2 Methodology
3.5 Integrated Models of the Social Cost of Carbon
As diferenças entre o livro e o episódio que entrou pelos lares pelas antenas de televisão se tornam mais preocupantes em razão da seguinte realidade:
O telespectador brasileiro é um dos maiores consumidores de televisão do mundo. Ele gastou diariamente em 2004 quatro horas, 53 minutos e 22 segundos assistindo a televisão aberta. Esse número vem aumentando a cada ano. Em 2003, o consumo médio individual de tv ficou em quatro horas, 47 minutos e 29 segundos. Há quatro anos a média era bem menor: quatro horas, 37 minutos e 15 segundos. (PEREIRA JUNIOR, 2005)
Além das horas em frente à TV, o Brasil também é campeão em número de televisores12. Por outro lado, o número de leitores no Brasil é dramaticamente inferior ao de telespectadores, já que a estarrecedora percentagem de“61% dos brasileiros adultos alfabetizados têm muito pouco ou nenhum contato com os livros13”.Pode-se concluir,
portanto, que a versão do Caso da Fera da Penha veiculou para a grande massa hoje telespectadora “a verdade” teledramaturgicamente apresentada sobre o crime.
Longe de querer atingir uma verdade indiscutível, impassível de questionamentos, busco analisar a diferença do que foi escrito no livro e mostrado pela televisão no LDJ. Ambas as versões apresentadas no quadro anterior transformam Neide em Fera da Penha, embora com significativas mudanças de roteiro. A versão do LDJ indubitavelmente é a que ficou como “verdade” para os brasileiros. A Neide apresentada pela TV é uma mulher
12 Em nosso país 162,9 milhões de pessoas vivem em domicílios com televisão colorida, esse valor perfaz 32,3%
a mais do que os 123,2 milhões que estão em domicílio com rede coletora de esgoto ou fossa séptica. Ver site do PNUD nas referências bibliográficas.
13Informação contida no jornal virtual Brasil Agora da Radiobrás, edição de 02/06/2004, baseado em pesquisa da Câmara
estereotipada, uma caricatura, por outro lado, a Neide do livro é um personagem humano. Contudo, o acesso à sua versão humanizada ficou restrito aos leitores.
Como foi dito, a Neide apresentada na trama televisiva sequer teve infância ou adolescência. Não houve no roteiro do LDJ páginas elucidativas para essas etapas de sua vida. Tal como nos episódios semanais do Linha Direta (LD), o passado do criminoso ou “foragido é sempre uma incógnita. Os únicos acontecimentos anteriores de sua vida a serem mostrados são os antecedentes criminais que contribuem para construir o terreno do crime”.(MENDONÇA, 2002, p.86). Ela, como foi espoliada do seu passado, já se apresenta nas primeiras cenas do programa e, bem pouco antes de conhecer Antônio, como uma mulher sem sorriso, de paixões inflamadas, leitora voraz, filha desobediente, namorada audaciosa.
Por outro lado, no CAB, Neide é apresentada com um passado de bons e maus momentos, dentro de uma família em que vivia o bem estar e a mal-querença, mas que tinha papel de destaque em sua vida.
Ao contrário do que foi mostrado no LDJ, onde o pai se apresenta como repressor ou como elemento passivo diante da policia e onde sequer sua mãe aparece, no livro há uma preocupação deste de preservá-la dos ataques de populares, há uma conduta responsiva por parte dele frente às ameaças à filha. Apesar de ter sido um mesmo repórter que investigou sobre o passado de Neide para ambas as produções, quem leu o CAB conseguiu enxergá-la em detalhes desconsiderados pelo programa televisivo. O telespectador do LDJ, por outro lado, foi privado de acesso às facetas de Neide em seu cotidiano familiar e de trabalhadora.
No CAB, vemos Neide tendo acesso a diferentes discursos, constantes nos livros policiais, nas colunas de Nelson Rodrigues, na moral suburbana, no gosto pelo ciclismo, nos namoros conflituosos dos quais ela sabia se defender. É um sujeito vive a incoerência, que tem humanidade. É uma Neide que se construiu a partir de uma infância, que não nasceu adulta, tampouco vilã. Neide no LDJ, é monolítica, sem matizes, sem nuanças. É uma amante desequilibrada, uma assassina cruel, uma sentenciada louca. Não que o livro não tenha sido estigmatizador, mas pelo menos, em alguma medida, ele deu voz à ela por meio das citações do seu diário. A afirmação de que Neide lia e que logo após traçava conjecturas filosóficas, e a descrição de seu corpo não depilado já são tentativas dispostas no CAB de colocá-la à margem de um projeto de mulher conveniente para o projeto patriarcal da época. O leitor comum é instado a percebê-la como desviante da norma, em ínfimos detalhes, como o de dizer que fazia da leitura um hábito por vingança contra seu cotidiano monótono. Em ambas
as produções, Neide é desenhada como anormal. É como se o preâmbulo dos escritos fosse profético, anunciando que de Neide não se podia esperar um desfecho de “sucesso” dentro do estabelecido pela ordem. O Linha Direta Justiça construiu o enredo de forma a dar ao telespectador indícios inquestionáveis de que aquela escrita jornalística do passado e a pesquisa sobre o caso feita no presente eram, as duas, transparentes. O roteiro do LDJ eivado de sensacionalismo e as imagens veiculadas não deixavam muitas alternativas ao espectador quanto ao futuro dela, Neide era apenas uma mulher desequilibrada e vingativa a ponto de se tornar assassina.
O equívoco da transparência da linguagem e o esquecimento de que a verdade é sempre produzida vão estar sempre presentes lado a lado, na constituição do discurso jornalístico. O lugar de explicador dos fatos, pretendido pelo jornalismo, só poderá ser ocupado (como é) na medida em que o leitor aceite como verdade a informação que está recebendo. (MENDONÇA, 2002, p.28, grifos do autor)
O fato de Neide ter procedimentos e aspecto corporal (como consta no CAB) dissonantes do que se considerava próprios para uma “moça de família” a colocaria em uma situação à margem da ordem antes mesmo do crime. No relato oferecido ao público televisivo, poderia-se dizer que ela era propensa ao crime, e o crime veio simplesmente a confirmar essa suposta predisposição natural.