Chapter 5. Break in a relationship: Implications for routines
5.3 Interaction and routines in the relationship
Fundamentada pela primeira vez pelo psicólogo Serge Moscovici em 196115, a Teoria das Representações Sociais (TRS) representa uma modalidade de conhecimento particular que tem por função a elaboração de comportamentos e a comunicação entre indivíduos; ou seja, busca a explicação de fenômenos do homem a partir de uma perspectiva coletiva, entretanto, sem desconsiderar a individualidade (MOSCOVICI, 1978).
Com origem histórica na Sociologia e na Antropologia clássicas, propostas por Émile Durkheim e Lucien Lévy-Bruhl, traz também elementos da Teoria da Linguagem de Ferdinand de Saussure, da Teoria das Representações Infantis de Jean Piaget e da Teoria do Desenvolvimento Cultural de Liev Vygotsky (MOSCOVICI, 2003).
A TRS tem papel fundamental na busca da compreensão do pensamento social16, tendo em vista que as representações sociais são criadas sobre o mundo que nos cerca e influenciam nas ações executadas cotidianamente sobre ele. Assim, as representações sociais incorporam o entendimento de como ocorre a origem e a disseminação do pensamento social a partir da comunicação social, sendo que o primeiro influencia a realidade e o modo de vida das pessoas (ABRIC, 1994)
Segundo Moscovici (1978) as representações sociais são compostas por três dimensões, que permitem compreender seu conteúdo e seu sentido:
a) Informacional: representa o conhecimento que um grupo possui sobre um determinado objeto e constitui um conhecimento consistente sobre ele; b) Campo representacional: versa sobre a imagem que o objeto adquire frente
a um grupo;
15Publicação de 1961, revisada em 1976, intitulada “A Psicanálise, sua imagem e seu público” (no original
Psychanalyse, son image et son publique).
16 Pensamento social consiste na reflexão sobre a realidade social, que necessita ser compreendida para ser transformada (LARA, 2009).
c) Dimensão atitude: diz respeito à valorização apreciativa e à orientação para a ação quanto ao objeto.
No contexto da moradia, a literatura aponta alguns trabalhos que se utilizam da TRS, especialmente, envolvendo grupos sociais vulneráveis ou em áreas de risco, além de EHIS. Essas pesquisas têm sido cada vez mais realizadas por não psicólogos, profissionais advindos de outras áreas de atuação – como geógrafos, arquitetos e urbanistas – que encontram na TRS a fundamentação teórica para as pesquisas nos seus respectivos campos.
Enquadram-se nesse contexto trabalhos como o de Peluso (2003), que uniu os temas Geografia e Psicologia Ambiental sob a ótica das representações sociais, em busca de compreender o remanejamento de diversas famílias para um novo assentamento habitacional em 1989, na cidade satélite de Samambaia, no Distrito Federal. Para a autora, a relevância da adoção da TRS nos estudos das RACs repousa no fato de que as relações sociais do ambiente estão fortemente ligadas à construção identitária, base das relações pessoa x ambiente.
Também foi possível encontrar na literatura trabalhos que exploram a abordagem estrutural da TRS, proposta pela primeira vez por Jean-Claude Abric, em 1976. Esta sugere que a representação está estruturada por um sistema central e outro periférico (ABRIC, 2003). O sistema central associa-se ao histórico do grupo social e assegura a estabilidade e a coerência da representação, de forma que sua mudança altera a própria representação. Desta forma, esse sistema possui uma função geradora, quando cria ou transforma o significado de uma representação e outra função organizadora, uma vez que une os elementos da representação (ABRIC, 2003). Já o sistema periférico está ligado ao cotidiano dos indivíduos e possui três funções: concretização, regulação e defesa. A função de concretização se dá uma vez que é através do sistema periférico que a representação é formulada, compreendida e transmitida. A função de regulação advém da capacidade de adaptação às modificações de contexto do grupo. Por sua vez, a função de defesa transforma novas interpretações ou integrações de elementos contraditórios, visando à estabilidade da representação (FLAMENT, 1994).
É sob essa abordagem estrutural que se apoiam trabalhos como o de Santos (2007), que realizou pesquisas em conjuntos habitacionais do Rio de Janeiro, em busca de compreender as relações entre os moradores e suas habitações, captando as relações subjetivas desenvolvidas nos espaços de moradia através da TRS. O autor conclui que a representação da moradia é um importante dado a ser levado em consideração na fase de projeto de EHIS.
Da mesma forma, Beck; Barroso-Krause e Sá (2007) exploraram a abordagem estrutural da TRS para realizar um estudo sobre a representação social da moradia pelos
usuários do conjunto residencial Mirante de Taquara, em Jacarepaguá, zona oeste do Rio de Janeiro. Os autores concluem que a arquitetura não deve se restringir apenas ao papel de projetação das habitações, mas ao da contribuição para as necessidades humanas, que se associam de forma inerente à moradia.
Outras pesquisas se concentraram em trabalhar apenas com o núcleo central das representações sociais. Nesse grupo está o trabalho de Silva; Tura e Santos (2005), que objetivaram a identificação da representação social da moradia, tomando como modelo o conjunto habitacional Prefeito Mendes de Morais, no Rio de Janeiro. A pesquisa demonstrou como as representações sociais sobre a moradia futura influenciavam na conduta e nas práticas de seus habitantes após a ocupação dos imóveis.
Por fim, vale salientar que, apesar de ser essa a abordagem mais comumente encontrada na literatura, a relação da TRS com o produto habitacional não deve se limitar apenas às definições das representações sociais da moradia. Outras aplicações devem ser estimuladas, de modo a incorporar essa teoria, ainda pouco explorada em estudos relacionados à habitação, em resultados de APO de empreendimentos habitacionais.