No Brasil o folhetim se engastou com a cultura e foi muito fértil. Desde a sua base até a sua crista a análise deve levar em conta que dessa relação da escrita com a imprensa saíram obras de pura especulação e experimentação com a ficção, numa gradação de realizações que chegou até feitura de algumas das grandes realizações estéticas da literatura brasileira no século XIX. Memórias póstumas de Brás Cubas, por exemplo, publicado em 1881, no Rio de Janeiro, por Machado de Assis, é um romance-folhetim que poderia ser tomado como exemplo representativo do período. Nele encontramos o aproveitamento da tradição literária ocidental e a combinação das novas técnicas narrativas que o folhetim propiciava no momento de sua criação. Por uma questão de método, a análise não deverá desprezar as tentativas, os experimentos que não se converteram em sucesso, pois eles serviram de ponto de passagem dentro do processo escritural. Trata-se, na verdade, de considerar mais o processo do que obras ou autores decisivos para a culminação de um período ou de um estilo literário. Devemos considerar, assim, não apenas os folhetins bem realizados, que entraram para as histórias literárias, como também os que não passaram de meras tentativas de incursão no novo gênero; e também os intermediários, medianos ou medianeiros. Todos eles são mediadores dentro do sistema comunicacional dessa imprensa/literatura.
Sabemos, através de pesquisas, como as que fizeram Marlyse Meyer e seu grupo de pesquisadores, que os jornais do Rio de Janeiro, Alagoas, Pernambuco e até do Vale do Paraíba, passam a publicar folhetins nacionais, alguns anos depois da chegada dos modelos
vindos da França. Os primeiros folhetins brasileiros não são bem realizados, como já dissemos, e uma leitura mais crítica das obras poderá demonstrar isso, mas o maior problema é que não as poderemos ler com o olhar dos leitores apaixonados quando da publicação dos capítulos ou fragmentos. Podemos constatar, hoje, dentro de outra lógica e outra paixão, que com o tempo os folhetins vão ganhando personalidade e consistência artística. Com José de Alencar os romances-folhetins atingem um alto nível de realização estética. Somados aos trabalhos posteriores de Aluizio de Azevedo e Machado de Assis ele se assenta definitivamente na história da formação literária do país. Veremos como o Brasil estava apto não só para receber o folhetim, como também para dar uma resposta ao novo tempo da ficção movida pela velocidade do telegrafo e das novas maquinas de impressão. Essa resposta brasileira, ou atitude particular de criação escritural pode ser notada através da experimentação literária que ocorre desde a chegada do folhetim no Brasil até o momento da sua supressão nos jornais. E devemos levar em consideração que a sua queda nos jornais não significou nunca a morte do gênero, apenas a migração do folhetim para o rádio e para a televisão.
No começo do ano de 1844, entre os romances franceses que o Jornal do Comércio (Rio de Janeiro) anuncia está O filho do pescador, que teve seu começo como folhetim do mesmo jornal em 1843. “Novela feita para o entretenimento de uma moça bonita, cuja ação se passa no Rio, no lugar chamado Copacabana, composta por A. Teixeira e Sousa” (MEYER, 2005, p. 282). O anúncio especificava que havia narrativas ambientadas no cotidiano nacional:
Vende-se um lindo folheto por 1$ onde há:
Um roubo na Pavuna As duas infelizes Juiz de paz na roça.
Na tipografia Imparcial de Paula Brito.
Logo em seguida o jornal passou a anunciar com destaque A Moreninha, de Joaquim Manoel de Macedo. Meyer nos alerta que o jornal estava se preparando mesmo era para acolher o folhetim francês que já havia chegado ao Brasil em 1838, com o primeiro ensaio no gênero de Alexandre Dumas, O Capitão Paulo. Verificamos que desde a chegada do primeiro
folhetim em 1938, até a data do anúncio do jornal em 1944, temos uma série de folhetins nacionais produzidos em apenas seis anos.
O Brasil acolhe o folhetim francês e vai traduzindo tudo para o português. Há uma elite que lê em francês, o que se pode notar pela venda de livros nesse idioma, através dos anúncios publicados também em francês nos jornais do Rio de Janeiro. Mas quando se começa a traduzir os romances para o português, começa-se a ampliar o público leitor e também a praticar a feitura desses romances.
Meyer recolheu um anúncio publicado em 26 de setembro de 1843 no Jornal do
Comércio, no qual se lia: “Quem tiver a obra Mystères de Paris, por Eugène Sue, e quiser
vendê-la, dirija-se à rua do Ouvidor, 87, loja de Mongie” (MEYER, 2005, p. 281). Havia também a chegada de livros ao país, folhetins já publicados em livros, vindos nos navios. Para que queria comprar a obra de Eugène Sue esse jornal? Para revender? Sendo o impressor também livreiro, contando com a colaboração de escritores e tradutores amigos, é muito provável que quisessem comprar a obra para traduzi-la e publicá-la em capítulos de folhetim em português. Talvez a tipografia e a livraria tivessem apenas o interesse de atender uma cliente fluente em francês. Talvez um cliente do sexo masculino, por que não? Os jornais começam a publicar folhetins brasileiros que disputam, em português, as páginas em francês dos folhetins importados. Há outras ocasiões em que as páginas francesas são traduzidas e ambos disputam a preferência do público em português. É nesse ambiente de disputa
linguística e tentativa de fixação do romance popular no Brasil que a língua portuguesa vai evoluindo para se tornar o português brasileiro.
A historiografia literária fixou o ano de 1836 como o início do Romantismo no Brasil, tendo como obra inaugural o livro Suspiros Poéticos e Saudades (poesia), de Gonçalves de Magalhães, publicado naquele ano. Já na prosa a obra eleita para representar o marco inaugural foi o romance-folhetim A Moreninha, de Joaquim Manoel de Macedo,
publicado em 1844. A Moreninha foi um fenômeno literário e de comunicação no país.
Sucesso de edição e de vendagem de romance num momento que a maioria das pessoas não sabia ler no país, segundo o censo. Imaginemos uma roda de leitura formada no conforto de uma sala, ou ao ar livre, na sombra de uma árvore, onde uma pessoa lê e as outras ouvem. Podemos desconfiar que a literatura se dá também entre as pessoas que não sabem ler a palavra escrita. Essa possibilidade lança areia na engrenagem do sistema proposto por Antonio Candido, baseado em emissor, mediador, receptor, e fundamentado na quantidade. O número de leitores é intangível. Como comensurar o número de leitores que os poemas manuscritos e distribuídos nas ruas por Gregório de Matos teve? E os folhetos de cordel impressos artesanalmente, ou com tipos gastos de pobres tipografias, sem catalogação na Câmara do livro ou número de ISBN, quantos leitores alcançam? Por ora devemos acreditar que é sempre mais do que imaginamos.
Figura 4 – Cena da telenovela “A Moreninha”, produzida e levada ao ar pela Rede Globo de 20 de outubro de 1975 a 5 de fevereiro de 1976.
Nos livros escolares do currículo nacional brasileiro e nas antologias de estudantes a prosa romântica começa com A Moreninha, obra de vestibular, inclusive. Se regredimos ao
ano anterior à sua publicação, encontramo-nos com um livro relegado pela valoração estética que se fez dele: O filho do pescador, já mencionado, escrito por Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa. Um romance-folhetim de 1843, editado no Rio de Janeiro pelo conhecido livreiro e impressor Paula Brito. Por que A Moreninha foi aceita como obra inaugural da prosa no romantismo e seu antecessor direto foi desprezado? O filho do pescador é o drama amoroso
de uma mulher chamada Laura, e um filho de pescador chamado Augusto. A moça é salva de um naufrágio na então deserta praia de Copacabana, e passa a atormentar o seu ingênuo salvador. Segue o estilo dos romances populares: sentimentalismo, prolixidade, muitas lágrimas, linguagem retórica, suspenses e reviravoltas. Acusam o autor de ter a preocupação com a condição do leitor recém-iniciado na leitura. Por isso, ele dá explicações constantes, e faz retrocessos para relembrar fatos passados. Segue as receitas do folhetim ao retomar sempre a última cena contada na data anterior antes de prosseguir. Praticamente todos os folhetins tinham essa preocupação com o leitor.
A sua novidade em relação aos outros folhetins (europeus) está na temática. Teixeira e Sousa introduz o universo popular de pescadores brasileiros na narrativa. Descreve um litoral bucólico: praias desertas, rochedos, canoas, redes e salvadores de naufrágios. Tudo com muita sentimentalidade. Estudiosos como José Veríssimo e Ronald de Carvalho consideraram-no como o primeiro romance escrito no Brasil. Houve, na verdade, outros romances escritos no Brasil antes deste de Teixeira e Sousa. Alfredo Bosi cita três novelas históricas que o antecederam:
Sendo a questão das prioridades um dos pratos diletos da crônica literária, convém esclarecer em que sentido ela se atribui aqui ao romance de estréia de Teixeira e Sousa. Antes da publicação deste, saíram à luz, em 1839, três novelas históricas: Jerônimo Corte Real, crônica do século XVI, O
aniversario de Dom Miguel em 1825 e Religião, Amor e Pátria; e, em 1841,
uma novela sentimental de Joaquim Norberto, As duas Órfãs. Há, portanto, uma diferença de gênero... e de fôlego: as novelas históricas ou melodramáticas eram, via de regra, adaptação de folhetins franceses traduzidos então copiosamente. Só Teixeira e Sousa compôs um romance, embora, no fundo, adotasse os expedientes daqueles folhetins (BOSI, s.d., p. 111).
Bosi reconhece a estrutura de romance para a obra de Teixeira e Sousa, o que lhe daria o status de primeiro romance brasileiro, mas não reconhece qualidades artísticas suficiente na obra para que ela venha a ocupar esse lugar. Na sua História Concisa da
Literatura Brasileira o romance-folhetim de Teixeira e Sousa não merece ocupar o capítulo
destinado aos romancistas. A obra do romancista não tem valor estético, segundo seu ponto de vista, servindo apenas para marcar a periodicidade da escritura de ficção romanesca, portanto,
um objeto de interesse para o historiador, mas não para o crítico literário. Bosi coloca-o, então, numa espécie de subcapítulo intitulado Historiografia. Diz ele, sobre Teixeira e Sousa:
Poderia ser mencionado no capítulo de Almeida, Bernardo Guimarães e Taunay. Mas prefiro não vê-lo ao lado destes por duas razões: uma é a inegável distância, em termos de valor, que os separa de todos (Teixeira é muito inferior ao próprio Macedo); a outra diz respeito à situação do romance na face inicial da cultura romântica. Para a poesia, gênero nobre, foram grandes modelos franceses e portugueses (Lamartine, Hugo, Herculano, Garret) que inspiraram um Magalhães e um Porto Alegre, não vindo ao caso, a esta altura, o porte dos imitadores. Mas para o romance, nem Stendhal nem Balzac, nem Staël nem Manzoni, nem mesmo os lidíssimos Scott e Chateaubriand, lograram imprimir, nesse primeiro tempo, o modelo ficcional a ser reproduzido. É a subliteratura francesa que, no original ou em más traduções, vai surgir a um homem semiculto, como Teixeira e Sousa, os recursos para montar as suas sequências de aventuras e desencontros (BOSI, s.d., p. 111-112).
Bosi não perdoa Teixeira e Sousa pela sua origem humilde de “filho de vendeiro que chegou às duras penas ao posto de mestre-escola, depois de haver padecido os mais desqualificados trabalhos” durante a sua vida. Chega a elogiar o dr. Macedo, autor de A
Moreninha, como homem culto e de mais recursos. De fato, Macedo era um moço muito bem
nascido, de família abastada. Pôde estudar medicina na Universidade do Rio de Janeiro. Pôde ir de passeio à Europa, ainda jovem, para completar sua educação, como era comum aos filhos da elite da época. Entretanto, Meyer nos mostra como O filho do pescador serviu de incentivo e de baliza para o dr. Macedo compor o seu A Moreninha, no ano seguinte ao lançamento do livro de Teixeira e Sousa. Voltaremos a considerar a estética narrativa de O
filho do pescador e A Moreninha mais adiante. Agora precisamos copilar algumas referências
autorizadas pelas pesquisas sobre o folhetim, para depois discutirmos a escritura brasileira dentro do gênero. Meyer nos diz:
A década de 1840 marca a definitiva constituição do romance-folhetim como gênero específico de romances. Eugène Sue publica no Journal des Débats
entre 1842 e 1843 Os mistérios de Paris. Em 1844 sai, do mesmo Sue, O judeu errante; de Dumas, Os três mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo;
de Balzac, a continuação folhetinesca de As ilusões perdidas, ou seja,
Esplendores e misérias das cortesãs. A invenção de Dumas e Sue vai se
transformar numa receita de cozinha reproduzida por centenas de autores. A fórmula tem outra conseqüência: uma nova conceituação do termo folhetim, que passa então a designar também o que se torna o novo modo de publicação de romance. Praticamente toda a ficção em prosa da época passa a ser publicada em folhetim, para então depois, conforme o sucesso obtido, sair em volume. É um modo de publicação que será também o de Alencar, Macedo, Machado, sem que no entanto tais romances sejam forçosamente romances-folhetins. Confusão muitas vezes praticada. É evidente que tal modo de publicação, com suas exigências próprias de cortes de capítulo, de
fragmentos que todavia não destruam a impressão de continuidade e totalidade, haveria que influenciar a estrutura de todo romance a partir de então. George Send se queixa de não saber cortar direito o romance, ao passo que Balzac, que tem a maior admiração por Eugène Sue, não hesita em pedir-lhe conselhos. O personagem de Peri foi certamente influenciado pela caracterização do herói de folhetim, o sucesso de O mulato no seu tempo deveu muito à maneira folhetinesca usado por Aluizio de Azevedo para retratar e denunciar a sociedade de São Luis (MEYER, 2005, p. 63).
É interessante notar que um escritor do porte de Balzac peça conselhos sobre problemas narrativos para um folhetinista como Eugène Sue, considerando que Sue não gozava da condição de romancista como Alexandre Dumas ou Balzac. Ele era apenas um folhetinista, alguém que começou a escrever segundo a nova proposta dos editores de jornal, os inventores do gênero. O folhetim francês, chamado de subliteratura por Bosi, teria sido a única fonte de formação para Teixeira e Sousa, e os outros escritures mais cultos, segundo seu critério, como Taunay, Macedo, José de Alencar, teriam tido acesso aos modelos mais finos. Por outro viés, Meyer nos mostra o quanto o folhetim esteve ligado à vida desses escritores todos. Vemos jovens como Taunay e Macedo totalmente absortos na leitura de folhetins. De José de Alencar basta recordarmos sua pequena autobiografia Como e porque sou romancista para vermos como o folhetim acompanhou a sua vida desde menino.
Segundo a historiografia literária brasileira o romantismo no Brasil começa em 1836, com a publicação de Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães. As obras da literatura romântica no Brasil foram divididas em várias tendências: a) o indianismo e o nacionalismo; valorização do índio e da nossa fauna: b) o regionalismo (ou sertanismo), que aborda o homem brasileiro. O período literário, segundo essa classificação, termina em 1881 com o início do Realismo. O que importa dizer nessa visada é que o romantismo começou com as obras do folhetim, que adentraram o realismo e o chamado realismo-naturalismo, onde já se aponta para a vida urbana numa cidade brasileira, ou até mesmo para uma comunidade quase fechada num espaço determinado, onde vemos a redução do espaço cênico para um
cortiço, ou para uma Casa de Pensão. Evolui-se do espaço idílico da “deserta praia de
Copacabana”, cenário de O filho pescador, e do espaço campestre, falso bucolismo, de A Moreninha, para a cena urbana, dos folhetins de Aluizio de Azevedo e de Machado de Assis,
onde a crônica jornalística vai entrar para retratar os fatos do cotidiano, tanto da cidade alta como da cidade baixa, para evitar a dicotomia centro vs. periferia, por mais ordinário eles sejam. José de Alencar já havia discutido a problemática do campo vs. cidade com a sua
proposta de união do território nacional, cobrindo cada região com uma obra literária. Vejamos uma cronologia simplificada, contendo algumas das principais obras do folhetim, que formam o romantismo e o realismo brasileiros:
Suspiros Poéticos e Saudades, 1836 (poesia). O filho do pescador, 1843.
A Moreninha, 1844. Cinco Minutos, 1856. A Viuvinha, 1857.
O Guarani, 1857. Todos no Correio Mercantil ou Diário do Rio de Janeiro. Lucíola, 1862.
Senhora, 1875.
A Escrava Isaura, 1875, pela Casa Garnier, Rio de Janeiro.
Memórias Póstumas de Braz Cubas, 1880, como folhetim, na Revista Brasileira, e em 1881
como livro. O Mulato, 1881. Casa de pensão, 1884. O Cortiço, 1890. Quincas Borba, 1891. Dom Casmurro, 1900.
Entre essas obras, nos faz notar Meyer, Quincas Borba não é um folhetim, embora tenha sido publicado em fascículos nos jornais, antes de sair em livro. A obra não possui os cortes característicos de um folhetim, poderia haver sido escrita inteira e depois fragmentada nas páginas dos jornais. Isso se deve ao fato de o folhetim haver assumido a preferência dos leitores e dos editores. Na Europa, romances já consagrados como livros eram republicados em forma de folhetim. O processo brasileiro não apresenta novidade nesse quesito. A novidade sai da grande produção que a experimentação escritural enseja nos principais jornais do país.
A ofensiva folhetinesca nos jornais da década de 1840 impulsiona os avanços tecnológicos deste meio, fazendo com que a ficção assuma um papel de mediadora no avanço da própria imprensa. Meyer chama a nossa atenção para os anúncios que eram publicados nos
jornais, entremeados com a própria ficção, que podem confirmar essa afirmativa. Recolho apenas um deles, por ora, bastante significativo. Refere-se ao edital de 3 de janeiro de 1842:
Desde 1839 os melhoramentos do Jornal do Comercio têm ido em continuado progresso. Aumentamos o formato da folha, chamamos para a colaboração os mais hábeis redatores, demos um Jornal aos domingos, envidamos enfim todas as nossas forças para o melhoramento moral e intelectual de nossa folha. Cumpre porém confessá-lo: o aumento de circulação do jornal não compensou o acréscimo da despesa nem o extraordinário trabalho que exige uma folha como o Jornal do Comercio. Nesta circunstancia, temos de escolher de duas uma: ou diminuir a despesa, ou aumentar receita. Julgamos que os nossos leitores antes queiram concorrer com um pequeno aumento do preço das assinaturas do que ver o jornal retroceder ao estado em que se achava em 1838. Por conseqüência, a principiar de 1º de janeiro de 1842, é elevada a 20$ por ano (em vez de 16$000). (Jornal do Comercio, 3 de janeiro de 842. In: MEYER, 2005, p. 282-283).
Os jornais do país se lançam ao mercado com o folhetim a bordo. A ficção folhetinesca serve de bússola, apontando a direção mais propicia para o encontro com o público leitor. O folhetim também serve de âncora, indicando as zonas de ancoragem, nas quais os jornais devem trabalhar no sentido de ofertar melhore serviços de comunicação: melhora no tamanho das folhas, na diagramação, no conteúdo de ficção, e nas imagens ilustrativas.
E a prova de que a ficção no rodapé é indispensável para qualquer nova empreitada jornalística está no Jornal do Brasil, fundado em 1891, que acolherá grandes nomes da política e das letras, mas não escapa à regra. Publica no jornal e na coleção “Biblioteca do Jornal do Brasil” muitos folhetins de Montépin e autores do gênero, e, ainda em 1910, o inarredável A
toutinegra do moinho de Richebourg (MEYER, 2005, p. 297).
Vemos como até entrado o século XX os jornais continuam publicando folhetins brasileiros, sem esquecer os velhos modelos franceses, ou alguns ingleses que sempre chegaram por aqui através de traduções francesas. No século XIX sabemos que o folhetim não se limitou às capitais brasileiras, onde a produção nacional sempre dividiu espaço com os desejados internacionais.
Sondagens rápidas nos jornais do interior, de Campinas, de Guaratinguetá, no Monitor Campista, na abundante produção jornalística do século XIX em Ouro Preto, nos jornais de Recife, de Salvador, confirmam a presença do folhetim e o eterno retorno de autores como Dumas, Richebourg, Ponson, Ohnet, Montépin etc.
Focalizemos, por exemplo, a Gazeta de Campinas. Entre 1869 e 1887 encontram-se romances de Bernardo Guimarães, Machado de Assis, Júlio
Ribeiro, Camilo, Ramalho Ortigão e Eça (Os mistérios da estrada de Sintra), Otávio Feuilett, romances de Maria Amália Vaz de Carvalho, e um Esboço de um romance brasileiro, Os farrapos, de L. A. L. de Oliveira Bello. Mas