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Intern analyse av Schibsted

4 Strategisk analyse

4.3 Intern analyse

4.3.4 Intern analyse av Schibsted

A divisão entre o erudito e o popular sempre foi muito aplicada na produção cultural nordestina de uma forma geral. Em relação às Artes Visuais, especificamente no Ceará, há, na xilogravura, maior incidência de inclusão na categoria popular, destacando-se a produção da região do Cariri, referente à ilustração nas capas dos cordéis e nos anúncios comerciais. As manifestações desvinculadas das funções ilustrativas dos gravadores carirenses, neste estudo, consideradas artísticas, também não escapam desta rotulação.

Os motivos para estas classificações advêm das referências aos valores acadêmicos, do culto ao belo, originários da filosofia grega, que considerava as perfeitas proporções das formas na escultura, no desenho, aproximando-se da mimese, como a arte perfeita, de maior valor. Conceitos perpetuados no Renascimento, mas que ainda são vigentes em parte do gosto da sociedade contemporânea. Estes valores podem ser considerados opostos às características estéticas das obras da maioria dos artistas cearenses, que até a década de 2000, em geral, não tinham formação em escolas de arte. Seus saberes foram sendo adquiridos na prática de oficinas, ateliês ou em cursos livres, cujos processos de ensino nem sempre estavam em consonância com as abordagens metodológicas de cursos formais em escolas, principalmente de belas artes. Consequentemente, tais artistas trabalhavam de forma muito mais intuitiva, sem a preocupação com a aplicação de regras acadêmicas como a perspectiva matemática, o volume e as proporções. Predominava o fazer sobre a

reflexão, sem se dar maior importância à produção de obras em consonância com as concepções filosóficas ou estéticas dos diferentes movimentos artísticos.

Até o início do século XXI, era comum encontrar nos currículos dos artistas cearenses a informação de que os mesmos eram autodidatas, e acentuar este fato parecia ser considerado como um dado relevante por parte de alguns; além desse item, que explicitava a falta de formação artística em escolas de arte, poucos são os aspectos em comum a artistas da região de Fortaleza e do Cariri, principalmente no que se refere à forma de aprendizagem da xilogravura. Em Fortaleza, predominava a aprendizagem em cursos livres, em instituições públicas, particulares ou ateliês de outros artistas. Na região do Cariri, raras eram as ofertas de cursos na área da xilogravura. Consideram-se os maiores centros de formação as pequenas gráficas e as tipografias, que absorviam a mão de obra dos gravadores, na ilustração das capas dos cordéis e dos anúncios comerciais. A forma de aprendizagem se dava na prática diária, por meio da observação dos aprendizes à maneira de trabalhar dos mestres, “a estrutura era medieval de ofícios [...]” (CARVALHO, 2001, p. 37).

Apesar de promover oportunidade de formação e absorver a mão de obra artística, havia um aspecto contraditório no relacionamento das gráficas com os artistas na região do Cariri; se, por um lado, existia mercado para os gravadores, daí a importância das encomendas, por outro, ocorria uma desvalorização da parte dos contratantes com relação aos baixos preços praticados na aquisição desta produção, interferindo incisivamente no desenvolvimento e na valorização profissional, “[...] a barreira econômica que sempre reduz o artista popular a uma condição de inferioridade com relação aos seus pares da norma culta” (FROTA, 2005, p. 24-25). Além disso, é visível a diferença de status alcançado pelos gravadores nas duas regiões, tratamento que interferiu e ainda interfere no reconhecimento e nos preços de suas obras. Em Fortaleza, eles sempre são considerados artistas; na região do Cariri, em diferentes situações, são tratados como artistas, em outras, como artesãos, tanto por uma acentuada parcela do público como por parte de instituições públicas e privadas.

Isso é um processo das organizações, por exemplo, a CEARTE,6 às

vezes nos convidam como artista, às vezes como artesão. O SEBRAE, predominantemente como artesão, eles trabalham mais com a categoria do artesanato. Às vezes, somos convidados por uma galeria em São Paulo, no Rio de Janeiro, aí levamos as gravuras. Por exemplo, agora eu vou ministrar uma oficina em Goiás, já é como artista, como artesão vou para Belo Horizonte [...]7

6 CEARTE (Central de Artesanato em Fortaleza), órgão ligado ao Governo do Estado do Ceará, que incentiva e comercializa a produção dos artesãos.

Outro aspecto que distingue a produção dos artistas da região de Fortaleza e do Cariri é que, apesar dos baixos valores praticados pelos donos das gráficas na aquisição das matrizes xilográficas, criou-se um mercado voltado para a ilustração das capas de cordel, dos rótulos e de pequenos anúncios comerciais. Este fato gerou uma das características da produção da região do Cariri, desde o início até a atualidade, já que a maior parte dela é fruto de encomendas. É o que se percebe no depoimento de Mestre Noza: “aqui a gente faz o que povo manda [...]”, extraído da entrevista publicada por Silvia Coimbra (1980, p. 229).

Outro aspecto que distingue a produção dos artistas da região do Cariri dos de Fortaleza é que, na primeira há, também, uma demanda ligada à religiosidade, em forma de álbuns e vias-sacras, e em xilogravuras apresentadas individualmente, características que, de certa forma, criam uma identidade na produção, pois, embora exista uma variação estilística na obra de cada gravador, há uma uniformidade nos temas que são repetidos desde os pioneiros até os iniciantes. Em Fortaleza, não se encontra um elemento que motive a homogeneização da produção xilográfica. Não é predominante a prática das encomendas, e, até a atualidade, não existe um mercado efetivo de arte. Consequentemente, os artistas trabalham com maior liberdade, pois não existe a preocupação com qualquer segmento, já que estão livres de qualquer vínculo que interfira ou limite o processo criativo artístico. Talvez este seja um dos motivos que tornem a produção xilográfica em Fortaleza tão diversificada.

Finalmente, outro fator importante é que o mercado gerado pelas encomendas proporcionou aos gravadores da região do Cariri a oportunidade da dedicação à profissão de gravador. É provável que a falta de uma demanda na aquisição de xilogravuras em Fortaleza tenha interferido no pequeno número de artistas que se dedicam exclusivamente a esta produção.

Eu acredito que exista um problema de dedicação exclusiva, que praticamente não tem em Fortaleza, com algumas exceções. Até onde eu sei, você, Sebastião, e o Nauer são gravadores. Eu quero dizer que, outras pessoas que são importantes na gravura de Fortaleza se dividem em outras atividades, por exemplo, o Roberto Galvão é uma pessoa que pinta, o Eloy pinta, tem outros tipos de interferência, mexe com outras mídias, com outras tecnologias, com outros suportes; para eles dois, a gravura é uma das formas de manifestação, bem diferente quando você só tem aquela forma de expressão e não vai ter que resolver problemas de outro foco.8

Observam-se características distintas entre as produções de xilogravura na região do Cariri e na de Fortaleza e “é nas diferenças que se encontra a identidade social” (BOURDIER apud BURKE, 2005, p. 78). Em consonância com o pensamento do autor citado, a partir do entendimento de que os diferentes contextos sociais, geográficos, econômicos, influenciam em diversos aspectos da sociedade, entre eles o artístico, é que se fundamentarão as análises das manifestações culturais das duas regiões acima destacadas.