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4.1 Relasjonelle forhold til institusjonspersonalet

4.1.1 Hva gjør bruk av tvang med forholdet til institusjonspersonalet?

Enquanto os conquistadores arianos afirmam que a dança foi criada por Brahma, os dravidianos apontam Shiva como o criador dessa arte. Mais tarde, no processo da sintetização de diversas divindades e crenças em uma só tríade de deuses (Trimurti)70, surgem outras versões, determinadas pela cultura local e

influenciadas por diferentes escolas filosóficas. Surge então uma terceira versão, influenciada pela filosofia Vaishnava, que apresenta o deus Krishna como criador da dança. Surge ainda uma quarta versão, fortemente influenciada pela filosofia difundida nos templos, intimamente relacionado ao sistema devadasi.

Todas essas versões, que iremos elaborar a seguir, têm suas raízes, de algum modo, nos tratados “Natya Shastra” e “Abhinaya Darpanam”, considerados os textos mais antigos sobre a dança hindu. Eles oferecem, de certo modo, a “gramática” de desenvolvimento de todo o repertório da dança clássica hindu. Escrito por volta do século II a.C., o “Natya Shastra” (literalmente, “Tratado sobre o Teatro”) é o mais antigo livro existente sobre as artes cênicas. Trata-se de uma verdadeira enciclopédia sobre teatro, em que são especificados detalhadamente todos os aspectos envolvidos em uma representação artística. Esse tratado chega a níveis de detalhamento impressionantes, como por exemplo as cores adequadas para a maquiagem, os tipos de movimentos de cada parte do corpo e a maneira correta de construir dos palcos em suas proporções exatas.

O “Abhinayadarpanam”, de Nandikesvara,71 é um manual de gestos e

posturas de dança e drama (III século d.C). O título da obra soma duas palavras: abhinaya e darpanam. “The sanskrit word for abhinaya is made up of the prefix abhi ‘towards’ and the root ni ‘to carry’. Thus it means representing (carrying) a play to (towards) the spectators”. (GHOSH, 1975, p. 7). Em outras palavras, abhinaya significa o despertar dos nove sentimentos chamados “navarasa” por meio das expressões faciais: surpresa, repulsa, coragem, amor, humor, fúria, medo, liberação e comoção.72 Por isso, a palavra abhinaya pode também significar o desvelamento da beleza ou dos variados aspectos da representação por meio de palavras, gestos, maquiagem, figurinos, cenários, etc. O segundo termo, darpanam, significa espelho, que ajuda ao espectador ver toda a linguagem articulada no palco e compreender sua condição pessoal.

71 Os livros consultados não apresentam as data sobre a publicação de Abhinaya Darpanam, somente indicam

III.2.1.1 Brahma como criador da dança

Brahma é considerado a primeira pessoa da Tríade Hindu (Trimurti). Parece ter sido levado à Índia pelos arianos, e foi incorporado à cultura indiana no processo da inculturação (DANIELOU, 1989). Segundo essa versão, os arianos estruturaram a sociedade indiana em diferentes castas, dentre as quais a brâmane (dos religiosos responsáveis pelos ritos) ocupou o lugar mais elevado. De acordo com a versão brâmane, Brahma utilizou a dança como forma particular de revelação:

Quando o mundo se tornou cheio de ira e desejo, inveja e raiva, prazer e dor, a população implorou a Brahma, o Supremo, para que criasse uma diversão que pudesse ser vista e ouvida por todos, pois as sagradas escrituras não eram compreendidas pelas massas porque eram muito ambíguas e complexas (SARABAI, 1981, p. 3).

Nesse momento, Brahma, o Senhor Supremo, a Fonte da Verdade, retirou-se e entrou em profunda meditação; destilou a essência dos quatro Vedas, e extraiu a essência de cada um: a pathya (palavra), do Rig Veda; a música, do Sama Veda; os gestos, do Yajur Veda, e o elemento estético do Atharva Veda, “para cumprir os altos desígnios da vida que são Dharma, ou retidão, Artha, ou bens

materiais, Kama, ou amor e Moksha, ou libertação”.73 Reuniu todos esses

elementos em uma nova forma de arte, a dança, que foi chamada de Natya Veda. Em seguida, Brahma falou aos homens:

Essa arte não se destina meramente para o prazer, mas exibe “Bhava” (emoção) para todos os três mundos. Eu criei essa arte seguindo os movimentos do universo, seja no trabalho ou na diversão, no lucro, na paz, na gargalhada, na guerra ou na matança, produzindo os frutos da verdade para aqueles que seguem a lei moral; uma restrição para os que quebram as regras e a disciplina aos que seguem a lei, para criar sabedoria nos ignorantes, aprendizagem nos que procuram (estudantes) encorajando os seres humanos à prática do esporte e à resistência aos derrubados pelo sofrimento, repletos de humores diferenciados e de paixões variadas da

73 BARBOZA, F., “The Divine Origin of Dance in India”, art. disp. em <http://www.drbarboza.com> (c.

alma, religados aos labores da humanidade, permitindo um excelente equilíbrio, diversão e o demais nos três mundos: o superior, o do meio e o inferior (SARABAI, 1981, p. 5).

Depois de ter criado o Natya Veda, Brahma transmitiu esse conhecimento ao sábio Bharata, para que ele o divulgasse.74 Obedecendo a Brahma, Bharata escreveu o “Natya Shastra”, um grande e compreensivo trabalho sobre a ciência e técnica do drama, da dança e da música indianas. O estilo Bharata Natyam pode ter também a origem de seu nome do sábio Bharata. Uma outra etimologia propõe a subdivisão do vocábulo Bharata em três fragmentos, Bha (uma redução de Bhava, que significa expressão), Ra (de Raga, melodia ou escalas) e Ta (derivado de Tala, ritmo). Portanto, é da integração harmônica entre esses três elementos – a expressão, a melodia e o ritmo - que surge a dança.

III.2.1.2 Shiva como criador da dança

A segunda versão mitológica atribui a origem da dança ao deus Shiva (Fig. 9). Shiva é o mais antigo deus da Índia e seu culto é mais popular no sul, o que reflete a resistência das raízes dravídicas, pré-arianas, na cultura daquela região.

Segundo a mitologia, foi na cidade de Chidambaram, Estado de Tamil Nadu (Sudeste da Índia), que Shiva teria colocado o Universo em movimento através de sua dança (RIBEIRO, 1999). Segundo as escrituras, no princípio somente os deuses dançavam. Entre eles, o mais famoso era Shiva, que era chamado Shiva Nataraja, o Senhor dos Dançarinos. Um dos instrumentos por ele utilizado na sua dança foi a percussão, geradora do primeiro som que dominou o mundo e do qual nasceu toda a linguagem. Esse som primordial era o “OM”. A humanidade ficou com muito medo quando escutou esse terrível e barulhento som. Por isso, Shiva quebrou a peça de percussão, dividindo-a em duas partes, e colou as partes externas juntas, impossibilitando que continuassem a fazer aquele barulho amedrontador. Esse instrumento foi chamado Mridangam (tambor).

74 Segundo a tradição hindu, existem quatro Vedas principais que referenciam a vida humana. Esses quatro

Durante a dança, o Senhor dançarino, Nataraja, segura esse tambor, o símbolo original da vida, em uma de suas quatro mãos; na mão oposta carrega o fogo que destrói; as outras mãos apontam, respectivamente, para o céu e outra para a terra. Um dos pés se desloca para cima, enquanto o outro parece bater no chão. Seu corpo também não é simétrico, dando a impressão de se mover em direções diferentes. Ele aparece massacrando sob seus pés o demônio-anão Muyalaka, representante do mal e da ignorância.

III.2.1.3 Krishna como criador da dança

Outra versão bastante difundida da origem da dança é a história de Krishna. Dentro do pensamento religioso hindu, ele é conhecido como avatar, uma encarnação da divindade quando a humanidade passa por extrema necessidade. Como já observamos, a tradição hinduísta elabora seu conceito de Deus ao redor da Tríade (Trimurti) composta pelos deuses Brahma, Vishnu e Shiva. O primeiro é o criador, o segundo o preservador e, o último, o destruidor/transformador. O Deus preservador, Vishnu ciclicamente vem à Terra sob a forma de um avatar para protegê-la. Como diz o Bhagavad Gita: “Quando o equilíbrio do Universo é ameaçado pelo caos, Vishnu, o deus preservador, encarna na terra para

restabelecer esse equilíbrio”.75As sagradas escrituras prescrevem dez visitas de

Vishnu à Terra, algumas sob a forma de animais, outras como seres semi- humanos e, por fim, como seres humanos. Krishna é considerado a oitava encarnação de Visnhu.76

O avatar Krishna é uma das formas mais importantes que a divindade assumiu para proteger os seres humanos. Segundo a tradição, ele viveu entre os pastores em Blindavam (região norte da Índia). Ele dançava alegremente com o povo e, quando tocava sua flauta, as pastoras abandonavam suas tarefas e o seguiam na floresta. No rio Yamuna, que percorre a região de Brindavan, havia

75

“Bhagavad Gita”, IV, 8.

76 Existem opiniões divergentes em relação ao número das encarnações de Vishnu. Alguns afirmam que são

24, outros que são 12. Mas a opinião mais aceita é de 10: Matsya (peixe), Kurma (tartaruga), Varaha (javali),

Nrusimha (corpo do homem com cabeça de leão), Vamana, Parashurama, Rama, Krishna, Buda e Kalkin. Os

uma serpente chamada Kaliya, que envenenava as águas do rio e, assim, dificultava a vida do povo. Um dia, Krishna entrou nesse rio e teve uma luta terrível com a serpente. Depois de ter vencido o monstro, Krishna emergiu das águas dançando em cima da cabeça da serpente. Esta seria a origem das danças clássicas hindus.

III.2.1.4 Mulheres celestiais como criadoras da dança

Uma quarta versão aponta as mulheres celestiais, apsaras, como criadoras da dança indiana. Segundo essa versão, as apsaras dançavam em todas as festividades dos céus. Entre elas as mais famosas eram Urvashi, Ramba, Menaka e Tilttama. Periodicamente, essas mulheres visitavam a Terra para conhecê-la e, em uma dessas visitas, Urvashi foi atacada por um demônio. Um rei, chamado Pururavas, salvou-a das mãos desse demônio. Em agradecimento, ela começou a namorá-lo. Retornando ao céu, em uma das festas ela foi convidada a participar em uma apresentação de teatro na corte de Indra, o Senhor dos Céus. Urvashi estava encenando o papel de Lakshmi, a esposa de Vishnu, e deveria pronunciar “Purushottama”, outro nome desse deus. Mas em lugar desse nome ela falou “Pururavas”, o nome do seu namorado humano. Por esse erro, Urvashi foi expulsa do céu - o que foi para ela uma grande satisfação, pois na Terra poderia se casar com o seu amado!

Nessa versão mitológica encontramos uma suposta versão do desenvolvimento de dançarinas dos templos, as devadasis. Mas os intelectuais e os profissionais da arte dividiram as dançarinas celestes em três classes, de acordo com sua ascendência:

a) - As da primeira classe são as devadasis do sul da Índia, que se consideram descendentes de Apsaras (dançarinas celestes). Seu objetivo era somente o gozo e a alegria dos deuses. Sua tarefa principal era alegrar os deuses celestes através de sua arte e dançar na corte do Indra, o Senhor dos Céus.

b) - As da segunda categoria são as que desciam à Terra e estabeleciam relacionamento com os seres humanos. Nesse caso, elas podiam vir à Terra por

um tempo relativamente curto e depois retornar aos Céus.77

c) - As dançarinas da terceira categoria eram destinadas a permanecer em definitivo na Terra. Um dos exemplos era Urvashi, que foi expulsa dos Céus para se casar com um mortal e não nunca retornou para lá. A tradição afirma que ela dançava nas aldeias, florestas e templos e, assim, ensinou a arte da dança para toda a humanidade.

A visão de mundo hinduísta se caracteriza por um viés predominantemente sintético e pela busca de assimilação e apropriação de formas de pensamento, em muitos casos, muito diferentes entre si. Assim, essas quatro versões são sintetizadas em uma única, como observa muito sagazmente Barboza:

Brahma gave the first lessons on Natya to Bharata. Thereafter Bharata demonstrated the three forms of dancing, namely, Natya, Nritya and Nritta before the Lord Shiva with the help of Gandharvas and the Apsaras. Then Shiva remembering his own violent style of dance asked Tandu to transmit its technique to Bharata with the help of his retinue and out of affection asked Parvati to demonstrate to him the Lasya Style. Then understanding the technique of Tandava the saints transmitted the knowledge to others. Similarly Parvati taught the Lasya Style to Usha, daughter of Bana. She transmitted it to the milkmaids of Dwaraka and then from them it spread to women of other places. This is the order in which these dance styles spread in the world. (BARBOZA, 1997, p. 1).