7 Avslutning
7.4 Forslag til videre forskning
Teatro de Santa Catarina, Teatro Camões, Teatro das Variedades e Teatro da Trindade. Teatros visíveis na sua época e invisíveis na nossa. Apesar da irregularidade programática, característica transversal a todos, cada um deles, de acordo com a sua posição geográfica, serviu a comunidade onde se inseria e contribuiu para o amadurecer de actores, companhias e empresários, como local de experimentação e de lançamento de novas promessas.
A inclusão nesta lista de espaços teatrais marginais ao Bairro teatral, onde a excepção é somente o Teatro de Santa Catarina, serve para mostrar como era difícil um teatro subsistir “fora da rede”. Todas estas casas de espectáculos acabariam por desaparecer, vítimas do seu desfavorecimento geográfico. De todos os teatros construídos fora desta rede, no período por nós compreendido, apenas o Teatro Carlos Alberto (inaugurado em 1897) conseguiria subsistir enquanto instituição. Mas não olvidemos que o proprietário deste, Manuel da Silva Neves, tinha negócios no Bairro teatral, sendo, juntamente com Edmond Pascaud, proprietário da futura casa de
128 espectáculos Novo Salão High-Life, à Praça da Batalha. Adivinhava-se que em alturas de maior adversidade para o Teatro Carlos Alberto (que foram ainda significativas), o seu proprietário canalizasse fundos para que este não tivesse a mesma sorte que os restantes teatros.
O Teatro de Santa Catarina existiu onde é, actualmente, o Grande Hotel do Porto. Segundo Sousa Bastos «representaram-se ali comedias, farças e entremezes» tendo-se apresentado em tempos neste teatro «a Sociedade Melpomene e a Sociedade
Philoscenica, formadas pela melhor roda do Porto» (BASTOS 1994: 364). Apesar desta
apologia, e segundo o que observamos a partir da segunda metade do século XIX, era uma casa de espectáculos essencialmente direccionada a acolher companhias de teatro amadoras. Registou, ao longo da sua existência, uma actividade programática irregular, não se verificando temporadas no sentido literal do termo, mas alguns espectáculos esporádicos. O facto da Rua de Santa Catarina de meados do século XIX se dedicar ao “comércio especializado” (AA. VV. 1990: 47), terá beneficiado (e igualmente prejudicado) a sua subsistência ao longo do tempo, não acompanhando o movimento boémio que caracterizava o Bairro teatral. Porém, a sua presença numa artéria afluente ao coração deste, numa altura em que os espaços teatrais se contavam pelos dedos de uma mão, não deve ser ignorada. De facto, a sua existência enquanto casa de espectáculos constitui um case study interessante se tivermos em conta dois aspectos já mencionados: o teatro ao serviço de micro-comunidades e a utilização destes espaços ditos menores como autênticas escolas de teatro, onde aspirantes a actores podiam ganhar alguma rodagem.
Aos seus frequentadores era oferecida uma panóplia de espectáculos, desde as variedades ao teatro declamado. Em relação a esta última tipologia, a passagem da Sociedade Juventude Dramática, em 1858, por este teatro é um exemplo marcante da identidade desta casa de espectáculos e das suas singelas ambições. É, também, uma declaração da utilidade do Teatro de Santa Catarina como local de ensaio e laboratório para a maturidade de futuros actores. No dia de estreia, esteve presente a célebre actriz Emília das Neves, não em palco mas como espectadora atenta e consciente do crescente gosto pelo teatro declamado:
Formou-se ha tempos uma sociedade de mancebos emberbes, da classe artistica, na sua maioria, com a denominação de «Sociedade Juventude Dramatica.» O fim desta sociedade recreativa, é dar representações scenicas no theatro de Santa Catharina,
129 empregando assim as horas que o trabalho quotidiano lhes deixa livres, n’um passatempo em que se associa o util e o agradavel, recreando-se a si e recreando os seus amigos. (…) A primeira representação teve lugar (…) no theatro de Santa Catharina. Representou-se a comedia - «Se Deos Quizer» (…). Os applausos enthusiasticos, que os jovens actores receberam deram a medida do apreço que mereciam. Entre as pessoas que lançaram ramos de flores ao palco, devemos especialisar a rainha da scena portugueza, a snr.ª Emilia das Neves; e muito deve valer para a «Sociedade Juventude Dramatica», uma demonstração tão significativa, pela pessoa que a dava. (O Comércio do Porto, 15.05.1858, p. 1)
Figura 22 – Localização do Teatro de Santa Catarina. Para Sul, situava-se a Praça da Batalha. Pormenor
da Planta topográfica da Cidade do Porto de Perry Vidal, ca. 1865 (A. H. M. P.)
Em finais de 1862 o Teatro de Santa Catarina voltaria a dar sinais de vida após um longo interregno. O seu palco recebe Mr. Spira e Mr. Fritz, apresentando ao público «o seu theatro pittoresco e mechanico» (O Comércio do Porto, 6.12.1861, p. 4). Perder- se-ia, depois disto, o rasto a este teatro.
Construído na Rua das Liceiras, o Teatro Camões foi, na década de 50 do século XIX, frequentado pela «boa sociedade», tendo passado por lá várias personalidades da época como Camilo Castelo Branco ou o já nosso conhecido empresário Moutinho de Sousa (BASTOS 1994: 324). Este teatro, mais tarde conhecido como Teatro Variedades, vítima do ingrato espaço geográfico ocupado, bem tentou afirmar-se no panorama teatral portuense, apresentando em cartaz teatro declamado. Fizeram-se obras
130 de remodelação, apresentaram-se atraentes programas com elencos de artistas que obrigaram a enormes esforços financeiros e tentou-se, inclusive, apresentar a Companhia do Teatro do Ginásio de Lisboa no seu palco, mas a sua situação geográfica, classificada de repugnante56 e manifestamente fora da rede do Bairro teatral, viria a ditar o seu desaparecimento no decorrer da década de 60 do século XIX.
No seu final de vida ainda vemos passar por este teatro o actor Taborda, tendo ali representado a «scena comica» Efeitos do vinho novo, tendo levado a uma grande afluência graças à cotação alta que o citado actor mantinha na época. Em Maio de 1858 passa a designar-se Teatro Variedades, tendo o edifício sido alvo de obras de remodelação, numa tentativa de lhe “lavar a cara”.
Perante as adversidades, os seus proprietários foram persistentes: a intitulada “companhia nacional” faria uma autêntica temporada de Inverno nos anos 1860-1861. No ano seguinte, a «companhia dramática portugueza» apresentava-se no seu palco com um repertório compostos por comédias e dramas (O Comércio do Porto, 24.09.1862, p. 4). Quase meio ano depois surge, para espectáculo único, a Sociedade Luso-Dramática, com o drama Modesta e a comédia Perdão de acto de J. Afonso de Lima (O Comércio
do Porto, 20.01.1862, p. 4). O Teatro Variedades era, sem dúvida, um espaço aberto a
associações, sociedades ou companhias de amadores que, por mero divertimento ou com o intuito de entrar no circuito teatral, aqui encontravam espaço para dar visibilidade aos seus trabalhos e ao seu mérito. As associações tinham igualmente aqui a sua casa para espectáculos de beneficência. Foi exemplo disso a «reunião preparatória» realizada neste Teatro a 2 de Maio de 1863, com vista à organização de uma sociedade dramática que se propunha a realizar uma série de espectáculos em que as receitas retiradas das quotas dos sócios, após abatidas as despesas, teriam como destinatários os «operários fabricantes sem trabalho e estabelecimentos pios» (O Comércio do Porto, 2.05.1863, p. 2).
Já com o Teatro Variedades em pleno estado de agonia, em Março de 1866, representa-se uma série de comédias: Conde de Paragará (Aristides Abranches), União
e trabalho e Um namorado exemplar (Eduardo Coelho):
56 A «repugnancia que tem [o público] ao local do theatro» havia de ser fatal para a sua existência. (O
131 Destroços de uma corporação de actores nacionaes, que se decoram com o titulo de «companhia dramatica portuense»57, levaram (…) á scena no theatro Camões um espectáculo composto de várias comédias. (O Comércio do Porto, 6.03.1866, p. 2) O último sinal de vida desta casa de espectáculos data de 15 de Outubro de 1866, com a representação do drama Santo António.
A Ocidente da Praça D. Pedro, surge-nos o efémero Teatro das Variedades.58 Humilde casa de espectáculos construída em madeira junto à Cerca dos Carmelitas, na proximidade do Jardim da Cordoaria, começara a atrair, na década de 70 do século XIX, mais público e ambição do que aquela que as suas paredes conseguiam comportar.
Do proveito monetário que este teatro colhia numa zona da cidade ainda virgem de divertimentos59 (valendo-se da sua proximidade geográfica com o jardim da Cordoaria, à imagem do que acontecia com os teatros do Bairro teatral), surge a iniciativa de Agostinho António Lopes Cardoso, o arrendatário do apelidado, para além de “Teatro das Variedades” ou “Teatro das Carmelitas”, “teatro barraca da cerca das Carmelitas”: erguer um novo teatro, do qual seria proprietário, desta feita em pedra, com a mesma designação dos seus predecessores: “Variedades”.
Antes desta nova versão de finais de 1871, terão existido dois “teatros-barraca”, como podemos constatar a partir de uma notícia a propósito do espectáculo de benefício do tenor Osório realizado no segundo “barracão” construído:
Nos fastos do theatro das Carmelitas volveu-se hontem a pagina mais brilhante, a não metter em linha de conta o fogo que consumiu o primeiro barracão. (…) As paredes e a cobertura do theatro nem pareciam de pinho. Estavam profusamente revestidas de bandeiras. Junto ao palco e na plateia, viam-se de um lado e outro grandes vasos com flores. Do tecto pendiam varios lustres abundantemente illuminados. Nos intervallos tocava uma banda marcial collocada em um coreto por cima da porta de entrada. Damascos, tapetes e outros adornos completavam o aspecto garrido que offerecia o recinto onde se celebrava a festa do tenor portuguez. (O Comércio do Porto, 12.01.1871, p. 2)
O primeiro teatro em madeira, aludindo os periódicos a ele como a «barraca na cerca das Carmelitas», data provavelmente de 1869, altura para que remetem os primeiros relatos que descobrimos do mesmo e da estreia, no seu espaço, de uma
57 Esta companhia, apesar de humilde, perdura no tempo e apresenta-se nos teatros ditos “menores”. Em 1871 irá pisar o palco do Teatro-Circo, também com comédias.
58 Este surge citado nas fontes como Teatro das Variedades. Não confundir com o anteriormente citado, o Teatro Variedades (Teatro Camões).
59 Ainda que provavelmente inspirado no sucesso que os teatros itinerantes, erguidos aquando da Feira de S. Miguel, no Campo dos Mártires da Pátria, obtinham junto da população.
132 «companhia sob a direcção de Lopes.» Sabia-se que tinha “superior” e “inferior”, graças ao anúncio do seu preçário, 80 e 40 réis, respectivamente (O Comércio do Porto, 11.04.1869, p. 3).
O novo “barracão”, previa-se, seria «construido com melhores acommodações do que alli tem estado e offerecerá divertimentos mais escolhidos» (O Comércio do
Porto, 15.10.1871, p. 1). Daqui retiramos a clara vontade de apresentar este teatro mais
atraente do ponto de vista espacial e programático, empenhos e intenções que seriam alcançados, como veremos mais adiante.
Principiaram hontem na cerca das Carmelitas os trabalhos para a construcção do novo theatro que alli se vai edificar. Ficaram abertos os alicerces. O novo theatro será de pedra pelos lados e pela parte posterior, sendo a frente de madeira revestida a zinco ou telha conforme se julgar mais conveniente. (…) Segundo nos dizem, será bem construido interiormente e levará uma ordem de camarotes, ficando assim um theatro de 3.ª classe, para poder dar espectaculos com uma companhia nacional. (O Comércio do Porto, 16.11.1872, p. 2)
Figura 23 – O Teatro das Variedades encontrava-se localizado na área por nós assinalada, não se sabendo
a sua exacta implantação no tecido urbano. À direita, a Praça D. Pedro. Chegava-se ao Teatro através da Rua dos Clérigos (em baixo) e, no seu seguimento, pela Rua das Carmelitas. Pormenor da Planta
topográfica da Cidade do Porto de Telles Ferreira, 1892 (A. H. M. P.)
O novo Teatro das Variedades, inaugurado a 28 de Dezembro de 1872 pela mão dos irmãos Dallot (O Comércio do Porto, 25.12.1872, p. 2), vem espoletar a actividade
133 teatral no lado ocidental da cidade60 e rapidamente ganharia relevância na entrada para o último quartel do século XIX. O antigo “barracão das Carmelitas” (O Comércio do
Porto, 6.01.1872, p. 2) era explorado, neste seu início de vida, pela Empresa Dramática
Nacional, uma sociedade de actores que se apresentaria igualmente, entre os anos de 1873 e 1874, no Teatro Baquet. Levava a cena, na sua maioria, dramas, comédias, operetas e zarzuelas, espectáculos de gosto particularmente popular. Em meados de 1873, forma-se, a partir do conjunto de actores que ali se havia prestado a representar na última temporada, uma sociedade sob a direcção de Nunes Ferreira. A companhia originária dessa sociedade estrear-se-ia de imediato, a 5 de Abril com a peça Os
salteadores da Calabria e a comédia As astúcias de um regedor, dando assim
continuidade aos espectáculos (O Comércio do Porto, 5.04.1874, p. 2).
No limiar da nossa delimitação cronológica, encontra-se o Teatro da Trindade, propriedade de António Paes da Silva (O Comércio do Porto, 8.02.1874, p. 2). Em Março de 1873 surgem notícias que dão conta do arranque da construção (os alicerces já se encontravam erguidos) do «novo theatro que se trata de estabelecer na Cancella Velha» (O Comércio do Porto, 19.03.1873, p. 1). A título de curiosidade, a tarefa de «pintar panno de boca (…) e respectivo scenario» ficou a cargo do já conhecido Guilherme de Lima, «hábil scenographo» (O Comércio do Porto, 1.07.1873, p. 2), profissional a que os homens do teatro tanto recorriam para adornar interiores e delinear cenários. Esta casa de espectáculos inaugurou a 22 de Fevereiro de 1874, com o drama
A pastora de Ivry, compensando, através da sua posição geográfica, o desaparecimento
do Teatro Camões/Variedades na década anterior.
As crónicas da época, que retratam a primeira impressão do Teatro da Trindade, referem que este, «como theatro de segunda ordem, póde-se dizer bom e é elle mais um melhoramento notavel para esta cidade», indo o seu destaque interior para o exemplar pano de boca pintado pelo cenógrafo Guilherme de Lima, representando a pintura de um dos episódios da obra Os Lusíadas, a Ilha dos Amores. Sobre a companhia que o inaugurou, composta por alguns artistas oriundos da companhia dramática nacional61, que se encontrava a representar por essa altura no Teatro Baquet, e sob a direcção do ensaiador Romão, pode dizer-se que teve um desempenho dentro da sua competência e
60 Actividade essa que nesta zona geográfica viria a atingir o seu clímax com a inauguração Teatro Carlos Alberto em 1897.
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134 condições que detinha, esperando o empresário da companhia «adquirir novos artistas depois do mez de Março, que é quando terminam as suas escripturas os de outras companhias.» No final do drama, e com «casa cheia», foram alvo de aplausos e chamadas «os artistas e o traductor, o emprezario, o snr. Paes, foi tambem chamado ao proscenio» tendo «além d’isso sido distribuída impressa, n’um entreacto, uma poesia em seu louvor» (O Comércio do Porto, 24.02.1874, p. 2)
Figura 24 – Situação urbana do Teatro da Trindade. A Rua D. Pedro comunicava directamente com a
Praça do mesmo nome. Legenda: possível localização do Teatro (A), Rua da Cancela Velha (1), Rua do Laranjal (2), Rua D. Pedro (3), Rua do Bonjardim (4), Rua Sá da Bandeira (5). Pormenor da Planta
topográfica da Cidade do Porto de Telles Ferreira, 1892 (A. H. M. P.)
Porém, o Teatro da Trindade seria sempre palco de grandes tumultos originados entre os habituais grupos rivais, os que aplaudiam e os que pateavam determinados artistas. Esta casa de espectáculos ficou infelizmente rotulada de “perigosa”, já que nem «o comissario de policia» presente «com todos os seus meios» era capaz de evitar os recorrentes tumultos. A título de exemplo, e a propósito do benefício do actor Alves Rente, realizado a 1 de Julho de 1874, contam as crónicas que no «final do espectaculo e depois de serem applaudidos todos os artistas e o snr. Alves Rente, uma chamada especial á actriz Josepha provocou de novo as scenas tumultosas das primeiras récitas. Houve scenas de pugilato, diz-se até que chegaram a apparecer rewolvers, terminando a
135 pendencia por serem presos tres dos espectadores que pateavam» (O Comércio do
Porto, 2.07.1874, p. 1). Palavras que elucidam bem o ambiente que aí reinava, no
mínimo, delicado.
A sua única verdadeira temporada teatral (1874-1875), da responsabilidade da companhia do próprio teatro, uma sociedade de actores formada por iniciativa do proprietário do teatro António Paes, teria alguma relevância no panorama teatral portuense, por entre dramas (O enforcado, Os campinos do Ribatejo), comédias (Dois
surdos) e, sobretudo, operetas (O destino, O Verde-Gaio ou A Grã-duqueza de Gerolstein). Porém, e parecendo quase uma inevitabilidade, o Teatro da Trindade ver-
se-ia envolto num devastador incêndio que constituiria o seu fim e assinalaria o contínuo falhanço dos teatros fora da rede do Bairro teatral. Mesmo assim, para compreender essa quase inevitabilidade, convém debruçarmo-nos mais atentamente sobre alguns dos factos que antecederam esta catástrofe.
Correndo o ano de 1875, reinavam as zarzuelas no Teatro da Trindade, colhendo os empresários que por lá ia passando – Juan Molina, Gomes Cardim, entre outros – bons dividendos das suas estadias. Porém, o seu carácter tumultuoso nunca o abandonou:
As zarzuelas agradaram tambem, excepto talvez a um ou dous espectadores, que esquecendo-se do lugar em que estavam, levaram as manifestações do seu espirito engraçado a dirigirem da plateia algumas facecias aos artistas, em alta voz, praticando outras liberdades reprehensiveis, porque uma sala de espectaculos não é uma praça publica. (O Comércio do Porto, 3.01.1875, p. 1)
Curiosamente, e sabendo nós a causa que ditaria a extinção deste teatro, eis que surge uma medida adoptada por parte das autoridades que não podemos deixar de ignorar, apesar de não sabermos a causa exacta de a mesma ter sido tomada:
Principou no sabbado [9 de Janeiro de 1875] a estacionar no theatro da Trindade, durante o espectaculo, um destacamento da companhia dos incêndios, em conformidade com a bem entendida providência, ultimamente adoptada pela authoridade superior do districto. (O Comércio do Porto, 12.01.1875, p. 2)
Ainda antes do incêndio, um interregno prolongou-se penosamente nesta casa de espectáculos devido às já habituais doenças de determinados actores e às vistorias realizadas ao teatro. Apenas terminou quando a empresa obteve de novo a licença de funcionamento, após ter aceite realizar as obras necessárias no «prazo de oito mezes» (O Comércio do Porto, 13.03.1875, p. 2). Apesar da reabertura, é de adivinhar o
136 prejuízo económico (e não só), que este interregno traria à empresa: récitas de assinatura adiadas e assinantes descontentes, o incumprimento da época teatral na sua totalidade… e ainda os custos que viriam a derivar das obras de remodelação impostas para o seu futuro funcionamento. De facto, reabriu a 13 de Março de 1875, desdobrando-se a companhia em espectáculos em seu benefício, porventura a única forma de a empresa pagar aos artistas e restantes elementos ligados à mesma. Porém, a afluência a estes benefícios foi fraca (ou “diminuta”, usando os termos característicos dos periódicos da época). Em boa verdade, o desempenho da companhia também não ajudou para atrair uma maior concorrência:
Não sabemos a proveniencia d’esses artistas, nem em que companhias tenham funccionado. O que notamos em alguns delles (…) foi uns modos em scena pouco agradaveis e que só podem ser vistos e apreciados pelos frequentadores dos theatros do Campo Grande, Belem e quejandos. Ao ensaiador cumpre (…) corrigir esses desmandos, porque deve comprehender que o theatro da Trindade do Porto não é frequentado, crêmos nós, pelos admiradores das amaneiradas posições dos tocadores de guitarra e jogadores de faca. (O Comércio do Porto, 28.03.1875, p. 2)
Por outro lado, vivia-se no Porto uma autêntica vaga de incêndios. Com uma frequência quase diária, observamos notícias do frenesim em que se via envolta a companhia de bombeiros, desde o início do ano. Curioso (ou não) era o facto de que a maioria desses imóveis consumidos pelo fogo estavam assegurados. Não que queiramos ligar directamente esta inusitada vaga com o caso particular do Teatro da Trindade, assumindo que terá sido “fogo posto”; é sim nossa intenção colocar todas as hipóteses possíveis de forma a averiguar o que poderá ter, de facto, acontecido. Continuemos assim o relato daquilo que se vivia no Teatro da Trindade.
Após o prejudicial interregno e a pouco abonatória companhia de zarzuela, eis que surge a notícia de que o Teatro da Trindade se preparava para receber o Rei D. Luís I. O teatro aprumava-se e anunciava-se um “espectáculo de gala”. De facto, a sua presença teria um efeito revigorante na imagem desta casa de espectáculos, a não ser que o Rei… mudasse de planos, como se veio a verificar, partindo «mais cedo» para Lisboa e vendo-se a empresa obrigada a devolver o montante pago pelos lugares reservados para a tão aclamada gala (O Comércio do Porto, 22.05.1875, p. 3). Nada corria bem e a partir desse momento foi o desespero. Uma nova companhia é contratada para se apresentar no teatro, anunciando-se uma série de espectáculos. Apesar do bom arranque, com a opereta O Diabrete, de Manuel Maria Rodrigues e música de Alves Rente, a 18 de Maio os espectadores batem com o nariz na porta. A razão «ignora-se,