Entre as centenas de representações iconográficas das manifestações de danças cósmicas de Shiva, o ícone de Shiva Nataraja parece receber um lugar de destaque. Existem divergências sobre o número exato dessas manifestações; alguns dizem que existem 250 manifestações cósmicas de dança (BRAMENDRA, 2000), outros afirmam que são 108 (SUBRAMANYAM, 1998). Para Subhash Anand (2004, p. 250), “Shiva can perform many kinds of dances, but there are two basic varieties: lasya and tandava, gentle and violent. The former fascinates us, the latter frightens us”.
Na Índia, Nataraja é visto sob duas perspectivas: a primeira é a da religião, a segunda, a da dança. Na perspectiva da religião, conforme Andrade,
do norte. Lentamente, a chama tornou-se cada vez mais alta, até seus extremos não poderem ser vistos. Brahma se transformou em um cisne e partiu em busca da extremidade superior da chama, ao passo que Vishnu se transformou em um javali que escavava na profundidade do solo. Sem terem achado seja a extremidade superior, seja a extremidade inferior, ambos voltaram ao ponto de partida. E viram então no meio da chama ‘o linga’, órgão genital masculino, e ouviram um som de origem não-visível ser proferido: ‘OM” .
o ícone de Nataraja reflete totalidade de vida de um hindu a partir da vivência dos três ideais, que são conhecidos como Satyam Shivam Sundaram (Verdade, Shiva [divino], Beleza). A vivência desses três ideais significa a vivência do dharma, a verdade estabelecida pela sociedade ao longo dos séculos. Essa prática da vivência do dharma faz do Hinduísmo como um “way of life” ou aquela surgiu simplesmente sem ter um determinado fundador. (ANDRADE, 2006, p.13)
Na perspectiva da dança, Shiva Nataraja é visto como o Grande Dançarino, resultado da fusão de duas tradições: a mais antiga, a religião popular (nativa); a mais recente, o culto ariano de Agni (ANAND, 2004). “Nata” significa dança, "raja” significa rei. Simbolicamente, esse epíteto nos aponta Shiva como o “Senhor da Dança”, “Nataraja”, aquele que dança a criação do mundo. Nesse ícone encontramos ambas as variedades: Lasya e Tandava, a gentileza e a violência.
Shiva Nataraja (Fig. 9) personifica o conceito de que a realidade é andrógina, o lado direito é masculino na aparência, enquanto o esquerdo é feminino. Shiva Nataraja representa uma infinidade de aspectos paradoxais: ele é representado como o patrono dos yoguins - figurado em profunda meditação no alto dos Himalaias - e também como o eterno dançarino, em movimento constante.
A dança de Shiva Nataraja é considerada cosmogônica, pois representa as três atividades em dois planos: no divino, refere-se às atividades de criação (Srishti), preservação (Sthithi) e destruição (Samhara); no humano, descreve a ilusão ou a ignorância (Tirobhava), assim como a possibilidade da Iluminação (Anugraha). As cinco atividades são definidas como panchakria, a penta-atividade de Shiva (RAO; DEVI, 1999).
Apresentaremos a seguir, de forma sucinta, os significados dos principais símbolos iconográficos que caracterizam Shiva Nataraja.
III.3.3.1 Damaru – tambor
A mão direita superior segura um pequeno tambor, damaru, instrumento muito importante para a dança, que regula a vibração primordial no momento da criação e mantém o ritmo. Auxiliado pelo tambor, Shiva mantém a ordem na criação. Mesmo hoje em dia algumas tribos utilizam apenas o tambor como acompanhamento da dança. “The drum resembles two triangles or cones meeting each other which in trantric thought symbolizes the act of marriage”. (ANAND, 2004, p. 153). O tambor é a mais antiga representação utilizada para expressar a criatividade.
O tambor também foi concebido para manter o ritmo da dança. A criação também é vista como um ritmo (rta), e as estações da natureza e a fertilidade periódica das mulheres – ambas conhecidas como rtu – são bons exemplos de ritmos na natureza.
O instrumento ainda simboliza o tempo. A totalidade da criação visível é essencialmente uma realidade de espaço-tempo. O tempo é, concomitantemente, ventre e túmulo de toda a vida na Terra. Shiva também é o tempo no qual todas as coisas acontecem.
III.3.3.2 Agni – fogo
A mão esquerda superior está na posição de ardhachandra (meia lua), segurando uma chama, que simboliza o fogo escatológico que consumirá o mundo no final dos tempos (pralaya). Existe um equilíbrio entre as duas mãos que ocupam a porção superior do cenário, que sugerem um equilíbrio dinâmico entre criação e destruição. Shiva não destrói, mas apenas transforma, e essa transformação se presta à renovação, paz e prosperidade do mundo (ANAND, 156).
III.3.3.3 Abhayamudra - gesto de conforto
A mão direita inferior demonstra manutenção e proteção com um gesto conhecido como Abhayamudra (sinal de afastamento do medo). Todas as criaturas se movem obedecendo a ele. É essa consciência que lhes dá segurança. Desse modo, Shiva é apresentado como a fundamentação da nossa vida quotidiana.
III.3.3.4 Gajamudra (Gaja-hasta-mudrá) - gesto de elefante
A mão esquerda inferior representa um gaja-hasta-mudrá. O gesto, que imita a tromba do elefante, é caracterizado pela perna erguida, convidando-nos a fazer dela nosso refúgio (estar, como um filhote de elefante, sob a proteção atenta da mãe). Esse é um gesto de graça. Shiva se apresenta como o amigável refúgio de todos.
Outros símbolos também carregam seus próprios significados. É o caso, por exemplo, dos cabelos como símbolo de força:
The creative activity of Shiva is also indicated by his long hair, which has been very much associated with vitality, and thus the hair of the yogi is piled above his head in a spiraling topknot, while the dancing Nataraja allows his hair to flow out like streams of cosmic force. (ANAND, 2004, p. 154)
O pé esquerdo erguido sugere a busca de libertação; o anão-demônio sob o pé direito da divindade simboliza a ignorância ou a “cegueira” em relação à vida. O círculo ornamental de chamas que circunda Shiva (conhecido como prabhavali ou, no sul, tiruvasi) evoca muitas imagens: a caverna, cápsula sagrada onde os antepassados celebravam mistérios (ritos), uma semente, o útero materno, o garbhagrha (sacrário) de um templo (ANAND, 2004).