola todo dia pra cá [...]
a gente quer nosso campinho de volta” (informação verbal)58. Observa-se no depoimento uma
relação muito forte do menino com o lugar e que também expressa a representação que o espaço tem para as pessoas da comunidade. É o que diz Tuan (1983) quando afirma que o lugar é marcado pela percepção que o sujeito tem dele, pela experiência do espaço vivido e valores, significados e pelos seus simbolismos. No caso dos moradores do bairro Terra Firme essa relação é muito forte, não apenas no campinho, mas no que diz respeito a outras formas de diversão, para a criançada principalmente, como tomar banho no rio e brincar de esconde e esconde, por exemplo.
Neste vídeo nota-se a preocupação do grupo com o bairro e com a falta de políticas públicas que visem melhoria para o lugar. Pois o lazer, também está relacionado ao bem estar da população, e esse despertar de uma percepção crítica da realidade do sujeito é fundamental para a transformação social, é o que explica Freire (1986).
5.4.5 “Ocupação da Escola Brigadeiro Fontenelle”
A ocupação da Escola Brigadeiro Fontenelle é um vídeo curto, tem apenas quatro minutos de duração, foi elaborado no início do mês de novembro de 2016 (durante o movimento de ocupação na referida instituição) e postado no dia 26 do respectivo mês, na página do Coletivo no Facebook. O vídeo é o que mais revela o engajamento político-social do Coletivo Tela Firme e a busca por cidadania em suas práticas comunicativas. Pois nesta produção, o coletivo dá ênfase à iniciativa de alunos contra a falta de estrutura do espaço onde
estudam e também contra a Proposta de Emenda Constitucional do Governo Federal, ou seja, a PEC 55, que limita investimentos em áreas críticas da sociedade como a saúde e educação num período equivalente há 20 anos.
Como já foi discutido nesta pesquisa, a política é um dos caminhos para se construir a democracia e fazer valer a cidadania. No entanto, pelo fato de o Brasil ter em vigor uma democracia representatividade e não direta, isso acaba gerando impossibilidades como evidenciou Taveira (2009). Provoca também a indignação da população consciente. Trazer a situação a público se mostra como uma forma de contribuição do Tela Firme com o movimento de ocupação e com sua causa.
A ocupação na referida escola, localizada na Rua São Domingos, bairro da Terra Firme, começou no dia 18 de novembro e contou com apoio de cerca de 400 alunos do Ensino Fundamental e Médio, que tiveram apoio de pais e de outros movimentos que atuam na comunidade.
No depoimento de alunos que participaram da ocupação observa-se a importância do ato, de ir em busca de seus direitos como ter um espaço adequado para estudar, assim como a perspectiva de saírem da instituição e poderem cursar uma universidade. No entanto, determinações como as previstas na PEC 55 podem representar ameaças para projetos futuros dos estudantes não só da região, mas de todo Brasil.
Figura 18 - Josy Alves, estudante envolvida no movimento de ocupação
Fonte: vídeo “Ocupação Escola brigadeiro Fontenelle” (2016).
Na declaração de Josy Alves, estudante e participante da ocupação da Escola Brigadeiro Fontenelle, por exemplo, observa-se diversos aspectos que levam a uma reflexão sobre a ausência de políticas públicas que favoreçam alunos da rede pública de ensino. “[...] A
gente não tem investimento na educação [...], a gente sabe também que falta muita coisa aqui.
Eu nunca vi melhorar nada aqui. Nada mesmo” (informação verbal)59.
Outro ponto relevante na declaração da jovem é sobre a questão do preconceito das pessoas em relação a iniciativas como a ocupação. Em sua fala denuncia que muitas vezes o ativismo dos alunos é entendido pela comunidade como uma forma de vandalismo. Na concepção da estudante, essas pessoas têm uma visão equivocada do que realmente seja o movimento, pois quando ocorre a ocupação de um espaço público diversas atividades educativas, esportivas, sociais são realizadas no local. “Tem roda de capoeira, oficina de
turbante, de maquiagem, futebol feminino. Hoje teve libras, tem oficina de dança também”
(informação verbal).
Figura 19 - estudante envolvido no movimento de ocupação
Fonte: vídeo “Ocupação Escola brigadeiro Fontenelle” (Facebook, 2016).
Nas declarações deste outro jovem (ver fig. 8), nota-se uma crítica sobre articulações do governo como a PEC 55, por exemplo. “[...] a gente pode ver que isso só beneficia quem
está lá em Brasília e os burgueses” (informação verbal) 60. O estudante demonstra uma
sensibilidade ao declarar seu olhar sobre a comunidade onde vive. “Eu acho que na periferia é onde nós temos pessoas mais humildes e sabem o que é cidadania” (informação verbal).
Nota-se nos depoimentos dos jovens uma consciência sobre o papel que devem exercer na comunidade da qual fazem parte, no caso, a escola. O que podemos chamar também de cidadania ativa, ou seja, quando há participação do indivíduo nas questões públicas como trata Bandeira (2011, p. 573). Pois o entendimento que se tem é de que não pode falar em emancipação social sem levar em consideração as ações humanas.
59 ALVES, Josy. Entrevista concedida ao Tela Firme. Vídeo Ocupação da Escola Brigadeira Fontenelle, 2016. 60 Estudante não identificado. Trecho de entrevista do vídeo Ocupação da Escola Brigadeiro Fontenelle 2016.