Para Garrabé,33 Morel, foi o primeiro a descrever a demência precoce, quer seja para lhe conferirem esse mérito ou, pelo contrário, para denunciar a inconsistência do quadro clínico descrito como os antipsiquiatras britânicos, são os historiadores franceses da psiquiatria que contestam esta prioridade. Entretanto, foi o clima de patriotismo exagerado e vingativo de 1874 que contribuiu
32 GARRABÉ, J. (1992). História da Esquizofrenia. Lisboa: Climepsi, 2004, p. 12. 33 Idem, p. 17.
significativamente para atribuir a Morel a paternidade da demência precoce, a fim de fazer uma oposição a Kraepelin (1856-1926).34
A oposição que irá ser estabelecida entre Morel e Kraepelin funda-se não só na precedência dos seus trabalhos sobre a demência, o que seria absurdo devido ao período considerável que os separa – os do primeiro são de 1832 e os do segundo, são de 1899 – mas sobre dois pontos essenciais, o da extensão para conferir o novo conceito isolado e o da sua etiologia suposta.35
Para Garrabé,36 Morel parece já ter tudo visto, tudo notado, em especial os sinais considerados característicos da demência precoce, a sugestibilidade, a estereotipia das atitudes, dos gestos e da linguagem, a catatonia, os tique bizarros, o negativismo, que ele designou por uma palavra bem semelhante, niilismo, tudo, até a forma estranha de andar, que ele compara em um dos seus pacientes.
São estes os principais sinais que serão encontrados nas descrições posteriores e por, isso, não se pode deixar de surpreender que se discuta a anterioridade de Morel. Esta discussão explica-se, talvez, pela dissociação da publicação dos seus trabalhos sobre a demência precoce entre duas das suas obras. Primeiro os Études cliniques e depois o Traité des maladies mentales. Morel é especialmente celebre por outro tratado, o Traité des Dégénérescences physiques, intellectuelles et morales de l‟espèce humaine publicado em 1859, entre as duas obras em que ele trata da demência precoce e que, pelo contrário, não a menciona,
34 Emil Kraepelin nasceu em 15 de dezembro de 1856 em Neustrelitz. Foi ele que em
relação à demência precoce conferiu unidade e extensão particulares ao agrupar três tipos clínicos principais. (Cf. POSTEL, J.; QUÉTEL, C. História de la psiquiatria. México: FCE,1993, p. 679).
35 GARRABÉ, J. (1992). História da Esquizofrenia. Lisboa: Climepsi, 2004, p. 18. 36 Idem.
o que prova que para ele esta etiologia não era um dado essencial da definição da entidade clínica que acabou lembrando mais tarde de descrever.37
Jean Garrabé diz que alguns historiadores parecem confundir os dois Traités, fazem um julgamento diferente sobre o verdadeiro lugar à demência precoce de Morel na história da esquizofrenia. Entretanto, Eugène Minkowski (1885-1972) na Gènese de la notion de Schyzophrénie escreveu que um abismo separa, ao que parece, a demência precoce de Morel da demência precoce de Kraepelin. O rio transformou-se em corrente tumultuosa que, esquecendo as suas origens modestas, ameaça tudo submergir à sua passagem. Morel fala de demência precoce nos seus Études cliniques, trata-se de casos que ocorreram em jovens e que se caracterizam por uma transição rápida para a demência. No Traité, a demência precoce desempenha um papel ainda, mais apagado, ela nem mesmo é mencionada no sumário.38 Nesta análise crítica de Minkowski o que chama a atenção é que ele evidencia precisamente a originalidade da descrição de Morel, que desde muito cedo soube sublinhar os traços essenciais e que constitui bem a nascente desta corrente que se tornará um verdadeiro rio.
É importante deixar claro que Morel acreditava que a demência precoce era uma afecção de natureza constitucional, ele a incluía dentro das loucuras hereditárias de existência intelectual limitada, com transição irremediável à idiotia.39
Entretanto, a demência precoce encontra, naturalmente, o seu lugar enquanto paraphrenia hebetica e a demência senil enquanto paraphrenia senilis, distinguindo assim a idade de aparecimento da demência, que é um dos pontos essenciais da
37 GARRABÉ, J. (1992). História da Esquizofrenia. Lisboa: Climepsi, 2004, p. 18. 38 Idem, p. 19.
39 SHIRAKAWA, I. Esquizofrenia: histórico e conceito. Jornal Brasileiro de Psiquiatria. v. 38,
descrição de Morel, como o critério discriminativo essencial destas entidades.40 Em seguida, ao longo da história da esquizofrenia, Kraepelin e depois Freud darão à ―parafrenia‖ outros sentidos que não se importarão, mas que farão esquecer o sentido original e, por isso, primordial.
Um estado a que se chamava heboidofrenia ou heboidia para sublinhar, além do seu parentesco com a hebefrenia, foi descrito por Kahlbaum41 (1828-1899) em 1889. Este estado mórbido aparece também antes da idade adulta, mas a sua sintomologia é completamente diferente, as perturbações têm antes de mais a ver com o comportamento, com aquilo que constitui a subjetividade sob o ponto de vista social. Elas consistem em desvios da vida pulsional e da moralidade que vão, nos casos extremos, até aos atos criminosos. Não se trata, portanto, de uma forma clínica de hebefrenia, mas de um segundo gênero do grupo das psicoseshebéticas. Esta entidade colocará grandes problemas aos pesquisadores que mais tarde irão propor concepções sintéticas que agrupam o conjunto destes dados diferentes e que não chegarão a incluir na sua síntese a heboidofrenia.42
Garrabé diz que os pesquisadores conservarão o quadro clínico descrito sob este nome e irão retomar com outra designação na sua nosologia. Descrição clínica de um estado classificado como ―demência juvenil‖ ou ―precoce‖ devido à idade de início e à rapidez da evolução demencial, estado que se pode explicar pela teoria, aplicada às loucuras hereditárias.43
40 GARRABÉ, J. (1992). História da Esquizofrenia. Lisboa: Climepsi, 2004, p. 31.
41 Karl Ludwig Kahlbaum nasceu em dezembro de 1828. Sua obra é essencialmente
descritiva e classificatória. Em 1863 publicou uma classificação das doenças mentais (Cf. POSTEL, J.; QUÉTEL, C. História de la psiquiatria. México: FCE,1993, p. 676).
42 GARRABÉ, J. (1992). História da Esquizofrenia. Lisboa: Climepsi, 2004, p. 33. 43 Idem.
Pode se pensar que para a nosologia Kraepeliniana à qual hoje em dia se continua a referir, quer para aceitá-la quer para recusá-la, foi descrita como um sistema de rigidez absoluta. A propósito do que nela constitui um elemento fundamental, a demência precoce, foi na verdade, elaborada de forma empírica com formulações sucessivas muito diferentes umas das outras, em função das constatações feitas pelo próprio Kraepelin, ao longo da sua carreira, ou dos comentários críticos a que atendia.44
Entretanto, o curso da história irá ser modificado radicalmente em 1911 devido à publicação do texto de Eugène Bleuler sobre o ―grupo das esquizofrenias‖, texto este revolucionário. Assim sendo, Kraepelin libertou, na verdade, no fim do século XIX, no campo da ―loucura propriamente dita‖, por um lado, fronteira por ele traçada e muito respeitada, e por outro lado a paranoia, fronteira esta que ele próprio fez flutuar, um espaço em que se poderá desenvolver uma terceira linha: demência precoce e depois esquizofrenia.45
Alguns pesquisadores alemães fizeram oposição à concepção de Kraepelin, divergindo dele em diversos pontos. O primeiro é a dificuldade de admitir que estado cuja clínica seja tão diferente como a hebefrenia com as suas perturbações formais da linguagem, a catatonia com as suas espetaculares manifestações psicomotoras e os delírios paranoides com a sua intensa atividade alucinatória possam não ser senão simples formas de uma única doença. A relação sintomatológica que Kraepelin propõe para dar a classificação completa da demência precoce. O segundo é o critério adotado para justificar essa unificação, não o critério evolutivo em si mesmo comumente admitido como um excelente critério nosológico, mas o
44 GARRABÉ, J. (1992). História da Esquizofrenia. Lisboa: Climepsi, 2004, p. 37. 45 Idem, p. 39.
fato de ter sido apenas adotado o estado terminal.46 Para Garrabé o diagnóstico de demência precoce só podia confirmar-se neste estado de certa forma retrospectivamente, enquanto o diagnóstico de uma doença deve ser tão precoce quanto possível para que se possa, precisamente, prever o respectivo prognóstico.
Kraepelin caracteriza os sintomas como alucinações, delírios, negativismo, comportamento estereotipado. O negativismo é descrito assim pela primeira vez e os tipos hebefrênico, catatônico e paranoide.47
Entretanto, a evolução não se faz sempre no sentido do enfraquecimento intelectual. O enfraquecimento não é uma verdadeira demência, pode-se brincar com esta demência sem demência, a denominação demência precoce é particularmente inadequada para designar esta nova doença que Kraepelin pretende ter definido em 1899, ao passo que ela convinha perfeitamente à definida finalmente de forma muito mais rigorosa meio século mais cedo na descrição clínica de Morel.48
Kraepelin falava, na verdade, que ela era devida a uma autointoxicação por substâncias de origem sexual, cuja classe ele, não podia precisar, substâncias que, acumuladas no organismo, atingiam, o cérebro. O que se notava era que a sexualidade dos dementes precoces se encontra perturbada, porque na grande maioria dos casos os aspirantes à hebefrenia são de uma frigidez quase absoluta.49
Entretanto, Germán Berrios diz que Kraepelin vangloriava-se de ter renunciado a procurar um significado para os sintomas observados e de já não os considerar senão como sinais objetivos ou quase objetivos desta ou daquela doença. Quando Kraepelin falava de negativismo para designar um comportamento
46 GARRABÉ, J. (1992). História da Esquizofrenia. Lisboa: Climepsi, 2004, p. 40.
47 SHIRAKAWA, I. Esquizofrenia: histórico e conceito. Jornal Brasileiro de Psiquiatria. v. 38,
nº. 4, p. 154-156, Jul./ago. 1989.
48 GARRABÉ, J. (1992). História da Esquizofrenia. Lisboa: Climepsi, 2004, p. 41. 49 Idem.
motor, é evidente que ele conferia um significado a este comportamento e que, por consequência, só aparentemente tinha renunciado à análise psicológica.50
Quando Kraepelin pretendia abandonar esta ferramenta preciosa para o estudo da demência precoce, Freud estava precisamente a ponto de elucidar pela análise psicológica ou a psicanálise – elas eram ainda praticamente a mesma coisa –, os mistérios da loucura histérica, descobrindo o primeiro a dissociação da consciência e o segundo o recalcamento, que na época significavam quase a mesma coisa. Porém, chegou o tempo em que Bleuler vai aplicar esta psicanálise nascente à demência precoce. 51
Entretanto, a demência precoce passou a ser ―esquizofrenia‖ em um livro publicado por Bleuler em 1911: essa ideia surgiu provavelmente a partir de um esforço intelectual coletivo realizado no Hospital Burgholzli em Zurich. As ideias de Bleuler sobre a esquizofrenia foram configuradas pelas ideias de Kraepelin.52 Julgo importante a ideia de Berrios, pois só vem reforçar aquilo que se pensa, que a psiquiátrica é sem dúvida formada pelo pensamento e a prática de muitos.
2.2 A esquizofrenia
É importante destacar que foi Bleuler que criou o neologismo ―esquizofrenia‖ para assinalar a ruptura da sua concepção com Kraepelin. Não é relativamente à nosologia em que ele se baseia, mas na aplicação da análise psicológica, que
50 BERRIOS, G. Historia de los sintomas de los delírios transtornos mentales. México: FCE,
2008, p. 114.
51 GARRABÉ, J. (1992). História da Esquizofrenia. Lisboa: Climepsi, 2004, p. 43.
52 BERRIOS, G. Historia de los sintomas de los delírios transtornos mentales. México: FCE,
estava perto de se tornar a psicanálise, ao estudo da demência precoce. Bleuler já não pretendia, como o seu ilustre predecessor, descrever os sinais objetivos de uma doença; recorre, pelo contrário, à psicopatologia para descrever um certo número de sintomas fundamentais em que assenta a unidade deste grupo de psicoses com características comuns, posição de certa forma mediadora entre a dos defensores da psicose e a dos oponentes do agrupamento considerado artificial de psicoses distintas na demência precoce. Bleuler propõe que se divida a demência precoce em quatro subgrupos: a forma paranoide; a catatonia, em conformidade, com as descrições clássicas; a hebefrenia, em que se manifestam os sinais que ele considera acessórios; e por fim a esquizofrenia simples na qual, pelo contrário, apenas se observam os sintomas fundamentais.53
Os sintomas que Bleuler chama de fundamentais estão presentes em todos os casos de esquizofrenia, ou seja, a perturbação das associações, a ambivalência e autismo. Já os sintomas acessórios podem ou não ocorrer em determinados tipos, como os delírios, alucinações e sintomas psicomotores.54
Outro ponto importante são os sinais que correspondem à sintomatologia até então mantida nas descrições, de forma que não se ver bem a que quadro clínico pode corresponder esta esquizofrenia simples na qual, Bleuler refere que não se observa senão os sintomas fundamentais em que, infelizmente, ele indica de forma precisa como é que eles se manifestam clinicamente. Aquilo que Bleuler designa como ―sintomas fundamentais‖ da esquizofrenia não constitui uma sintomatologia propriamente dita, isto é, um conjunto de fenômenos que possa ser observado
53 GARRABÉ, J. (1992). História da Esquizofrenia. Lisboa: Climepsi, 2004, p. 47.
54 SHIRAKAWA, I. Esquizofrenia: histórico e conceito. Jornal Brasileiro de Psiquiatria. v. 38,
diretamente, observado na clínica, mas antes uma hermenêutica, a interpretação psicopatológica que se pode dar a estes fenômenos.55
Sua análise nas perturbações das associações comprovadas pelos testes que explicam a alteração de funções elementares, as perturbações da afetividade que explicam, por sua vez, a aparente indiferença, ou antes a discordância dos sentimentos, a ambivalência ou ―tendência à esquizofrenia‖ para considerar ao mesmo tempo sob dois aspectos diferentes, negativos e positivos, os diversos atos psicológicos, ambivalência que nem sempre é muito marcada, mas que existe.56
O sentido da realidade não está totalmente ausente no esquizofrênico. Este só carece dele para certas coisas que estão em contradição com os seus complexos. Os esquizofrênicos provam sempre que o sentido da realidade não se encontra para eles perdido, que ele está abolido apenas em relação a certos contatos. A substituição da demência precoce pela esquizofrenia permite a Bleuler acentuar que esta não é senão uma “pseudodemência”, resultante da ação combinada da perturbação das associações, da discordância afetiva e critério unitário do grupo.57
Entretanto, observa-se a ideia que se considere na teoria psicanalítica o delírio como uma tentativa de cura, de reinvestimento da libido.58 Bleuler utiliza a psicanálise como teoria explicativa na sua apresentação na esquizofrenia, ele não a menciona como meio terapêutico.
55 GARRABÉ, J. (1992). História da Esquizofrenia. Lisboa: Climepsi, 2004, p. 49. 56 Idem.
57 Idem.