Como um teólogo sistemático, a pneumatologia não poderia estar ausente da reflexão teológica de Moltmann. Ele se dedica ao tema na obra O Espírito da vida (1999b), escrito originalmente em 1991. Um texto que marcou o estudo da
pneumatologia e influenciou teológ@s a refletir com criatividade a doutrina do Espírito
Santo. A fim de ampliar o seu público-leitor, Moltmann publica A fonte da vida (2002a), escrito em 1997. Uma obra com linguagem acessível e pastoral procurando colocar a temática pneumatológica em conexão com a vida e sua dinâmica. Além dessas duas obras, Moltmann trata do Espírito Santo a partir da eclesiologia no livro A igreja
no poder do Espírito (2013). Uma eclesiologia impulsionada pelo Espírito Santo na
história com a marca do reino de Deus e a messianidade de Jesus. Aqui iremos olhar a
pneumatologia moltmanniana com lentes eclesiológicas. O intento é apontar os
elementos que ligam o Espírito Santo à igreja e como isso é mediado na teologia de Moltmann.
Seguindo Richard Bauckham (1995, p. 22), a pneumatologia de Moltmann é entendida principalmente como a fonte da vida, ou seja, o Espírito da vida é a experiência no Deus da vida com sua vitalidade e dinamicidade. Além disso, Moltmann procura abrir um diálogo com a tradição ortodoxa, por entender que essa ramificação do cristianismo contribuiu de maneira relevante para o debate pneumatológico. Uma vez que a teologia ocidental “reservou à pneumatologia um lugar periférico no seu fazer teológico, pois se esqueceu da teologia do Espírito Santo” (COSTA JÚNIOR, 2011, p. 89). Como pesquisador da pneumatologia moltmanniana, Costa Júnior (2011, p. 94) faz a seguinte observação: “a pneumatologia moltmanniana se mostra atual e se apresenta como superação aos métodos que circunscrevem a ação do Espírito aos limitantes espaços eclesiásticos”. Com uma abertura ecumênica, a pneumatologia de Moltmann procura estabelecer um profícuo diálogo com diferentes tradições como a da igreja
oriental e o pentecostalismo, com isso a sua pneumatologia ganha contornos que
superam o exclusivismo do Espírito Santo ao âmbito eclesiástico, como um adendo apenas para a salvação. O Espírito Santo é elemento imprescindível no sistema teológico moltmanniano por favorecer a dimensão do movimento, da abertura, da
presença de Deus. A partir dessa perspectiva, a cristologia é pensada a partir do
Espírito Santo, a criação tem a atuação do Espírito Santo de maneira intensa, e a
eclesiologia é impulsionada pelo Espírito Santo, ou seja, “a igreja de Cristo vive na
A eclesiologia pensada por Moltmann não poderia deixar de ter o Espírito Santo como elemento fundamental. Battista Mondin, quando trata das diferentes eclesiologias, classifica a eclesiologia moltmanniana como sendo pneumática, ou seja, “somente a perspectiva pneumatológica é capaz de tornar inteligível o mistério mais profundo da igreja: o paradoxo pelo qual a igreja, por um lado, participa das ambiguidades com a vida em geral e a vida religiosa em particular” (MONDIN, 1984, p. 237). Essa relação fronteiriça que Mondin apresenta no pensamento eclesiológico de Moltmann – igreja como comunidade de pessoas que se comprometeram com Cristo e tem diante de si o mundo (sociedade) – é compreensível quando a igreja é concebida “como uma comunidade de libertos pelo Espírito, que participa do reino libertador de Cristo e celebra a vida no interior de um contexto de morte” (COSTA JÚNIOR, 2011, p. 100).
Assim como a eclesiologia de Moltmann tem dimensões abertas – essa é a perspectiva que a pesquisa está perseguindo –, essa abertura tem como fator preponderante a ação do Espírito Santo. Ele é o elemento constituinte da ação da igreja, uma vez que “a missão do Espírito é trazer vida ao mundo, a da igreja, portanto, é assumir este mesmo desafio e trabalhar para tornar manifesto o reino de Deus” (RIBEIRO, 2010, p. 140). Como salienta Claudio de Oliveira Ribeiro, “o propósito eclesial, para Moltmann, não é expandir uma ‘civilização cristã’ sobre a face da terra, mas promover, na realidade desordenada e caótica do mundo, um espaço onde a graça de Deus se manifeste trazendo vida e restauração” (RIBEIRO, 2010, p. 140). Assim, a
eclesiologia impulsionada pelo Espírito Santo tem uma abertura que supera as
fronteiras denominacionais e, até mesmo, as fronteiras confessionais, porque para Moltmann “a experiência de comunhão com o Espírito é ampliada para uma comunhão com toda a criação” (COSTA JÚNIOR, 2011, p. 117). Nesse sentido, o Espírito Santo não fica limitado na esfera eclesiástica apenas, ele age no mundo, na história, na criação. A pneumatologia de Moltmann procurou superar a ideia de que via o Espírito Santo com uma função instrumental no indivíduo ou na igreja, onde o interesse estava atrelado apenas ao como, onde e quando ele age (COSTA JÚNIOR, 2011, p. 123).
A pneumatologia de Moltmann, quando lida pela perspectiva eclesiológica, procura superar a lógica de que o Espírito está a serviço da igreja apenas como um elemento exclusivo dela. A atuação do Espírito Santo está para algo mais, porque “a missão do Espírito Santo é a missão da nova vida, e isso significa mais” (MOLTMANN, 2002a, p. 28). O Espírito Santo não pode ser classificado “unicamente
como Espírito da salvação, cujo lugar é representado pela igreja e que dá aos homens [e mulheres] a certeza da bem-aventurança eterna de suas almas” (MOLTMANN, 1999b, p. 19). Essa tendência, segundo Moltmann, faz com que o ser humano se afaste do mundo alimentando a expectativa por um mundo melhor no além, ou seja, é uma tendência limitadora tanto da ação do Espírito quanto da igreja, porque alimenta uma concepção individualista do Espírito Santo. Por outro lado, “a experiência da comunhão do Espírito necessariamente leva a cristandade a ultrapassar-se para a comunhão maior com todas as criaturas de Deus” (MOLTMANN, 1999b, p. 21). Isso vai além de leituras que pretendem colocar o Espírito Santo como dependente do sistema eclesiástico, antes, para Moltmann, o Espírito Santo está para a vida, como promotor da nova criação; ele está para a história e a move para a transformação escatológica do mundo; ele está na igreja, cuja força impulsiona a comunidade de libertos a agir no mundo (COSTA JÚNIOR, 2011, p. 123).
Na obra A igreja no poder do Espírito (2013) a eclesiologia de Moltmann ganha contorno pneumatológico. É aqui que o autor trabalha a relação do Espírito Santo com a igreja de maneira peculiar.
A igreja para Moltmann é a igreja dos ressuscitados em Jesus, vivendo sob o Espírito do ressuscitado e tendo como uma das marcas da sua vida, a celebração (NAM KIM, 2005, p. 243). É o Espírito que guia a igreja; é o Espírito que proporciona a unidade da igreja; é o Espírito que alimenta a dinâmica dos dons espirituais na comunidade; é o Espírito que, juntamente com a igreja, favorece a construção da história, pois é na história do Espírito, que relaciona com a história de Cristo e que é a história da nova criação, que ganha o seu sentido (MOLTMANN, 2013, p. 52). Nas palavras de Moltmann,
a igreja como comunidade dos pecadores justificados, das pessoas libertadas por Cristo que experimentam salvação e vivem em gratidão, está no caminho do cumprimento do sentido da história de Cristo. Inteiramente voltada para Cristo, ela vive no Espírito Santo e é nisto, ela mesma, início e sinal do futuro da nova criação. Ela anuncia somente em Cristo, mas o fato de anuncia-lo já é a vinda do futuro de Deus na palavra. Ela crê somente em Cristo, mas o fato de crer já é sinal de esperança (MOLTMANN, 2013, p. 59).
Somente uma igreja, impulsionada pelo Espírito, tem condições de encanar na história a práxis do reino de Deus. Assim, “a igreja terá que se compreender em sua tensão presente entre fé e experiência, esperança e realidade, nessa história do Espírito que cria coisas novas” (MOLTMANN, 2013, p. 61-62). Essa tensão dialética levantada por Moltmann que contempla duas polaridades, antecipação e contradição, que a igreja, a partir da experiência e prática do Espírito, já vive a antecipação escatológica, ou seja, “as experiências e o poder do Espírito transmitem ao tempo presente a história de Cristo e o futuro da nova criação. O que se chama de igreja é essa transmissão. Como igreja de Cristo, ela é a igreja do Espírito Santo. Como comunhão dos crentes, ela é a esperança criativa do mundo” (MOLTMANN, 2013, p. 62). O elemento que proporciona essa dinâmica é o Espírito da vida. A igreja é messiânica, mas o seu messianismo está atrelado ao Espírito que atualiza a atuação da igreja na história. Para essa atuação, ela (a
igreja) precisa ler os “sinais dos tempos” (MOLTMANN, 2013, p. 64). Sendo ela a
igreja de Cristo ela vive no agora a missão e a presença messiânica dele, o Cristo (MOLTMANN, 2013, p. 77).
A pneumatologia de Moltmann, como mencionado acima, não está reduzida apenas ao aspecto subjetivo do ser humano em relação a sua salvação, antes, o Espírito está dado à igreja agindo nela e por meio dela no mundo e quando a igreja “entende, na fé em Cristo e na esperança pelo reino, como comunidade messiânica, ela entenderá corretamente seu presente e seu caminho no presente e no processo do Espírito Santo” (MOLTMANN, 2013, p. 259).