4 FINDINGS
4.2 INTERVIEW FINDINGS
O segundo objetivo da tese de doutorado de Deutscher (2008) foi a criação de um Relatório de Capitais Intangíveis, de forma estruturada, de forma que servisse de ferramenta de comunicação da empresa com o mercado visando a redução da assimetria de informação e tornando o processo de Governança mais transparente.
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A estrutura do Relatório de Capitais Intangíveis que será descrita mais adiante foi inspirada em algumas iniciativas já adotadas anteriormente, que não serão aprofundadas por não agregarem subsídios ao objeto deste trabalho, contudo destaco alguns pontos relevantes que balizaram a construção do Relatório por Deutscher, tais como:
• KPMG: criou em 1999 dois tipos de relatórios – interno e externo. O propósito do relatório interno foi prover informações para o processo decisório, enquanto o externo deveria prover informações aos stakeholders.
• PWC: criou em 1999 um relatório cujas informações incluídas tinham por objetivo proporcionar maior clareza acerca do fluxo de caixa potencial e do correspondente perfil de risco. A transparência das informações prestadas interligadas com a estratégia da empresa proporcionariam: (i) redução do custo de capital aumentando o valor da ação da empresa; (ii) inspiraria confiança entre os stakeholders; (iii) não deixaria espaço para rumores e assim melhoraria a informação ao público; (iv) aumentaria a concorrência pelo fato da informação ter se tornado pública.
• Ernst&Young: criou em 1999 um relatório com o objetivo de mensurar (ao contrário dos acima citados) os capitais intangíveis e incluir tal valor no balanço das empresas, a despeito da impossibilidade legal. O método utilizado foi o fluxo de caixa descontado dos benefícios futuros esperados.
• Meritum: relatório criado em 2002 com a seguinte estrutura: (a) A visão da Firma; (b) O sumário dos recursos intangíveis e atividades; (c) O sistema de Indicadores.
• AIAF: criado em 2002, o relatório contempla a seguinte estrutura: (a) A natureza da informação – passada e futura; (b) As cinco dimensões da comunicação – estratégica, clientes e mercados, recursos humanos, processo e inovação e finalmente, organização; (c) A profundidade da informação – mínima, razoável ou ampla. Ao final, o relatório é concluído com uma projeção de resultados e objetivos pretendidos pela empresa.
• Ricardis: relatório criado em 2006 especialmente para pequenas e médias empresas, com o objetivo de melhorar os processos internos para gerir os recursos – tangíveis e intangíveis – e, ainda mais importante, prover uma sólida base para aprimorar a qualidade da comunicação com os financiadores por meio da explicação do por que a empresa faz o que ela faz e como são construídos os recursos e capacitações necessários para ter sucesso no futuro. É um recurso bibliográfico valioso, pois reconhece os desafios das empresas que tentam explicar seus intangíveis e traz
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recomendações práticas de como uma empresa pode fazer diferença nos dias de hoje. Assim como a PWC, consiste em dois relatórios: um interno, com o objetivo de complementar a informação gerencial, e outro externo voltado para complementar o relatório financeiro.
Para um aprofundamento nestes e em outros modelos de Relatório de Capitais Intangíveis, sugiro leitura de Deutscher (2008) e do Relatório Ricardis (2006) que traz em seu apêndice 10 modelos utilizados em vários países no mundo.
O relatório elaborado pela Ernst&Young aborda simplesmente a questão da avaliação econômico-financeira prospectiva da empresa. Este relatório apresenta uma séria limitação em razão da argumentação de Guimarães e Pinheiro (2009) que, por definição, o valor de uma empresa só pode ser determinado em contexto de relacionamento. Como já dito anteriormente, o objetivo deste trabalho não é o de mensurar os capitais intangíveis e, portanto, esta metodologia não será levada em consideração.
O Relatório da Meritum tem uma estrutura bastante semelhante com o primeiro Relatório de Capital Intangível da Skandia (divulgado em 1994) que tratava de todos os capitais definidos no Skandia Framework.
A Figura 19 demonstra o fluxo de informações desenvolvido por Deutscher (2008) para a construção de um Relatório de Capitais Intangíveis, extraindo os benefícios dos relatórios acima citados, que tem por objetivo descrever as ações executadas pela empresa durante o período selecionado para desenvolver os capitais intangíveis necessários para suportar a estratégia definida.
Figura 19 – Fluxo para elaboração do Relatório de Capitais Intangíveis
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Resumidamente, o fluxo é explicado da seguinte forma:
1. Estratégia da Empresa: é o ponto de partida da definição dos capitais intangíveis que se correlacionam com a estratégia e que serão descritos no Relatório de Capitais Intangíveis
2. Rating de Capitais Intangíveis: neste momento a empresa deverá selecionar os ativos /
competências do BSC de Capitais Intangíveis que são mais importantes para a execução da estratégia definida. Esta análise deve observar que a construção de um determinado ativo / competência implica em gastos adicionais.
3. Hiato (Gap) de recursos: é a soma dos recursos necessários para a aquisição de ativos físicos e intangíveis para a implementação da estratégia. Estes recursos podem estar disponíveis na própria empresa ou devem ser adquiridos, numa relação de tempo e custo adequados.
4. Plano de Ação: é o conjunto de iniciativas que deverão ser adotadas pela empresa a fim de colocar em prática a estratégia desenvolvida, incluindo a construção dos ativos intangíveis selecionados como relevantes. Deve descrever de que forma os recursos serão desenvolvidos internamente ou adquiridos, além do tempo e custo de tais desenvolvimentos ou aquisições.
5. Relatório de Capitais Intangíveis: o autor sugere que, ao final de cada período, a empresa deve emitir um relatório informando aos acionistas sobre as ações e investimentos realizados no último período para a construção dos ativos intangíveis das empresas. A estrutura do Relatório de Capitais Intangíveis proposta por Deutscher (2008) está demonstrada no Quadro 8.
Verifica-se que a metodologia desenvolvida incorpora à análise dos intangíveis o plano de negócios da empresa, subordinando-o à estratégia e às demandas de mercado. Está embutida no Relatório, ainda, a utilização da ferramenta de análise SWOT, o que ratifica sua importância na avaliação dos ativos e competências relevantes para a empresa.
Este relatório foi testado em quatro empresas da carteira do BNDES, sendo três de grande porte e uma de pequeno porte, os quais foram apresentados no evento denominado Conferência de Capitais Intangíveis, realizado nas instalações do BNDES nos dias 29 e 30 de outubro de 2007.
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Quadro 8 – Estrutura do Relatório de Capitais Intangíveis
Capítulos Descrição
Novas tendências de mercado; Dinâmica do mercado;
Ameaças e oportunidades Posicionamento
estratégico
Como a empresa pretende atuar para aproveitar a(s) oportunidade(s) ou neutralizar a(s) ameaça(s) descritas acima.
Baseado em uma análise de forças e fraquezas para a execução da estratégia, explicita as ações no período:
Ativos e Competências necessários para executar a estratégia; Ações e investimentos desenvolvidos no período;
Conquistas no período. Fonte: Deutscher (2008)
Mercado de atuação da empresa e sua dinâmica
Construção dos capitais intangíveis
Deutscher junto com a equipe do CRIE, identificaram que as grandes empresas conseguiriam elaborar o Relatório de forma mais autônoma, bastando encaminhar um roteiro de construção do relatório, dado que as empresas deste porte já aplicam metodologias de “Análise de Mercado” e “Posicionamento Estratégico”. A equipe do CRIE teve uma atividade mais intensa somente no item “Construção dos Capitais Intangíveis”, pois foi necessário explicar às empresas a metodologia do rating ora desenvolvida.
Já no caso da empresa de pequeno porte, que inclusive faz parte da carteira de investimentos da BNDESPAR, dado que sua estrutura organizacional é enxuta e sua gestão menos madura que as empresas de grande porte, foi necessário um trabalho conjunto em todos os estágios de forma a extrair o Relatório de Capitais Intangíveis.
Esta constatação de Deutscher e CRIE está alinhada com outras já mencionadas anteriormente que dizem respeito aos problemas de gestão inerentes às empresas de pequeno e médio porte, além da dificuldade de obtenção de informações de qualidade do mercado (Alvim, 1998).
Após a conclusão deste trabalho, os gestores da empresa de pequeno porte deram seu depoimento na Conferência de Capitais Intangíveis de que o processo foi de grande aprendizado interno para a organização e o Relatório auxiliou no processo de posicionamento mercadológico e estruturação de metas para a implementação de fato da estratégia traçada. Esta estratégia estava sistematizada em um Plano de Negócios que amparou a recente aprovação do projeto pela Diretoria da BNDESPAR resultando na participação acionária na citada PME.
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Alinhado com este depoimento, Silva e Fonseca (2008), no artigo intitulado “Capital intelectual e tomada de decisão: uma estreita relação”, concluem o estudo mencionando que a aplicação de um determinado método de avaliação e mensuração do capital intangível proporcionou aos gestores a possibilidade de gerenciar de forma mais eficiente e eficaz o seu capital intelectual, acarretando, desta forma, um progresso dos ativos intangíveis gerenciados. Argumentam, ainda, que pessoas bem treinadas tomam melhores decisões gerando maior valor para a empresa e, conseqüentemente, para os acionistas.
O Relatório de Capitais Intangíveis apresenta as duas visões citadas no Relatório da AIAF: as informações passadas que têm um viés de prestação de contas e as informações futuras de forma a demonstrar os ativos e competência mapeados pela empresa como necessários para seu sucesso. Esta visão retrospectiva é importante para demonstrar ao mercado as iniciativas já adotadas, que refletiram em gastos nos demonstrativos financeiros (eventualmente até demonstrando uma redução momentânea de margem de lucro), mas que têm potencial de geração de receitas no médio e longo prazo.
A divulgação desta informação é relevante para afastar julgamentos sobre má gestão dos recursos que influenciariam negativamente na reputação dos administradores e, conseqüentemente, da companhia, prejudicando relacionamentos futuros com bancos ou investidores.
Como forma de aprimorar o Relatório poderia ser incluído no capítulo que trata da Construção dos Capitais Intangíveis os indicadores definidos pela empresa a fim de avaliar se houve progresso ou não na construção dos respectivos ativos e competências, tal como proposto no Relatório Meritum e demonstrado no Relatório de Capitais Intangíveis da Skandia (1994) ao inserir uma tabela com o Skandia Navigator. A inserção destes dados demonstra uma maior objetividade, ou tangibilidade, das iniciativas adotadas.
Adicionalmente, poderia ser estabelecido um relatório voltado para o mercado, tal como proposto pela KPMG, com uma filtragem das informações que são relevantes para o público externo de forma a proporcionar os benefícios citados no relatório da PWC.
É importante haver esta diferenciação, pois o foco de um relatório interno é auxiliar no processo de tomada de decisões e, portanto, conterá indiscriminadamente todos os aspectos relacionados à execução da estratégia da companhia.
Apesar de toda a argumentação levantada até o momento sugerir uma maior transparência dos ativos intangíveis ao mercado, isso não significa, absolutamente, dar conhecimento ao publico externo de tudo que esteja sendo discutido internamente na companhia.
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Existe uma linha tênue entre o nível de informação que, se disponibilizada ao mercado, é capaz de criar uma dinâmica competitiva e o excesso de informação que pode resultar na perda de vantagem competitiva por uma reação imediata da concorrência e a obtenção de resultados mais rapidamente que a empresa.
Por este motivo, o relatório a ser divulgado para o público externo deverá sofrer uma avaliação crítica para não conter informações de caráter sigiloso que ponham em risco o futuro da companhia.
Sendo um pouco visionária, ouso inferir que a publicação de Relatórios de Capitais Intangíveis por parte das empresas de capital aberto pode se tornar uma prática irreversível que aumentará a transparência de sua gestão com impacto direto na melhor avaliação das suas ações nas bolsas de valores, tal como ocorrido com o surgimento do Novo Mercado da BOVESPA.
A melhor forma de prever o futuro é inventá-lo.