Na Modernidade, Hegel foi considerado um dos filósofos que mais contribuiu para formatar o conceito Filosofia da Natureza, pois tenciona um dos pilares da Filosofia da Natureza contemporânea: a cisão entre ciência e Filosofia. Recuperando o conceito aristotélico de totalidade – no sentido como os gregos elaboraram física, natureza e ética – e privilegiando a visão orgânica da natureza, Hegel preocupa-se com o todo, com a interdependência entre vida e natureza. Isso significa dizer, no nosso entender, que o homem deverá aliar a ciências humanas e ciências da natureza.
Resume Agemir Bavaresco que a Física Orgânica – 3ª Seção da Filosofia da
Natureza (Hegel) – descreve o princípio universal da Ideia de natureza, determinada por meio
do organismo vivo; que é no organismo animal que a vida é sujeito, um sistema orgânico; e que a individualidade orgânica existe como animal e tem automoção.129 Essa visão de um todo orgânico é mais adequada para a promoção da proteção ambiental, justamente por tratar da relação direta que existe entre a natureza e os seres vivos como um sistema que interage. É o conceito orgânico de natureza que estabelece o diálogo entre Filosofia da Natureza e Estado Socioambiental: a vida é autônoma e se reproduz. O conceito hegeliano de organismo é, pois,
128Consequentemente, ‘o progresso da técnica e o desenvolvimento da civilização de nosso tempo, que está
marcado pelo domínio da técnica, exigem um desenvolvimento proporcional da moral e da ética, isto é, a satisfação das exigências objetivas da ordem moral’. Mais ainda, o Papa sublinha que o verdadeiro domínio do homem sobre a terra visível consiste na ‘prioridade da ética sobre a técnica, no primado da pessoa sobre as coisas, na superioridade do Espírito Sobre A Matéria (GROCHOLEWSKI, Cardeal Zenon. A filosofia do
direito nos ensinamentos de João Paulo II e outros escritos. Tradução do espanhol para o português Côn.
Martin Segú Girona. São Paulo: Paulinas, 2002, p. 87).
129 A Física Orgânica, 3ª seção da Filosofia da Natureza, descreve o princípio universal da Ideia de natureza,
determinando-se através do princípio subsidiário do organismo vivo, ou seja, a Ideia de vida: A) “como figura, a imagem universal da vida, o organismo geológico; B) como subjetividade particular, o organismo animal”. A vida como Ideia imediata é não-vida, afirma Hegel, pois é mecânica e física. Diversa desta, porém, na natureza vegetal, começa a vitalidade subjetiva ainda fora-de-si. É apenas com o organismo animal, que a vida é sujeito: um sistema orgânico vivente. A vida como sujeito é um processo ou uma atividade intermitente em relação consigo mesmo e a objetividade. [...] A individualidade orgânica existe como um animal e, por isso, tem automoção; ou seja, o organismo animal é uma universalidade vivente que segue a lógica do conceito em suas três determinações silogísticas: a figura, a assimilação e o processo genérico (BAVARESCO, Agemir. Princípio lógico universal e subsidiário como estruturante da natureza hegeliana. In: UTZ, Konrad; SOARES, Marly Carvalho (Orgs.). A noiva do espírito: natureza em Hegel. (Publicação Eletrônica). Porto Alegre: EDIPUCRS, 2010, p. 29).
reservado para o fenômeno vida, como argumenta Márcia Cristina Ferreira Gonçalves. 130 Sustenta a autora que no organismo o universal e o particular se encontram completamente indiferentes, do mesmo modo que matéria e luz se encontram plenamente identificadas. Justifica a autora que todo o processo de desenvolvimento da vida envolve um ciclo de relações recíprocas, capazes de sintetizar nova matéria, possibilitando a manutenção da vida.131 A autora conceitua organismo como uma sucessão de causas e efeitos, que, fechada no interior de um todo, retorna para si mesmo, formando um ciclo não restrito ao sistema interno da organicidade, mas ao mesmo tempo aberto na medida em que reflete o sistema da natureza como um todo.132
Além da noção de unidade e de interdependência, a Filosofia da Natureza hegeliana não pode reter-se às coisas externas e finitas, apesar de a natureza se mostrar na imediatez como finita. É preciso buscar a imanência da natureza e a sua interioridade. De acordo com as considerações de Hegel, o ser humano se conduz “ante a natureza como um ente imediato e exterior a ele próprio, como um indivíduo imediatamente exterior e, assim, sensível, o qual, porém, também com direito, se toma como fim [destinação] para os objetos da natureza”.133
Segundo o autor, o homem luta contra a natureza com as próprias forças da natureza, mas é incapaz de se apoderar da própria natureza ou de amestrá-la.134
Ente com capacidade de automover-se e reproduzir-se, conforme propõe Hegel, podemos dizer que é impossível dominar as leis da natureza – que hoje integram o conceito de meio ambiente. Insere-se um novo entendimento: o homem não consegue dominar a natureza, pois dela não é o senhor. A razão se propõe a conceber o homem, mas continua presa aos procedimentos de investigação da natureza.
No texto, introdução à História da Filosofia, Hegel sustenta que a Filosofia evolui acompanhando a evolução da humanidade. Isso, segundo o autor, não significa que possamos
130 GONÇALVES, Márcia Cristina Ferreira. A crítica às ciências mecanicistas na física especulativa de Hegel.
In: UTZ, Konrad. SOARES, Marly Carvalho. (Orgs.) A noiva do espírito: natureza em Hegel. (Publicação Eletrônica). Porto Alegre: EDIPUCRS, 2010, p. 92.
131 GONÇALVES, Marcia Cristina Ferreira. Filosofia da natureza. Rio de Janeiro: Zahar, 2006, p. 55. 132 Ibidem, 2006, p. 56.
133 Praticamente porta-se o homem ante a natureza como um ente imediato e exterior a ele próprio, como um
indivíduo imediatamente exterior e, assim, sensível, o qual, porém, também com direito, se toma como fim [destinação] para os objetos da natureza (HEGEL, G. W. F. Enciclopédia das ciências filosóficas em
compêndio (1830). II – Filosofia da natureza. Tradução de Pe. José Nogueira Machado. São Paulo: Loyola,
1997, p. 15).
134 Sejam quais forem as forças que a Natureza desenvolva e desencadeie contra o homem, frio, animais ferozes,
água, fogo – ele conhece meios contra elas, e – mais! Retira esses meios da natureza, utiliza-os contra eles mesmos; a astúcia de sua razão faculta ao homem jogar contra potências naturais outras coisas da natureza, entrega estas àquelas para serem aniquiladas e assim se protege e conserva. Entretanto da própria natureza, do seu universo, não pode ele apoderar-se por este meio, nem amestrá-la para seus fins (Ibidem, p. 16).
nos satisfazer apenas com uma Filosofia do passado, ou propô-la como válida, por mais douta e plena que seja: o conhecimento não é excludente, mas sim um somatório de informações que “têm concretamente em si a riqueza de todas as filosofias precedentes”. Uma filosofia é válida, independente de ser atual ou não. As gerações de filósofos se sucedem, e o conhecimento também.135 Do mesmo modo, podemos dizer que as próprias ideias de Hegel perfizeram esse caminho: a Filosofia da Natureza, enquanto Ideia da natureza e Ideia de organismo vivo respectivamente. Além de se constituir em um dos fundamentos do conceito de natureza desde o tempo de Hegel, o conceito de organismo continua atual para os tempos de hoje136.
Os ensinamentos de Hegel são determinantes para conscientizar o homem quanto ao seu dever de cuidar da qualidade ambiental, residindo no retorno à Filosofia da Natureza, à unidade entre natureza e seres vivos. Essa unidade determina que a natureza, composta por bens que se esgotam e contaminam-se pelo uso de forma insustentável, deve ser cuidada para que permita a vida futura. Por considerarmos as ideias de Hegel determinantes para fundamentar uma crítica ao paradigma antropocêntrico clássico, em nosso estudo, primeiramente, mostraremos o desenvolvimento da teoria da Filosofia da Natureza hegeliana, com base no princípio vida regido pelas leis da natureza.
Na Filosofia da Natureza, Hegel, conforme leciona Agemir Bavaresco,137 estuda a vida não mais como determinação lógica do sentido do ser, mas como determinação natural do ser sensível, ou seja, da Ideia em sua exteriorização.138 Por meio de três processos, ou silogismos ativos – que se diferenciam do único silogismo concreto da vida como ser-aí imediato da razão –, Hegel analisa o princípio universal da Ideia da natureza no organismo vivo; esse princípio é estruturado na inteligibilidade da natureza como resultado necessário da
135 Eis o que se deve ter em conta na avaliação de uma filosofia mais antiga para saber o que nela se deve
procurar, a fim de, por exemplo, não se pretender encontrar na filosofia platônica tudo o que nossa época busca. Não podemos satisfazer-nos inteiramente numa filosofia mais antiga, por mais excelente que seja. Também não se pode supor e propor uma filosofia mais antiga como agora válida. Pertencemos a um espírito mais rico, que condensa e tem concretamente em si a riqueza de todas as filosofias precedentes. Esse princípio mais profundo vive em nós, sem ser consciente de si mesmo (HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich.
Introdução à história da filosofia. Tradução de Heloisa da Graça Burati. São Paulo: Rideel, 2005, p. 111).
136 Conforme Agemir Bavaresco no artigo Princípio lógico universal e subsidiário como estruturante da natureza
hegeliana. In: UTZ, Konrad; SOARES, Marly Carvalho (Orgs.). A noiva do espírito: natureza em Hegel. (Publicação Eletrônica). Porto Alegre: EDIPUCRS, 2010, p. 19.
137 BAVARESCO, Agemir. Princípio lógico universal e subsidiário como estruturante da natureza hegeliana. In: UTZ,
Konrad. SOARES, Marly Carvalho (Orgs.). A noiva do espírito: natureza em Hegel. (Publicação Eletrônica). Porto Alegre: EDIPUCRS, 2010, p. 19.
138 Faremos nesta parte uma reconstituição do artigo de BAVARESCO, Agemir. Princípio lógico universal e
subsidiário como estruturante da natureza hegeliana. In: UTZ, Konrad; SOARES, Marly Carvalho (Org.). A
dialética da Ideia absoluta.139 A natureza, no sentido usual, é um fato de nossa experiência; porém, não é a existência empírica da natureza que está em questão na construção do sistema hegeliano. A inteligibilidade e estrutura racional da natureza são consideradas por Hegel em sualogicidade.140 Portanto, a natureza deve ser pensada como Ideia.141
A Filosofia da Natureza de Hegel tem por finalidade pensar sobre a inteligibilidade da natureza, e sobre o sentido especulativo das ciências. Por isso, Hegel não deve ser julgado pelas análises empíricas de seu tempo. Valorizando a concepção grega e particularmente a aristotélica de natureza em sua interpretação teleológica, reflete sobre a racionalidade imanente na physis, o que os gregos denominavam de logos. Partindo do conceito de natureza hegeliana, segundo Márcia Gonçalves, contemporaneamente a natureza só se revela como um todo orgânico, que contém em si uma racionalidade. Isso porque nós, os observadores, não observarmos passivamente a natureza para chegar a esta tão profunda conclusão.
Resta-nos, segundo a autora, lutar para elevar o nível de espiritualidade do homem e acreditar no otimismo evolucionista de Hegel, cujo conceito de razão, longe de ser destrutivo sobre a natureza, aponta tão somente para um equilíbrio e uma conciliação universais entre tudo aquilo que é e que venha a ser real no mundo.142