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Segundo Vigotski (1989), o aprendizado da linguagem escrita se dá muito antes do ingresso da criança à instituição escolar. As crianças já sabem o idioma pátrio falado (no nosso caso, o português) e utilizam suas regras culturalmente, embora não sejam conscientes de seu mecanismo na escrita.

Quando uma criança é matriculada em uma escola, uma das primeiras expectativas geradas nos pais e professores é que ela aprenda a ler e escrever. A alfabetização e letramento são uma das tarefas principais da escola junto a essa criança que inicia seus estudos escolares. Porém, o que muitos não sabem é que dominar os instrumentos da alfabetização exige muitas habilidades e capacidades referentes à linguagem, que antes não eram necessárias para o desenvolvimento da criança, ou pelo menos não tinham o objetivo e caráter de escolarização. Partimos do pressuposto de que o sujeito é social e singular (VIGOTSKI, 1989; 1931/1995; 1934/1993) e, portanto, a aprendizagem da escrita, objeto de nossa pesquisa, torna-se diferenciada para cada pessoa, embora ela aconteça coletiva e socialmente. Essas capacidades e habilidades são diferenciadas para cada ser, não havendo uma uniformidade em relação ao tempo exato em que se aprende a ler e escrever. Existem, entretanto, os tempos escolares construídos historicamente, em que há uma expectativa de que essa aprendizagem ocorra em determinado período de tempo e em etapa do desenvolvimento da criança.

Para compreender a trajetória de Samuel quanto ao aprendizado da escrita no 1º ciclo do Ensino Fundamental, é importante esclarecer o que entendemos por desenvolvimento e aprendizagem. O primeiro se caracteriza como sendo um processo mediado social e culturalmente, que ocorre tanto individual quanto coletivamente, com possíveis componentes de caráter universal. Esses componentes possuem elementos que são unidos à especificidade cultural dos diferentes grupos e contextos em que o desenvolvimento ocorre (COLL, 1999, p. 58). É importante ressaltar que o desenvolvimento ocorre sob uma perspectiva interna, individual, e também sob uma perspectiva externa, social. Ou seja, as interações sociais que o ser estabelece são fundamentais para seu desenvolvimento. Já o termo aprendizagem é tido como um processo mediado, individual e coletivo, que faz despertar processos internos de desenvolvimento (VIGOSTKI, 1989; 1931/1995).

A Psicologia Histórico-Cultural pressupõe que o psiquismo humano encontra na mediação semiótica um elemento fundamental para seu desenvolvimento. Segundo Pino (2000):

Num sentido amplo, mediação é toda intervenção de um terceiro “elemento” que possibilita a interação entre os “termos” de uma relação. Neste trabalho, o termo mediação é utilizado para designar a função que os sistemas gerais de sinais desempenham na relação entre os indivíduos e destes com seu meio (PINO, 2000, p. 663).

Quem poderia então fazer o papel de mediador semiótico nas relações estabelecidas em sala de aula? O mediador é a linguagem, que pode ser a do professor, ou também estar presente nas oportunidades criadas por ele nas atividades propostas, bem como a linguagem dos colegas, ou qualquer outro membro ou objeto que venha a fazer parte do contexto dessa sala de aula. Todos podem fazer despertar processos internos de desenvolvimento para a aquisição da escrita (VIGOSTSKI, 1989; 1931/1995). Sendo assim, para se analisar o que conta como escrita na sala de aula, há que se eleger a linguagem em uso, como o meio e o espaço para se compreender como a posição dos alunos como escritores se dá frente às oportunidades de aprendizagem construídas pela professora e pelos próprios alunos.

Para entendermos como funcionam esses processos internos de desenvolvimento, recorremos à explicação dada por Vigotski (1989 apud GOMES; MONTEIRO, 2005) para o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal, que doravante nomearemos como Zona de Desenvolvimento Iminente. Segundo Prestes15 (2010), esta pode ser entendida como a distância entre o que o aluno pode aprender sozinho e o que ele necessita de ajuda do professor ou de outros colegas para avançar no seu desenvolvimento. Portanto,

[...] esta zona de desenvolvimento pressupõe compartilhamento de saberes e ações para que os alunos aprendam e se desenvolvam como sujeitos sociais. Mais do que um suporte, a Zona de Desenvolvimento Iminente é uma possibilidade de construção compartilhada de conhecimento (GOMES, 2005, p. 16).

Prestes afirma que:

A zona blijaichego razvitia é a distância entre o nível do desenvolvimento atual da criança, que é definido com ajuda de questões que a criança resolve sozinha, o nível do desenvolvimento possível da criança, que é definido com a ajuda de problemas que a criança resolve sob a orientação dos adultos e em colaboração com companheiros mais inteligentes.

[...] A zona blijaichego razvitia define as funções ainda não amadurecidas, mas que se encontram em processo de amadurecimento, as funções que amadurecerão amanhã, que estão hoje em estado embrionário (PRESTES, 2010, p. 379).

15 Zoia Ribeiro Prestes (2010), ao fazer uma releitura das obras de Vigotski em sua tese de doutorado, discute

sobre as traduções da obra do autor no Brasil e suas implicações para o meio educacional e defende o uso da palavra iminente no lugar de proximal para melhor indicar esse processo.

Segundo a autora, a característica essencial da Zona de Desenvolvimento Iminente é a das possibilidades de desenvolvimento, mais do que do imediatismo e da obrigatoriedade de ocorrência, pois se a criança não tiver a possibilidade de contar com a colaboração de outra pessoa em determinados períodos de sua vida, poderá não amadurecer certas funções intelectuais e, mesmo tendo essa pessoa, isso não garante, por si só, o seu amadurecimento.

São nas interações entre professor-aluno, aluno-aluno e aluno-objeto que serão possíveis o compartilhamento de saberes e os processos de desenvolvimento e aprendizagem dos sujeitos. Dessa forma, é imprescindível a mediação de outros participantes, mais experientes ou não, para fazer despertar processos internos de desenvolvimento para a construção de oportunidades de aprendizagens da escrita na sala de aula.

Segundo Moll (1996), a partir de uma perspectiva vigotskiana, o papel principal do processo de escolarização é a construção de um contexto social que oferece a oportunidade do domínio e o manejo consciente dos usos dos instrumentos culturais, ou seja, que possibilita a formação das funções psicológicas superiores nos sujeitos nessa interação.

Sendo assim, o conceito de Zona de Desenvolvimento Iminente nos leva a considerar que o bom ensino é aquele que se antecipa ao desenvolvimento, o que propicia aos estudantes se guiarem para o que ainda não são capazes de fazer, promovendo avanços e impulsionando ao que é desafiador. Dessa forma, os processos mentais em fase de maturação servirão de base para novas aprendizagens, novos saberes.

O professor, de fato, possui a maior tarefa e objetivo de ensinar os alunos, mas os outros, os colegas, também podem participar nesse processo e se fazerem de professor numa sala de aula. As relações interativas estabelecidas nesse contexto são dinâmicas, vivas e também contraditórias. Mesmo com papéis bem definidos, professores e alunos não estão restritos e condicionados a eles, pois nessas relações estão sendo compartilhadas histórias de vida, culturas e vivências. Por esse ponto de vista, acreditamos que na sala de aula as perspectivas de desenvolvimento são inúmeras e diversas para todos os sujeitos que dela fazem parte. Nessa perspectiva, os processos psicológicos não são dados e, sim, construídos na rede de interação humana e por ela.

Para compreendermos melhor o papel de mediador semiótico, acima mencionado, passamos para o próximo tópico, em que discorreremos sobre o papel da escrita, objeto de nosso estudo.