7. Implementation
7.7. SPECIFIC CASES
7.7.3. Table of specific cases arranged by Member State
A crônica perdeu a “extensão da carta de Caminha”, mas “conservou a marca de registro circunstancial feito por um narrador-repórter que relata um fato não mais a um só
receptor privilegiado como El-rei D. Manuel, porém a muitos leitores que formam um púbico determinado (SÁ, 1987, p. 7). Um público variado, que não é apenas receptor, mas um público que dita o ritmo e o fôlego da crônica com seu ritmo de vida.
Nos tempos atuais está bastante divulgada nos meios literários do Brasil a produção jornalística de João do Rio. A revolução que a crônica jornalística brasileira realizou com o repórter que resolveu sair das redações e ir às ruas do Rio de Janeiro à cata das situações mais triviais e corriqueiras para estampá-las nas páginas dos jornais, hoje continua revolucionando as letras a partir das edições em livro. Podemos apenas imaginar, a partir da leitura feita em livro, o impacto que causavam seus textos no meio social. Sua figura, nem sempre bem aceita pelos mais abastados e preconceituosos, suas temáticas, e o trato com a linguagem mostram como ele soube circular entre as rodas mais finas da sociedade carioca e as classes mais humildes da cidade: trabalhadores do porto, camelôs, malandros, prostitutas, inclusive, para trazer para as páginas dos jornais e revistas o ritmo vivo da cidade. Entre os que pensam assim está Jorge de Sá. De fato, João do Rio merece ser tido como o cronista símbolo dessa
revolução, mas é preciso levar em conta que ele não foi o único em operar essa mudança. A crônica jornalística brasileira já havia ganhado notoriedade com Machado de Assis, que as escrevia exclusivamente para a publicação de revistas e de jornais e por cujos textos diários ou semanários os leitores aguardavam ansiosamente. Estudos mais recentes como os de Antonio Dimas vêm demonstrando que Olavo Bilac, tão conhecido como poeta parnasiano, foi mais profícuo como cronista. Escreveu, sobretudo, no Correio Paulistano, e na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, onde teve a tarefa nada fácil de substituir Machado de Assis, que
se retirava do jornal para se dedicar inteiramente ao labor de romancista.
Depois de alguns anos como cronista da Gazeta de Notícias, Machado de
Assis afastou-se, deixando o posto para Bilac. Em 1897, ano dessa substituição, Machado já se impusera como romancista e como intelectual. Seu Memórias Póstumas de Brás Cubas, de 1881, abrira-lhe o caminho para
uma modalidade nova de realismo, que não o naturalismo; seu Quincas Borba, dez anos mais tarde, confirmaria a escolha a ser consolidada com Dom Casmurro, anos depois. Como intelectual, sancionara-se seu prestígio
com a escolha de seu nome, entre doze outros, para a presidência da Academia Brasileira de Letras, que vinha de ser fundada. No primeiro momento em que nossa sociedade de letras se constituía enquanto segmento social definido, Machado era lembrado para dirigi-la, presidi-la e representá- la (DIMAS. In: BILAC, 1996, p. 9).
Olavo Bilac já vinha publicando em diversas colunas de vários jornais antes de ser convidado para substituir Machado de Assis. Com a coluna “Crônica” ele ganha um espaço fixo e uma incumbência clara: renovar a crônica desse prestigioso jornal. Há, portanto, que situar o Olavo Bilac cronista entre Machado de Assis e João do Rio, como vamos propor aqui. Vejamos, antes, as considerações de Jorge de Sá sobre a evolução que João do Rio deu à crônica:
No tempo de Paulo Barreto (1881-1921), por exemplo, era apenas uma
seção quase que informativa, um rodapé onde eram publicados pequenos contos, pequenos artigos, ensaios breves, poemas em prosa, tudo, enfim, que pudesse informar os leitores sobre os acontecimentos daquele dia ou daquela semana, recebendo o nome de folhetim. Acontece que Paulo Barreto
percebeu que a modernização da cidade exigia uma mudança de comportamento daqueles que escreviam a sua história diária. Em vez de permanecer na redação à espera de um informe para ser transformado em reportagem, o famoso autor de As religiões no Rio ia ao local dos fatos para melhor investigar e assim dar mais vida ao seu próprio texto: subindo morros, freqüentando lugares refinados e também a fina flor da malandragem carioca, João do Rio (seu pseudônimo mais conhecido) construiu uma nova sintaxe, impondo a seus contemporâneos uma outra maneira de vivenciar a profissão de jornalista. Mudando o enfoque, mudaria também a linguagem e a própria estrutura folhetinesca (SÁ, 1987, p. 8-9).
Para apreendermos o ritmo de fala de João do Rio, nada melhor do que transcrevermos trechos de sua obra, assim entraremos diretamente nela sem parodiarmos. Veremos como o repórter traz à tona atividades quase invisíveis da cidade. A transcrição, ainda que só de um trecho, permite que façamos um flagrante do cronista em plena interação com o seu meio ambiente:
PEQUENAS PROFISSÕES (trecho) João do Rio
O cigano aproximou-se do catraieiro. No céu, muito azul, o sol derramava toda sua luz dourada. Do cais via-se para os lados do mar, cortado de lanchas, de velas brancas, o desenho multiforme das ilhas verdejantes, dos navios, das fortalezas. Pelos bulevares sucessivos que vão dar ao cais, a vida tumultuária da cidade vibrava num rumor de apoteose, e era ainda mais intensa, mais brutal, mais gritada, naquele trecho do Mercado, naquele pedaço da rampa, viscoso de imundícies e de vícios. O cigano, de fraque e chapéu mole, já falara a dois carroceiros moços e fortes, já se animara a entrar numa taberna de freguesia retumbante. Agora, pelos seus gestos duros, pelo brilho dom olhar, bem se percebia que o catraieiro seria a vítima, a vítima definitiva, que ele talvez procurasse desde manhã, como um milhafre esfomeado.
Eduardo e eu caminhando para a rampa, na aragem fina da tarde que se embebia de todos aqueles cheiros de maresia, de gordura, de aves presas, de verduras. O catraieiro batia negativamente com a cabeça.
– Uma calça, apenas uma, em muito bom estado. – Mas eu não quero.
– Ninguém lhe vende mais barato, palavra de honra. E a fazenda? Veja a fazenda.
Desenrolou com cuidado um embrulho de jornal. De dentro surgiu um pedaço de calça de cor castanha.
– Para o serviço! Dois mil réis, só dois!... Eu tenho família, mãe, esposa, quatro filhos menores. Ainda não comi hoje! Olhe, tenho aqui uns anéis... não gosta de anéis?
O catraieiro ficara, sem saber como, com o embrulho das calças, e o seu gesto fraco de negativa bem anunciava que iria ficar também com um dos anéis. O cigano desabotoara o fraque, cheio de súbito receio.
– É um anel de ouro que achei, ouro legítimo. Vendo barato: oito mil réis apenas. Tudo dez mil réis, conta redonda!
– O catraieiro sorria, o cigano era presa de uma agitação estranha, agarrando a vítima pelo braço, pela camisa, dando pulos, para lhe cochichar ao ouvido palavras de maior tentação; ninguém naquele perpétuo tumulto, ninguém no rumor do estômago da cidade, olhava sequer para o negócio desesperado de cigano. Eduardo, que nessa tarde passeava comigo, arrastou-me pelo ex- largo do Paço, costeando o cais até a velha estação das barcas.
– Admiraste aquele negociante ambulante? – Admirei um refinado “vigarista”...
– Oh! Meu amigo, a moral é uma questão de ponto de vista. Aquele cigano faz parte de um exército de infelizes, a que as condições da vida ou do próprio temperamento, a fatalidade, enfim, arrasta muita gente. Lembras-te
de La romera de Santiago, de Velez de Guevara? Há lá uns versos que bem exprimem o que são essas criaturas:
Estos son algunos hombres De obligaciones, que pasan Necesidad, y procuran De esta suerte remediarla Saliéndose a los caminos.
É quanto basta como moral. Não sejamos excessivos para os humildes. O Rio tem também as suas pequenas profissões exóticas, produto da miséria ligada às fábricas importantes, aos adelos, ao baixo comércio; o Rio como todas as grandes cidades, esmiúça no próprio monturo a vida dos desgraçados. Aquelas calças do cigano, deram-lhas ou apanhou-as ele no monturo, mas como o cigano não faz outra cousa na sua vida senão vender calças velhas e anéis de plaquê, aí tens tu uma profissão da miséria, ou se quiseres, da malandrice – que é sempre a pior das misérias. Muito pobre diabo por aí pelas praças parece sem ofício, sem ocupação. Entretanto, citados! O oficio, as ocupações, não lhes faltam, e honestos, trabalhosos, inglórios, exigindo o faro dos cães e a argúcia dos repórteres (RIO, 2009, p. 54-56).28
João do Rio declara seu amor à rua, num texto lido em conferência, e publicado depois como A rua, na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, em 10 de outubro de 1905. O cronista mostra ter ciência de que seu amor à rua é compartilhado pelo seu interlocutor, o que respalda suas empreitadas de andarilho, de mundano. “Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por vós.” (RIO, 2009, p. 28).
João do Rio publicava também na revista Kosmos do Rio de Janeiro. Nessa revista publicou algumas das crônicas sobre as “pequenas profissões” ou “profissões exóticas”, que mais tarde integrariam o livro A alma encantadora das ruas. Na revista Kosmos n. 11, de novembro de 1904, saiu “Os tatuadores”, reportando o trabalho dos meninos tatuadores no cais do porto ou nas ruas onde se concentravam a extração mais popular da sociedade. O exemplar n. 2 da revista, de fevereiro de 1906, trouxe à luz a crônica “Cordões”, texto ilustrado por Klixto. Jornais e revistas estavam cada vez mais agregando imagens ilustrativas aos seus textos: desenhos ou fotografia. Dessa crônica, vale a pena transcrever um trecho, correspondente à primeira página da edição publicada em livro – se bem que a última linha termina na página seguinte –, para sentirmos a intensidade do ritmo que João do Rio imprime ao falar dos cordões de carnaval que invadem o centro do Rio de Janeiro. A intensidade do
28 Na edição em livro, preparada por Raúl Antelo, essa crônica ocupa oito páginas, p. 54-61, das quais
transcrevemos apenas duas páginas e meia. Pequenas profissões, informa Raúl Antelo, foi estampada
ritmo nessa narrativa já é um ritmo de conto breve, faltando para tal o corte, o enxugamento dos sucessos narrados:
CORDÕES (trecho) João do Rio
Oh! abre ala! Que eu quero passá Estrela d´Alva Do Carnavá!
Era em plena rua do ouvidor. Não se podia andar. A multidão apertava-se, sufocada. Havia sujeitos congestos, forçando a passagem com os cotovelos, mulheres afogueadas, crianças a gritar, tipos que berravam pilhérias. A pletora da alegria punha desvarios em todas as faces. Era provável que do largo de São Francisco à rua Direita dançassem vinte cordões e quarenta grupos, rufassem duzentos tambores, zabumbassem cem bombos, gritassem cinqüenta mil pessoas. A rua convulsionava-se como se fosse fender, rebentar de luxúria e de barulho. A atmosfera pesava chumbo. No alto, arcos de gás besuntavam de um a luz de açafrão as fachadas dos prédios. Nos estabelecimentos comerciais, nas redações dos jornais, as lâmpadas elétricas despejavam sobre a multidão uma luz ácida e galvânica, que enlividescia e parecia convulsionar os movimentos da turba, sob o panejamento multicolor das bandeiras que adejavam sob o esfarelar constante dos confetti, que, como um irisamento do ar, caíam, voavam, rodopiavam. Essa iluminação violenta era ainda aquecida pelos braços de luz auer, pelas vermelhidões de incêndio e as súbitas explosões azuis e verdes dos fogos de Bengala; era como que arrepiada pela corrida diabólica e incessante dos archotes e das pequenas lâmpadas portáteis. Serpentinas riscavam o ar; homens passavam empapados d’água, cheios de confetti; mulheres de chapéu de papel curvavam as nucas à
etila dos lança-perfumes, frases rugiam cabeludas, entre gargalhadas, risos, berros uivos, guinchos (RIO, 2009, p. 140-41).
Precisamos observar que os contos de qualidade artística já existiam nos jornais, concomitantes à crônica jornalística, pois saíram ambos os tipos do folhetim, mas faltava ainda uma consciência do contista como artista, que tem na atividade de contar contos um fim em si mesmo, e não o de praticar a narrativa curta como preâmbulo para encarar algo mais vasto como um romance. Estava ocorrendo uma evolução na narrativa, algo que se situaria entre o conto tradicional (de modelo europeu), e a crônica jornalística. Esta evolução desembocaria no conto breve latino-americano. Machado de Assis, que havia se retirado do jornal para se dedicar ao labor de romancista, já tinha clara consciência de que a função de contista é diversa da de romancista, e isso podemos ver nos seus contos mais bem acabados. Outros escritores latino-americanos já haviam dado ao conto uma atenção especial. O argentino Leopoldo Lugones publicou Las fuerzas extrañas em 1906, um livro de contos fantásticos, que Borges verá como o iniciador do conto fantástico na Argentina, embora veja
muitos defeitos em tais contos. Antes de Lugones temos o nicaraguense Rubén Darío, reconhecido pela crítica como o representante máximo do modernismo em língua espanhola, sobretudo por sua poesia. Em prosa quase todos os projetos de romance de Rubén Darío fracassaram, ou não obtiveram o êxito esperado. Já seus relatos breves chegaram a terrenos mais propícios à sobrevivência. Seus contos "Las albóndigas del Rhin" e "Los diamantes del coronel" datam de 1885-1886, e apontam para a precosidade do escritor no gênero. Mais destacados, no entanto, são os relatos recolhidos em Azul como "El rey burgués", "El sátiro
sordo" ou "La muerte de la emperatriz de la China". Darío continuaria cultivando o gênero durante seus anos argentinos com títulos como "Las lágrimas del centauro", "La pesadilla de Honorio", "La leyenda de San Martín" ou "Thanatophobia". Seus textos eram publicados nos jornais, depois chegavam ao livro. E Leopoldo Lugones, que também publicava crônicas nos jornais, quando publicou Cuentos fatales, seu segundo livro de contos em 1926, já contava com a companhia do uruguaio Horacio Quiroga, quem havia publicado Cuentos de amor, de
locura y de muerte, em 1917. Livro que iria instigar os escritores e marcar um avanço
definitivo na escritura latino-americana, em relação ao relato breve.
Mas voltemos à crônica. Essa digressão, ou melhor, progressão, serve para inferir que o conto breve do futuro estava em gestação nas páginas dos jornais. Os latino-americanos ainda escreviam muitos contos seguindo o modelo do conto europeu. A presença de almas penadas e forças estranhas nos contos de Lugones e de Rubén Darío deixam transparecer uma presença forte dos contos do espanhol Adolfo Bécquer, entre outros europeus de orientação gótica. Voltemos, pois, para considerar a contribuição de Olavo Bilac, que começa nos jornais, como já dissemos, antes de João do Rio. Sobre sua participação na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro Antônio Dimas nos diz:
Como cronista da Gazeta, Bilac começara em 1890, mas sua colaboração se interrompera logo, para ser retomada, de modo contínuo, a partir de 1893. Portanto, quando Ferreira de Araújo, o proprietário do jornal e responsável por uma fase de modernização da imprensa carioca, convidou-o para tomar o lugar de Machado, Bilac já era “de casa”. Isso, todavia, não o impediu de sentir certo desconforto. A responsabilidade de substituir um romancista acatado e visto como líder natural do grupo pesava. Não devia ser fácil a incumbência de preencher um espaço consagrado, em jornal que se destacara pelo nível de seus colaboradores. Devia ser menos fácil ainda a construção temática e formal de um caminho próprio que se distanciasse do machadiano, fortemente alusivo, e que cutucasse o leitor sem melindrá-lo. Mais do que simples substituição, essa escolha significava nova orientação para aquela seção do jornal, que dizia adeus à ironia oblíqua e se entregava à mordacidade eventual. Nessa nova função, Bilac se tornaria aguerrido formador de opinião e se despediria das helenizações que tanto preencheram (e estigmatizaram, de forma apressada, sem dúvida) sua poesia.
Aparentemente convencido de que o novo espaço exigia nova atitude, o jornalista espreguiça-se feito gato lambão e aponta-se para as novas funções (DIMAS. In: BILAC, 1996, p. 10-11).
Bilac foi convidado pelo dono do jornal, Ferreira de Araujo, para ocupar um lugar que muitos escritores queriam. A Gazeta de notícias era “um jornal que fora objeto do desejo de toda uma geração e que desfrutava do prestigio de ter sido fundamental na profissionalização do intelectual de letras no Rio de Janeiro” (DIMAS. In: BILAC, 1996, p. 13). O jornal estava empenhado em acompanhar e ajudar a promover a revolução social e política daqueles tempos.
Naquele fim de século excitado com tanta modificação política e social, a
Gazeta de Ferreira de Araújo apostava nas mudanças, mediante uma
diagramação mais ágil e remuneração sistemática de seus colaboradores. Segundo Brito Broca, era esse o jornal “que abria maior espaço à colaboração literária no Brasil e que melhor pagava os escritores, só encontrando um concorrente nesse terreno: o Diário Mercantil, de Gaspar da
Silva, em São Paulo”,29 do qual Bilac fora também colaborador na década e 80 (DIMAS. In: BILAC, 1996, p. 13).
Se João do Rio amplia o leque de assuntos da crônica ao perambular pelos “altos” e “baixos” lugares da cidade, com Bilac ela ganha liberdade para abarcar e enredar qualquer assunto. Da imensa quantidade de crônicas que Bilac publicou nos jornais, “uma pequena parcela foi recolhida em livro”, nos diz Dimas, que também fez uma espécie de mapeamento dos assuntos encontrados nessas crônicas.
Ao contrário de seu antecessor na Gazeta de Notícias, Bilac não titubeava
em opinar sobre os mais diversos assuntos que interessassem diretamente à organização da sociedade civil. Para ele, tudo era assunto, tudo era motivo de atenção. Urbanização, saúde pública, defesas do menor, escândalos políticos, ingerência da Igreja no Estado, festas populares, carestia, segurança urbana, deficiência do transporte público, violência sexual, política internacional, emancipação feminina, lançamentos literários, penúrias do funcionalismo, crueldade contra velhos, maus-tratos a animais, nada escapava àqueles óculos que mal disfarçavam um forte estrabismo. Dessa gula por assuntos decorre certamente a grande dificuldade para se encaixar o cronista múltiplo. Por onde começar? Que filão aproveitar? De que modo enfrentar esse caleidoscópio? (DIMAS. In: Bilac, 1996, p. 15). De toda essa vastidão de assuntos aos quais se dedicou Bilac devemos dar mostra de alguns aspectos. Um deles refere-se à série de crônicas que o autor publicou no livro Crônicas
e novelas, em1894. Trata-se do primeiro livro em prosa de Bilac, no qual ele apresenta uma
29 Antônio Dimas cita a referência de Brito Broca na nota de rodapé. Como não nos foi possível
consultar a edição, citamos a nota completa de Dimas: Brito Broca. A vida literária no Brasil – 1900.
série de crônicas ficcionalizadas, bastante próximas do conto. Um exemplo é a crônica recolhida em livro com o título de “Haxixe”, que fora publicada na Gazeta de notícias, em 2
de abril de 1894, com o título de “Crônica livre”. Dimas mostra como nesse texto, e em vários outros que o seguem, aparecem o personagem Jacques, alter ego de Bilac.
Haxixe (trecho) Olavo Bilac
Como a conversação, depois de haver borboleteado de assunto em assunto, durante esse jantar de refinados, tivesse caído afinal em Baudelaire e nos seus Paraísos artificiais, Jacques, que aos trinta anos de idade já tem experimentado todos os prazeres e provado todos os desgostos, disse acendendo o charuto e enchendo o segundo cálice de chartreuse verde: “Pois afirmo-lhes eu, com conhecimento de causa, que a embriaguez do ópio não tem nenhum dos encantos que lhe atribui Baudelaire...”
“Oh! desgraçado! Pois até já tomaste haxixe?”, indagou um de nós, com alguma incredulidade.
“Propriamente haxixe não tomei, mas tomei coisa melhor.” E relatou-nos isto:
“Foi há muito tempo. Estava eu morrendo de tédio numa cidade do Norte. Toda a solidão daquelas ruas muito direitas, muito largas muito vazias me havia entrando na alma. Como eu me aborrecia, meus amigos! E imaginem que, por esse tempo, sofria eu de uma singular excitação nervosa, que me