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4 Inciting moments and exposition

4.2 Early television sports production practices

funciona como local vivo da memória cultural cearense, já que, desde 2005, abriga o Arquivo pessoal do escritor Moreira Campos, bem como o de sua filha, a também escritora Natércia Campos. Recentemente, O Acervo foi acrescido com o Arquivo pessoal do escritor Gilmar de Carvalho.

No início de sua formação, o AEC esteve vinculado ao Instituto de Cultura e Arte da UFC – ICA/UFC, dirigido, então, pela Professora Doutora Angela Maria Rossas Mota Gutiérrez. A proposta de criação do AEC surgiu do projeto “Memória de uma vida criativa: O Arquivo pessoal do escritor José Maria Moreira Campos”, elaborado para o concurso de Professor-Visitante da Universidade Federal do Ceará – UFC, em meados de 2004, pela Professora Doutora Maria Neuma Barreto Cavalcante que, na época, trabalhava no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo – IEB/USP, onde atuava como curadora do arquivo do escritor João Guimarães Rosa.

O referido projeto tinha como propósito organizar o acervo de Moreira Campos. Logo após o falecimento de Natércia, a família Campos somou o espólio da escritora ao de Moreira, oferecendo a curadoria à Professora Maria Neuma Barreto Cavalcante que,

atualmente, é a responsável direta e coordenadora dos trabalhos realizados no AEC. Nesta perspectiva, podemos constatar que a UFC se junta a outros equipamentos

culturais tanto de iniciativa pública como privada, os quais se dedicam à aquisição e manutenção de acervos, tais como: a Fundação Casa de Jorge Amado (BA), a Casa de Juvenal Galeno (CE), a Casa de Gilberto Freire (PE), a Casa de José Américo (PB), o Arquivo de Érico Veríssimo (RS), a Fundação Câmara Cascudo (RN), o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-SP), o Acervo de Escritores Mineiros, o Centro de Estudos Literários (UFMG), a Fundação Casa de Rui Barbosa (RJ), o Centro de Estudos Murilo Mendes (UFJF), o Centro de Pesquisas Literárias da PUCRGS (RS), o Instituto Moreira Sales (SP), dentre outros. Desta forma, entendemos que uma das funções das universidades consiste em garantir a preservação e a divulgação da cultura para a manutenção da memória nacional.

Acervos literários vinculados a Universidades têm excelentes condições de preservação e informatização, pois além de profissionais qualificados, contam com recursos financeiros recebidos de órgãos de fomento de pesquisa nacionais e internacionais.

Do ponto de vista do acesso ao público, são os alunos e bolsistas dos cursos de graduação e pós-graduação em Letras que mais usufruem

desses acervos, desenvolvendo dissertações e teses, difundindo os escritores e abrindo perspectivas de novas edições de livros65.

O objetivo primordial do AEC é salvaguardar a memória dos escritores que estão ali representados, organizando seus documentos para colocá-los à disposição dos estudiosos e pesquisadores de nossa literatura. Além disso, os arquivos de escritores são considerados locais vivos da memória de uma época, ainda que transformada pelo ponto de vista do artista. Segundo Artières (1998), a manutenção de arquivos de escritores recorda as lições tiradas do passado, a fim de preparar para o futuro, sobretudo, com o objetivo de perpetuar a existência do sujeito no cotidiano.

Pierre Nora (1993) foi o primeiro a cunhar a expressão “lugar de memória”66

, referindo-se aos locais materiais ou imateriais nos quais uma determinada nação ou um cidadão se vê representado. Assim sendo, reconhecemos que o AEC de fato se configura como um lugar de memória, pois a materialidade que abriga pode servir de pesquisa a várias áreas do conhecimento, como a literatura, a história, a biblioteconomia, a arquivologia, a sociologia, a fotografia, a educação e outras.

Num acervo podemos encontrar manuscritos literários (memória do texto impresso), rascunhos, fotografias, livros, objetos pessoais, documentos do cotidiano de cada artista, objetos de estudo do titular, etc. O trabalho e a pesquisa em arquivos literários exigem cada vez mais uma perspectiva transdisciplinar, de colaboração entre os diversos saberes. Isto quer dizer que demanda tanto a confluência de disciplinas afins quanto um diálogo interartístico.

De tal modo, a interface entre as artes e as outras áreas do conhecimento como a história, a arquivística e, sobretudo, a biblioteconomia, amplia as formas de pesquisa em arquivos de escritores. A divulgação da vasta documentação existente neste local proporciona o conhecimento para futuros pesquisadores que se interessem em investigar esse complexo multidisciplinar que é um arquivo de escritor. Até mesmo os problemas físicos como o cuidado e a preservação dos arquivos implica um diálogo com outros especialistas. Ao manusear documentos valiosos, não podemos ignorar os perigos decorrentes de agentes químicos, de umidade, de iluminação inadequada etc. Assim também a possibilidade de trabalho num arquivo admite um intercâmbio de

65 SPINELLI, Teniza de Freitas. Museus Literários no Brasil: História, idéias e guia de acervos. Porto

Alegre: ALFRS/Evangraf/Plátano, 2009, p.47.

66

NORA, Pierre. Entre Memória e história: a problemática dos lugares . In: Revista Projeto História. São Paulo, nº 10 dez/1993, p.7-28.

experiências entre historiadores, sociólogos e literatos com profissionais relacionados aos arquivos históricos e centros de documentação. São plausíveis as discussões sobre contexto histórico e cultural dos documentos e sobre a problemática atinentes à memória social.

Conforme o pensamento da pesquisadora Maria Zilda Ferreira Cury:

O estudo em arquivos ou acervos nos reitera que voltar os olhos para a releitura do passado adquire sentido se o nosso olhar nos trouxer também uma compreensão iluminadora do presente. E como a pesquisa em arquivos, mais do que qualquer outra, pressupõe a mão que recorta e re-une, mais do que qualquer outra também encena, em mosaico, a memória e a história do pesquisador e da crítica de forma mais explícita67.

O pesquisador que se debruça sobre a análise dos materiais que compõem os arquivos exerce uma atuação direta como crítico, procurando flagrar o escritor em seu momento íntimo do labor artístico. Assim, como afirma Cury, “o arquivo, tomado como espaço vivo e aberto a recortes que encenam novas realidades, pode ser compreendido como uma metáfora do próprio fazer literário e suas múltiplas possibilidades de configuração”68

. De tal modo, a memória do escritor vive em sua obra e em seu arquivo. Logo, pesquisar e estudar arquivos e acervos de escritores é tentar compreender a função social do seu titular, fundindo texto e contexto numa interpretação dialeticamente íntegra.

A pesquisa que realizamos no AEC com os manuscritos da escritora Natércia Campos é um trabalho de diálogo entre indícios. Ora, o arquivo volta à vida, saindo de seu estado latente no momento em que é observado, analisado, pesquisado, dependendo, sobretudo, dos objetivos do pesquisador e da forma como o arquivo pretende se mostrar.

Para Cury:

Reler os arquivos e acervos é fazer ecoar as vozes, de novo cheias de juventude, dos escritores, embora já carregadas dos timbres da produção futura já conhecida do leitor. Pode significar adentrar a pessoalidade do escritor, na forma como organizou sua biblioteca, nos objetos que conservou, nos bilhetes de teatro que guardou e que nunca são mudos para o olhar atento que os escolhe e relaciona. Fazer falar as fontes é voltar o olhar para as ruas das cidades em cujos calçamentos ainda ressoam os passos de escritores e intelectuais e os seus sonhos de mudança. É procurar ouvir o murmúrio dos que lotavam as salas de teatros e cinemas, dos que acompanhavam com paixão a leitura de manifestos, dos que riram com os espetáculos de

67CU‘Y,àMa iaà)ildaàFe ei a.à áàpes uisaàe àa e vosàeàoà e a eja e to . In: Manuscrítica. n. 4. São

Paulo: APML / USP, 1993, p.88.

circo. É de novo ouvir o aplauso do público ou acompanhar pela imprensa o percurso de determinada palavra69.

A citação acima depõe a favor do olhar que criamos hoje sobre o passado, ou seja, um espaço de tempo em que as memórias explicam um pouco de si. A releitura do ontem e a análise do hoje preenchem o vazio cultural que se estende por muitas gerações. Daí dizermos que os trabalhos desenvolvidos no AEC são fruto de uma necessidade incessante para compreendermos um pouco de nossa memória social.

Entretanto, resgatar a memória histórica, cultural e linguística de uma comunidade é tarefa que se defronta com inúmeras barreiras. Falta-nos espaço físico adequado, apoio financeiro, incentivo, reconhecimento da academia e mesmo pessoas comprometidas com este projeto.

Vale frisar também que, para se organizar um arquivo, os documentos precisam apresentar um poder arcôntico de unificação, identificação e classificação, isto é, um poder de consignação, pleiteando a ótica de Derrida (2001), ou seja, no trabalho em arquivo é necessário “coordenar em um único corpus, sistema ou sincronia todos os

elementos que se articulam em uma unidade”70

.

Cada arquivo dos escritores representados no AEC possui traços particulares do seu dono, têm vida própria, com características e peculiaridades. Assim se percebe o arquivo de Natércia Campos com uma força e um poder arcôntico próprios.