De acordo com a OMS (World Health Organization [WHO], s.d.), os problemas de coluna incluem trauma, lesão mecânica ou medular, infeção e tumor, sendo a dor lombar o distúrbio mais comum da coluna vertebral.
A dor lombar, ou lombalgia, é o sintoma musculoesquelético mais predominante, podendo ter importantes repercussões em diversas áreas da vida do indivíduo, sendo um motivo de preocupação nas áreas da saúde (Ladeira, 2011), na medida em que se constitui num problema de saúde pública devido à alta taxa de prevalência e às repercussões consideráveis ao nível da incapacidade para trabalhar e da utilização de cuidados de saúde (DGS, 2004; Picavet, 2010; Taimela, Negrini, & Paroli, 2004). É, igualmente, um problema socioeconómico, pois gera aumento da abstinência laboral (Ladeira, 2011; Thelin, Holmberg, & Thelin, 2008; Woolf, & Pfleger, 2003), sendo comum entre os 55 anos e os 65 anos de vida (Björck-van Dijken, Fjellman-Wiklund, & Hildingsson, 2008).
Estudos do Instituto Nacional de Saúde (INS) informam que os distúrbios da coluna vertebral têm uma incidência relevante na população em geral e que a lombalgia constitui um importante problema de saúde pública (DGS, 2004). Consequentemente, o peso socioeconómico da invalidez por lombalgia em Portugal tem vindo a aumentar, de forma exponencial, sendo os custos mais significativos.
As lesões musculoesqueléticas, sendo a dor lombar responsável por mais de metade, são a causa mais comum de incapacidade crónica em países industrializados (Taimela et al., 2004).
De acordo com a DGS (2004), a lombalgia é um sintoma, não é uma doença e a sua etiologia é multifatorial e parcialmente conhecida: o mesmo sintoma poderá resultar de fisiopatologias distintas.
A lombalgia representa uma entidade sensorial múltipla que envolve aspectos emocionais, culturais, ambientais, cognitivos, biológicos e psicossociais e pode ser definida como uma queixa, dor ou desconforto, localizando-se entre a vértebra torácica 12 (T12) e acima da prega glútea inferior, com ou sem dor irradiada para o membro inferior (Burton et al., 2004; Hoy, Brooks, Blyth, & Buchbinder, 2010; Krismer, & van Tulder, 2007; Radu, 2004). Frequentemente, a dor lombar irradia-se para a região das nádegas e face posterior das coxas. Quando a dor segue um trajecto similar, mas atinge o membro inferior até abaixo do joelho, através do nervo ciático, então designa-se de lombocitalgia (Radu, 2004).
Quanto à etiologia, pode ser classificada como “específica” (e.g., hérnias discais, espondilolistese), quando existe suspeita de causa patológica, ou “inespecífica” (Woolf, & Pfleger, 2003), sendo que somente uma minoria dos casos de dor lombar resulta de causas físicas (Ehrlich, 2003).
É um conjunto de manifestações dolorosas que afetam a região lombar, lombossacral ou a área sacroilíaca, estando entre os manifestos mais comuns no ser humano (Ocarino et al., 2009).
As causas de lombalgia podem ser agrupadas em processos nocicetivos, neuropáticos, psicológicos ou a combinação destes (Grabois, 2005), sendo que a sua etiologia específica é apenas conhecida em 5% a 10% dos casos (Krismer, & van Tulder, 2007). Caracteriza-se por três componentes: dor, incapacidade e absentismo (Björck-van Dijken, Fjellman- Wiklund, & Hildingsson, 2008), constituindo uma das principais causas de incapacidade nos adultos (Rudy, Weiner, Lieber, Slaboda, & Boston, 2007), sendo multifatorial – fatores físicos, psicológicos, sociais, culturais e laborais (WHO, s.d.). De acordo com a DGS (2004), a dor lombar e a incapacidade (limitação da atividade do indivíduo socialmente desejável) estão intimamente ligadas.
A dor lombar pode surgir a partir de um número de estruturas anatómicas, como os ossos, articulações, ligamentos, discos intervertebrais, estruturas neurais e vasos sanguíneos (Deyo, & Weinstein, 2001, citados em Hoy et al., 2010). A lombalgia específica pode ser
causada por fraturas osteoporóticas, neoplasmas ou infeção, sendo que em 85%-95% dos casos não se conhece a causa específica (Ehrlich, 2003).
A dor lombar é extremamente variável, podendo durar uns dias ou persistir por muitos anos (Hoy et al., 2010). Contudo, as pessoas que experienciam lombalgias durante um período de dias têm predisposição para vivenciarem episódios recorrentes (Hestbaek, Leboeuf-Yde, & Manniche, 2003).
Consoante o critério temporal, pode ser classificada como aguda, sub-aguda ou crónica, ou seja, quando a dor tem uma duração menor do que seis semanas, estamos perante a dor lombar aguda; quando dura entre seis a 12 semanas, a dor é sub-aguda. Quando a dor lombar perdura no tempo durante mais de 12 semanas, o diagnóstico quanto ao critério temporal é crónica (DGS, 2004; Woolf, & Pfleger, 2003). Outros autores (Airaksinen et al., 2006) referem que se existir presença de recorrências de dor lombar por um período de seis meses, a dor lombar crónica insere-se no diagnóstico. A dor crónica representa cerca de 7% das lombalgias, apesar de se estimar que seja responsável por mais de 75% dos custos despendidos com este sintoma (DGS, 2004). Como consequência do percurso natural da dor lombar, tem-se vindo a observar um aumento da dor lombar crónica (Wolter, Szabo, Becker, Mohadjer, & Knoeller, 2011).
Quando o indivíduo sente dor, tende a procurar um médico, por forma a ser consultado e iniciar um tratamento farmacológico ou utilizar outro tipo de abordagens (e.g., manipulação osteopática, fisioterapia, yoga, acupunctura, pilates). Na dor lombar aguda, independentemente do tipo de tratamento utilizado, a recuperação é rápida. Na dor lombar crónica, os fatores psicológicos apresentam um papel essencial na etiologia, manutenção ou no agravamento da lombalgia (Ehrlich, 2003).
A dor lombar, principalmente a crónica, não é consequência de doenças específicas, mas de um conjunto de causas (Silva et al., 2004). São vários os fatores predisponentes, precipitantes e/ou de manutenção da dor lombar, existindo a três níveis: individuais, psicossociais e ocupacionais (Martins, 2006).
Em relação aos fatores individuais, a ocorrência da lombalgia associa-se a fatores como a idade, o género, a escolaridade, o nível socioeconómico, o tabagismo, a vida sedentária e a actividade física, a obesidade, a gravidez (Martins, 2006; Queiroz, 2003; Silva et al., 2004), e altura superior a 180cm no homem e a 170cm na mulher, a malformações da coluna vertebral e a alterações da estática da coluna (Queiroz, 2003).
Quanto à ocupação, os fatores de predisponentes ao aparecimento e à manutenção das lombalgias são fatores psicológicos relacionados com stresse, com a insatisfação laboral, e/ou
com trabalho monótono e repetitivo; e fatores físicos associados a movimentos repetitivos, posição desadequada, suportar pesos, trabalho que implique força muscular, trabalho noturno, força dos músculos abdominais e das costas, entre outros (Coelho, Almeida, & Oliveira, 2005; Martins, 2006).
Os fatores de risco psicossociais estão intrinsecamente associados ao contexto, à vivência e à idiossincrasia, integrando vários aspectos do estilo de vida do indivíduo, assim como características do foro psicoemocional e da personalidade (Coelho et al., 2005). Em termos psicoemocionais, a dor lombar associa-se à presença de sintomatologia ansiosa e/ou depressiva, à instabilidade emocional e ao comportamento de dor, como o exacerbar. De igual forma, os fatores ocupacionais, como trabalho pesado (elevação, puxar, flectir, empurrar), assim como as variáveis psicológicas associadas à profissão ou ao trabalho (e.g., insatisfação laboral) poderão contribuir para o aparecimento, manutenção e/ou agravamento desta patologia (Ponte, 2005; Woolf, & Pfleger, 2003).
Existe uma associação entre a dor lombar e os fatores psicológicos, podendo estes ser fator de risco ou contribuir para a cronicidade da lombalgia (Ponte, 2005). De facto, fatores como a ansiedade, a depressão, sintomas de somatização, a insatisfação profissional, a auto- imagem negativa, entre outros, poderão ser etiologia da dor lombar, mas podem, igualmente, ser secundários à lombalgia (Andersson, 1999; Ponte, 2005). Segundo Gatchel, Peng, Peters, Fuchs e Turk (2007), os transtornos psicológicos pré-existentes à lombalgia são um dos mais fortes preditores da persistência da dor e subsequente incapacidade, sendo que a depressão, a somatização e os comportamentos mal-adaptativos da doença estão entre os mais importantes preditores.
Melzack e Wall (1987) referem que o autoconceito, ao ser uma componente da personalidade, poderá influir distintamente na forma como o indivíduo perceciona a dor, na medida em que a dor poderá promover efeitos sobre os fatores emocionais (depressão, ansiedade, significado atribuído à dor) e comportamentais. Os autores mencionam que a experiência de dor modifica, com frequência, o autoconceito do indivíduo, no sentido da autoestima e imagem corporal poderem ficar alteradas. Consequentemente, no tratamento da dor, incluindo lombalgia, devem ter-se em conta as consequências físicas e psicológicas. Os autores defendem que a dimensão psicológica parece ter influência, como fator predisponente, na manutenção ou na diminuição ou no agravamento dos episódios de dor. Por conseguinte, os estados emocionais, o significado que o indivíduo atribui à dor, assim como as atitudes e comportamentos face à dor, podem contribuir para a perceção que o sujeito tem da dor.
A lombalgia é reiteradamente um motivo de recurso a consultas médicas tradicionais (e.g., medicina geral, ortopedia, reumatologia, físiatria, sofrologia) bem como a terapias de reabilitação, complementares e alternativas (e.g., fisioterapia, osteopatia, acupunctura), tendo vindo a sua ocorrência a aumentar significativamente nos últimos anos, quer a nível nacional ou internacional (WHO, s.d.).
A elevada prevalência da lombalgia é conhecida em vários países, havendo mesmo estudos que demonstram uma tendência para aumentar (Palmer, Walsh, Bendall, Cooper, & Coggon, 2000).
De acordo com a DGS (2004), em Portugal, os estudos de prevalência de lombalgia são escassos. A DGS refere que pelo menos 30% da população menciona apresentar sintomas musculoesqueléticos e, destes, 20% encontra-se em situação de doença, 7% apresenta incapacidade e 0.5% apresenta invalidez.
No estudo realizado por Ponte (2005) sobre a prevalência da lombalgia em Portugal, em população adulta na região norte do país, a autora verificou 49% de dor lombar, enquanto Coelho, Almeida e Oliveira (2005), num estudo realizado na zona da grande Lisboa em adolescentes, verificaram uma prevalência de 39.4%.
No que respeita à sua relação com variáveis sociodemográficas, parece que a lombalgia afeta tanto homens como mulheres. Ponte (2005) verificou que nas mulheres a prevalência da dor lombar era de 54.2%, enquanto nos homens era de 44.2%, sendo que, em média, as faltas ao trabalho devido a esta patologia era de 2,5 dias.
Picavet (2010) refere que as taxas de prevalência da dor musculoesquelética são mais elevadas nas mulheres, comparativamente com os homens. A autora menciona que existem três teorias que explicam estes dados: 1) a Teoria do Papel de Género, que assume que o relato de dor por parte das mulheres, em comparação com os homens, é socialmente mais aceite; 2) a Teoria de “Exposição” defende que as mulheres, comparativamente com os homens, estão mais expostas a fatores de risco que poderão ser causa da dor musculoesquelética; e 3) a Teoria da “Vulnerabilidade” propõe que as mulheres são mais vulneráveis a desenvolver dor musculoesquelética. Quanto às duas primeiras teorias, parece não existirem resultados científicos suficientes para as corroborar; contudo, existem evidências científicas que parecem comprovar a Teoria da “Vulnerabilidade”, sendo que as diferenças hormonais em função do género parecem sustentá-la, ou seja, aparentemente as hormonas sexuais parecem desempenhar uma função que poderá explicar a maior prevalência de dor musculoesqueléticas nas mulheres.
A Teoria do Papel de Género está associada ao que é socialmente aprendido de acordo com o sexo biológico. Consequentemente, é ensinado às crianças que os meninos não devem
chorar - “um menino não chora”-, associando-se, possivelmente de forma errónea, o chorar à fraqueza emocional, ao descontrolo de emoções, sendo que isto poderá explicar a baixa prevalência de dor relatada pelos homens. Esta teoria defende que ambos os géneros experienciam e vivenciam a mesma quantidade e o mesmo tipo de dor, mas reagem à mesma de forma divergente (Fillingim, King, Ribeiro-Dasilva, Rahim-Williams, & Riley, 2009; Robinson, Gagnon, Riley, & Price, 2003; Wiesenfeld-Hallin, 2005).
Robinson e colaboradores (2003) realizaram um estudo com o objectivo de avaliarem os estereótipos dos papéis de género nas diferenças entre homens e mulheres na dor. Os autores registraram a avaliação, o limiar e a tolerância à dor, tendo verificado que as mulheres da amostra apresentam menos tolerância à dor, comparativamente com os homens.
A Teoria da “Exposição” defende que, no mercado de trabalho, os homens e as mulheres são distribuídos de forma diferente em profissões e tipos de trabalho, existindo, igualmente, diferenças de género nas atividades de lazer e domésticas e, por conseguinte, estas diferenças poderão ter repercussões na prevalência da dor (Messing, Dumais, Courville, Seifert, & Boucher, 1994, citados em Picavet, 2010).
A Teoria da “Vulnerabilidade” assume que homens e mulheres são anatómica e fisiologicamente diferentes, o que poderá promover maiores níveis de vulnerabilidade, sendo que as mulheres apresentam maior predisposição para desenvolver dor musculoesquelética, em comparação com os homens. Esta teoria refere-se às consequências específicas de cada género de fatores de risco comuns, ou de fatores de risco específicos a homens e mulheres e que afetam a experiência dolorosa e a perceção de dor (Picavet, 2010).
Esta teoria refere que, na mulher, a dor lombar parece estar associada aos fatores hormonais e reprodutivos, como a gravidez, a contraceção oral utilizada, entre outros (Fillingim, 2003; Wijnhoven, Vet, Smit, & Picavet, 2006). Wijnhoven e colaboradores (2006) aludem que a relaxina, hormona que atua no decorrer da gravidez, estimula a frouxidão da pélvis, podendo provocar dores lombares.
A Teoria da Vulnerabilidade defende, igualmente, a existência de diferenças psicológicas em função do género e que poderão contribuir para a vivência e perceção da dor (Picavet, 2010). Uma das premissas psicológicas associa-se às estratégias de coping, ou seja, as mulheres tendem a utilizar mais estratégias de coping emocionalmente focadas na sensação do aumento de dor, enquanto os homens utilizam estratégias mais orientadas para o problema (Tamres, Janicki, & Helgeson, 2002). Fillingim (2003) afirma que as mulheres, comparativamente com os homens, apresentam níveis mais elevados de sintomatologia
depressiva e ansiosa, que poderá estar associada com os sintomas físicos e o aumento da magnitude da dor.
Outros estudos (Grossi, Soares, & Lundberg, 2000) referem que as mulheres tendem a relatar um cenário clínico de dor mais negativo, quando comparadas com os homens, assim como intensidade mais severa e maior frequência de episódios dolorosos. Segundo Mullersdoff e Soderback (2000), as mulheres têm maior frequência de dor em várias zonas do corpo, referem mais sintomatologia afetiva associada à dor e apresentam mais incapacidades devido ao processo doloroso.
Em relação à idade, a lombalgia tende a ser mais frequente entre os 30 e os 40 anos de idade. Outros autores (Ponte, 2005) referem que a lombalgia apresenta valores percentuais de prevalência mais elevados na faixa etária dos 50 aos 65 anos de idade.
Em relação ao estado civil, Ponte (2005) verificou que a lombalgia é mais frequente nos viúvos e divorciados, comparativamente com os solteiros e casados. A autora verificou, igualmente, que a dor lombar foi caracterizada por 39.3% dos inquiridos como tendo uma duração de um dia a uma semana e intensidade de 4 a 7 na escala de dor em 67% dos casos.