KAPITTEL 3 – Metode
3.3 Instrument
➨ Sobre o conceito de Geltung na Lógica de Lotze
De todos os conceitos trabalhados na sua Lógica de 1874, aquele que se tornou o conceito-chave e o mais fundamental para dar uma maior consistência ao projeto lotzeano, o de, como vimos no capítulo anterior, oferecer uma nova lógica que se afaste das conseqüências nocivas tanto de um psicologismo lógico quanto de um idealismo hegeliano, é o conceito de Geltung, de validade. É a partir deste conceito, introduzido no segundo capítulo do terceiro livro da Lógica, intitulado Die Ideenwelt (O mundo das Ideias), e ao qual iremos dedicar nosso próximo estudo, que lhe é permitido caracterizar da melhor maneira possível, segundo as intenções de Lotze, qual seria o domínio da lógica e de suas investigações, e quais seriam suas fronteiras que a separariam tanto da psicologia quanto de um empirismo, e de uma metafísica.
A palavra está longe de ter sido cunhada por Lotze, e já se encontrava há muito no léxico da língua alemã. O substantivo concreto de ação, Geltung, muito menos comum, provém do verbo gelten, valer, que é, como no português, uma palavra de uso corriqueiro. O contexto mais frequente no qual esse verbo aparece é quando se fala de regras ou de leis em geral, sejam elas exempli gratia políticas, econômicas, científicas (ou de qualquer disciplina em geral), ou mesmo de um simples jogo. Assim, falamos que a lei contra o aborto vale também para estrangeiros (“gilt auch für Ausländer”), que a soma dos ângulos internos de um triângulo resulta em 180 graus, e isso vale também para triângulos retângulos (“gilt auch für rechtwinklige Dreiecke”), e que a condição para a tomada en passant no xadrez vale para os dois jogadores (“gilt für beide Spieler”).
O que Lotze faz é inserir tal vocabulário no contexto filosófico para caracterizar e determinar aquilo que se entende na filosofia por objetos lógicos. A palavra já existente ganha, portanto, no filósofo (no capítulo Die Ideenwelt acima
mencionado), um cunho técnico , e tal conceito se tornará fundamental não só para 39
sua filosofia como também para os próximos filósofos que dissertarão sobre lógica, a ponto de se falar de uma Geltungslogik, de uma lógica da validade.
Tal conceito, porém, não se encontra isolado em sua obra, e uma análise que desconsiderasse o seu contexto seria apenas uma análise parcial e pouco esclarecedora. Lotze introduz a noção de Geltung no contexto de uma interpretação sua muito peculiar da teoria platônica das Ideias. Por sua vez, a teoria platônica é introduzida na obra no contexto de uma resposta ou alternativa para um problema epistemológico exposto e discutido no Primeiro Capítulo, a saber, o problema do ceticismo. É, portanto, com essa temática e com esse capítulo prévio, entitulado justamente “Sobre o ceticismo”, que devemos agora brevemente nos ocupar.
É importante observar previamente que tomaremos sua interpretação de Platão, assim como suas afirmações complementares sobre Aristóteles, apenas como contexto no qual o filósofo insere e desenvolve o conceito de validade, e não temos a menor pretenção, nem o devido espaço, de analisar se tal interpretação condiz ou não com as suas filosofias.
A experiência reiterada do engano e do erro, como afirma Lotze inicialmente no Primeiro Capítulo, leva-nos à pergunta sobre as leis, os limites, e a natureza do nosso pensar (das Denken). Quanto aos seus limites, pergunta-se muitas vezes em que medida o nosso pensar pode alcançar a verdade e, sendo ainda mais consequente, pergunta-se como é possível que nós mesmos caracterizemos um conhecimento nosso como sendo verdadeiro ou falso. A dúvida geral pela existência da verdade ou de um conhecimento seguramente verdadeiro e pela possibilidade de uma apreensão nossa dela, leva-nos àquilo que é conhecido na filosofia como ceticismo. Tal disposição e atitude frente aos conhecimentos de toda ciência surge quase que espontaneamente na história da filosofia, desde os seus primórdios.
No entanto, essa atitude, que acredita explicitar falsos pressupostos de qualquer posição dogmática (no sentido kantiano, de não se perguntar pela legitimidade de conhecimentos a priori, isto é, conhecimentos que não provém da experiência sensível), está ela mesma pregnada de alguns pressupostos semelhantes:
note que seu sinônimo, Gültigkeit, que provém da forma adjetiva gültig, válido, não
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Tal opinião final do ceticismo não pode nunca concluir uma negação incondicional de toda a verdade, pois não somente a solução de uma dúvida, mas até mesmo a própria dúvida, só é possível sob o pressuposto de algum tipo de verdade reconhecida. (§302)
Assim, a versão mais radical do ceticismo, que nega a existência de qualquer tipo de verdade, parece desaperceber que sua própria dúvida geral pressupõe um critério pelo qual ela afirma que algo (no caso tudo) é duvidoso, isto é, que algo pode cair na categoria de falsidade. Se nem mesmo esse critério é tido como verdadeiro, não é possível qualquer forma de julgamento ou de investigação (necessária ou para se chegar ao ceticismo ou para sair dele) sobre a verdade ou falsidade de algo:
Quem tem esperanças em uma saída do labirinto do ceticismo para algum tipo de conhecimento seguro, acaba já por admiti-lo; afinal, esse caminho ele só poderia achar mediante uma investigação, e toda investigação só é possível se pressupormos princípios formais do julgamento [Beurtheilung], segundo os quais a ligação entre pensamentos pode ser diferenciada como correta, como falsa ou como duvidosa. E aqui, novamente, aquele que negar aquela saída reconhece, ao negá-la, aquilo mesmo que ele rejeita. (§302, continuação do trecho acima)
Lotze toma como exemplo histórico do pensamento cético as conhecidas teses do sofista grego Górgias: (i) não há verdade, (ii) mesmo se houvesse ela não poderia ser conhecida, (iii) mesmo se fosse conhecível, não seria comunicável. Tais teses são contraditas pelo próprio cético que as toma como verdade, que está consciente delas, busca prová-las e, além de tudo, busca convencer outros de tal pensamento. Em última análise, “dizer que a validade de toda verdade é duvidosa é até possível mediante palavras, mas a estas palavras não corresponde mais nenhum pensamento factível” (§302).
No parágrafo seguinte, Lotze se ocupa com uma forma mais refinada de ceticismo (aquele que, historicamente, foi melhor representado por Descartes no início de suas Meditações): ainda que se admita a) que existe uma verdade e b) que existem leis necessárias para nossa investigação ou indagação, o cético pode negar que (a) e (b) se completam harmoniosamente, i.e. sabendo que deve haver uma verdade mas que ao mesmo tempo existe o engano, ele pode suspeitar de que essas leis necessárias pertençam no nosso espírito a esse lado do engano, e
portanto só se nos mostram como necessárias. Assim, o próprio critério com o qual julgamos algo ser verdadeiro, falso ou duvidoso, ele mesmo pode ser um mero engano intrínseco ao nosso pensar. Lotze, como grande parte dos filósofos, não se dá por satisfeito com as soluções de Descartes para fugir de tal ceticismo, e parece entregar o jogo afirmando que tal ceticismo, colocado nesses termos, não pode ser refutado:
Está claro que tal skepsis, que não é levada à dúvida por um motivo positivo que estaria na natureza do conteúdo duvidado, mas que enxerga a possibilidade geral de duvidar como justificativa para levantar a dúvida, não dará nunca espaço para uma refutação demonstrativa. Pois todo motivo que pode ser colocado em jogo contra ela poderá se apoiar somente na evidência e na necessidade com as quais ele é pensado, pertencendo portanto ao domínio do que é necessário ao pensamento [zu dem Bereich des Denknothwendigen], em relação ao qual aquela pergunta desoladora pode ser reiterada ad infinitum de se afinal tudo seria de maneira completamente diversa. (§303)
Lotze porém consegue virar o jogo na medida em que identifica um
pressuposto questionável de tal cético. O pressuposto está na concepção de conhecimento e de verdade que o cético tem ao afirmar a possibilidade de todos nossos conhecimentos serem falsos, pressuposto este ao qual Lotze se posicionará contra. É na discussão que se inicia a partir daqui que o filósofo elaborará suas primeiras teses epistemológicas do terceiro livro da Lógica, que se trata justamente do conhecimento (Vom Erkennen).
Tal cético pressupõe que conhecer se trata de refigurar ou retratar o mundo
das coisas, e que a verdade, e isso o faz não só o cético, mas também muitos dos filósofos, é a concordância de tais figuras ou retratos do nosso conhecimento com o estado real daquelas coisas . Nas palavras de Lotze:40
A pergunta duvidosa, de se afinal tudo não poderia ser diferente de como se nos deve aparecer, tem um sentido compreensível somente sob o pressuposto de que o nosso conhecer é determinado a copiar [zum Abbilden] um mundo de coisas, e de fato a verdade foi mais comumente definida como a correspondência [Übereinstimmung] de
Trata-se de uma definição clássica da verdade e sustentada entre outros por Santo Tomás
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de Aquino, que a caracteriza como “adaequatio rei et intellectus”, adequação entre a coisa e o intelecto (Tomás desenvolve seu conceito de verdade especialmente nas Questiones
nossas imagens do conhecimento com o comportamento das coisas que ela afirma copiar. (§304)
Desse modo, a skepsis, que proclama buscar uma verdade e estar livre de
quaisquer juízos prévios [Vorurtheil], a pressupõe tácitamente na afirmação de um mundo externo ao qual devemos comparar nosso conhecimento. Sobre tal suposição, da realidade de um mundo externo, e a partir dos resultados de tais investigações, nascem na filosofia duas correntes contrárias: o realismo e o idealismo. A grosso modo, o realista afirma a existência de um mundo real externo independente de qualquer observador, enquanto o idealista afirma que todo tipo de realidade provém em última instância das nossas ideias (no vocabulário cartesiano ou lockeano, que, na filosofia alemã, será traduzido por Vorstellungen, representações), dependendo portanto, ou falando mais radicalmente, existindo somente por um observador.
Não refinaremos aqui as formulações de ambas as correntes nem mostraremos
suas variantes, pois para poder seguir o ponto argumentativo de Lotze isso não se faz necessário. O próprio Lotze apresenta uma resposta sua, que é caracterizada como um idealismo teleológico, que retoma a confiança na razão e no conhecimento mediante uma finalidade última do cosmos regida pela Ideia do Bem. No entanto, o que interessa, e como o nosso filósofo aponta, ambas as considerações acerca da realidade externa, tanto a realista como a idealista, pertencem ao domínio da metafísica, e devem ser redirecionadas a ela. Introduzí-la e misturá-la com as considerações iniciais epistemológicas, que são as que interessa ao filósofo neste livro, seria um grave erro metodológico:
Trazer a uma resolução uma pergunta tão abrangente não é de longe nossa tarefa; pelo contrário, é nossa intenção mostrar que ele não deveria, por metodologia, se intrometer nesse início de considerações epistemológicas (§304).
Ou, como se lê mais adiante:
Nos convencemos que (…) a pergunta sobre a verdade desta oposição [entre as representações e as coisas] e sobre o significado que pode ser atribuído, dependendo da resposta daquela pergunta, às nossas representações, é uma pergunta metafísica, e é enredada de modo completamente ilegítimo no início dessas investigações da
teoria do conhecimento. (§309)
O ponto que Lotze pretende levantar é o de que tais perguntas e investigações
são ilegítimas na medida em que só podemos fazer afirmações sobre as nossas próprias representações, e nunca, sem se utilizar da metafísica, sobre algo externo a elas, pois somente as representações constituem o objeto imediato do nosso conhecimento. Como vimos no capítulo anterior, trata-se aqui da aceitação de Lotze do PI.
Assim, o filósofo acaba por explicitar não somente os pressupostos do cético
como também os seus próprios pressupostos. Não repetiremos aqui todos os trechos acima mencionados (cf. p.25s desta dissertação) que atestam a aceitação do PI, já que eles aparecem recorrentemente, mas releiamos sua formulação mais forte, que busca excluir de uma vez por todas tais questões metafísicas pelo postulado do PI:
Tudo o que sabemos do mundo externo se baseia em representações dele que se encontram em nós. E é totalmente indiferente se, idealisticamente, negamos a presença daquele mundo e observamos somente nossas representações dele como o real, ou se, realisticamente, nos fixemos no ser das coisas externas a nós e as deixamos atuar sob nós; também nesse último caso as coisas mesmas não passam para o nosso conhecimento, mas somente despertam em nós representações, que não são coisas. Portanto, as diversas representações em nós, seja lá de onde elas vieram, formam o único dado [das Gegebene] imediato com o qual nosso conhecimento pode começar. (§306)
Lotze deve portanto buscar um outro modelo de verdade e de conhecimento,
que não esteja mais em uma oposição, adequação ou qualquer tipo de relação entre o mundo das nossas representações [die Vorstellungswelt] e o mundo externo das coisas [die Außerwelt der Sachen].
Visto de maneira positiva, a verdade e o conhecimento devem ser buscados no
interior daquele mundo de representações:
Não é esse real de um mundo externo e pressuposto que entra aqui entre nossas representações como um parâmetro [Maßstab], com o qual devemos medir a verdade dessas representações, mas sim, é sempre uma representação necessária para nós do comportamento possível de um tal mundo, caso ele exista, isto é, um dos nossos próprios pensamentos que é a medida na qual medimos a verdade
imediata e evidente de outros pensamentos ou a que necessita uma explicação. (§306)
Sabendo agora onde devemos buscar a verdade e o conhecimento, eles serão,
como será melhor explicado no segundo capítulo do livro, achados precisamente nos princípios que governam as correlações entre tais representações:
Sempre que descobrimos uma tal lei, segundo a qual se mostra em nós sempre e universalmente [allgemein und immer] a conexão de duas determinadas representações B e F, alcançamos uma parte daquilo que nomeamos de conhecimento da coisa (§306)
De fato, o reconhecimento do engano provém de um círculo de experiências
[Erfahrungskreis] diferentes, e pode ser feito pelo próprio sujeito que dispõe de novas observações e que constata que a universalidade ou necessidade acreditada anteriormente era falsa. Assim, portanto, da mesma maneira que o engano pode ser somente percebido mediante um antagonismo [Widerstreit] interno às nossas representações, a verdade só pode ser conhecida na descoberta de leis que regem a conexão desse mundo de representações (§307).
No parágrafo §310 Lotze faz uma digressão e descreve as dez teses
Sexto Empírico , para, antes de finalizar o capítulo, colocar-se de acordo, sem fazer 41
nenhuma menção explícita, com a tese kantiana de que não podemos conhecer a coisa em si, mas somente aquilo que se nos aparece, isto é, os fenômenos: “como uma coisa seja em si, se ela não se submete à nenhuma condição do aparecer [des Erscheinens], não podemos conhecer”, e “permanece indizível como ela [a coisa] é em si mesma e sem nenhum tipo de relação [relationlos]”; afinal, “tudo se encontra em certas relações, senão com outras coisas, pelo menos com o sujeito cognocente [zu dem Erkennenden], toda vez que ela deve ser conhecida” (§310), como já sabiam os antigos.
Por fim, nosso filósofo acrescenta um caveat. A formulação comum e à qual se
tende, de que “conhecemos somente as aparências, não a própria essência das coisas” deve ser evitada, pois contém o pressuposto da existência de tais coisas. A formulação da tese deve ser portanto hipotética e não categórica: “se existem coisas, então o conhecer só conhece suas aparências, não sua essência” (§310).
Com estas conclusões, e como últimas linhas do capítulo acerca do ceticismo,
Lotze nos exorta a deixarmos de lado uma análise que seria em verdade metafísica
Os quatro primeiros tropoi dizem respeito à natureza daquele que pronuncia os juízos (der
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Urtheiler): (i) pela diversidade da organização animal, é preciso que um objeto apareça
sensivelmente de modo diverso para cada animal (pois o que é desigual não pode afetar do mesmo modo aquilo que é igual); (ii) aplicação de (i) aos homens, e impossibilidade de dar preferência à sensação humana e não à animal; (iii) pelo fato dos diferentes sentidos nos dizerem coisas diferentes acerca da mesma coisa (para a visão o mel é amarelo, para o paladar é doce), e de que é bem possível que nos faltem outras formas de sentido, o que a coisa realmente é permanece oculto; (iv) mesmo internamente a cada sentido há uma variedade do que se mostra conforme à idade, ao estado de saúde, de consciência [Wachen] etc, de tal modo que não sabemos como as coisas poderiam aparecer para um sujeito que não se encontrasse em nenhuma dessas disposições instáveis.
Os próximos três tropoi dizem respeito à natureza do objeto a ser julgado: (v) a distância e a disposição mudam as aparições da mesma coisa; (vi) as impressões de uma coisa nunca nos vêm sem estarem misturadas com as impressões de outras; (vii) a
justaposição por ora cria propriedades aparentes que não se encontram nas partes constituintes, e por ora suspendem algumas que lhe pertencem. Lotze observa aqui que, enquanto esses tropoi significavam para o ceticismo antigo um impedimento para o conhecimento científico, para a pesquisa moderna elas foram como que um ponto de partida, na medida em que, ao invés de lamentar a mutabilidade das aparições sobre diversas circunstâncias, ela buscou observar as conexões que se encontravam entre elas e que permitia um conhecimento de leis gerais que regessem esse jogo de mudanças.
As últimas teses dizem que (viii) tudo se encontra em algum tipo de relação, se não entre a outras coisas, pelo menos, caso essa coisa deva ser conhecida, entre o sujeito cognoscente; (ix) nosso juízo sobre tamanho e valor das coisas é condicionado pela raridade e frequência delas, e por nosso hábito e contrastes; (x) há uma diferença até mesmo entre os costumes dos povos.
e nos concentrarmos com o material que temos internamente ao nosso pensar e às nossas representações, para lá buscarmos um conhecimento claro ou uma verdade segura:
Deixemos totalmente de lado a contraposição do nosso mundo das representações com um mundo das coisas; enxerguemos apenas aquele como material para nosso trabalho; busquemos investigar onde no seu interior se encontram os pontos fixos e originais da certeza, e como é possível, com sucesso, comunicar outros pensamentos, que não possuem igualmente de modo imediato tal propriedade, mediante aquela certeza. (§312)
Antes de passarmos para o próximo capítulo da obra, é importante notar que
Lotze, apesar de recusar qualquer forma de ceticismo, já não apresenta o mesmo otimismo que uma grande tradição filosófica, especialmente a racionalista e idealista, possui acerca da possibilidade de um conhecimento total ou abrangente da realidade.
Certamente este reconhecimento [de leis que regem as representações] é uma tarefa que não se pode completar, e não possuímos toda a verdade, apenas a buscamos; sempre que confirmamos uma convicção prévia Z na motivação de novas experiências no nosso mundo de representações, ainda não alcançamos a verdade completa, mas sim superado aqueles erros que teriam perdurados sem tal confirmação (§307).
(…) o panorama sistemático das operações do pensar, cuja conclusão nos é agora próxima, teve somente em vista a forma que a teoria explicativa do contexto de todo o pensável deseja fornecer, e que, caso tivesse sucesso em de fato fornecê-la a todo o pensável, aparecer-nos-ia a meta última alcançada de todas as aspirações do pensar. Quanto a essa meta eu não compartilho da convicção predominante dos tempos atuais (§146).
Ou, como Lotze havia já escrito na introdução do seu primeiro livro:
Somente um espírito que pudesse estar no ponto médio do mundo e de todo o real, e não exterior às coisas particulares, mas sim presente e penetrante nelas, somente um tal espírito poderia possuir uma intuição do real, que, não precisando ser buscada, seria imediatamente uma cópia [Abbild] completa do mesmo na sua própria forma do ser e da sua atividade. O espírito humano, por sua vez, quanto ao seu pensar por si mesmo, não se encontra em tal ponto médio das coisas, e tem seu lugar apropriado em algum lugar nas últimas ramificações da realidade. (§IX)
Voltando para a sua busca de pontos fixos e primários de certeza no interior
dos próprios pensamentos, a solução é encontrada por Lotze já na teoria platônica