• No results found

5. Data og analyse

5.7 Intervju med bransjeekspert

Afora o Álbum Recordação das Colônias..., outros registros visuais que contam a história mais primitiva da fotografia em Caxias do Sul são os cartes-de-visite trazidos pelos primeiros imigrantes e também aqueles produzidos na própria região da Serra gaúcha.

O formato carte-de-visite consiste em uma imagem de tamanho 6x9cm aderida à superfície de um cartão rígido um pouco maior. Logo após o seu surgimento, na França, em meados da década de 1850, o carte-de-visite se tornou uma verdadeira “febre do mundo

moderno”, tendo se espalhado por diversos lugares do mundo.119

Conforme Corbin120, em 1862, no estúdio do seu criador, o fotógrafo André-Adolphe- Eugène Disdéri, uma média de 2,4 mil cartes-de-visite eram vendidos por dia, atestando o seu sucesso enquanto produto destinado a perenizar a existência em forma de imagem de maneira

relativamente barata. Devido ao tamanho diminuto do formato (que ocupava de ¼ até ⅛ das

chapas fotográficas), o preço da fotografia teve uma diminuição considerável em comparação com outros suportes e formatos até então comercializados, contribuindo para o acesso das classes médias ao retrato fotográfico de estúdio. A existência de alguns desses formatos fotográficos entre as famílias de imigrantes no Brasil serve, inclusive, de reforço à afirmação de que alguns dos estrangeiros não eram miseráveis ao terem emigrado da Europa, como se costumou generalizar: embora o seu preço fosse módico, um retrato fotográfico em carte-de-

visite não era um bem de consumo de primeira necessidade; assim, possuir alguns significava

luxo.

O formato carte-de-visite foi comercializado pelo fotógrafo Francisco Muscani. Muscani foi também um dos primeiros fotógrafos da região de colonização italiana no Rio Grande do Sul. Como consta nos registros de impostos da Intendência Municipal referentes ao exercício de 1892-1893, seu estúdio estava localizado na rua Grande (atual Av. Júlio de Castilhos). Anos mais tarde, entre 1894-1899, transferiu-se para a rua Lafayette (depois rua

119

AMAR, Pierre-Jean. História da fotografia. Lisboa: Edições 70, 2001.

120 CORBIN, Alain. O segredo do indivíduo. In: DUBY, Georges; ARIÈS, Philippe (orgs.). História da vida

Pinheiro Machado).121 No seu estúdio, o fotógrafo produzia retratos, sem deixar de registrar vistas gerais da vila que crescia com a chegada de novos colonos.

Ao menos uma das imagens de Muscani chegou a ter circulação na capital da

província, Porto Alegre. Como consta no “Catalogo da Exposição Estadual do Rio Grande do

Sul em 1901”122, o pavilhão do município de Caxias na feira estava expondo “1 quadro com a

photographia geral da villa de Caxias”, obra do fotógrafo “Francisco Moscani [sic]”. Na

mesma ocasião, a Intendência Municipal expunha “3 quadros com as photographias das

aulas e diversas vistas de Caxias” 123, sem autoria reconhecida.

Embora não se saiba quais foram as imagens exibidas durante a Exposição Estadual, tem-se, ao menos, um indício do desejo de mostrar a área urbana do município e a instrução pública, dois símbolos de modernidade para os locais. Além disso, tem-se, aqui, um exemplo do que anteriormente foi referido acerca das instituições responsáveis por promover a circulação das imagens em um ambiente visual: nesse caso, a administração pública e o próprio estúdio do fotógrafo estiveram encarregados em mostrar a imagem moderna e civilizada de Caxias aos olhares de todo o Estado.

Através de dois retratos de estúdio de Francisco Muscani é possível ter uma ideia do que foi trazido no início deste capítulo acerca da pose rígida habitual das fotografias antigas. Em uma prova albuminada que retrata a família Arpini (Foto 10), de imigrantes italianos, percebem-se três integrantes sentados em cadeiras e um bebê no colo do pai, que lhe prende os pequenos braços – provavelmente inquietos diante da situação. Outros quatro membros da família estão escorados em uma parede, que também serve de fundo neutro à cena.

121 Livro de Lançamento de Contribuintes dos Impostos de Industria e Profissões, Caxias do Sul. 1892-1893 e

1894-1899. Acervo: AHMJSA.

122 CATALOGO da exposição estadual do Rio Grande do Sul em 1901. Porto Alegre: Cesar Reinhardt, [1901],

p. 368.

123

Foto 10 - Retrato da família Arpini. Caxias do Sul, década de 1890. Autoria: Francisco Muscani. Prova albuminada em papel, 13x18cm. Acervo: AHMJSA.

Já em outro retrato (Foto 11), um carte-de-visite do casal Domingos e Amélia, uma mesa de centro serve de amparo à esposa enquanto o homem domina a oscilação natural do seu corpo com o auxílio de um curioso guarda-chuva.

Foto 11 - Retrato do casal Domingos e Amélia. Caxias do Sul, década de 1890. Autoria: Francisco Muscani. Prova albuminada em papel, 6x9,5cm. Acervo: AHMJSA.

À pose hirta e ao semblante austero de todos os retratados de ambas as fotografias soma-se, ainda, a posição do fotógrafo, que, afastado, capta todos de corpo inteiro, exprimindo o distanciamento e o respeito que se exige de não-membros da família em uma ocasião tão solene como a de uma fotografia (geralmente a única encomendada em décadas).

Esse tipo de relação entre fotógrafo e retratados, visto nesses dois retratos de Muscani, parecem ser comuns especialmente entre moradores de zonas rurais, integrando, portanto, um

“regime de visibilidade” característico da época e também desses grupos sociais. Pois

Bourdieu124 identificou em fotografias de camponeses de uma região interiorana do sudoeste da França esse mesmo tipo de padrão estético de distanciamento. O autor125 afirma que esse

padrão está relacionado a um “sistema simbólico”, o qual “define para el hombre del campo

las conductas, las normas y las formas convenientes en la relación con otros”. Em outro

ensaio, resultante de uma observação etnográfica e publicado em conjunto com sua esposa, o casal Bourdieu126 constatou o seguinte:

Até a postura que o camponês adota em frente à máquina [fotográfica] parece expressar os valores camponeses e, mais precisamente, o sistema de modelos que governa as relações com os outros na sociedade camponesa. Os indivíduos apresentam-se, geralmente, de frente, no centro da fotografia, de pé e em corpo inteiro, o que quer dizer que ficam a uma distância respeitável. Em fotografias de grupo, eles ficam perto uns dos outros, muitas vezes abraçados. (...) A posição correta e digna consiste em ficar de pé, direito, olhando em frente com a gravidade que convém a uma ocasião solene.127