5.6. Kroppen og instrumentet
5.6.2. Intonasjon og tonalisasjon
O urbanismo funcionalista, apesar de sua ampla difusão e aceitação, também é objeto de críticas apoiadas, sobretudo, na avaliação das experiências efetuadas e no tipo de espaço público delas resultante. Dentre os críticos está Lewis Mumford que, em 1960, diz que a função social dos espaços livres nas cidades é reunir as pessoas. Em sua avaliação, o contato entre os usuários de uma cidade é favorecido quando espaços públicos e privados são projetados simultaneamente, como visto nas experiências de Hampstead e Radburn. Porém, ao seu ver, o congestionamento urbano provoca uma reação que supervaloriza um ideal meramente quantitativo de espaços livres54.
52 LEME, Maria Cristina da Silva (org). Urbanismo no Brasil 1895-1965. Salvador:UFBA, 2005, p.393. 53 Ibid., p. 403.
Mas é a Jane Jacobs que cabe uma das mais contundentes críticas a respeito dos rumos dos espaços públicos no século XX. Em sua obra Morte e Vida das Cidades Americanas55, defende os espaços de contato entre as pessoas no ambiente urbano, em oposição aos espaços livres abundantes, mas hostis, de cidades americanas. Segundo suas próprias palavras, seu livro é um ataque aos fundamentos do planejamento urbano e da reurbanização então vigentes; é uma ofensiva contra os princípios e objetivos que os moldam. Escreve sobre coisas comuns e cotidianas, observando o funcionamento das cidades, com o intuito de mostrar quais princípios de planejamento e iniciativas de reurbanização conseguem promover a vitalidade das cidades, e quais práticas a inviabilizam. Referindo-se a Nova Iorque, aponta casos que
“de acordo com a teoria do planejamento urbano, não devia ter problema algum, já que possu[em] áreas verdes em abundância, campos, playgrounds e outras áreas livres. Dispõe[m] de muitos gramados. Ocupa[m] terreno[s] elevado[s] e agradáve[is], com magnífica vista do rio. (...) Suas ruas são zoneadas com objetivo de evitar que ‘usos incompatíveis’ invadam a privacidade dos sólidos e espaçosos apartamentos de classe média alta”56.
Mostra, no entanto, que estas são áreas decadentes, espaços urbanos vazios, sub-utilizados, que acabam por apresentar problemas de segurança e identidade para a população a quem são destinados. Dessa forma, baseada em exemplos e observações de diferentes casos americanos, afirma que,
“Num número cada vez maior de cidades, tornam-se decadentes justamente as regiões onde menos se espera que isso aconteça à luz da teoria do planejamento urbano, [ao passo que] as regiões mais suscetíveis à decadência, segundo a mesma teoria, recusam-se a decair”57.
Sua maior crítica ao planejamento urbano está na designação de usos distintos para as diferentes áreas da cidade. Defende “a necessidade que as cidades têm de uma diversidade de usos mais complexa e densa, que
propicie entre eles uma sustentação mútua e constante, tanto econômica quanto social”58. Confronta a teoria urbanística com os resultados de sua aplicação em áreas urbanas, os quais são apresentados como elementos antagônicos, conforme é explicitado por uma moradora de um dos conjuntos apresentados no livro:
“...há um aspecto ainda mais vil que a feiúra ou a desordem patentes, que a máscara ignóbil da pretensa ordem, estabelecida por meio do menosprezo ou da supressão da ordem verdadeira que luta para existir e ser atendida”59.
As colocações de Jacobs a respeito da “morte” das cidades se centra na alteração de produção e uso dos ‘espaços públicos’. Sua obra é contundente a respeito dos estudos, propostas e realizações urbanísticas desenvolvidas nesse contexto, referindo-se, mais explícitamente, às idéias de Howard, Le Corbusier e do movimento City Beautiful. Sua crítica à cidade e aos seus espaços públicos dirige-se, sobretudo, aos efeitos das divisões funcionais do espaço, estimuladas por planos e legislações urbanísticas.
Para ela, a proposta de Howard para resolver os problemas da cidade oitocentista é “acabar com a
cidade”, através da criação de “cidadezinhas auto-suficientes”60, geridas de forma a evitar a especulação, mudanças no uso e aumento de densidades. Locais “realmente muito agradáveis se os moradores fossem
dóceis, não tivessem projetos de vida próprios”61. Segundo Jacobs, Howard não contribui para solucionar o crescente problema urbano de reprodução e utilização das áreas públicas da cidade existente.
55 Esse livro é produzido a partir de uma análise de regiões dos Estados Unidos, porém a abrangência da questão a demais países
é tal que nas demais edições, a exemplo da brasileira, foi substituído do título o termo Cidades Americanas por Grandes Cidades
56 JACOBS, Jane. Morte e vida das grandes cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2000. p. 4. 57 Ibid.
58 Ibid., p. 13. 59 Ibid., p. 14. 60 Ibid., p. 16. 61 Ibid., p. 18.
Dissertação de Mestrado - Maria Cecília Almeida
Capítulo 1 - Os espaços públicos 23
“Howard trouxe à baila idéias efetivas para a destruição das cidades: ele compreendeu que a melhor maneira de lidar com as funções da cidade era selecionar e separar do todo os usos simples e dar a cada um deles uma independência relativa. (...) Concebia o planejamento como uma série de ações estáticas; em cada caso o plano devia prever tudo o que fosse necessário e, depois de posto em prática, deveria ser protegido contra quaisquer alterações. (...) Não tinha interesse em questões como segurança pública, troca de idéias, funcionamento político ou criação de saídas econômicas nas grandes cidades”62.
A autora critica a popularização de idéias urbanísticas onde, segundo sua interpretação, a rua passa a ser considerada um lugar ruim para os seres humanos e, como conseqüência, as edificações devem ser afastadas das vias e voltadas para uma área verde e cercada. Afirma que seus partidários se prendem ao fracasso dos grandes centros, não admitindo seus sucessos e estabelecendo um senso comum de rejeição: Mumford diz que a área central de Nova York é o “caos putrificado”; Stein, considera a aparência das cidades “um acidente caótico (...), um apanhado dos caprichos fortuitos e antagônicos de pessoas individualistas e
mal avisadas”63.
Le Corbusier também não passa intacto às colocações de Jacobs, principalmente em relação à proposta da Ville Radieuse, onde transforma a cidade inteira em um parque, com alta densidade urbana e ocupando apenas cinco por cento do solo. Para a autora, trata-se da inserção direta do mesmo planejamento anticidade que ela aponta em Howard, só que “dentro das próprias cidadelas da iniqüidade”64.
Jacobs também discorda do movimento City Beautiful, com suas cidades monumentais e bulevares barrocos, onde se encontram centros administrativos ou culturais. Considera que nas proximidades desses conjuntos a cidade decai, pois as pessoas ficam visivelmente longe deles. Revela, assim, mais uma proposta teoricamente bem embasada, mas que quando se torna parte da cidade, por alguma razão, as coisas não funcionam como na teoria65.
Sennett comenta que, nessa segmentação funcional, a construção de uma praça pública pode até ser formalmente declarada, mas a função a ela estabelecida destrói sua natureza, “que é de mesclar pessoas e
diversificar atividades”66. Alguns parques ou praças de funções específicas se tornam áreas de passagem, e não de uso. Para ele, permanecer nesse tipo de praça “durante qualquer espaço de tempo, deixa-nos
completamente sem jeito, como se estivéssemos em exibição em um vasto hall de entrada vazio”67. Entende que esses espaços são propostos para serem preservados “de incursões acidentais vindas da rua”68.
Com a restrição do uso e a mudança da forma, “o espaço público se tornou uma derivação do movimento”69 e os profissionais do urbanismo “acreditam que, se conseguirem solucionar o problema do trânsito, terão
solucionado o maior problema da cidade”70. A movimentação sem restrições do indivíduo é encarada como um direito absoluto, na medida que o
“automóvel particular é o instrumento lógico para o exercício desse direito, e o efeito que isso provoca no espaço público, especialmente no espaço da rua urbana, é que o espaço se torna sem sentido, até mesmo endoidecedor, a não ser que possa ser subordinado ao movimento livre”71.
62 JACOBS, Jane. Morte e vida das grandes cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2000, p. 18. 63 Ibid., p. 20.
64 Ibid., p. 21. 65 Ibid., p. 19.
66 SENNETT, Richard. O Declínio do homem público: As tiranias da intimidade. São Paulo: Cia das Letras, 1988, p. 26. 67 Ibid., p. 27.
68 Ibid., p. 26. 69 Ibid., p. 28.
70 JACOBS, Jane, op.cit., p. 6. 71 SENNETT, op.cit., p. 28.
Em seu livro, Jacobs defende a necessidade da diversidade de usos em diferentes momentos do dia, em uma mesma região, para garantir sua vitalidade permanente. Essa característica também contribui para o uso efetivo das ruas e das calçadas, aumentando a segurança urbana. Nesse sentido, tanto a crítica da autora como as propostas urbanísticas alvos de suas análises, apesar de apontarem para soluções distintas, convergem para a mesma preocupação: o uso do espaço público e seus reflexos na vitalidade da cidade.
Atualmente, a tendência de desertificação do espaço público corresponde ao confinamento de atividades antes feitas a céu aberto, em praças, ruas ou becos, como o teatro, jogos e brinquedos, disputas esportivas, feiras, mas também refeições, conversas e reuniões.
Nos capítulos a seguir, tratando da cidade de João Pessoa, aspectos desse processo de mudança das formas, dos usos e dos significados dos espaços públicos, correlatos ao crescimento da cidade e a intervenções baseadas em planos urbanísticos sobre seu espaço, podem ser verificados.