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4 Metode

4.3 Intervju

Temos por ahi ouvido manifestar grandes receios sobre o estado de ruina em que se acha o theatro Circo da rua de Santo António, e ainda ha pouco tempo se lhe fez uma vistoria e os peritos o declararam em segurança por algum tempo (…). Não sabemos se estes receios são ou não fundados, julgamos até que o não são, mas é do dever da auctoridade tomal-os em consideração, pois que estando proxima a ephoca dos bailes do Carnaval, aos quaes afluem milhares de pessoas, grande responsabilidade lhe caberia se houvesse a lamentar algum desastre. Consta nos que os proprietarios do theatro Circo tencionam fazer-lhe os reparos necessarios mas só depois de passado o Carnaval. (O Comércio do Porto, 4.01.1858, p. 3)

A afirmação do redactor d’O Comércio do Porto de que os resultados da vistoria seriam infundados, motivaria uma rápida resposta por parte dos seus responsáveis, tendo estes enviado a «certidão da ultima vistoria [2 de Dezembro de 1857] feita no Theatro Circo da rua de Santo António». Segundo a mesma, os peritos, os arquitectos Joaquim da Costa Lima Júnior, Pedro José de Oliveira e José Luís Nogueira Júnior, afirmam que eram necessárias remodelações para que este teatro continuasse a funcionar enquanto espaço de «ajuntamentos de povo, representações dramaticas, equestres, ou d’outra qualquer especie». Concluem os mesmos arquitectos, e provavelmente dando mote para a construção de um novo espaço, utilizando, desta

43 A companhia espanhola sob a direcção do “senhor Arenas” viria a ser convidada, ainda no decorrer da sua carreira no teatro da rua de Santo António, para por em cena no Teatro de S. João a zarzuela Vale de

97 volta, a pedra como material, que não era possível dar uma certeza absoluta quanto à segurança do Teatro-Circo, porque «em construcções desta natureza, que são sempre d’uma duração transitoria [pela utilização da madeira] não podem depositar o summo grau de confiança (…) que só se podia esperar d’uma construcção regular solida (…)». As exigências viriam a ser rapidamente satisfeitas para que o teatro pudesse funcionar «por mais três meses» (O Comércio do Porto, 9.01.1858, p. 3). Contudo, o anúncio da construção de um novo teatro na Rua de Santo António – o futuro Teatro Baquet –, deve ter igualmente motivado uma reacção por parte dos proprietários do Teatro-Circo.

Com efeito, a construção do novo Teatro-Circo iniciou-se a 22 de Março de 1858 (CARNEIRO 2002: 609), precisamente, três meses depois da intimação decorrente da vistoria. O novo teatro é celebrado e encarado já como uma instituição histórica e de grande importância ao Bairro teatral, tendo o novo Teatro-Circo sido construído no mesmo local onde existira o de 1854, pelo valor simbólico que o local já havia ganho. Era uma forma de não apagar a memória do antigo mas sim de passar o testemunho e de fazer prevalecer a sua identidade:

(…) o novo Theatro Circo da rua de Santo António, no mesmo local onde existia o velho, está tambem quasi concluido – A rotonda da madeira foi substituida por um edificio de pedra, formando um polygono. Os amadores dos bailes mascaradas do Circo, podem ter a certesa, de que o Circo, em vez de cahir para sempre, renasce, qual outra phenix, das suas ruinas cheio de forças e valentia, para resistir firme, ao correr de muitas gerações – E se as paredes fallassem, muito teriam que contar das gerações que vão passando áquellas que vem vindo, n’esse girar continuo dos tempos! (O Comércio do Porto, 2.10.1858, p. 1)

O novo theatro Circo está solidamente construido, e tem uma feição agradavel. É airoso, e as decorações, ainda que singellas, realçam o effeito do todo. O Circo é orlado por uma graderia de ferro, construida e collocada de modo a poder tirar-se, quando seja mister transformar o Circo em salão, ou plateia. (O Comércio do Porto, 13.11.1858, p. 1)

A inauguração do novo teatro, a 7 de Novembro de 1858, ficaria a cargo da companhia dos «irmãos Andressons» com um espectáculo «gymnastico e acrobatico», que provocou uma enchente «a mais não caber» (O Comércio do Porto, 8.11.1858, p. 2).

O theatro circo da rua de Santo António, isto é, a nova rotonda de pedra, levantada no local onde existia a celebre rotonda de madeira, escancarou já as suas portas, para dar começo á serie de bailes de mascarados e mascaradas! (O Comércio do Porto, 8.01.1859, p. 1)

98 A inauguração do Teatro Baquet, a 13 de Fevereiro de 1859, não viria a afectar a afluência de espectadores ao Teatro-Circo, onde os bailes de Carnaval continuariam a proporcionar verdadeiras enchentes à “rotonda” da Rua de Santo António. O Teatro Baquet seria, de facto, uma enorme mais-valia no Bairro teatral, dotando-o de uma casa de espectáculos mais atractiva do ponto de vista espacial e arquitectónico. Porém, o seu nascimento não significaria a decadência dos restantes teatros: a procura de teatro declamado crescia com o avançar da segunda metade do século XIX e, mais do que concorrer com o Teatro-Circo, vinha para preencher essa lacuna. Por outro lado, o futuro Teatro do Príncipe Real já há muito havia assentado os seus alicerces na cidade e a sua tradição não permitia que deixasse de ser um dos locais de divertimento de eleição dos portuenses.

O baile de domingo, no theatro Baquet, permittia que todos se achassem e andassem á vontade, e tinha no todo um certo ar polido, que estrema os bailes d’aquelle theatro. Nos bailes do theatro Circo, populares no rigor do termo, tem havido a costumada grande concorrencia. Ha alli certas franquias, que nos outros theatros se não dão, e isto é recommendação valiosa para os que gostam de gozar sem medida – tudo o que o doudejar e tumultar d’uma numerosa mascarada póde proporcionar. (O Comércio do Porto, 4.02.1860, p. 1)

Ao longo dos anos que se seguiram, os espectáculos de variedades apresentados pelas mais variadas companhias equestres, ginásticas, acrobáticas e coreográficas, continuariam a caracterizar o Teatro-Circo da rua de Santo António como o predilecto das camadas mais populares, fosse pelos módicos preços praticados ou pela identidade programática de carácter essencialmente popular. O seu público deliciava-se com a dimensão espectacular da sua programação, espectáculos, ao contrário das exigentes peças levadas a cena no Teatro de S. João, sem texto, de puro divertimento de carácter performativo. As variedades convidavam ao assombro, à gargalhada, momentos de lazer bem passados e com a mente longe dos afazeres do dia-a-dia. No fundo, tudo o que o público popular do Teatro-Circo procurava.

Os espectáculos teatrais seriam inaugurados por uma companhia francesa, dando-se início a uma amena, mas real disputa entre o Teatro-Circo e o Teatro Baquet. A proximidade entre os dois teatros era benéfica, criando-se na Rua de Santo António um pequeno núcleo boémio que atraia um significativo fluxo de pessoas. Por outro lado, e deduzindo-se a vontade de crescimento por parte do Teatro-Circo, não podemos deixar de referir que alguma fricção haveria entre as duas casas de espectáculos e respectivos empresários, quando, na iminência do Teatro do Príncipe Real, se observa

99 que o público que os frequentava era cada vez mais homogéneo. O exemplo que se segue é claro:

O espectaculo que estava para 5.ª feira [no Teatro Baquet], não foi a effeito (…). A companhia franceza, lucrou com isto, porque a gente que se dirigia ao theatro Baquet, vendo que alli se não dava espectaculo dirigiu-se para o theatro Circo, onde se dava a estreia da companhia franceza, composta d’artistas que pertenciam, em Lisboa, á companhia do caffé-concerto, e que em consequencia d’este se desconcertar, vieram para o Porto, sob a direcção de Mr. Berge (…). A estreia da companhia franceza não foi desafortunada. Os baixos preços de entrada, e a circumstancia que deixamos mencionada, valeram-lhe uma quasi enchente na plateia e galerias. (O Comércio do Porto, 15.10.1859, p. 1)

Na alvorada da época de 1860-1861, antevendo-se espectáculos líricos e de teatro declamado no Teatro de S. João, bem como a apresentação de sedutoras zarzuelas ao Teatro Baquet, o Teatro Circo da Rua de Santo António volta-se uma vez mais para os espectáculos de variedades. Madame Tornour, com a sua “companhia de ingleses” acrobatas, e Thomas Price, agora director e proprietário «dos Circos de Sevilha, Cadiz, Barcellona, Madrid e Lisboa» (O Comércio do Porto, 29.11.1860, p.2), apresentando concorridos espectáculos equestres, foram os principais responsáveis pela grande afluência registada ao popular teatro durante a nova temporada, mantendo a sua identidade intacta. Graças a isso, o Bairro teatral expandia, com uma oferta cultural vasta e acessível a todas as camadas sociais. Era, cada vez mais, o recreio de todos.

Após um período de interregno na época de Verão que se seguiu, o Teatro Circo volta a abrir as suas portas desta vez para receber, a 1 de Setembro de 1861, o Rei D. Pedro V, que se encontrava de visita à cidade do Porto. O Teatro Circo da Rua de Santo António foi, entre os teatros portuenses, o único a receber o Rei nesta sua deslocação à capital nortenha e, para tal, levou-se a cena teatro declamado por parte da Companhia Dramática Portuense. A «Grande Galla», como foi apelidada, foi um autêntico regozijo:

Pouco antes das 9 da noite sahiram SS. M. e A. para o theatro Circo da rua de Santo Antonio, á entrada do qual foi muito victoriado pela multidão de povo que alli se achava reunido. Quando El-Rei e o Senhor Infante appareceram no camarote que lhes estava destinado, os espectadores que enchiam litteralmente o grande recinto do Circo e camarotes, se levantaram e saudaram SS. M. e A. com uma prolongada salva de palmas. Tendo a orchestra tocado o hymno real levantou-se o panno, e o actor Ferreira, á frente de toda a companhia, recitou um monologo, agradecendo a El-Rei o beneficio e honra, que à companhia dera (…). (…) A frente da casa que dá entrada para o Circo estava illuminada e adornada com bandeiras e cobertores de damasco. (O Comércio do Porto, 2.09.1861, p. 2)

Na continuidade do fio condutor programático que marcou o início da existência do Teatro-Circo e construção da sua própria identidade, eram sempre bem acolhidas as

100 companhias equestres, muito frequentados os seus bailes de máscaras e haveria de ser sempre palco dos mais diversos espectáculos de variedades. O teatro só surgiria com regularidade alguns anos mais tarde, ainda que em tímidas doses experimentais. Nesta altura, cada teatro tinha o seu papel ao Bairro teatral: o S. João com o lírico, o Baquet com o teatro declamado e o Circo com as variedades/espectáculos equestres, num claro sinal de uma rede que se sabia articular em prol de uma coexistência pacífica, proporcionando, ao mesmo tempo, uma oferta diversificada. Era interessante verificar como, num espaço urbano tão reduzido como era este Bairro teatral ainda em formação, se podia ter uma escolha tão ampla (e completa) em termos de entretenimento. A diversificação da oferta em detrimento da sua sobreposição, foi um dos principais aspectos que nos levaram a reflectir num termo que demonstrasse essa consciência unitária, de permanente negociação e articulação entre os vários agentes teatrais.

A 24 de Abril de 1864, o Teatro-Circo continua a dar sinais de uma actividade regular com a vinda, por primeira vez à cidade do Porto, da companhia ginástica e equestre de Gaertner e Dellevanti (O Comércio do Porto, 25.04.1864, p. 3), que provocaria uma enchente completa. Seguiu-lhe, já em 1865, a “Companhia Africana”, que trazia na bagagem «espectaculos de gymnastica e de cães e macacos intelligentes» (O Comércio do Porto, 6.04.1865, p. 3). Esta atraiu pouca afluência por se realizar, na mesma altura, a popular Feira de S. Lázaro, à qual afluía em grande parte o público-alvo do Teatro-Circo. Mas não era um caso isolado: as feiras, como deixamos claro nos pontos introdutórios, eram muito frequentadas pelas diversas camadas sociais e os teatros sentiam isso na pele.

A variedade de espectáculos apresentados no Teatro-Circo da rua de Santo António incluia também “lutas”. Em finais de Maio de 1865, anunciava-se uma «lucta entre o athleta, o snr Raphaello Scalli, e quatro indivíduos que se apresentaram offerecendo-se para seus contendores.» Scalli intitulava-se «athleta romano». Para melhor caracterizar este espectáculo, designado então de «funcção athletica e herculea», fique-se a saber que, por então, «para ser declarado vencido é necessario que qualquer dos contendores toque com ambos os hombros ao mesmo tempo no chão.» O prémio, caso alguém vergasse o “atleta romano”, era o total da receita da bilheteira, após deduzidas as despesas do espectáculo (O Comércio do Porto, 27.05.1865, pp. 2-3). A

rotonda de pedra, para azia daqueles que tanto faziam apologia da “civilização”, havia

101 espectáculo foi uma «scena de verdadeiro tumulto. (…) Durante algum tempo a arena e o espaço reservado aos espectadores converteram-se n’um d’esses amphitheatros antigos (…). Apenas o luctador [Scalli] appareceu na arena, as maiores demonstrações de desagrado se desencadearam contra elle. Estas subiram ao seu auge por occasião da lucta entre elle e os seus ultimos contendores.» A vitória do atleta romano acabaria por provocar o caos, tendo alguns elementos do público invadido a arena e outros, por seu lado, arremessado cadeiras para onde estivessem virados.

Apesar da contundente enchente, os periódicos desaprovavam este tipo de espectáculo, «anachronicos e deslocados no tempo de hoje», e «impróprio de uma terra civilisada» (O Comércio do Porto, 30.05.1865, p. 2). Porventura, se algum dos contendores de nacionalidade portuguesa tivesse derrubado o «vilão» italiano (tal como foi catalogado na altura), a questão da “civilização” já não se colocasse. É mais uma prova do carácter volúvel daqueles que escreviam na imprensa da época.

Os espectáculos teatrais voltariam ao Teatro-Circo com a designada de companhia nacional de teatro declamado, uma «sociedade de actores portugueses» que aproveitavam os interregnos próprios da transição da época de Inverno para a de Verão para dar récitas nos principais teatros do Bairro teatral. A sua estreia (e única récita) contou com a representação do drama A leitora ou a loucura de um rapaz44 e a comédia

O pagem do Regente (O Comércio do Porto, 4.06.1865, p. 3). Aproveitando o vazio do

Teatro de S. João, a companhia abandonaria o Teatro-Circo para lá representar, voltando poucos dias depois para algumas récitas de benefício. O facto da companhia se apresentar num teatro da condição do Teatro de S. João e não no popular Teatro-Circo, permitir-lhe-ia, como é óbvio, praticar preços mais altos, arrecadando uma receita de bilheteira maior. Por outro lado, muitas companhias que atingiam um êxito considerável em teatros ditos menores, acabavam por dar o salto para teatros com melhores condições e, sobretudo, maior lotação. Assim, pode crer-se que o Teatro-Circo terá sido uma espécie de prova para perceber a qualidade da companhia ou que, por outro lado, esta se tenha limitado simplesmente a aproveitar a disponibilidade de cada teatro em termos de ocupação. No que toca ao repertório, não podemos afirmar com certeza que houve – ou que havia – uma adequação consoante o público de cada sala. A nossa certeza, porém, é que o teatro declamado teria aceitação em ambas casas de espectáculo.

44 Tradução de Francisco Ladislau Álvares d'Andrade a partir da obra La lectrice ou une folie de jeune

102 Urge, de facto, a necessidade de estudar profundamente o repertório apresentado em cada teatro, de forma a perceber e conhecer melhor o seu público habitual. Nesse sentido, esperamos que o nosso trabalho de registo das várias peças que vão tendo lugar nos palcos portuenses, seja um proveitoso ponto de partida.

Observando a sua identidade programática, tão diversificada, não podemos deixar de comparar o Teatro-Circo com o futuro Teatro Águia d’Ouro, inaugurado mais tarde, em 1899, ao coração do Bairro teatral. Este último viria a adoptar praticamente a mesma fórmula, quer na sua multifacetada programação, quer no seu conceito de espacialidade adaptável à mesma.

Há que notar, todavia, que mais teatro seria apresentado nesta casa de espectáculos, como um sinal claro da identidade programática que viria a ser adoptada pelo seu sucessor, o Teatro do Príncipe Real. Destacámos a presença, a 20 de Setembro de 1865, da Companhia Dramática Portuense45, espectáculo ao qual assistiu o Rei D. Luís, tendo sido o monarca igualmente recebido no Teatro Baquet e no Teatro de S. João:

Pouco depois das 9 horas da noute El-Rei sahiu para o theatro Circo. O theatro Circo estava convenientemente adornado. As escadas estavam com jarrões de flores e nos camarotes viam-se bambinelas de seda azul e branca. Logo que S. M. appareceu no camarote real a orchestra tocou o hymno. O real hospede apenas se demorou um acto e findo elle dirigiu-se para o theatro de S. João (…). (O Comércio do Porto, 21.09.1865, p. 2)

Logo no ano seguinte, e após partilhar espaço com uma companhia de zarzuela, a Companhia Dramática Portuense apresenta-se novamente no Teatro-Circo, desta vez em benefício dos seus artistas, representando o «drama familiar» Modesta, o «entre-acto cómico» Os efeitos do vinho e a comédia Um marido que é vítima das modas, de Luís de Araújo Júnior (O Comércio do Porto, 12.05.1866, p. 3). Percebe-se pelo repertório apresentado, e os títulos das peças são disso elucidativo, a preocupação em levar a cena espectáculos de fácil “digestão” que fossem ao encontro das expectativas do público popular que afluía a este teatro. Desde cedo, a sua identidade popular ficou bem marcada, quer pela oferta de variedades quer ainda quando o teatro declamado subia ao palco.

45 Representou-se as comédias União e Trabalho e Posso falar à Senhora Queirós?, da autoria de Aristides Abranches, e Sem jantar, de João Gaspar Simões.

103 O Teatro-Circo voltaria aos habituais espectáculos equestres em inícios de Dezembro, com uma companhia sob a direcção de Marcos Casali, antigo artista da companhia do conhecido empresário Mr. Price (O Comércio do Porto, 16.11.1866, p. 2). É a partir deste mês invernoso que se reforça a ideia da pertinência existencial das três casas de espectáculo situadas no Bairro teatral – Teatro de S. João, Teatro Baquet e Teatro-Circo –, dispares entre si no que toca à sua programação e público-alvo, mas importantes centros da vida cívica portuense que ofereciam uma panóplia de espectáculos abrangendo todas as camadas sociais da população portuense. Como se pode constatar através de relatos da imprensa da época, não era só a oferta lírica que o habitante do Porto procuravae que os empresários dos Teatros lhe ofereciam:

Andava-se por ahi com receio de que o aborrecimento viesse passar a estação invernosa ao Porto. Não faltava quem se temesse dos bocejos com que nos ameaçava a ausencia de divertimentos. Exagerado temor! O horizonte escuro aclarou repentinamente. Os receios desfizeram-se. Os emprezarios vieram em auxilio d’este publico que para matar o tempo só tinha o theatro lyrico. Já ha diversões para todos os gostos. Temos a companhia lyrica [no Teatro de S. João]. Temos a companhia do theatro de D. Luiz de Coimbra [no Teatro Baquet]. Temos [no Teatro-Circo] uma companhia equestre, gymnastica, acrobática, que já no domingo dará o seu primeiro espectáculo. (O Comércio do Porto, 30.11.1866, p. 2)

No fio condutor dos acontecimentos, os espectáculos equestres e de variedades, proporcionados pela companhia de Marcos Casali, findam na iminência dos sempre apetecíveis bailes carnavalescos, esse período turbulento de «amores faceis, defluxos facillimos, cotoveladas de muitos, conhecimentos com todos» para quem se deixasse «ingerir na multidão que invade os lugares d’ajuntamentos (…)» (O Comércio do Porto, 5.03.1867, p. 2).

Passada a habitual euforia da multidão que enche as ruas, os teatros e os salões de festas do Bairro teatral, eis que o Teatro-Circo volta a apostar no teatro declamado. Desta volta, a tarefa ficava a cargo da Companhia Espanhola Dramática sob a direcção de José de Guez. A sua estreia aconteceria a 10 de Março com o drama histórico O Sino

de Almudaina e a farsa Maruja!, ainda que sem grande destaque dado pela imprensa da

época. Curiosamente, durante este período que antecede a Época de Verão, nos meses de Março e Maio, esta era a única casa que oferecia espectáculos teatrais. O Teatro Baquet encontrava-se temporariamente inactivo e o Teatro de S. João, de braço dado com o Palácio de Cristal, proporcionava aos portuenses concertos, sendo que o primeiro já vinha, como vimos, de uma lamentável temporada lírica.

104 Porém, apesar destas tímidas experiências no campo teatral, o Teatro-Circo voltaria a ser fiel a si próprio, substituindo a companhia dramática espanhola pela companhia do «domador francês de feras» André Serbat (O Comércio do Porto, 26.04.1867, p. 3) e sendo usado, enquanto espaço físico, como uma autêntica galeria de arte, a propósito de uma exposição de «figuras de cera»46.

Em inícios de 1868, numa altura em que a companhia dos bufos madrilenos dizia adeus ao Porto após representar no Teatro Baquet, deixando o Bairro teatral órfão

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