Steg 4 – Drifts- kontra finansposter
8 Fundamental verdsettelse
Entre as tipografias que trabalhavam na impressão de cordel na região do Cariri no século XX, uma merece ser estudada com maior acuidade – a São Francisco –, que, no transcorrer da sua história, ganhou nova denominação, Lira Nordestina. É necessário apresentar sua trajetória para que se possa compreender a sua importância para o desenvolvimento da xilogravura, principalmente em Juazeiro do Norte, como também a de seu fundador e proprietário, José Bernardo, que aparece em uma fotografia com sua família na Figura 63 e na xilogravura de João Pedro (fig. 64) realizada em 2001.
Não é possível falar do percurso da Tipografia São Francisco sem citar o nome de José Bernardo da Silva, editor e proprietário. Iniciou-se no ramo da edição do cordel, realizando suas impressões em gráficas do Crato e de Juazeiro do Norte. Com o crescimento da demanda, resolveu montar sua própria gráfica, em 1930, cujo funcionamento tinha as suas peculiaridades:
A estrutura era de corporação medieval de ofícios: a tipografia como local de iniciação nas artes gráficas. Aprendizes varriam aparas de papel, distribuindo tipos e tomavam contato com as etapas do processo. Operários se aplicavam na composição, paginação, revisão, impressão e acabamento. A figura do mestre, como uma sombra enérgica e doce, dava ordens e aconselhava. E a tipografia escrevia a sua própria história (CARVALHO, 2001, p. 37).
A Tipografia São Francisco apresentava acentuadas diferenças com relação às suas concorrentes: a primeira, dedicada, exclusivamente, à impressão da literatura de cordel; na segunda, havia um clima de camaradagem, de amizade muito além do que ocorre, normalmente, entre patrão e empregado. Lá almoçavam, lanchavam, não havendo horário de expediente determinado. Muitas vezes o trabalho se estendia noite adentro. Na visão de Carvalho (2001), talvez por ser instalada na própria residência de José Bernardo, as relações trabalhistas se diferenciavam de outras empresas.
Fig. 63_José Bernardo e sua família, foto. p & b.
Fig. 64_João Pedro. José Bernardo da Silva e sua família, 2001, xilogravura.
Esse sistema de intimidade que se desenvolvia com os funcionários responsáveis pelo processo de fabricação dos folhetos também se estendia aos novos gravadores que iam surgindo a partir do contato com os mais experientes, que criavam as capas dos cordéis. De certa forma, a Tipografia São Francisco passou a ser um centro formador de artistas na região do Cariri, e alguns deles passaram a ter este aprendizado desde criança, entre eles: Stênio Diniz, neto de José Bernardo; José Lourenço, que trabalha na tipografia desde os oito anos de idade, juntando papel e varrendo a gráfica, levado pelo seu avô, que trabalhava na guilhotina aparando os cordéis. A formação se dava na prática, vendo os cordelistas e gravadores, como: Mestre Noza, José Caboclo, Abraão Batista e tantos poetas como: Patativa do Assaré, por exemplo.
Com a alta do cordel na região do Cariri, em 1949, José Bernardo realizou relevante aquisição dos acervos de clichês e dos direitos autorais para a publicação de folhetos de algumas tipografias dos principais estados produtores de cordel no Nordeste, entre eles, Paraíba e Pernambuco, parte das imagens deste acervo é mostrada nas fotografias do pôster exposto na Lira Nordestina em Juazeiro do Norte, nas figuras 65 e 66. A compra proporcionou a elevação da Tipografia São Francisco como a maior folhetaria do Nordeste brasileiro. A pequena gráfica artesanal tornava- se agora uma pequena indústria.
Fig. 65 e 66_ Detalhes do pôster com imagens das capas de cordel impressos com clichês pela Tipografia São Francisco, adquiridos nas tipografias da Paraíba e Pernambuco, Acervo da Lira
Mediante o novo patamar alcançado, a Tipografia São Francisco absorveu a mão de obra de, praticamente, todos os gravadores da região do Cariri. Raramente se encontrará um deles que não lhe tenha prestado serviços, no caso dos mais antigos; com relação aos mais jovens, a relação de trabalho se deu com a Lira Nordestina.
O aumento da produtividade do cordel na região do Cariri foi registrado por intermédio das estrofes do folheto que faz um resumo da biografia de José Bernardo da Silva, publicado em 2001 em Fortaleza, de autoria do poeta Expedito Sebastião da Silva, que foi gerente da Tipografia São Francisco e também da Lira Nordestina.
Os folhetos prosseguiram Numa grande aceitação Ele pra desenvolver Viu que tinha precisão De comprar o quanto antes Mais máquinas de impressão
Findou comprando 3 máquinas Do tipo que precisava
Cada na paginação 16 páginas pegava
Sendo que seis mil folhetos Por cada dia tirava
Até quinze operários Teve vez de trabalhar Em sua tipografia Todo dia sem faltar
Em verso com 5 máquinas Trabalhando sem parar
E a Tipografia São Francisco Se desenvolveu ligeiro Tornando-se conhecida Por este Brasil inteiro
Graças à benção que lhe deu O santo de Juazeiro.59
59 Estrofes do folheto de cordel sobre o resumo biográfico de José Bernardo da Silva, da autoria de Expedito Sebastião da Silva, publicado no álbum de xilogravuras Personagens do Juazeiro, de autoria de João Pedro.
O aumento da produção do cordel foi registrado também em imagens pelo artista João Pedro, em várias xilogravuras que compõem o álbum de xilogravuras – Personagens do Juazeiro –, publicado na cidade de Fortaleza em 2001. Abaixo, duas estampas que estão relacionadas com a compra das novas máquinas (fig. 67) e o aumento do volume de cordéis empilhados na estante (fig. 68).
Fig. 67_João Pedro. A aquisição de novas máquinas pela Tipografia São Francisco, 2011, xilogravura.
Fig. 68_João Pedro. A tipografia e a folheteria progridem, 2011, xilogravura.
O sucesso obtido pela Tipografia São Francisco não resistiu à crise que atingiu o mundo do cordel, na década de 1960, motivado, em parte, pela grande seca de 1958, no sertão nordestino, na chegada da televisão e no princípio da industrialização no Nordeste. Fatores que interferiram de forma direta no volume de vendas dos folhetos, fazendo-as diminuir significativamente.
Porém de uns tempos pra cá Devido à televisão
E outras diversões mais Dessa nova geração Os folhetos vêm sofrendo Uma grande oscilação
Por isso aquela oficina Antes tão movimentada Hoje em dia se encontra Por completo transformada Porém no seu ramo antigo Ainda está bem firmada.
Outro rude golpe na ascensão da Tipografia São Francisco foi a morte de José Bernardo em 1972. Não havia um substituto à altura do patriarca para dar continuidade aos negócios da família, “a empresa familiar dava sinais de decadência. A filha, Maria de Jesus, tentava injetar algum ânimo, mas não estava preparada para tocar a tipografia. Os tempos mudaram, as relações sociais se deterioravam e o mercado se retraía” (CARVALHO, 2001, p. 41). Diante de tantas dificuldades, não foi possível manter a tipografia em funcionamento, e em 1980 foi vendida ao Governo do Ceará, quando ganhou a nova denominação de Lira Nordestina. Mais uma vez recorre-se às estrofes do cordel de Expedito Sebastião da Silva para mostrar os fatos corridos.
A 23 de outubro De 72, morreu
José Bernardo da Silva Na cidade em que viveu Com aquele ar humilde Ante Deus compareceu.
José Bernardo morreu Morrendo deixou ficar Uma lacuna na nossa Poesia popular
Ficou o mundo poético Numa tristeza sem par
A morte de Zé Bernardo O norte inteiro reclama Porque suas poesias Todo sertanejo ama Aqui coloco o adágio: Morre homem e fica a fama
Afinal José Bernardo Conduzido pelo bem Vitorioso e humilde Elevou-se ao além Foi viver junto de Deus Para todo sempre. Amém.60
Igualmente ao desenvolvimento da Tipografia São Francisco apresentada em versos anteriormente, a morte de José Bernardo também foi registrada em imagens na xilogravura de João Pedro (fig. 69). Constata-se que é possível apresentar a trajetória do cordel e da xilogravura na região do Cariri somente por intermédio da xilogravura e dos folhetos de cordel.
60 Estrofes do folheto de cordel sobre o resumo biográfico de José Bernardo da Silva, de autoria de Expedito Sebastião da Silva, publicado no álbum de xilogravuras, Personagens de Juazeiro, de autoria de João Pedro.
Fig. 69_João Pedro. Morre o homem fica a fama, Álbum de xilogravura Personagens de Juazeiro,
2011, xilogravura.
Apesar de a Tipografia São Francisco ter sofrido profundas modificações durante a sua trajetória, trocando, inclusive, de nome para Lira Nordestina, ela continua ainda sendo o principal reduto da produção e de difusão dos artistas e da xilogravura na região do Cariri. Hoje, em suas dependências, pouco se tem imprimido cordéis, pois o foco de suas atividades está voltado para a produção artística, fato comprovado, em parte, pela quantidade de matrizes, gravuras em folhas soltas e álbuns, que se vê na sala de exposição de produtos (fig. 70) e no movimento de artistas em atividades gravando e imprimindo (fig. 71) e, também, para o ensino; com certa frequência são ministrados cursos de iniciação à xilogravura, principalmente para alunos da rede pública. A metodologia empregada nas aulas reflete o processo de aprendizagem que tiveram os artistas-professores, ressaltando-se os aspectos da prática sobre a teoria.
Talvez a maior diferença existente entre as atividades que eram desenvolvidas na Tipografia São Francisco, com relação às exercidas na Lira Nordestina, seja o fato de que na atualidade prevalece a produção xilográfica nos diferentes segmentos, incluindo-se o de ilustração comercial.