KAPITTEL 3 – Metode
3.4 Validitet og reliabilitet
Os conceitos de objetivo e objetividade em Frege, como sabido, jogam um papel fundamental na elaboração da sua crítica ao psicologismo, independentemente das suas etapas e dos tipos de psicologismo em questão.
De fato, como fica patente no proceder fregeano nos Fundamentos em meio à discussão sobre a natureza do número, é unicamente a identificação de algo objetivo, que ao mesmo tempo não seja real (wirklich) nem subjetivo, que 55
possibilita a refutação primeiramente de um empirismo e, como consequência, de 56
um psicologismo. Isso está claro desde o primeiro dos três princípios enumerados na introdução do livro, a saber, o de separar precisamente o psicológico do lógico e o subjetivo do objetivo, até a sua conclusão sobre a natureza do número: “E chegamos à conclusão de que o número nem é espacial e físico...nem tampouco subjetivo como representações, mas não-sensível e objetivo. O fundamento da objetividade não pode de fato estar na impressão sensível, que, enquanto afecção de nossa alma, é totalmente subjetiva, mas, tanto quanto posso perceber, apenas na razão” (§27) e “se o número fosse uma representação, a aritmética seria psicologia” (ibidem).
Como observa Mario Porta nos artigos “La cuestion noetica en Frege” e “A crítica de Frege ao idealismo em Der Gedanke”, tanto no prefácio das Leis Fundamentais como em O Pensamento Frege estende sua crítica não mais a um empirismo, mas sim a um idealismo (tomando, no primeiro texto, trechos da Lógica de Erdmann como objeto de crítica), cuja tese central é o princípio de imanência. Este tem sua origem histórica em Locke e diz basicamente que só o que é representação pode ser objeto imediato de conhecimento . Para uma não aceitação 57
desse idealismo, o conceito de objetivo ocupa novamente uma posição central: “Como os lógicos psicologistas ignoram a possibilidade do objetivo não-real, tomam os conceitos por representações, com o que atribuem o seu estudo à
Entendido aqui como algo espaço-temporal que atua (wirkt) sobre os sentidos (§85).
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Que tem como critério último para a validade de qualquer tipo de conhecimento das
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coisas a sensibilidade.
Cf. “Und doch ist es unausweichliche Folge des Satzes, daß nur das Gegenstand meiner
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Betrachtung sein kann, was meine Vorstellung ist. Was würde aus diesem Satze folgen, wenn er wahr wäre?” (G, 70).
psicologia” (Gga, XVII-XVIII) e “Não existe uma objetividade propriamente dita (eine eigentliche Objectivität) para o Sr. Erdmann, pois tudo é representação” (XX). No texto O Pensamento, por sua vez, é muito conhecida a afirmação de um terceiro reino, que não abrange coisas do mundo externo nem do mundo interno, e no qual pertenceriam os pensamentos , e o argumento pelo qual Frege identifica um objeto 58
da nossa consciência que por sua vez não é uma representação, a saber, o eu, e ao qual teríamos acesso imediato [67-69].
Seguindo a leitura de Sluga, Wolfgang Carl e de Mario Porta, o idealismo ao qual Frege dirige suas críticas é um idealismo epistemológico, por sua tese central, o princípio de imanência, dizer respeito únicamente ao nosso conhecimento. A lógica, seja a de Frege, a de Lotze (como veremos) e a do próprio Erdmann, não possuiria nenhum compromisso ontológico-metafísico. Como afirma Mario Porta,
El tercer reino no es propiamente un nuevo reino de objeto, sino un reino de ‘objetividades’. Si queremos situar la tesis freguena del tercer reino en el marco de la oposición ontología - epistemología, entonces ella es una tesis eminentemente ‘epistemológica’, esto es, ‘crítica’. Frege no es un realista platónico [...] Frege no está interesado en afirmar la existencia de un cierto reino de entidades similar a los dioses de Epicuro, sino en garantizar nuestra posibilidad
de captarlas [La cuestión noetica, p.92].
Carl, por sua vez, desenvolve nessa temática uma tese mais explícita ainda de que a análise e a distinção entre objetivo e subjetivo (e entre objetivo e real), em Frege, se dá pela distinção das faculdades cognitivas pelas quais esses objetos são acessados, mais especificamente, pelo emprego da distinção kantiana entre entendimento e sensibilidade, ou entre os termos fregeanos “denken” e “vorstellen”, e não por qualquer interesse ontológico numa divisão das coisas que existem. De fato, em um dos trechos dos Fundamentos mencionados acima, Frege, ao falar do fundamento da objetividade, sendo ou a impressão sensível ou a razão, faz alusão ao modo de acesso ao objetivo: “O fundamento da objetividade não pode de fato estar na impressão sensível, que, enquanto afecção de nossa alma, é totalmente subjetiva, mas, tanto quanto posso perceber, apenas na razão” (§27).
Lembrando que “pensamento” constitui um termo técnico em Frege, sendo aquilo que
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uma proposição (Satz) exprime, i.e. seu sentido (Sinn), e do qual se predica “verdadeiro” ou “falso”. Cf. “Logik [1897]” de Frege [42]
Se é verdade que ele entende “por objetividade uma independência com respeito a nosso sentir, intuir, representar...” (GA, §26), isso ainda não diferencia o objetivo do real externo (como as mesas, cadeiras, copos etc.), e a diferença segundo Carl não deve ser pelo fato do real externo ser espacial, mas pelo fato de ser descoberto pela percepção sensível, enquanto que o objetivo (mesmo os que envolvem certa espacialidade, como o exemplo do eixo da terra e da linha do equador) só o é pelo pensar. Afinal, Frege entende por objetividade (como continua o trecho citado em reticências) “...[mas] não uma independência com respeito à razão...”. A última frase, que segue o trecho e finaliza o §26, é citada como mais um elemento para a negação de um compromisso ontológico por parte de Frege: “pois responder à questão do que são as coisas independentemente da razão significaria julgar sem julgar, lavar-se e não se molhar”. Como Sluga sugere, não poderia haver uma consistência entre esta afirmação de Frege e ao mesmo tempo uma posição de um realismo lógico ou platonismo ontológico, como quer Dummett, por cair necessariamente numa afirmação metafísica dogmática, que pretenderia falar das coisas que são independentes da nossa razão. Assim, a noção de objetividade em Frege deveria ser entendida como nada mais e nada menos do que a noção de intersubjetividade, onde há de fato uma independência dos sujeitos pensantes particulares, mas não da razão em geral.
Se compararmos agora a noção de objetividade em Frego com a noção de validade em Lotze, especialmente via polêmica Dummett e Sluga, temos o segunte:
Segundo Sluga, as três grandes determinações de Frege do objetivo, a saber, (i) como intersubjetivo (i.e. podendo ser apreendido por mais de um ser humano), (ii) como não requerendo ou sendo independente de um portador em particular (Träger) e (iii) como diferente do wirklich, já se encontram nos conceitos de objetividade e validade na “Lógica” de Lotze.
Sluga compara um conceito fregeano não somente ao conceito lotzeano de validade, mas sim a outro conceito, o de objetividade, apresentado no §3 do primeiro livro da Lógica de 1874. Dummett o critica neste ponto afirmando que estes conceitos em Lotze não são equivalentes, e que sua noção de objetividade sequer vem a ser um termo técnico, não sendo utilizado pelo filósofo em nenhuma outra passagem além do §3. Além disso, nem a comparação com algum deles em separado procederia. Para invalidar a comparação da objetividade fregeana com
uma “Geltung” (distinguida da “Realität”, em §319-20) ou como um “gelten” (distinto do “sein”, §316), basta notar que, enquanto essas duas distinções são em Lotze excludentes, isto é, o que vale não pode ser ou ser real, a distinção entre objetivo e wirklich em Frege não é excludente, isto é, o real externo também pode ser objetivo, no sentido de ser independente das nossas intuições, sensações etc. Para invalidar a comparação com a noção de Objektivität (distinta da Wirklichkeit der Dinge, §3 ), por sua vez, Dummett observa que esta não constitui um termo técnico 59
em Lotze, e é utilizada somente no contexto das operações do pensar que é o tema inicial e condutor do livro. A Objektivität é descrita na primeira operação do pensar – revelada no ato linguístico da nomeação, que permite a transformação de impressões em ideias e posteriormente em conteúdos de ideias –, e que deve ser de preferência chamada de intersubjetividade, pois pode não depender de um ser pensante particular (pois é o mesmo para todos) mas não independe de todos os pensantes. O que independe do ser pensado por todos, para Lotze, segundo Dummett, seria justamente o wirklich, e que se houvesse uma comparação do objetivo fregeano, deve ser a este wirklich que deve ser traçada .60
Que a estrutura da desconstrução por Dummett aponte para refinamentos importantes e decisivos, caso corretos parece estar fora de dúvida. Mas igualmente interessante seria, além disso, uma análise dos pressupostos a partir dos quais esta desconstrução se dá. A título de exemplo, a noção de que o objetivo (ideal ) em 61
Frege deva ultrapassar a ideia de um intersubjetivo e portanto ter uma independência com um ser pensado em absoluto, como quer Dummett, parece nos levar de volta à questão de se Frege realmente faria essa exigência, ao que o §26 e 27 de Fundamentos, como quer a interpretação epistemológica, sugere uma resposta negativa, pois não se entende a objetividade ou seu fundamento como
Para Sluga, em “Frege’s alleged Realism”, essa distinção e a última seriam
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absolutamentente idênticas, sendo a mudança puramente terminológica (p.232). FoP, 107-108.
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Que abarca basicamente os objetos lógicos (números e cursos de valores), expressões
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independente da razão . 62
Além de uma reformulação da teoria platônica das ideias como uma teoria da objetividade ontologicamente livre e da antecipação de um “terceiro reino”, havia também em Lotze, o que seria, segundo Sluga, uma das coisas mais importantes que Frege deveu a ele, uma tese logicista, ainda que bem preliminar . De fato, 63
além de outros trechos, pode-se ler: “É necessário, no entanto, indicar expressamente que todo calcular [Rechnen] é um tipo de pensar [Denken], que os conceitos fundamentais e os princípios da matemática têm seu lugar sistemático na lógica, que devemos finalmente defender o direito, inclusive posteriormente, quando a necessidade assim o pedir, de remontar sem mais aos resultados alcançados pela matemática como um ramo da lógica universal que por si mesmo se desenvolve [als ein sich für sich selbst fortentwickelnder Zweig der allgemeinen Logik]” (§18).
Ainda no campo da lógica, apesar de Lotze não ter tido a façanha de Frege de revolucioná-la, são-lhe atribuídos muitos méritos, no sentido de uma transição da lógica antiga para a moderna. De fato, o neo-kantiano Bruno Bauch afirma: “tudo aquilo que na lógica do presente exige para si mesmo um valor lógico, foi de algum modo fecundado por Lotze. Sua atuação se manifesta em cada aparição significativa no campo lógico, seja lá como ela mesma irá se direcionar” 64
Um último elemento para o qual gostaria de apontar é que, ainda que a distinção entre
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objetivo e real externo não seja excludente, parece haver uma superioridade do critério de dependência epistemológica-racional sobre a independência da subjetividade, uma vez que, para Frege, “es gibt nichts Objectiveres als die arithmetischen Gesetze” (GA, §105, grifo meu; o que é mais objetivo não é portanto um real externo) e que a aritmética se ocupa com “objetos que ela [a razão] pode perscrutar completamente, como o que possui de mais próprio”, “pois o objeto próprio da razão é a razão” (ibidem).
Ainda que não haja, como em Frege, o desenvolvimento de um projeto que fundamente
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essa tese. Há, pelo contrário, um ceticismo da parte de Lotze quanto a possibilidade de efetivação de tal projeto: “eles, há muito, desenvolveram-se no vasto edifício (großen
Gebäude) da matemática, cuja rica estrutura veda qualquer tentativa de uma reinserção