Nesta etapa, em que a professora apresentou a proposta do re-arranjo e pediu que escolhessem uma música significativa para cada uma, quando uma senhora mencionava o nome ou cantarolava fragmentos da melodia, foi possível notar como ajudavam umas às outras a se lembrarem da letra, da melodia, do nome do compositor, do nome do intérprete ou de alguma característica da música que pudesse reconhecê-la.
Por várias vezes as senhoras se entreolhavam a fim de recordarem parte da música e, de acordo com o repertório, dirigiam o olhar para uma colega específica que pudesse auxiliá-la na lembrança, como se elas já conhecessem as predileções musicais de cada uma. Assim, dependendo da música, apontavam para as colegas que possivelmente conheciam o repertório desejado.
A ação de auxiliarem umas às outras e cantarem juntas ocorreu durante todo o período em que estavam buscando
encontrar as músicas. Percebi que quando uma senhora pensava numa canção e externava, mesmo que aquela canção houvesse sido lembrada por ela, as representações da música fluíam no pensamento das que não a haviam mencionado antes. Essa situação pôde ser compreendida pela postura das senhoras durante essa etapa inicial do re-arranjo. Nesse momento, após o estímulo inicial da professora para que dissessem as músicas significativas para cada uma, as senhoras por si mesmas progrediam na discussão, nas lembranças e na cantoria.
Nilda perguntou qual era o nome da música cantando
“Ando devagar porque já tive pressa...”. As senhoras e a professora riram e responderam Tocando em frente. Elas riram porque a música fez parte do repertório do grupo. Edna disse que a música Tocando em frente marcou muito sua vida. Maria das Graças mencionou a música Detalhes, e a professora pediu- lhe que cantasse uma frase; Maria das Graças cantou “detalhes
tão pequenos de nós dois/ são coisas muito grandes pra esquecer/e a toda hora vão estar presentes/você vai ver...”. Enquanto as senhoras se lembravam e cantavam trechos da música, a professora escrevia o nome delas no quadro.
Cleonice sugeriu que o grupo escolhesse uma música do Gonzaguinha, e a maioria das senhoras cantou junto: “Viver/ e
não ter a vergonha de ser feliz./ Cantar e cantar e cantar/ a beleza de ser um eterno aprendiz...”. Olga indicou Luar do
sertão, e as senhoras cantaram “Não há ó gente /ó não/ luar
como este do sertão...”. Marta disse Asa Branca, e as senhoras começaram a conversar entre si; a professora começou a cantar a música e todas acompanharam. Cleonice disse A banda, do Chico Buarque, e Aquarela. Nilda disse que Aquarela era bonita, e as senhoras começaram a cantar a música: “Numa
folha qualquer/ eu desenho um sol amarelo...”.
A professora apontou para Almerinda. Enquanto Almerinda pensou numa música, as demais senhoras começaram a cantar “As mocinhas da cidade são bonitas e
Almerinda recordou a música Colcha de retalhos, e as senhoras começaram a cantar “Aquela colcha de retalhos que tu
fizeste...”. Cleonice disse O ébrio, algumas senhoras riram bastante. Foi mencionada a música Naquela mesa; Maria das Graças disse que a adora e começou a cantá-la: “Naquela mesa
está faltando ele/ e a saudade dele/ está doendo em mim...”. A professora perguntou como se cantava O ébrio, demonstrando que desconhecia a canção; as senhoras cantaram “Tornei-me
um ébrio/ e na bebida busco esquecer./ Aquela ingrata que eu amava/ e que me abandonou...”; a professora exclamou: “Jesus!”; as senhoras riram bastante. Suely sugeriu Cio da
terra. As senhoras cantaram “Debulhar o trigo/ recolher cada
bago do trigo...”; as senhoras ajudaram umas às outras para se lembrarem da letra da música. Flor do Campo disse Menino da
porteira, e as senhoras cantaram “Toda vez que eu viajava/
pela estrada de ouro fino,/ de longe eu avistava/ a figura de um menino...”.
Aquelas que ainda não haviam se manifestado eram convidadas pela professora e pelas demais senhoras para que todas pudessem posicionar-se, dizendo, ao menos, o nome de uma canção (Apêndice H). Por exemplo: a professora também apontou para Lázara falar o nome de uma música; ela disse que se lembrou da irmã e cantou “ciranda cirandinha/ vamos todos
cirandar...”, dizendo que cantava quando era criança. Enquanto a professora escrevia o nome da música no quadro, Edna disse “Ah! Tem a Chalana também!”, neste momento, outro grupo de senhoras, que conversavam entre si, começou a cantar “Felicidade foi-se embora/ e a saudade no meu peito/
ainda mora...”. A professora disse que era importante que todas dessem sugestões. Suely apontou para Maria Teresa, que disse: “aqui ó, Casinha pequenina”, e algumas senhoras cantaram: “Tu não te lembras da casinha pequenina/ onde o
disse “Edna não falou...”. Elas discutiram entre si e a professora disse que ela já havia falado.
As senhoras cantaram novamente “Felicidade foi-se
embora /e a saudade no meu peito ainda mora...”. A professora perguntou quem sugeriu Felicidade, e responderam: “Marta”. Elza sugeriu As mocinhas da cidade, mas continuou pensativa e disse Utopia; as senhoras cantaram “Das muitas
coisas do meu tempo de criança, guardo vivo na lembrança...”. Como estava sentada próxima a Elza, percebi que ela voltou-se para Marta e, em volume baixo, contou que, quando criança, ela e os irmãos se sentavam na grama e o pai contava histórias e cantava essa música.
De acordo com Beineke (2012), na aprendizagem criativa os alunos, como agentes de sua própria aprendizagem, podem expor e construir coletivamente seu conhecimento. Sobre a construção de conhecimento de maneira coletiva, Wenger (2010) salienta que cada participante, de acordo com sua vivência individual, guarda sua própria experiência de vida. Visto isso, sob essa perspectiva, a aprendizagem apreende a experiência individual e as competências que são socialmente constituídas; diante dessa relação, o autor escreve que existe aprendizagem em ambos os processos e que cabe ao grupo aceitá-los e agregá-los, ou não. Assim, a identificação desses processos pode acarretar a identificação ou não identificação com o grupo a que se pertence.
Quanto à identificação das senhoras com o grupo de canto do Centro de Convivência, foi possível observar que a música que “pertencia” a uma, no decorrer da atividade também passava a “pertencer” às outras, porque tal música também significava algo na vida das outras. Além disso, reconhecendo as músicas, as senhoras puderam identificar-se com as predileções musicais e as histórias das colegas com quem compartilhavam o momento. Esse exercício aconteceu em várias músicas, e as senhoras mostravam-se bastante
empolgadas ao identificar-se e perceber elos de recordações entre si.