Research findings
4.1.1 User insight drift
A invasão japonesa ao norte da Nova Guiné, em 1942 trouxe grande destruição e mortes. Muitos missionários evacuaram e outros permaneceram em suas missões. Durante a administração japonesa houve missões que foram mantidas por líderes nativos. Nesse período, os atos heróicos e mesmo o martírio de
um número de cristãos se tornariam fonte de inspiração nos anos seguintes.438 Por
esses testemunhos houve grande envolvimento nas igrejas das missões.439
A guerra trouxe mais confusão. Muitas vilas apoiaram os japoneses reagindo aos soberanos australianos. Não obstante, mesmo as vilas pró-japoneses foram bombardeadas pelos próprios. Os efeitos catastróficos da guerra, bem como a abundância de armamentos e outros equipamentos dos soldados eram impressionantes para os papuas. Os profetas locais que surgiram e que pregavam a chegada do ‘cargo’ nesse momento, ganhavam mais credibilidade, pois eles
dispunham de elementos que simbolizavam ‘o cargo’ visíveis por todos os lados.440
436 Gasbarro explica esse caráter universalizante do cristianismo, explicando o que é o livro dos Atos
dos Apóstolos: “Trata-se da narração da atividade ‘missionária’ de Paulo e Barnabé entre os ‘pagãos’,
que é sancionada e generalizada no Concílio de Jerusalém (At 15, 1-21): a mensagem cristã dirige-se a todos os ‘pagãos’(...) É a origem não só do novo Povo de Deus, que inclui diversas culturas, mas também a legitimação das Missões (...), (At 15, 22).” GASBARRO, op. cit., p. 494
437 GASBARRO, op. cit., p. 71
438 Um exemplo é o jovem mártir nativo católico Peter Torot. Ele nasceu em 1912, na Ilha Rabaul. Era
filho do chefe da tribo local e tornou-se popular entre os seus trabalhando como catequista por dez anos até sua morte. Quando os sacerdotes foram expulsos em 1942, ele continuava seus trabalhos na igreja. Em 1943 os nipônicos explodem a igreja por entender que se tratava de um centro de subversão. Por tornar-se um incômodo, Torot foi preso por três vezes e, em 1945, morreu com uma injeção letal administrada na prisão. Imediatamente sua sepultura tornou-se lugar de peregrinações. Cinqüenta anos depois foi beatificado pelo papa João Paulo II, durante sua visita a Papua Nova Guiné, em 1995. Cf. SECRETARIADO Diocesano de Pastoral Vocacional da Diocese da Guarda.
Peter Torot – o catequista fiel. Disponível em: < http://sdpv.blogspot.com/2008/07/peter-torot-o-
catequista-fiel.html>. Acessado em: 13 agos. 2011. E, cf. MLAK, Zdzislaw svd; TATAMAI, Bp. Rochus msc; BROWN, Robin. Blessed "Petro ToRot". Disponível em:
<http://www.catholicpng.org.pg/faith/ToRot.html>. Acessado em: 13 agos. 2011.
439 Cf. TROMPF, op. cit., p. 157 440 Idem.
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Mesmo durante a guerra, o cristianismo se fortalecia. Nesse momento, lugares ainda não visitados pelos missionários foram contatados por eles. Os
lugares mais populosos da Melanésia, as montanhas (Highlands – Terras Altas),
tornaram-se atraentes para os missionários, bem como para os colonizadores e colonos. Inicialmente as montanhas eram consideradas uma zona de perigo onde somente alguns ‘salvadores de almas’ (evangelistas estrangeiros e nativos costais) se arriscavam. Agora, com o estabelecimento das plantações e dos postos do governo nas montanhas, pequenas cidades cresceram pelos arredores. Ruas foram construídas e, de acordo com Trompf, cento e uma missões de diversas
denominações se rivalizavam em trazer a ‘salvação aos perdidos’.441
Entre 1962 e 1970, as regiões de Porgera, na Província de Enga (nas
montanhas ocidentais – western highlands) e as montanhas orientais – eastern
highlands, estavam extensivamente missionadas. Esta última, segundo o autor, era o espaço mais missionado do mundo, com mais de oitenta denominações cristãs. Nas montanhas do sul (southern highlands), inclusive, a presença demasiada de missões trouxe alegações de confusão, e mesmo, sérios problemas psicológicos entre os atores envolvidos, além de comportamentos de rivalidade de uma missão
contra a outra.442
Por essas características, certas áreas de Papua Nova Guiné (e da Melanésia em geral), têm oferecido dificuldades para os historiadores das religiões, devidas ao pluralismo de missões na região. E ainda, mesmo tendo em conta as famosas missões elencadas até aqui, a Melanésia abrigou outras atuações
missionárias não muito faladas no período estudado, como é o caso da ‘Missão
Presbiteriana’ em Vanuatu; a ‘Missão Evangélica do Oceano Sul’ nas Salomão; a
‘Igreja de Cristo no Espírito Santo’; várias missões Batistas; e outras.443
O cenário se complica para os historiadores, também pelas unidades e divisões que emergiram nas igrejas maiores desde os anos 1960. Para citar algumas: a ‘Sociedade Missionária de Londres’ e a missão ‘Metodista’, se uniram na ‘Papua Ekalesia’ que, em 1968, tornou-se a ‘Igreja Unida de Papua Nova Guiné e Ilhas Salomão’, que incorporou metodistas da ilha Nova Bretanha e das ilhas da Nova Geórgia (parte da Província Oriental das Ilhas Salomão). Anteriormente, em
441 Idem. 442 Idem. 443 Idem.
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1956, havia surgido a ‘Igreja Evangélica Luterana de Nova Guiné’ e, já em 1948, a ‘Missão Luterana de Nova Guiné’ estabelecida em Enga, transformara-se na ‘Igreja Luterana de Wabag’. Muitas dessas transformações foram ocasionadas por discussões acerca de conteúdos de fé relacionados ao modo de interpretar a Bíblia.444
Entre as várias divisões das missões protestantes na atual Papua Nova Guiné, observa-se um conservadorismo compactuado por esses grupos. Isso explica o fato da afiliação de vários deles à ‘Aliança Evangélica’, composta em seu maior número por batistas de variadas missões. As maiores missões, presentes por um tempo mais longo na Melanésia (com exceção dos ‘Adventistas do Sétimo Dia’ e da ‘Missão para os Campos não Evangelizados’ – agora chamada ‘Igreja Evangélica de Papua’), se afiliaram ao chamado ‘Conselho de Igrejas da Melanésia’ e à organizações similares. Essas igrejas, segundo o texto de Trompf, têm adotado uma postura de tolerância liberal, diálogo aberto e de relacionamento saudável entre elas.
Outras missões que chegaram mais tarde também se afiliaram ao ‘‘Conselho de
Igrejas da Melanésia’ como a missão ‘Exército da Salvação’ e outras menores, vinculadas à ‘Aliança Pentecostal’ (que representa os grupos da ‘Assembléia de
Deus’, da ‘Igreja do Evangelho Quadrangular’, entre outros).445
Outro ponto complexo de se pesquisar, de acordo com o outor, é a atuação das igrejas e suas influências, especialmente na área do desenvolvimento socioeconômico da Melanésia. As igrejas impactaram amplamente nas áreas da educação, saúde, transporte, na tradução de línguas, imprensa, plantações, mercados (a NAMASU, por exemplo) e em muitas das organizações urbanas; incluindo sua influência na ‘Universidade de Papua Nova Guiné’ (criada pela Administração Australiana, em 1965). Ainda se ressalta a influência das missões na formação da política nacional; pois a maioria dos líderes do país e os membros do parlamento foram educados em escolas das missões. Muitos deles, inclusive, tendem a defender interesses religiosos nas decisões políticas; devido à importância das instituições religiosas nas vilas e mesmo, à consideração dessas pelas
constituições do país.446
444 Ibid., p. 158
445 Cf. TROMPF, loc. cit. 446 Ibid., p. 159
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Não nos cabe aqui revisar a história das missões em seus detalhes; dada a sua complexidade como apontamos e ao fato de esse não ser nosso objetivo nessa pesquisa. Dessa forma, queremos no passo seguinte, fazer um recorte e tomar pontos da história de uma missão em particular: da história da Missão Católica Romana. Ainda aqui, nosso enfoque com ênfase na missão católica se fará em âmbito mais geral no ponto 5 e mais específica à parte norte (que pertenceu à Alemanha), do ponto 5.1 em diante. Assim, o texto abaixo nos conduzirá pelas atuações dos missionários e, conseqüentemente, por suas influências na transformação da dinâmica da vida tradicional em Papua Nova Guiné.