5 Rising action
5.4 Analysis of the Cup Final in football 1971
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GUTIÉRREZ, Angela . MORAES, Vera (orgs.). Tributo a Moreira Campos e Natércia Campos. Fortaleza: Imprensa Universitária, 2007, p.37.
M.
O caderno tem capa amarela com a palavra inglesa “notebook”, impressa. Nele, estão pesquisas de ordem cultural, social e geográfica em relação ao fenômeno da seca
no Nordeste brasileiro. Alguns trechos estão entre aspas, principalmente, as definições. Há um comentário sobre o início do período das chuvas. Em seguida, observamos a manifestação da escrita poética, quando a escritora parece deixar levar-se pela imaginação escrevendo só o essencial e esquecendo alguns elementos de ligação das palavras como preposições e pontuação. Nas páginas seguintes do caderno, há uma apresentação sobre a cronologia da seca no Ceará, que vai de 1692 até 1951.
Nesta perspectiva, podemos considerar o quanto a escritora se interessou pelo assunto, sobretudo, se preocupando em compreender melhor o que este fenômeno representa para o povo sertanejo. Em nosso trabalho investigativo traçamos as trilhas para desvendar o aproveitamento do estudo realizado por ela e sua abordagem telúrica no romance.
No entanto, A Casa, não tem a seca como tema. Esta comparece mais pela importância dada à água do que à falta dela. E aflora da memória da narradora na tentativa de mostrar um dos lados do sofrimento do homem sertanejo durante a seca, e ainda, a angústia que ela, a casa, enfrenta ao se perceber sozinha no mormaço do sertão:
Longo foi o tempo sem chuva e de estranha solidão de sons, pios e vozes. As cigarras, eram as únicas a continuarem a cantar chamando o sol e provocando o sono. Os vagalumes apagaram-se na Grande Seca e quando isto ocorreu soube que fora abandonada. Uma janela abriu- se para os ventos-cercados que entraram quentes e buliçosos pelos cômodos e ao saírem deixaram a bandeira de uma janela a bater nos caixilhos desassossegando o silêncio161.
Desta maneira, o leitor irá conhecer alguns laços fortes criados entre a casa e a estiagem, além de perceber dados mais acentuados sobre cultura popular, as experiências, as crenças em santos e simpatias, o conhecimento empírico e superstições que podem gerar forças para a chegada da chuva, e as superstições assim definidas por Câmara Cascudo:
As superstições resultam essencialmente do vestígio de cultos desparecidos ou da deturpação ou acomodação psicológica de elementos religiosos contemporâneos, condicionados à mentalidade popular. São milhões de gestos, reservas e atos instintivos, subordinados à mecânica do hábito, como gestos, reflexos. As superstições participam da própria essência intelectual humana e não há momento na história do mundo sem sua inevitável presença162. Dessa maneira, podemos entender como Natércia Campos procurou ressaltar elementos religiosos, cantigas, falares, mitos, provérbios, acalantos, o universo místico
161 CAMPOS, Natércia. Op. cit., 2011, p.42. 162
e mítico do popular nordestino que se mistura à cultura também popular vinda de Portugal e outros locais, incorporando-se às muitas crenças do Brasil.
As superstições de além-mar logo aliaram-se às que aqui existiam. As velhas cacimbas indígenas cavadas a mando dos vedores retinham suas águas nas periódicas e longas secas e algumas dessas nascentes foram transportadas por encanto em noites escuras, por homens vindos de outras paragens mais áridas. Guardavam eles profundo silêncio para que estas águas não despertassem quando colhiam em uma cabaça só a lâmina, o espelho das águas. Faziam isso na Hora Grande quando os rios por breve instante adormecem. A velha cacimba ia aos poucos secando indo brotar despertada em outro chão163.
Igualmente, quadras, provérbios, estórias de trancoso, cantigas e as histórias dos velhos conhecidos de todos nós se entretecem na trama do romance.
Os poucos que ficaram não tiveram muita sorte, pois as secas se amiudaram nos anos seguintes e até uma seca d‟água aconteceu com seus despropósitos. Ficaram aqui duas famílias, a do Anselmo dos passarinhos e a da cunhada mais moça que tivera o sétimo filho homem164.
Nesta etapa do trabalho procuramos trazer à tona o registro da manifestação popular165 utilizada com ou sem alterações pela autora cearense, e ainda, perceber como lhe serviu de ponto de partida para o projeto poético e literário de A Casa.
Assim também, as lendas sertanejas são evocadas pela narradora do romance. De acordo com Cascudo, a lenda pode ser um “episódio heroico ou sentimental com elemento maravilhoso ou sobrenatural, transmitido e conservado na tradição oral popular, localizável no espaço e no tempo”166. Além disso, as lendas possuem característica de acordo com a sua fixação geográfica, demonstrando pequenas deformações estruturais, ligam-se a um local ou a um herói, conservando traços do conto popular: antiguidade, persistência, anonimato e oralidade.
Em “A Causa da Seca no Ceará”, conto de Cascudo registramos a seguinte informação:
Em priscas eras, os cearenses malquistaram-se com o Bom Jesus. Resolveram então expulsá-lo do Ceará. Para esse fim, prepararam uma jangada e nela puseram o Santo com os mantimentos que julgaram necessário para a longa travessia que, a seu juízo, ia mesmo empreender. Desfraldaram a vela da embarcação e impeliram o Santo de mar a fora, rumo a Portugal donde procedera. O Bom Jesus, na agoniada viagem, já muito distante das praias cearenses, „entre o mar e o céu‟, sentiu sede. Por esquecimento, ou mui propositadamente, os
163 CAMPOS, Natércia. Op. cit., 2011, p.31. 164
Ibidem, p.99.
165 Entendida aqui como feita pelo povo. 166 CASCUDO, Câmara. Op. cit., 2002a, p.328.
seus perseguidores não haviam acondicionado água na jangada. Nem uma gota sequer existia do precioso líquido... Nesse transe doloroso, sedento de sede, o Bom Jesus proferiu então estas palavras: “Sim cearenses ingratos e maus; vocês também não terão água quando tiverem sede.” O Vento Leste, que passava, acolheu as palavras do aflito Santo e, varrendo do céu todas as nuvens, trouxe para o Ceará a primeira seca167.
Nesse sentido, a casa, narradora do romance, atribui o surgimento do lendário fenômeno da seca aos índios Cariris:
Meus alicerces foram feitos muito depois que a lagoa de águas salinas se evaporou. A causa foi o aprisionamento da fonte por gigantesca pedra ali colocada com magia e silêncio pelos índios Cariris que fixaram com cera de abelha e miolo de braúna para que nenhum filete d‟água viesse a escorrer168
.
Na verdade, as duas citações referidas apontam para conhecimentos de ordem cultural que brotaram em nosso território brasileiro, principalmente, com a colonização, estendendo-se pelo período de escravatura. Ambos servem para indicar até que ponto a história da seca se mistura com a história do homem e de uma região.
De tal modo, quando os negros africanos aqui chegaram, acabaram rogando as suas entidades pedindo-lhes chuva. No contexto nordestino, a chuva depende, sobretudo, do esforço do sertanejo e da sua fé diante daquilo que não tem explicação lógica, bem como da tentativa de compreender os sinais.
O excerto indica a preocupação em ressaltar alguns dos presságios da seca para o homem sertanejo. Conforme as informações contidas nos manuscritos da escritora sobre algumas das práticas culturais, como o rogo as entidades e santos pedindo-lhes chuvas e bênção, vislumbramos a diversidade de pesquisas sobre santos, plantas medicinais e agouros do flagelo da seca. Estas anotações representam uma espécie de texto-fonte acerca das superstições do sertanejo, diante do males que o assolam, sobretudo, a falta de água, que equivale, portanto, à ausência de perspectiva de vida e futuro.
A leitura do trecho citado mostra-nos a Natércia, leitora de Câmara Cascudo: [...] É a experiência tradicional de Santa Luzia. No dia 12, ao anoitecer, expõe ao relento, alinhadas, seis pedrinhas de sal, que representam, em ordem sucessiva da esquerda para direita, os seis meses vindouros, de janeiro a junho. Ao alvorecer de 13 as observa: se estão intatas, pressagiam a seca; se a primeira apenas se dilui transmudada em aljôfar límpido, é certa a chuva em janeiro; se a segunda, em fevereiro; se a maioria ou todas, é inevitável o benfazejo.
167 CASCUDO, Câmara. Contos Tradicionais do Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, 2000, p. 286. 168 CAMPOS, Natércia. Op. cit., 2011, p.28.
Dia de Santa Luzia, 13 de dezembro, é aproximação do solstício de inverno (no hemisfério norte), passando a 21.169
Assim percebemos a recuperação desta prática cultural neste trecho do romance: Os homens demoraram a infligir aos seus santos os maltratos de colocá-los ao relento, expostos à ardência e calor do sol para melhor sentirem o horror da sede, do flagelo da seca. Quando isso aconteceu, já haviam eles assimilado as superstições de além-mar e faziam romarias para irem molhar os pés de um santo cruzeiro ao meio-dia, já que “a chuva é Deus que manda!” Se ela não caía, era castigo infligido por não respeitarem as leis divinas. Desde aí vem a colocação das seis pedrinhas de sal expostas e alinhadas ao relento no final do dia, véspera de Santa Luzia, a representarem os seis primeiros meses do ano. Na manhã seguinte, antes do sol esquentar, se as pedrinhas de sal não chorarem, é presságio de seca, e naquele ano, nenhuma se transmudara em aljôfar, em lágrima.170
Desta maneira, constatamos que Natércia utilizou-se de uma linguagem poética para modificar os conhecimentos de ordem mais objetiva, sugeridos pelo estudioso potiguar nos seus livros sobre o folclore. Alguns desses esclarecimentos descritos por Natércia também podem ser encontrados no livro de Gustavo Barroso “Ao Som da
Viola, As Experiências de Chuva”, onde foram registradas tradições semelhantes a que
Natércia descreve, recorrentes também no Estado do Ceará.
Feitas estas constatações iniciais buscamos as demais pesquisas feitas por Natércia, como nos mostram os manuscritos, cruciais para construir seu romance. Vale ressaltar que os manuscritos serão renumerados a cada temática da pesquisa.
4.4 Pesquisa sobre a região da Ibiapaba