4 Inciting moments and exposition
4.3 Instantiating infotainment to prevent radio death
O contato com os documentos, especialmente, a leitura dos rascunhos de alguns contos e os manuscritos do romance A Casa nos fizeram adentrar na intimidade da criação artística de Natércia Campos, atitude que, na perspectiva de Salles, consiste em “assistir – ao vivo – a espetáculos, às vezes, somente intuídos e imaginados. O registro material de processos criadores permite discutir, sob outra perspectiva, alguns temas ligados ao fazer criador”.100
Em outros termos, a obra literária está em constante movimento porque apresenta inscrita em si as marcas de seu nascimento, de sua gênese, dos diálogos, absorções e transformações que determinaram o seu surgimento. Desse modo, a recepção da obra pelos leitores está a todo momento modificando a leitura desses mesmos processos que pertencem à obra.
Segundo Leyla Perrone-Moisés (1990, p. 105 e 110), o texto literário nasce “da insatisfação causada pelo real”, assim a reinvenção do real suprime o vazio através do uso da linguagem. No entanto, “o mundo criado pela linguagem não está totalmente adequado ao real. Narrar uma história, mesmo que ela tenha realmente ocorrido é reinventá-la”.
Podemos dizer que as histórias escritas por Natércia Campos não surgiram da mera fantasia, há sempre uma tentativa de reinvenção, um trabalho de leitura e pesquisa, de consulta e anotações, de reescrita e inúmeras correções. Pelo contato com os rascunhos, os manuscritos e as pesquisas realizadas pela escritora, percebemos o quanto
100 SALLES, Cecília Almeida. Gesto Inacabado: processo de criação artística. 2ª edição. São Paulo:
ela aproveitou de material cultural, as histórias e lendas do folclore nordestino, ora recriando, ora adaptando por meio de sua imaginação. Este percurso até a obra como produto final foi arquivado em pastas, cadernos, envelopes, sacos plásticos. A massa documental referente à escritura e às várias reescrituras do seu texto nos mostra uma Natércia preocupada com a veracidade de muitas das informações que recriava.
De início, observamos que os primeiros rascunhos do romance percorreram caminhos incertos, e nem sempre, se concretizaram como dados definitivos na obra publicada. Apesar disso, é necessário reconhecer a relevância destes caminhos incertos para o processo de escrita da obra.
Na medida em que nossa leitura do arquivo de Natércia foi-nos revelando seu método de trabalho, adquiríamos a leve sensação de enfim está “tocando o real” (CURY, 1993). Todavia, “o interesse não está em cada forma mas na transformação de uma forma em outra. Por isso, pode-se dizer que a obra entregue ao público é reintegrada na cadeia contínua do percurso criador.”101
Seus papéis nos revelaram uma escritora que se dedicou de fato a um trabalho de pesquisa, o qual deve ter levado anos para se concretizar. De acordo com nossas investigações nos manuscritos, Natércia deve ter iniciado a recolha de dados por volta dos anos 1980. Por outro lado, como a maioria não se encontra datada fica difícil precisar quando teria começado, de fato, a criação do romance. Como já mencionamos, os indícios nos documentos de processo apontam que a obra foi gestada aos poucos, e, durante muito tempo, se assemelhou a contos avulsos que a autora escrevia, mas abandonava sempre quando estava se aproximando do final, como se estivesse insatisfeita com o possível desfecho. Foi o que ocorreu, por exemplo, com o conto “O Espelho”, que a princípio teria dado início ao romance, o qual nem se chamaria A Casa, mas sim O Espelho102.
Averiguamos que A Casa sempre esteve presente nos manuscritos da autora, mesmo que implicitamente. Natércia iniciou sua carreira profissional com “A Escada” (conto) e terminou com A Casa (romance). Neste compilou todos os assuntos já abordados por ela nos seus contos; falou de magia, de mistérios, da cultura, de religiosidade, do mito, de crenças, de festas populares, de cantigas, de tradição ibérica, portuguesa e nordestina, de sagas familiares e seus muitos conflitos; abordou também as superstições, as energias místicas dos espelhos, da água, dos ventos, as mazelas da vida,
101 SALLES, Cecília Almeida. Op. cit., 2004, p. 19. 102
LIMA, Elisabete Sampaio Alencar. A casa: a arquitetura do texto: uma investigação sobre a origem do
romance de Natércia Campos. Dissertação (Mestrado), Universidade Federal do Ceará, Centro de
e, por fim, a presença inconteste da morte. Portanto, a temática de toda a sua obra se encontra condensada no texto de seu único romance.
Contudo, voltando à questão cronológica, Neide Lopes, amiga de Natércia em entrevista à Elisabete Lima (2009), informou que Natércia Campos terminou de escrever o romance em quatro meses, pois teria que correr contra o tempo, literalmente, para inscrevê-lo no Prêmio Osmundo Pontes de Literatura, do qual foi ganhadora. Nas palavras de Neide:
Ela já tinha feito a pesquisa e fez o livro praticamente em quatro meses, foi extremamente rápido porque ela tinha que inscrever o livro no concurso de Literatura Osmundo Pontes. Além disso, ela dizia que tinha muita vontade de escrever um romance pois já tinha escrito vários contos, A Noite das Fogueiras, que é um livro infanto-juvenil, mas queria escrever um romance mais profundo.103
Essa declaração informa que Natércia escreveu seu romance com bastante tenacidade, quase numa assentada, demonstrando fôlego para este gênero literário, como seu pai o contista Moreira Campos sempre dizia104.
Desta maneira, pela análise dos manuscritos de Natércia, vemos uma escritora comprometida e preocupada com seu leitor, mas também bastante segura em relação à recepção de sua obra pela crítica. Quase sempre Natércia enviava seus contos a outros escritores e aguardava-lhes um parecer que, por sinal, era sempre favorável. Os elogios vinham por correspondências, telefonemas. Desta maneira, “se queremos, entre outras coisas, saber como caminha o espírito humano e, em seguida, como ele chega a criar uma obra de arte, nada mais precioso que os rascunhos, que são a manifestação e que
desenham o percurso da invenção”105
Em síntese, o estudo dos manuscritos de Natércia nos ajuda a lançar novos olhares sobre o texto literário.