5. Data og analyse
5.3 Intervju case Brygg
O crescimento da economia da pequena oficina comprada pelo jovem empreendedor foi rápido. Em 1904, Abramo decide investir o seu capital em uma sociedade formada com o
amigo Luiz Gasparetto, fundando a “Ourivesaria e Funilaria Central Abramo Eberle & Cia.” Em 1907, a então “Ourivesaria e Funilaria Central...” já contava com um faturamento de
21:146$796 (mais de vinte e um contos de réis) e lucro líquido de 4:107$448 (mais de quatro contos de réis).34 Nessa mesma época, os produtos fabricados pela funilaria se diversificam: são produzidos, agora, utensílios de cobre, alambiques e máquinas de sulfatar, além de dar início a produção de artigos de montaria, como arreios, estribos e esporas, todos estes muito procurados, devido o meio de transporte mais comum ser ainda o cavalo ou a mula.
Os investimentos que Abramo fez no seu negócio foram, sobretudo, provenientes de seu espírito empreendedor. Em 1901, Abramo fez uma viagem para São Paulo, levando produtos coloniais para serem vendidos nas fazendas de café daquele Estado. Para a região Sudeste do país, levou um carregamento de vinho, graspa, salame, presunto e queijo, no valor de 25 contos de réis. Em São Paulo, a recepção dos produtos coloniais provenientes do Sul foi boa, pois agradava especialmente aos muitos italianos que trabalhavam nas fazendas paulistas.
Durante o período em que se ausentava da fábrica, importante assinalar, quem tomava as rédeas do negócio era a esposa de Abramo, Elisa Venzon Eberle, com quem o empresário se casou no ano de 1901. Elisa também era responsável por cozinhar aos empregados da fábrica e, para complementar a renda da família, fazia pequenos concertos em guarda-chuvas e sombrinhas.
Desde o início de suas atividades, a expansão comercial promovida pela fábrica do jovem funileiro foi uma de suas características marcantes. Os caixeiros-viajantes eram responsáveis por levar os produtos da Eberle a diferentes regiões do país. No início, utilizando-se de meios de transporte rudimentares, carregavam no lombo de mulas dezenas de catálogos repletos de fotografias que ilustravam os produtos manufaturados pela Eberle. A Foto 05 mostra alguns desses primeiros caixeiros-viajantes da fábrica:
34 LAZAROTO, Valentim Angelo. Pobres construtores de riqueza. Absorção da mão-de-obra e expansão
Foto 5 - Caixeiros-viajantes da Metalúrgica Abramo Eberle. Caxias do Sul, 1918. Autoria desconhecida. Prova em papel, 13x18cm. Acervo: AHMJSA.
Como se observa em fotografias de época, nos primeiros anos da Ourivesaria e
Funilaria Central de Abramo Eberle & Cia. já é grande o número de operários (homens e
mulheres) e também de aprendizes empregados na fábrica.35 Esses aprendizes eram empregados desde os oito anos de idade, para o caso de meninos, e treze anos, quando se tratava de meninas.36 Os jovens trabalhavam em troca da experiência profissional e alguns não recebiam salário. Para os aprendizes, bem como para seus tutores, trabalhar em uma fábrica era uma importante oportunidade de aprenderem uma nova profissão e de garantirem um emprego na cidade, sobretudo porque muitos eram de famílias de agricultores que começavam a abandonar a vida e pouco rentável do campo.
Em alguns dos primeiros contratos de trabalho da firma, podemos observar como era feita a contratação dos aprendizes para o trabalho na fábrica, estes que eram mão-de-obra barata para o empregador. Um desses contratos de trabalho, datado de 1901, tem o seguinte conteúdo:
Eu Abramo Eberle declaro que aceito em minha oficina de funileiro o filho de Sergia Luchesi, Eugenio Luchesi obrigando-me a ensinar a arte de funileiro, sendo porém o aprendiz obrigado a ficar três anos a contar da data deste [contrato] na minha oficina sendo eu obrigado a dar de comer e dormir ao dito aprendiz. O
35 Teremos oportunidade de analisar essas fotos que mostram os primeiros tempos da Ourivesaria e Funilaria
Central mais adiante, no quarto capítulo.
36 MACHADO, Maria Abel. Mulheres sem rosto: operárias de Caxias do Sul – 1900-1950. Caxias do Sul:
aprendiz tem obrigação de obedecer às ordens do patrão e a respeitá-lo como se fosse seu pai durante todo o tempo da aprendizagem.37
Em outro contrato de trabalho assinado pelo chefe da firma, datado de 1902, encontramos o seguinte:
O aprendiz é obrigado a fazer o que o patrão mandar, obedecer-lhe em tudo […]. Se durante o tempo de aprendizagem o aprendiz não quiser se sujeitar ao patrão e estiver desobedecendo-lhe e tivesse de ser despedido da oficina antes de terminar o tempo de contrato, será o pai obrigado a pagar o tempo que o aprendiz esteve na oficina aprendendo.38
Através dos contratos de trabalho dos aprendizes, observa-se como estava em funcionamento o sistema paternalista na fábrica. Conforme nos indica a historiadora Michelle Perrot39, o paternalismo foi fundamental para a existência e para a manutenção das pequenas ou grandes fábricas, desde o seu surgimento destas após a Revolução Industrial. Segundo a autora, o paternalismo fazia com que os operários se sentissem como parte de uma família, vendo o patrão como um amigo muito próximo ou até mesmo como um pai. Desse modo, como coloca Perrot, os empregados “tinham orgulho em pertencer à empresa com a qual se identificavam”40. E a fábrica de Abramo Eberle era tratada como uma “grande família”. Em todo o período em que Abramo esteve à frente da fábrica (1896-1945) os operários nunca promoveram greves ou mesmo organizaram sindicatos.
Sobre o mesmo tema, no contexto gaúcho, foi o historiador Alexandre Fortes41 quem demonstrou como o paternalismo era uma característica presente em outras fábricas do Estado. Dando destaque aos industriais da zona teuto-brasileira, Fortes apresentou em seu estudo os empresários Antônio J. Renner (do setor têxtil) e Otto Meyer e Rubem Berta (ambos do setor de aviação) como as “fortalezas do paternalismo empresarial” no Sul do Brasil, sendo responsáveis por um “sistema que integrava empresa, família e comunidade, perpassadas por valores e práticas culturais, estruturados por relações hierárquicas de gênero e
etnia”42
. Esses empresários faziam os seus empregados sentirem orgulho de trabalharem para
37
Contrato de trabalho firmado entre Abramo Eberle e Sergia Luchesi – 13 maio 1901. Acervo particular de Heloísa Eberle Bergamaschi.
38
Contrato de trabalho firmado entre Abramo Eberle e Antônio Corseti – 01 ago. 1902. Acervo particular de Heloísa Eberle Bergamaschi.
39
PERROT, Michelle. Os excluídos da história: operários, mulheres e prisioneiros. 1.ed., 6.reimp. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2010.
40 Ibid., p. 62.
41 FORTES, Alexandre. Nós do Quarto Distrito: a classe trabalhadora porto-alegrense e a era Vargas. Caxias do
Sul: EDUCS, 2004.
42
as suas empresas, beneficiando-se desse sentimento para manterem as fábricas longe de manifestações ou incólumes de greves.