4. RESULTS
4.2. I NFORMANT I NTERVIEWS
4.2.2. Interview 2
Falar sobre diferentes localidades pode causar encantamento por parte do público. “A criação de uma alma para a cidade permite que o turista sonhe com determinadas circunstâncias e sensações de viagem e com a projeção social de sua identidade através da experiência turística” (Falco, 2016, p. 201). Os jornalismos que abrangem este nicho podem acabar por desempenhar este papel de facilitador quando se trata de desbravar espaços, visto que “os media desempenham um papel fundamental para o consumo de lugares edénicos e simbólicos através da sua divulgação e promoção junto dos turistas” (Mateus, 2017, p. 41). Assim, tem-se a ligação entre a função do jornalismo com a promoção de destinos turísticos.
Segundo Falco (2011), “percebe-se que, em ampla medida, as imagens e discursos da mídia, é que constróem o imaginário turístico sobre as mais diversas localidades” (p. 26). A compreensão do imaginário é importante para o nicho de viagens. Para Ferrari (2013), este elemento pode ser considerado como “fonte propulsora para a construção das cenas turísticas, das figuras dos
22 (...) o jornalismo de viagens compartilha uma parcela comum com o jornalismo de turismo nessa área.
Entretenimento e motivação estão presentes como um objetivo comercial de todas as revistas de viagens. Portanto, até a reportagem mais sóbria pode ser um convite para viajar, mesmo que o autor não tenha esta intenção. No entanto, há reportagens em que esta intenção é apresentada de forma clara e como ingrediente principal: são os textos típicos de viagens que vendem paraísos terrestres com as informações selecionadas e limitados pela boa venda de um produto. Poderíamos defini-lo como jornalismo de viagens de propaganda dirigido ao turista convencional. E insistimos novamente, é nesses casos específicos onde o jornalismo de viagens perde suas fronteiras e se confunde com o jornalismo turístico. (Jané, 2002, p. 159, tradução da autora)
turistas e de suas práticas, pode-se dizer que o imaginário turístico é uma visão particular do mundo dos sujeitos” (p. 8). Assim, cada pessoa pode recorrer a diferentes fontes para construir o imaginário de cada lugar.
A imagem que uma pessoa tem de um determinado lugar é formulada a partir de variados processos de conhecimento, pode ter sido formulada por comentários de amigos, leitura de folheteria, anúncios publicitários, artigos e reportagens, narrativas em livros ou no cinema. As características da personalidade do indivíduo também contribuem no processo de formação dessa imagem, classificado como um processo objetivo–subjetivo, identificado pelos meios de comunicação. (Abess, 2008, p. 18)
A construção do imaginário pode resultar em promoção de destinos, ao se considerar que “os lugares descritos pelo jornalismo (aparentemente sem a finalidade de atiçar o consumo) ou pela publicidade, ambos, convergem para o consumo quando entram na dinâmica social através dos sonhos que evocam” (Falco, 2016, p. 203). Para Ribeiro (2011), o discurso dos espaços nos quais são publicados os conteúdos de viagens e turismo “é repleto de mensagens publicitárias” (p. 42). Brandão (2005) defende o pensamento de que “muitas vezes, para que os destinos sejam publicados em revistas especializadas, é necessário que a localidade custeie todos ou parte dos gastos da viagem para os jornalistas” (p. 7). Esta ideia está vinculada aos altos custos relacionados às viagens, o que pode resultar em parcerias entre veículos de comunicação e empresas da área do turismo.
Em função desta troca, pode ter-se a visão de que “as matérias patrocinadas acabam virando propaganda dos pontos turísticos pela maneira como são elaboradas: viagem em troca de divulgação. Também é publicidade de graça ao informar o nome do patrocinador” (Carvalho & Leite, 2007, p. 13). No entanto, é preciso reforçar a função jornalística nestes casos, ao acentuar que “para ser caracterizada como produto jornalístico a publicação tem que apresentar um limite claro entre publicidade e jornalismo” (Wenzel & John, 2012, p. 309). Deste modo, os veículos devem comunicar ao público quando alguma parceria é realizada. Para Neveu (2005), “outra particularidade deste jornalismo é condensar, por vezes até à caricatura, as tensões das relações de força entre as fontes e os anunciantes publicitários. Por vezes, leitores, fontes e anunciantes sobrepõem-se fortemente” (p. 39). Assim, cada veículo jornalístico deve ter uma linha editorial clara e disponível ao público, esclarecendo o que se sobrepõe: a informação ou o conteúdo pago. Neste ponto, também, é testada a criatividade do jornalista do nicho de viagens. “Ainda que se possa dizer que a produção noticiosa ligada ao turismo aproxime-se de uma visão midiática comercial, isto não significa consentir com um modelo pautado em imprecisões, exageros e ocultamentos\mascaramentos da realidade” (Lachowski, 2012, p. 151). No caso de o jornalista viajar a convite de alguma empresa, ele deve reportar os fatos com veracidade, sem deixar de apresentar aspectos negativos.
A exclusão proposital de pontos turísticos que não patrocinam viagens é outro desvio ético. Ao dar preferência a uns em detrimento de outros, pautas que poderiam ser interessantes, relevantes do ponto de vista informativo, são excluídas dos suplementos. Deste modo, pontos turísticos atraentes, mas desconhecidos ou com poucas empresas e grande porte neles interessadas, perdem um importante espaço de divulgação na mídia – que deveria dar oportunidades, em princípio, iguais para todos, deixando a relevância jornalística pesar. (Carvalho & Leite, 2007, p. 13)
A falta de recursos para enviar um jornalista para determinado lugar não pode ser sinónimo de falta de informação para o público. Outros artifícios podem ser utilizados, como contratação de um profissional freelancer ou até depoimento do próprio público. Assim como nas outras práticas jornalísticas, neste nicho também são necessários recursos para custear os gastos das publicações. No entanto, é preciso ter transparência para com o público quando se trata de conteúdo pago. Da mesma maneira que os media escolhem não publicar informações sobre determinados destinos, eles também são capazes de “agendar os lugares a serem levados em conta como turísticos por famílias em férias, por casais em lua-de-mel, por crianças, idosos etc. Cria-se assim uma espécie de cartografia turística, que irá designar locais atrativos nos mais diversos segmentos turísticos” (Falco, 2011, p. 26). Assim, os jornalismos de viagens e de turismo podem tanto citar com mais frequência determinados locais para fazer com que sejam lembrados pelo público, quanto não informar sobre eles.